{"id":1004,"date":"2015-07-14T02:55:54","date_gmt":"2015-07-14T05:55:54","guid":{"rendered":"http:\/\/ultimato.com.br\/sites\/guilhermedecarvalho\/?p=1004"},"modified":"2015-07-16T17:15:32","modified_gmt":"2015-07-16T20:15:32","slug":"i-ampliando-o-ver-para-melhor-agir-ha-um-ponto-cego-na-estrategia-da-missao-integral","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/ultimato.com.br\/sites\/guilhermedecarvalho\/2015\/07\/14\/i-ampliando-o-ver-para-melhor-agir-ha-um-ponto-cego-na-estrategia-da-missao-integral\/","title":{"rendered":"Ampliando o &#8220;Ver&#8221; para melhor &#8220;Agir&#8221;: corrigindo um ponto cego na teologia de miss\u00e3o integral"},"content":{"rendered":"<p><a href=\"http:\/\/ultimato.com.br\/sites\/guilhermedecarvalho\/files\/2015\/07\/aospes.jpg\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"wp-image-1016 alignleft\" src=\"http:\/\/ultimato.com.br\/sites\/guilhermedecarvalho\/files\/2015\/07\/aospes.jpg\" alt=\"aospes\" width=\"294\" height=\"157\" \/><\/a><\/p>\n<p>Em um artigo recente, bastante incisivo e homil\u00e9tico, apontei e problematizei o fato muit\u00edssimo relevante de que muitos Crist\u00e3os evang\u00e9licos sentiram-se confusos e incertos sobre a natureza impr\u00f3pria da assim-chamada &#8220;Cruz de Espinal&#8221;, e muitos louvaram o artefato como uma express\u00e3o adequada do evangelho. Aleguei que v\u00e1rios desses irm\u00e3os est\u00e3o na verdade se afastando do significado verdadeiro da cruz e seguindo por um caminho obscuro.<\/p>\n<p>Embora a quest\u00e3o pare\u00e7a a muitos mero preciosismo teol\u00f3gico ou, pela dureza da interpela\u00e7\u00e3o, um descuido da unidade Crist\u00e3, sua natureza \u00e9 corretamente descrita como &#8220;her\u00e9tica&#8221;. Her\u00e9tica no sentido cl\u00e1ssico da <strong>Haerese<\/strong>, a opini\u00e3o cism\u00e1tica, que rompe a unidade presente. Ao contr\u00e1rio do que pensam muitos, n\u00e3o \u00e9 o ataque apolog\u00e9tico por mim realizado o que causa o cisma; ele, antes, denuncia o cisma, causado por um afastamento de parte (aten\u00e7\u00e3o, n\u00e3o todo, mas parte) do progressismo evang\u00e9lico em rela\u00e7\u00e3o \u00e0s bases cl\u00e1ssicas do evangelicismo. O cisma est\u00e1 instalado como uma ruptura tect\u00f4nica, como uma falha geol\u00f3gica, coberta apenas por solo solto e vegeta\u00e7\u00e3o. Responsabilizo-me por apontar a Haeresis; n\u00e3o \u00a0por caus\u00e1-la. Nem penso que o sentimentalismo seja suficiente para remend\u00e1-la. <!--more--><\/p>\n<p><strong>O CRISTO SUPERESTRUTURAL<\/strong><\/p>\n<p>Empreguei essa linguagem para descrever uma \u00a0opera\u00e7\u00e3o n\u00e3o muito simples de compreender, mas facilmente detect\u00e1vel, uma vez \u00a0compreendida. Ela consiste, em termos bastante\u00a0simplificados (e n\u00e3o haveria como nem porque mergulhar nas sutilezas t\u00e9cnicas desse argumento) em inverter a rela\u00e7\u00e3o entre a gra\u00e7a e a natureza, em nossa vida reflexiva, e seguir adiante com essa invers\u00e3o a ponto de inverter o posicionamento de Cristo em nossa <em>episteme,<\/em> de modo que procuramos compreender Cristo a partir da raz\u00e3o natural, ao inv\u00e9s de conhecer a natureza por meio de Cristo.<\/p>\n<p>Em termos mais espec\u00edficos, consiste no erro de tratar a verdade divina e teol\u00f3gica sobre a pessoa e a obra de Cristo como um exemplar de uma verdade abstrata e universal, a qual se manifestaria, de forma incompleta e inferior, em uma s\u00e9rie de \u00a0situa\u00e7\u00f5es similares qualitativamente equivalentes. O exemplo acabado desse <em>mindset<\/em>\u00a0entre os Crist\u00e3os\u00a0progressistas tem sido, naturalmente, a confus\u00e3o entre a \u00a0morte messi\u00e2nica de Cristo na cruz do Calv\u00e1rio, de \u00a0uma vez por todas, com o sofrimento\u00a0das v\u00edtimas inocentes nas m\u00e3os dos opressores do sistema &#8211; e, enfim, o sofrimento do trabalhador nas m\u00e3os do grande capital. Analogias morais, sociais, e pol\u00edticas podem ser observadas entre a morte de Cristo o sofrimento dos oprimidos, sim; mas sempre nesses n\u00edveis.<\/p>\n<p>O problema dessa abordagem \u00e9 que n\u00e3o h\u00e1 analogia dentro da esfera da f\u00e9, onde se manifesta e se apreende o sentido &#8220;teol\u00f3gico-religioso&#8221; ou espiritual, ou\u00a0&#8220;existencial&#8221; (a esfera a partir da qual se\u00a0distingue a morte de Cristo das outras &#8220;mortes&#8221;), entre o sofrimento das criaturas ca\u00eddas e &#8220;inocentes&#8221; sob a opress\u00e3o do mundo e o sofrimento de Cristo; pois o sofrimento do &#8220;inocente&#8221; \u00e9, na verdade, do resultado e a revela\u00e7\u00e3o da maldi\u00e7\u00e3o humana coletiva, de seu estado de queda, absolutamente carente de valor redentivo. A vitimiza\u00e7\u00e3o de Cristo \u00e9 qualitativamente diferente, porque consiste na invers\u00e3o da \u00a0maldi\u00e7\u00e3o e sua transforma\u00e7\u00e3o em b\u00ean\u00e7\u00e3o para todos os homens. Isso significa que<em> h\u00e1 um n\u00edvel de sentido, ou um n\u00edvel explanat\u00f3rio, no evento pascal, que n\u00e3o pode ser capturado por um olhar especificamente n\u00e3o-teol\u00f3gico; e esse n\u00edvel de sentido qualifica e sobredetermina os sentidos de n\u00edveis inferiores.<\/em><\/p>\n<p>A identifica\u00e7\u00e3o da morte de Cristo com a opress\u00e3o do trabalhador sob o capital s\u00f3 poderia acontecer se algum filtro ideol\u00f3gico bloqueasse a percep\u00e7\u00e3o da transcend\u00eancia e da irredutibilidade do sacrif\u00edcio de Cristo em rela\u00e7\u00e3o a outros eventos de opress\u00e3o e de sofrimento que n\u00e3o tem esse significado, e uma consequente redu\u00e7\u00e3o do significado teol\u00f3gico singular do evento pascal a um n\u00edvel de significa\u00e7\u00e3o apenas\u00a0sociol\u00f3gico, pol\u00edtico, ou at\u00e9 mesmo \u00a0moral &#8211; como se revelou na aproxima\u00e7\u00e3o absolutamente equivocada entre a &#8220;cruz Trans&#8221;, a &#8220;cruz de Espinal&#8221; e a Cruz de Cristo. Nesse caso a equivocidade de significado entre a vitimiza\u00e7\u00e3o de criaturas ca\u00eddas sob\u00a0opress\u00f5es sociais e a v\u00edtima divina, o Cordeiro Pascal que se entregou para a nossa salva\u00e7\u00e3o passa quase impercept\u00edvel, como se fosse uma mensagem subsidi\u00e1ria ou, at\u00e9 mesmo, extr\u00ednseca ao fato hist\u00f3rico, constitu\u00edda t\u00e3o somente pelo olhar subjetivo do fiel ou como uma constru\u00e7\u00e3o puramente teo-l\u00f3gica (no sentido teol\u00f3gico-cient\u00edfico).<\/p>\n<p>Assim ter\u00edamos o &#8220;Cristo Superestrutural&#8221;: uma imagem Cristol\u00f3gica que sempre se forma <strong>epigeneticamente<\/strong>, pela media\u00e7\u00e3o e sob o controle categorial de alguma compreens\u00e3o imanentista da condi\u00e7\u00e3o humana (muito embora a desconstru\u00e7\u00e3o da estrutura Cristol\u00f3gica cl\u00e1ssica apresente graus variados, \u00e0s vezes mantida quase inteira mas apenas inercialmente), produzida a partir de\u00a0uma ou outra ci\u00eancia especial (entre as ci\u00eancias humanas). Tanto na teologia latinoamericana da Liberta\u00e7\u00e3o quanto na teologia\u00a0Miss\u00e3o Integral, quando essa n\u00e3o \u00e9 evangelicamente autoconsciente, essas media\u00e7\u00f5es cient\u00edficas na interpreta\u00e7\u00e3o da condi\u00e7\u00e3o humana s\u00e3o quase sempre dominadas por uma teoria da ideologia que trata a formula\u00e7\u00e3o teol\u00f3gica e a confiss\u00e3o de f\u00e9 como epistemologicamente secund\u00e1rias em rela\u00e7\u00e3o \u00e0s condi\u00e7\u00f5es materiais de sua produ\u00e7\u00e3o &#8211; ou seja, sempre dominadas por alguma forma expl\u00edcita ou t\u00e1cita de <strong>filosofia da pr\u00e1xis<\/strong> &#8211; a imagem Cristol\u00f3gica passa a ser formatada por um procedimento &#8220;bottom-up&#8221; \u00a0em que o sentido de Cristo \u00e9 sempre uma resposta \u00e0 situa\u00e7\u00e3o &#8220;concreta&#8221;, nos termos postos por essa situa\u00e7\u00e3o, por sua vez &#8220;descoberta&#8221; \u00a0pelo pensamento social.<\/p>\n<p>Como j\u00e1 sugeria\u00a0Albert Schweitzer (nem por isso inocente do mesmo erro), o Cristo discernido no espelho d&#8217;\u00e1gua ao\u00a0fundo desse po\u00e7o hermen\u00eautico-arqueol\u00f3gico \u00e9, via de regra, n\u00e3o uma supera\u00e7\u00e3o do Cristo da Igreja Crist\u00e3 pelo rosto do Cristo hist\u00f3rico, mas\u00a0<em>o rosto do pr\u00f3prio int\u00e9rprete<\/em>. Via de regra, tamb\u00e9m, aqueles aprisionados no <strong>loop hermen\u00eautico<\/strong> da suspeita arqueol\u00f3gica sempre e de novo justificam sua reconstru\u00e7\u00e3o historicista do sentido do Cristo <em>alegando a impossibilidade de um acesso ao Cristo verdadeiro por meio das Escrituras e da tradi\u00e7\u00e3o<\/em> (uma posi\u00e7\u00e3o tipicamente modernista, no sentido teol\u00f3gico). Somando-se, ent\u00e3o, a invers\u00e3o da rela\u00e7\u00e3o entre Natureza \u00a0e Gra\u00e7a, com o procedimento auto-performativamente incoerente de negar a possibilidade de \u00a0conhecimento objetivo da verdade Crist\u00e3, temos as condi\u00e7\u00f5es para produ\u00e7\u00e3o de uma nova heterodoxia. (Para ler mais sobre essa falha auto-performativa, confira depois <a href=\"https:\/\/www.academia.edu\/13621571\/O_Secularismo_e_a_Introvers%C3%A3o_da_Mente_Moderna\" target=\"_blank\">o artigo AQUI<\/a>).<\/p>\n<p>Se procur\u00e1ssemos classificar esse erro em termos das heresias cl\u00e1ssicas, poder\u00edamos dizer que temos, aqui, uma esp\u00e9cie de &#8220;gnosticismo&#8221; teol\u00f3gico, no qual se procura \u00a0fugir do esc\u00e2ndalo da particularidade, eliminando a singularidade da cruz de Cristo e tornando-a um exemplar de um princ\u00edpio abstrato destemporalizado. Por este procedimento, a messianidade e poder redentivo da \u00fanica cruz \u00e9 pulverizado e disperso para todas as situa\u00e7\u00f5es de opress\u00e3o contempladas messianicamente pelo pensamento de esquerda &#8211; seja ele ortodoxo ou <em>New Left<\/em>: a messianiza\u00e7\u00e3o do pobre, do negro, do homoafetivo, da crian\u00e7a, do doente.<\/p>\n<p>Francis Schaeffer cunhou \u00a0uma \u00a0express\u00e3o nova e genial para \u00a0descrever a opera\u00e7\u00e3o realizada na cristologia superestrutural: &#8220;<strong>misticismo sem\u00e2ntico<\/strong>&#8220;. O misticismo sem\u00e2ntico seria uma reten\u00e7\u00e3o da linguagem e \u00a0dos s\u00edmbolos crist\u00e3os cl\u00e1ssicos sem o conte\u00fado racional e a \u00a0refer\u00eancia objetiva que deu origem a essa linguagem. Em outras palavras, a cren\u00e7a de que o emprego de uma terminologia, uma simbologia e at\u00e9 mesmo um sistema de ritos, seria suficiente para mediar a rela\u00e7\u00e3o com o infinito, independentemente de realidades objetivas e significados teol\u00f3gicos definidos.<\/p>\n<p>Muito \u00a0embora essa jamais tenha sido a inten\u00e7\u00e3o dos fundadores do movimento de Miss\u00e3o Integral latinoamericano, algum tipo de fragilidade metodol\u00f3gica tornou poss\u00edvel que muitos te\u00f3logos adotassem pr\u00e1ticas de \u00a0permanente ressignifica\u00e7\u00e3o da linguagem Crist\u00e3 a partir de novos contextos, inadvertidamente tornando a doutrina Crist\u00e3 em uma deriva\u00e7\u00e3o de respostas situacionais mais conectadas uma \u00a0tradi\u00e7\u00e3o politizada de pr\u00e1xis do que \u00e0s fontes Crist\u00e3s e evang\u00e9licas cujo car\u00e1ter \u00a0\u00e9 cada vez mais epigen\u00e9tico e superestrutural. Uma nova forma de misticismo sem\u00e2ntico emergiu, assim, no contexto do progressismo evang\u00e9lico. N\u00e3o \u00e9 de se admirar, por sinal, que v\u00e1rios praticantes dessa forma de teologiza\u00e7\u00e3o sejam adeptos do pensamento de Paul Tillich, cuja teoria do s\u00edmbolo religioso sistematiza de forma rigorosa esse procedimento de reinterpreta\u00e7\u00e3o da proclama\u00e7\u00e3o Crist\u00e3 em termos de categorias seculares.<\/p>\n<p>Acredito que essa mesma fragilidade metodol\u00f3gica (com seu fundo teol\u00f3gico) afeta diretamente a imagina\u00e7\u00e3o pr\u00e1tica do movimento de miss\u00e3o integral, quando este constr\u00f3i seu discurso e suas prioridades estrat\u00e9gicas. No restante do artigo vamos \u00a0procurar nos aproximar mais dessa quest\u00e3o metodol\u00f3gica e considerar seus efeitos limitantes da integralidade da miss\u00e3o &#8211; efeitos esses que v\u00e3o al\u00e9m da imanentiza\u00e7\u00e3o do evangelho, descrita acima, produzindo tamb\u00e9m um achatamento ou estreitamento da compreens\u00e3o sobre a realidade humana.<\/p>\n<p>OBSERVA\u00c7\u00c3O: para conhecer como alguns progressistas evang\u00e9licos tem repetido os erros Cristol\u00f3gicos da TdL, se n\u00e3o nas formula\u00e7\u00f5es, claramente na fragilidade metodol\u00f3gica, recomendo fortemente a leitura dos artigos de Clodovis Boff a esse respeito: &#8220;<a href=\"http:\/\/site.adital.com.br\/site\/noticia.php?lang=PT&amp;cod=33508\" target=\"_blank\">Teologia da Liberta\u00e7\u00e3o e Volta ao Fundamento<\/a>&#8221; e &#8220;<a href=\"http:\/\/www.ihu.unisinos.br\/noticias\/noticias-anteriores\/18647-volta-ao-fundamento-replica-de-clodovis-boff\" target=\"_blank\">Volta ao Fundamento: R\u00e9plica de Clodovis Boff<\/a>&#8220;.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><strong>\u201cVer, Julgar e Agir\u201d<\/strong><\/p>\n<p>Foi inicialmente nos c\u00edrculos da Teologia da Liberta\u00e7\u00e3o que o esquema \u201cVer, Julgar e Agir\u201d se desenvolveu, como metodologia teol\u00f3gica. Esse esquema tri\u00e1dico torna evidente o interesse por uma reflex\u00e3o teol\u00f3gica comprometida com a pr\u00e1xis, que cresce alimentada por uma responsabilidade cr\u00edtica em rela\u00e7\u00e3o \u00e0 realidade. Come\u00e7a com a an\u00e1lise, a compreens\u00e3o da situa\u00e7\u00e3o a ser confrontada (o momento de \u201cVer\u201d), passa por uma reflex\u00e3o teol\u00f3gica comprometida com o evangelho dentro dessa situa\u00e7\u00e3o (o momento de \u201cjulgar), e termina com uma resposta concreta \u00e0 situa\u00e7\u00e3o (o momento de \u201cagir\u201d). Ter\u00edamos assim uma teologia profundamente contextualizada, capaz de dar respostas significativas e ajudar o evangelho a se \u201cencarnar\u201d historicamente.<\/p>\n<p>Em princ\u00edpio, n\u00e3o h\u00e1 nada o que dizer contra esse m\u00e9todo. Isso porque n\u00e3o h\u00e1 nada que possamos dizer contra a necessidade de uma verdadeira contextualiza\u00e7\u00e3o do evangelho, de uma evangeliza\u00e7\u00e3o cristoc\u00eantrica e, portanto, encarnacional. Toda a ideia de apresentar o evangelho como a resposta divina ao drama humano em suas diversas manifesta\u00e7\u00f5es hist\u00f3ricas parece expressar o \u00e2mago do pr\u00f3prio evangelho. Nesse sentido, eu diria que o esquema \u201cver-julgar-agir\u201d \u00e9 um m\u00e9todo verdadeiramente teol\u00f3gico e evang\u00e9lico, pressupondo a pr\u00f3pria verdade evang\u00e9lica em sua constitui\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>N\u00e3o \u00e9 poss\u00edvel, a despeito disso, prosseguir dizendo que n\u00e3o h\u00e1 nada de inadequado\u00a0com as aplica\u00e7\u00f5es que tem sido dadas a esse m\u00e9todo na Am\u00e9rica Latina. O primeiro momento do m\u00e9todo contextual \u00e9 o \u201cver\u201d, o est\u00e1gio da interpreta\u00e7\u00e3o da condi\u00e7\u00e3o humana, anterior ao julgamento teol\u00f3gico, que surge num segundo momento. Nesse primeiro momento, da interpreta\u00e7\u00e3o do contexto, h\u00e1 um intenso di\u00e1logo com as ci\u00eancias humanas que sem d\u00favida constitui um m\u00e9rito da teologia contextual latino-americana. Mas \u00e9 imposs\u00edvel ignorar que o m\u00e9todo lan\u00e7a a reflex\u00e3o teol\u00f3gica para o segundo est\u00e1gio, o ju\u00edzo. A primeira fase fica sob o controle das ci\u00eancias humanas; elas nos capacitam a \u201cver\u201d, para que depois a teologia diga alguma coisa a respeito.<\/p>\n<p>\u201c<strong>Ver<\/strong>\u201d<\/p>\n<p>Ser\u00e1 que podemos \u201cver\u201d alguma coisa antes do evangelho? \u201cSim, com certeza\u201d, ser\u00e1 a resposta de muitos. Vamos refazer a pergunta: Ser\u00e1 que o que vemos antes do evangelho \u00e9 o mesmo que vemos depois?<\/p>\n<p>Evidentemente que n\u00e3o, e a B\u00edblia \u00e9 clara a esse respeito, quando, por exemplo, nos mostra, em Prov\u00e9rbios, que n\u00e3o h\u00e1 verdadeiro conhecimento sem o temor de Deus; ou em Rm 1.18-32, ensinando que o pecado for\u00e7ou os homens a constru\u00edrem imagens distorcidas da divindade e, em conseq\u00fc\u00eancia, de si mesmos; por conseguinte, diz Paulo que a reden\u00e7\u00e3o envolve, tamb\u00e9m, a renova\u00e7\u00e3o da mente (Rm 12.1,2); ou em 1Cor 2.14, quando nega ao homem natural a compreens\u00e3o das coisas do Esp\u00edrito de Deus.[<strong>1<\/strong>]<\/p>\n<p>De modo que, de um ponto de vista b\u00edblico, ainda que seja imposs\u00edvel negar a exist\u00eancia de numerosos <em>insights<\/em> e de aut\u00eanticos tesouros produzidos por mentes ca\u00eddas e afastadas do Criador, devidos unicamente \u00e0 sua miseric\u00f3rdia, n\u00e3o h\u00e1 como tratar a produ\u00e7\u00e3o cultural e cient\u00edfica dos incr\u00e9dulos como algo neutro do ponto de vista religioso. N\u00e3o \u00e9 que os pensadores regenerados tenham mais perspic\u00e1cia, ou intelig\u00eancia, ou conhecimento, ou que cometam menos erros l\u00f3gicos, ou que n\u00e3o tenham motiva\u00e7\u00f5es pecaminosas; a quest\u00e3o \u00e9 que o incr\u00e9dulo, na medida em que transporta essa incredulidade para dentro de sua metodologia cient\u00edfica, necessariamente produzir\u00e1 teorias estruturalmente comprometidas com a incredulidade.<\/p>\n<p>Ent\u00e3o n\u00e3o haveria problema em aproveitar todo tipo de descoberta produzida por incr\u00e9dulos, e at\u00e9 mesmo metodologias apropriadas, desde que essas distor\u00e7\u00f5es estruturais pudessem ser identificadas e removidas por um processo de cr\u00edtica filos\u00f3fico-teol\u00f3gica. Nesse processo, o pr\u00f3prio evangelho precisa ser um princ\u00edpio cr\u00edtico, de modo a comunicar sua for\u00e7a renovadora dentro do ambiente cient\u00edfico, para que possamos n\u00e3o meramente \u201cver\u201d, mas \u201cver\u201d evangelicamente.<\/p>\n<p><strong>O \u201cVer\u201d Latino-Americano<\/strong><\/p>\n<p>Com esses pontos teol\u00f3gicos em mente, podemos passar a uma discuss\u00e3o dos instrumentos utilizados para \u201cver\u201d a situa\u00e7\u00e3o latino-americana. Esses instrumentos foram denominados <strong>media\u00e7\u00f5es socioanal\u00edticas<\/strong>, e foram aplicados com o prop\u00f3sito de fornecer uma interpreta\u00e7\u00e3o cient\u00edfica da situa\u00e7\u00e3o missiol\u00f3gica \u2013 o \u201ccontexto\u201d. O antrop\u00f3logo evang\u00e9lico Tito Paredes, ao discutir o uso das ci\u00eancias sociais na missiologia, resume as teorias de antropologia cultural em tr\u00eas correntes principais, que ganharam certa import\u00e2ncia no contexto latino-americano: (1) a corrente funcionalista-relativista, (2) a corrente conflitiva e (3) as teorias da depend\u00eancia.<\/p>\n<p>Segundo Paredes, a abordagem funcionalista, fundada por B. Malinowsky e A. R. Radcliffe-Brown, v\u00ea o sistema cultural como uma combina\u00e7\u00e3o de v\u00e1rias partes que contribuem para sustentar todo o sistema de forma similar aos \u00f3rg\u00e3os de um organismo. Ele critica essa abordagem pois, ao tratar as institui\u00e7\u00f5es de um determinado sistema cultural como se fossem neutras, ou at\u00e9 mesmo necess\u00e1rias ao sistema, o funcionalismo rejeita a possibilidade de modificar a estrutura social. Al\u00e9m disso, nega que aspectos de certa cultura possam ser julgados a partir de outra cultura e modificados. Embora essa postura favore\u00e7a o respeito por culturas diferentes, acaba por introduzir um forte relativismo cultural que bloqueia toda cr\u00edtica \u00e0 injusti\u00e7a presente em estruturas sociais, deixando intocado o status quo. \u00c9 exatamente esse tipo de \u201camoralismo\u201d sociol\u00f3gico que Paredes v\u00ea no movimento de crescimento da igreja (Donald McGavran, Peter Wagner), que, assumidamente, utiliza a abordagem funcionalista e se sente livre para falar de \u201ccrescimento da igreja\u201d ignorando quase completamente o problema da injusti\u00e7a social, <em>como se a evangeliza\u00e7\u00e3o pudesse ocorrer sem afetar diretamente a organiza\u00e7\u00e3o social<\/em>.[<strong>2<\/strong>]<\/p>\n<p>A abordagem \u201c<strong>conflitiva<\/strong>\u201d tem suas origens em Marx, compreendendo a sociedade n\u00e3o como um sistema harm\u00f4nico, mas como uma estrutura dial\u00e9tica e irracional, mas progredindo dinamicamente para uma s\u00edntese. Essa dial\u00e9tica se traduz\u00a0no conflito de classes; \u00a0e essa luta de classes seria o crit\u00e9rio fundamental de an\u00e1lise sociol\u00f3gica. Al\u00e9m disso, as sociedades evoluiriam em tr\u00eas est\u00e1gios necess\u00e1rios: o comunismo primitivo, a etapa capitalista, na qual ocorre a propriedade privada e a luta de classes, e finalmente o comunismo desenvolvido, no qual a propriedade privada \u00e9 abolida e a divis\u00e3o do trabalho cessa totalmente. A luta de classes da etapa capitalista seria o motor da hist\u00f3ria, conduzindo-a inexoravelmente \u00e0 revolu\u00e7\u00e3o socialista. A an\u00e1lise marxista de uma sociedade enfatiza as tens\u00f5es de classes e se compromete com a supera\u00e7\u00e3o do sistema capitalista, rejeitando a via da reforma social como algo que meramente prolonga o sistema. [<strong>3<\/strong>] Ao mesmo tempo em que a abordagem conflitiva se op\u00f5e frontalmente \u00e0 funcionalista, exigindo a transforma\u00e7\u00e3o na estrutura social, e encontrando na divis\u00e3o do trabalho a estrutura b\u00e1sica da sociedade, aproxima-se, em certo sentido, da abordagem funcionalista ao negar qualquer papel significativo \u00e0 reforma social.<\/p>\n<p>Finalmente, temos a<strong> teoria da depend\u00eancia<\/strong>. Essa teoria surge ao final da d\u00e9cada de 60, quando o desenvolvimentismo internacional come\u00e7a a ser questionado por pensadores latino-americanos ligados ao CEPAL, uma institui\u00e7\u00e3o associada \u00e0 UNESCO. Segundo eles o subdesenvolvimento e a pobreza dos pa\u00edses do terceiro mundo n\u00e3o seriam frutos de problemas internos desses pa\u00edses, como pressupunham os programas internacionais de aux\u00edlio nessa \u00e9poca, mas da din\u00e2mica do capitalismo internacional. Este seria dividido em metr\u00f3poles, que seriam os centros econ\u00f4micos e pol\u00edticos, e a periferia, o mundo subdesenvolvido. A condi\u00e7\u00e3o para a riqueza da metr\u00f3pole seria a explora\u00e7\u00e3o da periferia, n\u00e3o havendo possibilidade, nessa estrutura imperialista, de uma supera\u00e7\u00e3o do subdesenvolvimento nos pa\u00edses do (\u00e0 \u00e9poca, denominado) terceiro mundo.[<strong>4<\/strong>] Trata-se de uma abordagem conflitiva mais ampla.<\/p>\n<p>Paredes tece algumas cr\u00edticas \u00e0 teoria da depend\u00eancia. Em primeiro lugar, ela d\u00e1 grande \u00eanfase \u00e0 dimens\u00e3o estrutural do pecado, mas ignora a dimens\u00e3o pessoal. Isso cria um manique\u00edsmo que tende a tratar o sistema capitalista como a origem do mal, e o sistema socialista ideal como o sistema \u201cjusto\u201d, que evitaria a opress\u00e3o. Outro problema se encontra nas categorias \u201coprimido\/opressor\u201d, como categorias b\u00e1sicas de an\u00e1lise social. Segundo ele, \u201cEstas categorias n\u00e3o fazem justi\u00e7a \u00e0 complexidade da realidade social [&#8230;]\u201d, pois ignoram os \u201cmicroprocessos\u201d de depend\u00eancia que se distribuem dentro de um sistema social, por vezes obscurecendo a linha divis\u00f3ria \u201coprimido X opressor\u201d.<\/p>\n<p>A teoria da depend\u00eancia rapidamente encontrou apoio entre te\u00f3logos latino-americanos, tanto cat\u00f3licos como evang\u00e9licos. O compromisso com a miss\u00e3o de Deus no contexto latino-americano passou a ser identificado, em muitos c\u00edrculos, com o compromisso com a luta contra o imperialismo norte-americano e com um posicionamento pol\u00edtico de esquerda, acusando-se a \u201celite internacional\u201d do capital, e as \u201celites entreguistas\u201d do capital nacional como as respons\u00e1veis prim\u00e1rias pela mis\u00e9ria do povo. O \u00caxodo e os textos prof\u00e9ticos do AT forneceram bastante muni\u00e7\u00e3o teol\u00f3gica para o ataque desses te\u00f3logos aos pa\u00edses ricos e aos partidos de direita e centro que seriam os respons\u00e1veis por esta situa\u00e7\u00e3o de opress\u00e3o.<\/p>\n<p>O que devemos pensar dessas teorias? J\u00e1 vimos algumas cr\u00edticas do Dr. Paredes \u00e0 abordagem funcionalista. Em sua opini\u00e3o a interpreta\u00e7\u00e3o funcionalista pode ser \u00fatil, inicialmente, para compreender como as diversas partes do sistema se organizam, desde que se evite o relativismo cultural e a tenta\u00e7\u00e3o de tratar unidades sociais ou sociedades simples como sistemas fechados. Quanto \u00e0 teoria marxista, haveria muito o que dizer. Trata-se de uma teoria ut\u00f3pica que seculariza a no\u00e7\u00e3o b\u00edblica de hist\u00f3ria e de reino de Deus, esperando um para\u00edso terreno sem transcend\u00eancia; ut\u00f3pica ainda por n\u00e3o levar a s\u00e9rio a dimens\u00e3o pessoal do mal, como se a mera transforma\u00e7\u00e3o estrutural solucionasse o problema da injusti\u00e7a. Al\u00e9m disso, a aplica\u00e7\u00e3o do crit\u00e9rio da luta de classes como \u201cchave mestra\u201d v\u00e1lida para qualquer situa\u00e7\u00e3o cultural \u00e9 extremamente reducionista desconsiderando o papel de outras dimens\u00f5es da cultura na estrutura\u00e7\u00e3o da sociedade.<\/p>\n<p>No caso da teoria da depend\u00eancia, seu valor est\u00e1 em desvelar os mecanismos internacionais de explora\u00e7\u00e3o e empobrecimento, mostrando que o imperialismo nas rela\u00e7\u00f5es internacionais est\u00e1 diretamente ligado aos dramas do povo latino-americano. Conseq\u00fcentemente, \u00e9 necess\u00e1rio que os modelos de miss\u00e3o e minist\u00e9rio se engajem numa cr\u00edtica consciente dos mecanismos ideol\u00f3gicos que sustentam a explora\u00e7\u00e3o dos pa\u00edses pobres e mascaram a divis\u00e3o internacional do trabalho.<\/p>\n<p>Esse valor fundamental da teoria da depend\u00eancia n\u00e3o pode nos fazer esquecer de suas afinidades naturais com o reducionismo marxista; a teoria pressup\u00f5e que a causa principal da pobreza na America Latina \u00e9 de fato econ\u00f4mica, e que a din\u00e2mica b\u00e1sica por tr\u00e1s dos problemas sociais do continente seria\u00a0o conflito de classes. E foi exatamente esse posicionamento pol\u00edtico-econ\u00f4mico que dominou boa parte da reflex\u00e3o teol\u00f3gica latino-americana. Poucos cr\u00eaem \u00a0hoje que este modelo seria suficiente para explicar a pobreza e a desigualdade do continente, ignorando, por exemplo, o impacto da cultura e das diferentes moralidades nacionais.<\/p>\n<p>Assim o \u201cVer\u201d, no pensamento da Teologia da Liberta\u00e7\u00e3o na AL caracterizou-se por um estreitamento conflitivo da interpreta\u00e7\u00e3o da situa\u00e7\u00e3o do pobre. Este estreitamento teve um efeito delet\u00e9rio, mas a origem do problema \u00e9 um equ\u00edvoco metodol\u00f3gico e, em \u00faltima inst\u00e2ncia, teol\u00f3gico. A tentativa de simplesmente aplicar uma media\u00e7\u00e3o s\u00f3cio-anal\u00edtica como interpreta\u00e7\u00e3o fundamental da realidade, para s\u00f3 ent\u00e3o, a posteriori, emitir ju\u00edzos teol\u00f3gicos, \u00e9 um equ\u00edvoco fatal. Mesmo que nosso \u201cver\u201d cient\u00edfico sempre seja incompleto e falho, n\u00e3o podemos nos dar luxo de aplicar essas media\u00e7\u00f5es sem confront\u00e1-las seriamente com as Escrituras. A acusa\u00e7\u00e3o de compartimentaliza\u00e7\u00e3o te\u00f3rica, tantas vezes lan\u00e7ada sobre o fundamentalismo, \u00e9 repetida naqueles pensadores latino-americanos que utilizam as ci\u00eancias sociais sem reform\u00e1-las a partir da cosmovis\u00e3o b\u00edblica.<\/p>\n<p><strong>O \u201cVer\u201d na Teologia Latino-Americana<\/strong><\/p>\n<p>A prefer\u00eancia vis\u00edvel de grande parte dos te\u00f3logos latino-americanos por uma interpreta\u00e7\u00e3o socialista da condi\u00e7\u00e3o humana condicionou profundamente as discuss\u00f5es a respeito da miss\u00e3o crist\u00e3. Entre os te\u00f3logos da Liberta\u00e7\u00e3o encontra-se uma aprecia\u00e7\u00e3o bastante positiva do marxismo, por exemplo, em Gustavo Guti\u00e9rrez e em Jos\u00e9 Miguez-Bonino. Esses te\u00f3logos defenderam, inicialmente, que seria leg\u00edtimo adotar certos aspectos do pensamento marxista, como a prioridade da pr\u00e1xis em rela\u00e7\u00e3o ao pensamento,[<strong>6<\/strong>] e a aplica\u00e7\u00e3o de uma an\u00e1lise materialista dial\u00e9tica ao processo hist\u00f3rico, como um processo de luta de classes.[<strong>7<\/strong>] Al\u00e9m disso, h\u00e1 um compromisso com a <em>metateologia escol\u00e1stica<\/em>, que divide a realidade em uma esfera superior, da gra\u00e7a, e uma esfera inferior, da natureza, alegando a exist\u00eancia do que foi denominado &#8211; e denunciado por te\u00f3logos t\u00e3o diferentes quanto o neocalvinista Herman Bavinck e o Cat\u00f3lico Romano Henri de Lubac &#8211; <strong>Natura Pura<\/strong>, ou natureza pura, possuidora de sua pr\u00f3pria identidade e aut\u00f4noma em rela\u00e7\u00e3o \u00e0 gra\u00e7a. A esfera da gra\u00e7a seria ligada \u00e0 f\u00e9, e a esfera da natureza estaria aberta \u00e0 luz natural da raz\u00e3o, sem a necessidade de uma reforma interior, uma vez que a queda teria afetado mais a vontade do que a mente.[<strong>8<\/strong>] De um modo geral, podemos descrever o \u201cpathos\u201d da teologia latino-americana da liberta\u00e7\u00e3o como uma resist\u00eancia \u00e0 ideologia religiosa do \u201ccentro\u201d econ\u00f4mico a partir da \u201cperiferia\u201d, constituindo a miss\u00e3o estrategicamente como uma miss\u00e3o libert\u00e1ria e anti-desenvolvimentista.[<strong>9<\/strong>]<\/p>\n<p>Entre os te\u00f3logos evangelicais, comprometidos com a tese da Miss\u00e3o Integral e ligados a institui\u00e7\u00f5es como a <em>Fraternidade Teol\u00f3gica Latino-Americana<\/em>, \u00e9 poss\u00edvel encontrar posi\u00e7\u00f5es semelhantes \u00e0s que acabamos de indicar. Naturalmente, devido \u00e0 influ\u00eancia do esp\u00edrito evang\u00e9lico, a cr\u00edtica ao marxismo \u00e9 bem mais expl\u00edcita. Mas h\u00e1 uma prefer\u00eancia bastante marcada pela interpreta\u00e7\u00e3o socialista da situa\u00e7\u00e3o humana. Essa influ\u00eancia se mostra no uso de categorias como ideologia, estrutura, capital, depend\u00eancia, imperialismo, centro\/periferia, uma fixa\u00e7\u00e3o na hip\u00f3tese do &#8220;destino manifesto&#8221; como sistema de filtragem contra a ortodoxia teol\u00f3gica norteamericana, etc., que surgem em textos teol\u00f3gicos profundamente carregados de teorias marxianas.[<strong>10<\/strong>] No caso latino-americano, essa carga n\u00e3o se deve a uma apropria\u00e7\u00e3o direta da teoria marxista, mas ao uso da teoria da depend\u00eancia.<\/p>\n<p>Para evitar qualquer mal entendido, precisamos deixar claro que o programa capitalista n\u00e3o pode ser considerado moralmente superior, ou teologicamente \u201cortodoxo\u201d, nem pensamos que exista uma posi\u00e7\u00e3o de neutralidade pol\u00edtica para falar a respeito de sistemas econ\u00f4micos. Nesse sentido, n\u00e3o seria err\u00f4neo utilizar de fato certas categorias marxianas, desde que seja encontrada uma coer\u00eancia entre elas e o evangelho.<\/p>\n<p>N\u00e3o \u00e9 isso o que se v\u00ea, entretanto, na teologia da miss\u00e3o integral latino-americana, quando se sujeita o uso de tais categorias a um escrut\u00ednio mais cuidadoso. Cada um desses termos traz consigo uma interpreta\u00e7\u00e3o marxista da situa\u00e7\u00e3o latino-americana na (a) qual a injusti\u00e7a e pobreza \u00e9 determinada por fatores estruturais, sempre externos ao sujeito, (b) \u00e9 vinculada, especificamente, \u00e0queles fatores estruturais ligados ao sistema econ\u00f4mico e pol\u00edtico, em detrimento de outras causas para al\u00e9m da economia pol\u00edtica e (c) a pobreza \u00e9 sempre definida meramente ou quase meramente como pobreza de capital financeiro e de alguns capitais sociais. O defeito principal do sistema seria exatamente o sistema capitalista de divis\u00e3o do trabalho.<\/p>\n<p>Consideremos\u00a0um exemplo concreto. No Quarto Congresso Latino Americano de Evangeliza\u00e7\u00e3o (CLADE IV), realizado em setembro de 2000 em Quito sob os ausp\u00edcios da Fraternidade Teol\u00f3gica Latino Americana realizou-se uma consulta especial sobre \u201cMiss\u00e3o Integral e Pobreza\u201d. As palestras principais foram colecionadas num livro com o mesmo t\u00edtulo, trazendo tamb\u00e9m o documento final da consulta. Na primeira parte da obra, \u201cO Contexto Latino Americano da Miss\u00e3o Integral\u201d, temos os dois primeiros artigos tratando das causas da pobreza e do significado da Miss\u00e3o Integral para esse contexto. Os artigos s\u00e3o reveladores para o tema da nossa discuss\u00e3o.<\/p>\n<p>No primeiro artigo, de Franklin Canelos,[<strong>11<\/strong>] temos uma abordagem t\u00edpica do contexto latino-americano. Canelos principia atribuindo \u00e0 ordem capitalista globalizada a causa da pobreza mundial. Passa ent\u00e3o a explicar como esse quadro se desenvolveu desde o in\u00edcio, mostrando como os pa\u00edses europeus e depois os EUA aumentaram enormemente sua riqueza enquanto simultaneamente os pa\u00edses latinos, africanos e asi\u00e1ticos se desenvolveram muito lentamente. Com a globaliza\u00e7\u00e3o econ\u00f4mica, a partir da metade do s\u00e9culo XIX os pa\u00edses mais pobres, que j\u00e1 viviam uma situa\u00e7\u00e3o de depend\u00eancia devido \u00e0 coloniza\u00e7\u00e3o, foram integrados \u00e0 economia mundial de uma forma desigual, na \u201cperiferia\u201d. Esses pa\u00edses perif\u00e9ricos experimentaram uma crescente pauperiza\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>Qual seria sua causa? Canelos rejeita explica\u00e7\u00f5es baseadas nas diferen\u00e7as raciais, ou na suposta car\u00eancia de recursos naturais, bem como a tese da escassez de capital (este estaria sendo transferido para o exterior), ou de que o capitalismo no terceiro mundo n\u00e3o estaria plenamente desenvolvido. Segundo ele, a verdadeira raz\u00e3o da pobreza ou empobrecimento da Am\u00e9rica Latina seria \u201c[&#8230;] a situa\u00e7\u00e3o mais profunda de domina\u00e7\u00e3o internacional e depend\u00eancia.\u201d [<strong>12<\/strong>] As economias desses pa\u00edses teriam sido submetidas muito cedo a uma depend\u00eancia do mercado mundial, gerando-se um desenvolvimento interno desproporcional. O crescimento da d\u00edvida externa, adquirida no processo de integra\u00e7\u00e3o \u00e0 economia mundial, teria se tornado uma veia aberta, vazando o capital interno e impedindo o desenvolvimento. Assim, a \u00fanica sa\u00edda seria livrar-se do capital estrangeiro no financiamento do desenvolvimento do pa\u00eds, para assim sair do subdesenvolvimento.[<strong>13<\/strong>]<\/p>\n<p>No segundo artigo, de Victor Vaca [<strong>14<\/strong>], discute-se o sentido da Miss\u00e3o Integral nesse contexto. Vaca repete as posi\u00e7\u00f5es de Canelos, localizando as causas da pobreza, mis\u00e9ria, analfabetismo, desemprego e corrup\u00e7\u00e3o nas estruturas econ\u00f4micas presentes. A solu\u00e7\u00e3o, portanto, \u00e9 mud\u00e1-las: \u201cAs estruturas pecaminosas de nossa sociedade, as mesmas que mant\u00e9m a \u2018sociedade carn\u00edvora\u2019 descrita acima, tem de ser mudadas.\u201d[<strong>15<\/strong>] A igreja deve procurar <em>uma alternativa transformadora ao sistema econ\u00f4mico atual<\/em>.<\/p>\n<p>Para compreender o contexto da miss\u00e3o integral, \u00e9 necess\u00e1rio utilizar um enfoque integral da realidade. Vaca considera a abordagem marxista, em sua busca por uma base econ\u00f4mica para os fen\u00f4menos sociais, um exemplo de abordagem integral(!). [<strong>16<\/strong>] A caracter\u00edstica b\u00e1sica desse tipo de enfoque \u00e9 o princ\u00edpio de que nenhum acontecimento social \u00e9 isolado; antes, os eventos s\u00e3o causas e conseq\u00fc\u00eancias dos outros. Assim, para que a miss\u00e3o seja verdadeiramente integral, ela deve compreender a situa\u00e7\u00e3o latino-americana de modo integral e levar a s\u00e9rio o problema da pobreza. Isso exigir\u00e1 uma vis\u00e3o diferente a respeito do desenvolvimento; n\u00e3o como um aperfei\u00e7oamento dentro das estruturas econ\u00f4micas atuais, mas como uma liberta\u00e7\u00e3o da depend\u00eancia, atrav\u00e9s de uma a\u00e7\u00e3o pol\u00edtica libertadora. Essa a\u00e7\u00e3o se dar\u00e1, basicamente, por meio da luta dos pobres.[<strong>17<\/strong>]<\/p>\n<p>Os t\u00edmidos exemplos acima <em>obviamente<\/em> n\u00e3o tem a inten\u00e7\u00e3o de esgotar o pensamento evang\u00e9lico latino-americano sobre o que seria o \u201ccontexto\u201d da miss\u00e3o e o caminho para uma a\u00e7\u00e3o integral, mas de oferecer casos\u00a0representativos. De um modo geral, os pensadores da miss\u00e3o integral tem se comprometido com a teoria da depend\u00eancia e com o caminho reafirmado no CLADE IV: o caminho da resist\u00eancia pol\u00edtica e da transforma\u00e7\u00e3o estrutural como o meio principal para a realiza\u00e7\u00e3o da miss\u00e3o integral.<\/p>\n<p><strong>Estamos \u201cVendo\u201d Corretamente?<\/strong><\/p>\n<p>Ningu\u00e9m em s\u00e3 consci\u00eancia negaria que o mercado tem profunda influ\u00eancia sobre a vida social, e que h\u00e1 de fato uma dimens\u00e3o estrutural na pecaminosidade humana; que h\u00e1 estruturas perversas que alienam os homens de si mesmos tornando-os instrumentos do capital. Mas essa teoria parece ter se tornado o crit\u00e9rio central para a interpreta\u00e7\u00e3o da condi\u00e7\u00e3o humana na Am\u00e9rica Latina. Nessa linha interpretativa a causa da injusti\u00e7a social \u00e9 localizada no sistema econ\u00f4mico e pol\u00edtico, fazendo-se necess\u00e1rio \u201cencarnar\u201d o evangelho numa ideologia de resist\u00eancia ao poder econ\u00f4mico e pol\u00edtico central, que \u00e9 a Am\u00e9rica do Norte. Conseq\u00fcentemente, muitos dos projetos de transforma\u00e7\u00e3o tem um car\u00e1ter marcadamente socialista, <em>identificando na luta pol\u00edtica e na restri\u00e7\u00e3o do capital a chave para a solu\u00e7\u00e3o do problema da pobreza<\/em>. Se o problema \u00e9 estrutural, as solu\u00e7\u00f5es devem ser estruturais, e estruturais tratando esses aspectos como fundacionais em rela\u00e7\u00e3o a outros.<\/p>\n<p>Se examinarmos, por exemplo, o relat\u00f3rio da consulta internacional sobre Evangeliza\u00e7\u00e3o e Responsabilidade Social, em Grand Rapids (1982), que reflete bem a posi\u00e7\u00e3o da teologia da miss\u00e3o integral, encontraremos um excelente tratamento a respeito da import\u00e2ncia do envolvimento social da igreja, como parte de sua miss\u00e3o. Mas esse envolvimento \u00e9 visto como sendo fundamentalmente pol\u00edtico e econ\u00f4mico:<\/p>\n<blockquote><p>\u201cO outro tipo de responsabilidade \u00e9 a busca da justi\u00e7a social, que trata n\u00e3o somente das pessoas mas de estruturas; n\u00e3o s\u00f3 da reabilita\u00e7\u00e3o dos presos, mas da reforma do sistema penitenci\u00e1rio; n\u00e3o apenas da melhoria das condi\u00e7\u00f5es de trabalho, mas da transforma\u00e7\u00e3o do sistema econ\u00f4mico (qualquer que seja ele) e do sistema pol\u00edtico (qualquer que seja), facilitando a liberta\u00e7\u00e3o da pobreza e da opress\u00e3o.\u201d <strong>[18]<\/strong><\/p><\/blockquote>\n<p>Embora eu subscreva <em>o que foi dito<\/em>, incomoda-me <em>o que n\u00e3o foi dito<\/em>. N\u00e3o s\u00f3 essa cita\u00e7\u00e3o, mas o relat\u00f3rio como um todo parece pressupor que altera\u00e7\u00f5es estruturais no sistema pol\u00edtico e econ\u00f4mico seriam a via principal para renova\u00e7\u00e3o da sociedade. \u00c9 verdade que se fala a respeito de ensinar a palavra de Deus e de introduzir valores \u00e9ticos crist\u00e3os,[<strong>19<\/strong>] mas n\u00e3o h\u00e1 discuss\u00f5es expl\u00edcitas sobre a necessidade de alterar os padr\u00f5es culturais das pessoas envolvidas em situa\u00e7\u00f5es de pobreza e injusti\u00e7a, de produ\u00e7\u00e3o de capitais morais (Roel Kuiper), capitais afetivos, capitais sociais em geral, e sobre o papel que a sociedade civil deve desempenhar nessas iniciativas.<\/p>\n<p>O ponto fraco dessa abordagem \u00e9 que as outras dimens\u00f5es da cultura s\u00e3o vistas como neutras em compara\u00e7\u00e3o com o capital. <em>\u00c9 como se a os fatores naturais, a cultura local, os sistemas de moralidade e o modo de organiza\u00e7\u00e3o da sociedade civil fosses inocentes em rela\u00e7\u00e3o \u00e0 injusti\u00e7a social, uma vez que a origem dessa \u00e9 sempre o sistema econ\u00f4mico<\/em>. Isso n\u00e3o \u00e9 dito explicitamente, mas parece ser tacitamente assumido. Por essa raz\u00e3o, simplesmente n\u00e3o encontramos tratamentos cr\u00edticos a respeito da cultura latino-americana e apontem as conex\u00f5es entre a injusti\u00e7a social e a cultura.<\/p>\n<p>Percebe-se\u00a0aqui dois problemas b\u00e1sicos. O primeiro \u00e9 que a teoria da depend\u00eancia \u00e9 utilizada de um modo antropologicamente m\u00edope, estabelecendo como causa suficiente da pobreza e da injusti\u00e7a social o sistema pol\u00edtico e econ\u00f4mico, sem deixar espa\u00e7os te\u00f3ricos claros para a influ\u00eancia de fatores locais n\u00e3o pol\u00edticos e n\u00e3o econ\u00f4micos. Na verdade, n\u00e3o se pode esperar de um socialismo de matiz marxista interpreta\u00e7\u00f5es do sistema econ\u00f4mico que coloquem as condi\u00e7\u00f5es materiais da exist\u00eancia como produtos de fatores religiosos, morais, te\u00f3ricos, etc., visto que um dos compromissos do socialismo marxista \u00e9 a leitura materialista da sociedade. Embora os te\u00f3logos evang\u00e9licos sejam geralmente coerentes em rejeitar essa leitura materialista, ao falar a respeito do \u201ccontexto latino-americano\u201d <em>quase sempre o interpretam a partir de uma vers\u00e3o estreita da teoria da depend\u00eancia<\/em>, atribuindo \u00e0 din\u00e2mica do capitalismo internacional a situa\u00e7\u00e3o de mis\u00e9ria que nossos pa\u00edses vivem.[<strong>20<\/strong>]<\/p>\n<p>O outro problema \u00e9 a redu\u00e7\u00e3o da \u201cresponsabilidade social da igreja\u201d, entendida como sendo fundamentalmente a transforma\u00e7\u00e3o das estruturas sociais, pol\u00edticas e econ\u00f4micas. Onde est\u00e3o as outras dimens\u00f5es da vida humana? Porque pouco se diz a respeito da ci\u00eancia e da tecnologia, das artes e da literatura? E sobre a concep\u00e7\u00f5es \u00e9ticas e capitais morais? E sobre valores culturais, moralidades e sobre o agora onipresente problema do capital afetivo? Porque eles precisam ter significado pol\u00edtico-econ\u00f4mico para serem dignos de aten\u00e7\u00e3o e acabam submersos nessa linha de reflex\u00e3o?<\/p>\n<p><strong>A Origem do \u201cPonto Cego\u201d: O Dualismo Natureza\/Gra\u00e7a<\/strong><\/p>\n<p>Tomemos o caso particular da educa\u00e7\u00e3o; esse tema\u00a0parece ser um <em>ponto cego<\/em> na produ\u00e7\u00e3o teol\u00f3gica da teologia contextual evang\u00e9lica. A maior parte dos grandes tratamentos a respeito da miss\u00e3o integral concentra-se em problemas relacionados ao treinamento e envio de mission\u00e1rios, \u00e0 cr\u00edtica dos norte-americanos e sua teologia do &#8220;destino manifesto&#8221; (ignorando da forma mais superficial poss\u00edvel g\u00eanios absolutos como Jonathan Edwards), e a discuss\u00f5es de car\u00e1ter s\u00f3cio-pol\u00edtico. Essas \u00faltimas chegam a certo grau de profundidade. Fala-se a respeito de pol\u00edtica, de economia, de elei\u00e7\u00f5es, de den\u00fancia prof\u00e9tica, de compromisso com os pobres, de justi\u00e7a. Mas passa-se ao largo em se tratando de educa\u00e7\u00e3o. No m\u00e1ximo temos reflex\u00f5es a respeito da educa\u00e7\u00e3o teol\u00f3gica e eclesial.[<strong>21<\/strong>]<\/p>\n<p>Na verdade, a aus\u00eancia vai muito mais longe. Faltam discuss\u00f5es sobre uma s\u00e9rie de assuntos essenciais \u00e0 vida humana: \u00e9tica, ci\u00eancia, arte, literatura, teoria pol\u00edtica, filosofia na Am\u00e9rica Latina, a\u00e7\u00e3o empresarial, fam\u00edlia, etc. Talvez seja muito trabalho para poucas pessoas, de fato; mas porque ao menos alguns, desses assuntos n\u00e3o foram discutidos? Porque tudo se resumiu a reflex\u00f5es pol\u00edticas e econ\u00f4micas?<\/p>\n<p>Eu n\u00e3o creio que um apelo \u00e0s circunst\u00e2ncias seja suficiente para explicar essas aus\u00eancias not\u00e1veis. Ainda que, de fato, muito da reflex\u00e3o em miss\u00e3o integral tenha sido feita em contextos mais eclesi\u00e1sticos, ou em torno de temas propriamente missiol\u00f3gicos, como pode ter sido poss\u00edvel, falando-se a respeito de pobreza, de injusti\u00e7a, e de pol\u00edtica, n\u00e3o falar-se a respeito de educa\u00e7\u00e3o, especificamente? A associa\u00e7\u00e3o n\u00e3o \u00e9 apenas poss\u00edvel; \u00e9 necess\u00e1ria. Em momentos cr\u00edticos da hist\u00f3ria, como a reforma, o iluminismo, o crescimento do capitalismo industrial e do pragmatismo (Dewey), a expans\u00e3o do marxismo e, nos \u00faltimos tempos, com a globaliza\u00e7\u00e3o e o pluralismo cultural, extensas discuss\u00f5es te\u00f3ricas apareceram e amplas reformas educacionais se realizaram. Isso ocorreu simplesmente porque <em>n\u00e3o \u00e9 poss\u00edvel implementar transforma\u00e7\u00f5es estruturais na vida humana sem uma educa\u00e7\u00e3o integral e espiritual, para al\u00e9m da ideologia.<\/em><\/p>\n<p>E no entanto, por estranho que possa parecer, o pensamento teol\u00f3gico latino-americano fala muito a respeito de atacar a injusti\u00e7a social no n\u00edvel estrutural, mas pouco\u00a0diz, comparativamente, a respeito da educa\u00e7\u00e3o e de\u00a0muitos outros assuntos absolutamente fundamentais. Se examinarmos, por exemplo, as palestras oferecidas no congresso de Lausanne, ou nas consultas que se seguiram, nada encontraremos de consistente a respeito da educa\u00e7\u00e3o ou da reconstru\u00e7\u00e3o de valores. Temos discuss\u00f5es sobre a pobreza e a responsabilidade social, sim, mas elas chegam a um impasse quando o assunto \u00e9 o m\u00e9todo adequado para expressar essa responsabilidade. Nos boletins da FTL setor Brasil faltam discuss\u00f5es a respeito dos males da cultura brasileira (exceto da cultura pol\u00edtica e da atitude das elites para com o dinheiro, que s\u00e3o contemplados) ou a respeito da educa\u00e7\u00e3o. Tamb\u00e9m \u00e9 dif\u00edcil encontrar livros sobre esse assunto, embora n\u00e3o imposs\u00edvel. [o artigo refere-se aos boletins produzidos at\u00e9 2008].<\/p>\n<p>Neste ponto, vou arriscar uma explica\u00e7\u00e3o para esse ponto cego: mais do que um erro estrat\u00e9gico, acredito que a teologia evang\u00e9lica latino-americana n\u00e3o p\u00f4de ser integral, a esse respeito, devido \u00e0 falha metodol\u00f3gica que j\u00e1 apontamos antes: a tentativa de obter uma interpreta\u00e7\u00e3o da realidade contextual \u00e0 qual o evangelho seria apresentado <em>sem promover uma reforma radical do pensamento te\u00f3rico e, especificamente, das media\u00e7\u00f5es s\u00f3cio-anal\u00edticas utilizadas para interpretar a situa\u00e7\u00e3o<\/em>. Ou seja, ter\u00edamos uma <strong>falha metateol\u00f3gica<\/strong>, na medida em que o <strong>dualismo Natureza\/Gra\u00e7a<\/strong>,[<strong>22<\/strong>] isto \u00e9, a atribui\u00e7\u00e3o de neutralidade e autonomia religiosa a qualquer aspecto da nossa rela\u00e7\u00e3o com o mundo de forma a subjugar e &#8220;devorar&#8221; a gra\u00e7a, condiciona a nossa compreens\u00e3o sobre a rela\u00e7\u00e3o entre o evangelho e a tarefa de \u201cVer\u201d a situa\u00e7\u00e3o missiol\u00f3gica.<\/p>\n<p>Assim, a partir da teoria da depend\u00eancia, os missi\u00f3logos passaram a ver como caminho principal para a realiza\u00e7\u00e3o da miss\u00e3o o fortalecimento pol\u00edtico do pobre e o combate ao imperialismo norte-americano. Do ponto de vista pr\u00e1tico, as propostas se concentram em projetos para alterar diretamente a condi\u00e7\u00e3o dos pobres, e pouqu\u00edssimo em alterar a mentalidade e a cultura desses mesmos pobres. Desse modo a ideologia socialista e a teoria da depend\u00eancia funcionaram como uma cortina de fuma\u00e7a ocultando as dimens\u00f5es culturais da pobreza.<\/p>\n<p>A reflex\u00e3o em miss\u00e3o integral se configurou, pois, como uma missiologia pol\u00edtica, que na verdade s\u00f3 poderia ser uma dimens\u00e3o da miss\u00e3o, n\u00e3o sendo por isso capaz de ter um efeito integral. A miss\u00e3o, para ser integral, precisa levar o evangelho todo ao homem todo, e o homem todo envolve muito mais que pol\u00edtica e economia. A explica\u00e7\u00e3o e o enfrentamento da pobreza, especificamente, precisa incluir mais do que tratamentos estruturais, contemplando cada aspecto da vida humana; simultaneamente, a considera\u00e7\u00e3o de cada aspecto da vida humana nos dar\u00e1 uma vis\u00e3o mais completa da complexidade da pobreza humana. Essa compreens\u00e3o ampliada nos conduzir\u00e1 diretamente \u00e0 necessidade de educar o pobre.<\/p>\n<p>Temos, ent\u00e3o um <strong>duplo erro<\/strong>, provocado por essa falha metateol\u00f3gica: (1) d\u00e1-se uma redu\u00e7\u00e3o da teologia \u00e0s ci\u00eancias humanas, claramente vis\u00edvel &#8211; como sempre &#8211; em um problema Cristol\u00f3gico recorrente, manifesto no caso da cruz de Espinal, entre outros, que \u00e9 a imanentiza\u00e7\u00e3o do Cristo, ou a transforma\u00e7\u00e3o da figura de Cristo em um s\u00edmbolo superestrutural. (2) d\u00e1-se uma redu\u00e7\u00e3o da pr\u00f3pria compreens\u00e3o do humano, achatada pelo filtro de uma ou outra formula\u00e7\u00e3o cient\u00edfica secularizada e inconsciente dos pressupostos religiosos das ci\u00eancias humanas (e aqui vale conhecer melhor a obra de Herman Dooyeweerd).<\/p>\n<p><strong>Em busca de um \u201cVer\u201d Integral<\/strong><\/p>\n<p>Consideremos com mais aten\u00e7\u00e3o este segundo erro: o achatamento da compreens\u00e3o do humano.<\/p>\n<p>Tito Paredes prop\u00f5e uma abordagem multidimensional para a compreens\u00e3o da realidade s\u00f3cio-cultural que tem por objetivo evitar o reducionismo recorrente no uso dessas media\u00e7\u00f5es. Ele sugere que consideremos uma dimens\u00e3o ideol\u00f3gica, que teria a ver com a mentalidade do povo, uma dimens\u00e3o sociol\u00f3gica, que seriam as rela\u00e7\u00f5es interpessoais, pessoas-institucionais e inter-institucionais, uma dimens\u00e3o t\u00e9cnico-econ\u00f4mica, uma dimens\u00e3o ecol\u00f3gica, uma dimens\u00e3o temporal-hist\u00f3rica, uma dimens\u00e3o pessoal e o contexto s\u00f3cio-cultural mais amplo, envolvendo outras culturas e grupos humanos.[<strong>23<\/strong>] Essa abordagem se aproxima muito das posi\u00e7\u00f5es do fil\u00f3sofo reformado Herman Dooyeweerd, que procurou identificar atrav\u00e9s de uma an\u00e1lise fenomenol\u00f3gica o que seriam as dimens\u00f5es b\u00e1sicas da experi\u00eancia humana. Dooyeweerd encontrou 15 \u201cesferas\u201d de soberania, que estariam indissoluvelmente ligadas na experi\u00eancia humana, podendo ser separadas apenas no pensamento te\u00f3rico.<\/p>\n<p>N\u00e3o \u00e9 nosso prop\u00f3sito aqui chegar a uma conclus\u00e3o a respeito de quantas s\u00e3o as dimens\u00f5es da vida humana, para estabelecer uma taxonomia da cultura. Para n\u00f3s \u00e9 suficiente, aqui, apontar a no\u00e7\u00e3o de que existiriam esferas distintas numa sociedade, que s\u00e3o coerentes entre si mas irredut\u00edveis entre si. A partir desse pressuposto, podemos admitir os <em>insights<\/em> da teoria da depend\u00eancia, mas precisaremos ir al\u00e9m, reconhecendo outras causas sociais da pobreza econ\u00f4mica bem como as origens ideol\u00f3gicas e culturais da pobreza, sugeridas na obra de Max Weber e, mais recentemente, nos trabalhos de <strong>David Landes<\/strong>, que contribuiriam tamb\u00e9m para a situa\u00e7\u00e3o de pobreza. Al\u00e9m disso, o evangelho seria a cura para todas as outras dimens\u00f5es da pobreza humana.<\/p>\n<p>Desse modo, ao analisar a condi\u00e7\u00e3o da sociedade, precisamos considerar, por um lado, as dimens\u00f5es \u201cestruturais\u201d; n\u00e3o somente o pol\u00edtico e o econ\u00f4mico, mas tamb\u00e9m as outras esferas (institui\u00e7\u00f5es, arte, sexualidade), como dimens\u00f5es soberanas e n\u00e3o menos \u201cestruturais\u201d. Al\u00e9m disso, \u00e9 necess\u00e1rio considerar o ideol\u00f3gico num sentido mais amplo: a cosmovis\u00e3o daquela sociedade (id\u00e9ias sobre o mundo, a sociedade, o dinheiro, o trabalho, moralidade, etc).<\/p>\n<p>Colocando de outro modo: sem afirmar a prioridade de um sobre o outro, precisamos ver os fatores ideol\u00f3gicos e os fatores estruturais num sentido mais amplo (n\u00e3o s\u00f3 pol\u00edtico e econ\u00f4mico) como dois p\u00f3los em intera\u00e7\u00e3o constante, contribuindo para a transforma\u00e7\u00e3o m\u00fatua. O papel das estruturas n\u00e3o seria necessariamente maior que o da cosmovis\u00e3o na constitui\u00e7\u00e3o da vida humana; isso teria de ser verificado em cada situa\u00e7\u00e3o em sua peculiaridade. <em>Uma &#8220;media\u00e7\u00e3o&#8221; socioanal\u00edtica integral (seria melhor falarmos em <strong>contextualiza\u00e7\u00e3o socioanal\u00edtica<\/strong>) precisa incluir mais do que a teoria da depend\u00eancia, no contexto latino-americano; precisa desenvolver instrumentos de an\u00e1lise da cosmovis\u00e3o latino-americana e de seu papel na produ\u00e7\u00e3o do subdesenvolvimento<\/em>.<\/p>\n<p>Uma vez que se reconhe\u00e7a o papel da cosmovis\u00e3o na determina\u00e7\u00e3o da vida humana, torna-se evidente que qualquer projeto de transforma\u00e7\u00e3o integral precisa cuidar da an\u00e1lise e da transforma\u00e7\u00e3o dos padr\u00f5es de pensamento e dos valores culturais que sustentam comportamentos e estruturas pecaminosas, tanto quanto precisa de a\u00e7\u00f5es de transforma\u00e7\u00e3o estrutural.<\/p>\n<p>Uma\u00a0forma de lidar diretamente com a vis\u00e3o de mundo\u00a0\u00e9 a educa\u00e7\u00e3o em seus diversos n\u00edveis: familiar, escolar, art\u00edstico, etc. Atrav\u00e9s da educa\u00e7\u00e3o a sociedade \u00e9 produzida ou reproduzida, e suas estruturas s\u00e3o mantidas ou modificadas. Al\u00e9m disso, devemos nos lembrar de que sem institui\u00e7\u00f5es novas e renovadas n\u00e3o \u00e9 poss\u00edvel transformar e sustentar uma sociedade, e cada uma das diversas \u00e1reas da vida moderna exige e at\u00e9 mesmo clama por institui\u00e7\u00f5es que preservem e promovam seus bens sociais centrais. Um \u201cver\u201d realmente integral abrir\u00e1 nossa reflex\u00e3o teol\u00f3gica \u00e0 import\u00e2ncia da educa\u00e7\u00e3o, da cria\u00e7\u00e3o de \u00a0novos artefatos e de novas institui\u00e7\u00f5es, para a\u00a0constitui\u00e7\u00e3o da sociedade latino-americana e brasileira.<\/p>\n<p><strong>PARA SABER MAIS<\/strong><\/p>\n<p>Uma exposi\u00e7\u00e3o mais detalhada do problema hermen\u00eautico aqui apresentado [e sobre a rela\u00e7\u00e3o pensamento e praxis] pode ser encontrada no livro &#8220;Cosmovis\u00e3o Crist\u00e3 e Transforma\u00e7\u00e3o: Espiritualidade, Raz\u00e3o e Ordem Social&#8221; que editei em 2006 com Cl\u00e1udio Leite e Maur\u00edcio Cunha pela Editora Ultimato, no cap\u00edtulo 5, &#8220;O Dualismo Natureza\/Gra\u00e7a e a Influ\u00eancia do Humanismo Secular no Pensamento Social Crist\u00e3o (p.123-173).<\/p>\n<p>Para aqueles ansiosos por saber se o programa que denominamos &#8220;progressivismo reformacional&#8221; j\u00e1 dialogou e interagiu com ideias evang\u00e9licas progressistas, conferir no mesmo livro o cap\u00edtulo 9: &#8220;A Teologia Pol\u00edtica da Miss\u00e3o Integral no Brasil e a Filosofia Reformacional: aproxima\u00e7\u00f5es&#8221; (p.237 a 278).<\/p>\n<p>Para os que desejam compreender melhor o referencial\u00a0filos\u00f3fico da cr\u00edtica acima, recomendamos a leitura dos livros de Herman Dooyeweerd, &#8220;No Crep\u00fasculo do Pensamento Ocidental&#8221; (Hagnos), &#8220;Estado e Soberania&#8221; (Vida Nova) e Ra\u00edzes da Cultura \u00a0Ocidental (Cultura Crist\u00e3). Uma introdu\u00e7\u00e3o ao pensamento reformacional com \u00eanfase nas quest\u00f5es de justi\u00e7a <a href=\"https:\/\/www.academia.edu\/1055801\/Poder_Pol%C3%ADtico_e_Justi%C3%A7a_Social_na_Filosofia_Reformacional_de_Herman_Dooyeweerd\" target=\"_blank\">pode ser encontrada clicando aqui<\/a>.<\/p>\n<p>Para compreender mais detalhadamente a falha metateol\u00f3gica do dualismo de Natureza e Gra\u00e7a recomendamos a obra de Herman Bavinck em geral, e um trabalho espec\u00edfico de Herman Dooyeweerd, &#8220;Ra\u00edzes da Cultura Ocidental&#8221;. Vale tamb\u00e9m considerar os trabalhos do teol\u00f3go da Nouvelle Theologie, Henri de Lubac, e do anglicano John Milbank. Finalmente, a express\u00e3o <em>mais popular e acess\u00edvel<\/em>\u00a0do problema encontra-se no livro &#8220;A Morte da Raz\u00e3o&#8221; de Francis Schaeffer, publicado pela ABU Editora.<\/p>\n<p>Para compreender as limita\u00e7\u00f5es do conceito de ideologia e uma apropria\u00e7\u00e3o Crist\u00e3 que evite o loop hermen\u00eautico, recomendamos o livro &#8220;VIs\u00f5es e Ilus\u00f5es Pol\u00edticas&#8221; de David Koyzis (Vida Nova) e, em ingl\u00eas, &#8220;Hope in Troubled Times&#8221;, por Bob Goudzwaard (Baker Academic).<\/p>\n<p>Para compreender melhor algumas aplica\u00e7\u00f5es do progressivismo reformacional, recomendamos a obra editada por \u00a0Rodolfo Amorim e publicada pela editora Ultimato, &#8220;F\u00e9 Crist\u00e3 e Cultura Contempor\u00e2nea&#8221;.<\/p>\n<p><strong>OBSERVA\u00c7\u00c3O IMPORTANTE<\/strong>: <em>este artigo foi escrito h\u00e1 alguns anos, e nunca foi disponibilizado ao p\u00fablico\u00a0at\u00e9 agora. \u00c9 poss\u00edvel que publica\u00e7\u00f5es especializadas tenham sido feitas nos \u00faltimos anos que respondem adequadamente aos problemas levantados aqui. Nesse caso, pe\u00e7o a contribui\u00e7\u00e3o do leitor apontando eventuais erros e ignor\u00e2ncias deste autor com respeito ao <\/em>Status Quaestionis<em>, e recomendando fontes salutares \u00e0 discuss\u00e3o!<\/em><\/p>\n<p>*************************************<\/p>\n<p>[1] H\u00e1 quem veja, nesses versos, uma limita\u00e7\u00e3o do ensino b\u00edblico \u00e0s \u201ccoisas da salva\u00e7\u00e3o\u201d, como se apenas elas estivessem relacionadas ao \u201cEsp\u00edrito de Deus\u201d, e pudessem ser descritas como \u201cas coisas que nos foram dadas gratuitamente\u201d. Entretanto, tal interpreta\u00e7\u00e3o pressup\u00f5e uma dualidade entre a \u201cnatureza\u201d e a \u201cgra\u00e7a\u201d, como se ambas compusessem esferas de realidade independentes e estanques. O dualismo Natureza\/Gra\u00e7a que, ademais, foi um dos respons\u00e1veis pela seculariza\u00e7\u00e3o do cristianismo ocidental, n\u00e3o faz justi\u00e7a \u00e0 cosmovis\u00e3o b\u00edblica integral, rompendo o contato entre evangelho e cultura.<\/p>\n<p>[1] Paredes reconhece que o pensamento de Wagner sofreu algumas mudan\u00e7as nos \u00faltimos anos, mas essas mudan\u00e7as n\u00e3o teriam sido profundas o suficiente; ele ainda subordina a a\u00e7\u00e3o social (mudan\u00e7a s\u00f3cio-pol\u00edtica) ao servi\u00e7o social (assist\u00eancia) por ser este \u00faltimo mais \u00fatil ao crescimento da igreja. Cf. PAREDES, Tito, <em>El Evangelio<\/em>, 2000, p. 49.<\/p>\n<p>[2] Ibid, p. 53.<\/p>\n<p>[3] Ibid, p. 54, 55.<\/p>\n<p>[4] Ibid, p. 58, 59.<\/p>\n<p>[5] BONINO, Jos\u00e9 Miguez, <em>F\u00e9 em Busca de Efic\u00e1cia<\/em>. S\u00e3o Leopoldo: Sinodal, 1987, p. 76 ss. Cf, tamb\u00e9m, MARKEY, John J., <em>Praxis in Liberation Theology: Some Clarifications<\/em>. Missiology: An International Review, vol XXIII, no. 2, April 1995. Aparentemente, dentre os expoentes da Teologia da Liberta\u00e7\u00e3o, apenas Clodovis Boff evita subordinar o pensamento \u00e0s \u201ccondi\u00e7\u00f5es materiais\u201d, isto \u00e9, \u00e0 pr\u00e1xis: \u201c[&#8230;] \u00e9 a pr\u00e1tica p\u00edstica, e n\u00e3o qualquer pr\u00e1tica, que lan\u00e7a certa luz sobre a teologia.\u201d BOFF, Clodovis, <em>Teoria do M\u00e9todo Teol\u00f3gico<\/em>, 2<sup>\u00aa<\/sup> ed. Petr\u00f3polis: Vozes, 1999, p. 183. De um modo geral a compreens\u00e3o de Boff a respeito da rela\u00e7\u00e3o teoria\/pr\u00e1xis \u00e9 bem mais plaus\u00edvel do que a TdL em seus prim\u00f3rdios.<\/p>\n<p>[6] Segundo Samuel Escobar, Bonino aplica essa abordagem ao processo de implanta\u00e7\u00e3o do protestantismo na Am\u00e9rica Latina, compreendendo-o como um instrumento de um \u201cnovo pacto colonial\u201d que constitui os EUA\/Europa como metr\u00f3poles econ\u00f4micas e os pa\u00edses do sul como a periferia do sistema, sujeitados \u00e0 explora\u00e7\u00e3o econ\u00f4mica. Ou seja, utiliza a teoria da depend\u00eancia como instrumento de an\u00e1lise da religi\u00e3o na AL. Cf. ESCOBAR, J. Samuel, <em>Miss\u00e3o na Am\u00e9rica Latina: Uma Interpreta\u00e7\u00e3o S\u00f3cio-pol\u00edtica a partir de uma Perspectiva Evang\u00e9lica<\/em>. Em: STEUERNAGEL, Valdir R., A Miss\u00e3o da Igreja. Belo Horizonte: Miss\u00e3o Editora, 1994, 229-234.<\/p>\n<p>[7] \u201cA teologia sempre utilizou e privilegiou em sua reflex\u00e3o um instrumental filos\u00f3fico, quer dizer, uma media\u00e7\u00e3o filos\u00f3fica (um conjunto de instrumentos conceptuais tirados da filosofia): basta pensar no platonismo na \u00e9poca patr\u00edstica, no aristotelismo na \u00e9poca escol\u00e1stica, ou ent\u00e3o na tem\u00e1tica moderna do transcendental na teologia de Rahner; a teologia da liberta\u00e7\u00e3o, que parte da pr\u00e1xis e visa a pr\u00e1xis, utiliza, ao inv\u00e9s, as ci\u00eancias sociais, privilegiando a media\u00e7\u00e3o s\u00f3cio-anal\u00edtica.\u201d GIBELLINI, Rosino, <em>A Teologia do S\u00e9culo XX<\/em>. S\u00e3o Paulo: Loyola, 1998, p. 355.<\/p>\n<p>[8] \u201cA TLA n\u00e3o aceita o desenvolvimentismo, mas proclama que a necessidade dos povos da Am\u00e9rica Latina \u00e9 a liberta\u00e7\u00e3o.\u201d BARRO, Jorge Henrique, Uma Compreens\u00e3o B\u00e1sica da Teologia Latino-Americana. Boletim Teol\u00f3gico da FTL \u2013 Setor Brasil. n\u00ba 22, vol 8, mar\/abr\/mai 1994, p. 63.<\/p>\n<p>[9] H\u00e1 outros ind\u00edcios nessa dire\u00e7\u00e3o. Podemos pensar aqui, por exemplo, no MEP, em cuja ata de funda\u00e7\u00e3o se pode observar que a maioria absoluta dos membros era filiado ao Partido dos Trabalhadores.<\/p>\n<p>[10] CANELOS, Franklin, <em>Ca<\/em><em>usas U Or\u00edgenes de la Pobreza en Am\u00e9rica Latina<\/em>. Buenos Aires: Kair\u00f3s, 2001, p. 19-47.<\/p>\n<p>[11] Ibid, p. 30.<\/p>\n<p>[12] Ibid, p. 46.<\/p>\n<p>[13] VACA, Victor, <em>Misi\u00f3n Integral y Transformaci\u00f3n estructural desde Am\u00e9rica Latina<\/em>. Buenos Aires: Kair\u00f3s, 2001, p. 49-70.<\/p>\n<p>[14] Ibid, p. 53.<\/p>\n<p>[15] Ibid, p. 51.<\/p>\n<p>[16] Ibid, p. 63.<\/p>\n<p>[17] John Stott, ed., Evangeliza\u00e7\u00e3o e Responsabilidade Social, 1983, p. 40.<\/p>\n<p>[18] Ibid, p. 45.<\/p>\n<p>[19] Embora n\u00e3o exista uma \u00fanica forma de teoria da depend\u00eancia, e as \u201cteorias da depend\u00eancia\u201d n\u00e3o sejam necessariamente marxistas ou reducionistas, seu uso pelos te\u00f3logos costuma ser matizado por uma concep\u00e7\u00e3o socialista de mundo.<\/p>\n<p>[20] \u00c9 verdade que o pr\u00f3prio Victor Vaca apresenta em seu artigo um modelo de miss\u00e3o, aplicado na Funda\u00e7\u00e3o Ecum\u00eanica para o Desenvolvimento da Am\u00e9rica Latina (FEDICE) baseado na educa\u00e7\u00e3o e capacita\u00e7\u00e3o popular. Mas essa iniciativa pretende apenas mobilizar o povo tendo em vista a liberta\u00e7\u00e3o e autonomia pol\u00edtico-econ\u00f4mica, deixando de lado outras dimens\u00f5es de uma educa\u00e7\u00e3o integral. Al\u00e9m disso, ela est\u00e1 presente no CLADE IV, que, de fato, inicia incurs\u00f5es importantes pelos campos do mundo acad\u00eamico e da educa\u00e7\u00e3o superior; mas isso n\u00e3o representa ainda o pensamento de Miss\u00e3o Integral como um todo. Ademais, a educa\u00e7\u00e3o escolar permanece praticamente na sombra.<\/p>\n<p>[21] Para uma exposi\u00e7\u00e3o popular dessa forma de \u201cmeta-teologia\u201d, ou para usar a linguagem de Herman Dooyeweerd, esse \u201cmotivo-base religioso sint\u00e9tico\u201d, cf. SCHAEFFER, Francis, <em>A Morte da Raz\u00e3o<\/em>, 2002, p. 21-30. Para uma exposi\u00e7\u00e3o mais detalhada, cf. KOK, John H., <em>Patterns of Western Mind<\/em>. Sioux Center: Dordt College Press, 1998, p. 75-117.<\/p>\n<p>[22] PAREDES, 2000, p. 64-66.<\/p>\n<p>[23] Em determinadas situa\u00e7\u00f5es, poderia ser constatado que a rigidez das estruturas sociais e, eventualmente, da estrutura econ\u00f4micas, \u00e9 a respons\u00e1vel principal pela pobreza. Em outras situa\u00e7\u00f5es, a cosmovis\u00e3o poderia ter um fator preponderante.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Em um artigo recente, bastante incisivo e homil\u00e9tico, apontei e problematizei o fato muit\u00edssimo relevante de que muitos Crist\u00e3os evang\u00e9licos sentiram-se confusos e incertos sobre a natureza impr\u00f3pria da assim-chamada &#8220;Cruz de Espinal&#8221;, e muitos louvaram o artefato como uma express\u00e3o adequada do evangelho. 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