{"id":1453,"date":"2021-11-27T22:19:33","date_gmt":"2021-11-28T01:19:33","guid":{"rendered":"https:\/\/ultimato.com.br\/sites\/gladircabral\/?p=1453"},"modified":"2021-11-27T22:19:33","modified_gmt":"2021-11-28T01:19:33","slug":"infancia-memoria-e-imaginacao-em-a-bibliotecaria-de-auschwitz-de-antonio-iturbe","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/ultimato.com.br\/sites\/gladircabral\/2021\/11\/27\/infancia-memoria-e-imaginacao-em-a-bibliotecaria-de-auschwitz-de-antonio-iturbe\/","title":{"rendered":"Inf\u00e2ncia, mem\u00f3ria e imagina\u00e7\u00e3o em A Bibliotec\u00e1ria de Auschwitz, de Antonio Iturbe"},"content":{"rendered":"\r\n<p><a href=\"https:\/\/ultimato.com.br\/sites\/gladircabral\/files\/2021\/11\/dita-kraus.jpg\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"aligncenter size-medium wp-image-1458\" src=\"https:\/\/ultimato.com.br\/sites\/gladircabral\/files\/2021\/11\/dita-kraus-300x169.jpg\" alt=\"\" width=\"300\" height=\"169\" srcset=\"https:\/\/ultimato.com.br\/sites\/gladircabral\/files\/2021\/11\/dita-kraus-300x169.jpg 300w, https:\/\/ultimato.com.br\/sites\/gladircabral\/files\/2021\/11\/dita-kraus-1024x576.jpg 1024w, https:\/\/ultimato.com.br\/sites\/gladircabral\/files\/2021\/11\/dita-kraus-768x432.jpg 768w, https:\/\/ultimato.com.br\/sites\/gladircabral\/files\/2021\/11\/dita-kraus-732x412.jpg 732w, https:\/\/ultimato.com.br\/sites\/gladircabral\/files\/2021\/11\/dita-kraus-1140x641.jpg 1140w, https:\/\/ultimato.com.br\/sites\/gladircabral\/files\/2021\/11\/dita-kraus.jpg 1366w\" sizes=\"auto, (max-width: 300px) 100vw, 300px\" \/><\/a>Que tenha havido inf\u00e2ncia em Auschwitz j\u00e1 \u00e9 surpreendente. As crian\u00e7as eram enviadas para as c\u00e2maras de g\u00e1s logo na chegada. Que tenha havido biblioteca, ent\u00e3o, \u00e9 um milagre. Num espa\u00e7o constru\u00eddo para a extin\u00e7\u00e3o do humano, para o apagamento da mem\u00f3ria e da liberdade, o acesso aos livros configura absurdo de ousadia e resist\u00eancia. Como disse certa vez o poeta William Somerset Maugham, \u201c[a]dquirir o h\u00e1bito da leitura \u00e9 construir para si um ref\u00fagio contra quase todas as mis\u00e9rias da vida\u201d (1940, p. 7). Um fr\u00e1gil ref\u00fagio, certamente, pois afinal o que fazer diante da guerra, quando se \u00e9 apenas uma crian\u00e7a? Como observa o narrador de A Bibliotec\u00e1ria de Auschwitz, com certo pessimismo, \u201c[p]ara ser crian\u00e7a, \u00e9 preciso ter uma inf\u00e2ncia\u201d (Iturbe, 2014, p. 80). Uma coisa \u00e9 haver crian\u00e7a, outra coisa \u00e9 haver inf\u00e2ncia.<br \/><br \/>A Biblioteca de Auschwitz funcionava no bloco 31, conhecido como o bloco infantil do campo familiar de IIbii, pois ali as fam\u00edlias n\u00e3o eram separadas, como acontecia em todo o resto do complexo de Auschwitz e em todos os demais campos de concentra\u00e7\u00e3o nazistas. O livro do escritor espanhol Iturbe \u00e9 baseado em pesquisas e entrevistas pessoais com Dita Kraus, sobrevivente do campo e conhecida como a bibliotec\u00e1ria de Auschwitz. Dita nasceu em Praga, capital da antiga Tchecoslov\u00e1quia. Em 1942, Dita, com apenas 13 anos, foi deportada juntamente com a fam\u00edlia para o gueto de Theresienstadt, depois para Auschwitz. Ali ela testemunhou a morte do seu pai. Meses depois, ela e a m\u00e3e foram levadas para o campo de Bergen-Belsen, onde foram libertadas pelas for\u00e7as aliadas em 1945.<br \/><br \/>O romance vai mostrando como a inf\u00e2ncia pode ser protegida at\u00e9 mesmo em um lugar \u00e1rido como um campo de concentra\u00e7\u00e3o, como ela resiste e cresce, sorvendo o m\u00e1ximo de afeto de seus pais ainda vivos, apegando-se a seus professores no bloco 31, ouvindo e imaginando hist\u00f3rias, brincando, rindo e cantando ainda que em meio \u00e0 fome, \u00e0 lama e ao frio. Sem d\u00favida, as crian\u00e7as n\u00e3o eram imunes ao terror nem ao risco da morte, mas muitas conseguiram opor-se \u00e0 for\u00e7a desumanizadora e ca\u00f3tica ao redor. <br \/><br \/>A mem\u00f3ria foi uma das estrat\u00e9gias utilizadas por Dita para vencer o desespero e a fome. Uma das coisas que aprendeu a fazer foi \u201ctransformar recorda\u00e7\u00f5es em fotografias, e sua cabe\u00e7a, no \u00fanico \u00e1lbum que ningu\u00e9m poder\u00e1 lhe tomar\u201d (p. 81). Assim, a crian\u00e7a ia decorando sua mente com imagens do passado, para n\u00e3o esquecer quem era, para n\u00e3o esquecer que um dia fora feliz. Ao deitar-se no catre de palha, ao ver-se sozinha, a menina recordava fragmentos de seu passado e assim alimentava sua esperan\u00e7a de um dia sair dali. <br \/><br \/>A imagina\u00e7\u00e3o foi outra grande estrat\u00e9gia de sobreviv\u00eancia de Dita. E nesse ponto, os livros da biblioteca foram fundamentais, tanto os oito livros que ela guardava, que inclu\u00edam uma gram\u00e1tica russa, um livro de psicologia, um romance franc\u00eas e um de H.G. Wells entre outros, quanto os livros vivos, isto \u00e9, prisioneiros volunt\u00e1rios que se dispunham a contar para as crian\u00e7as hist\u00f3rias de outras obras da literatura universal, como O Conde de Monte Cristo, al\u00e9m das hist\u00f3rias da B\u00edblia. H\u00e1 uma cena em que Dita diz a uma senhora que hesitava em colaborar como livro vivo: \u201c[&#8230;] durante uma hist\u00f3ria, as crian\u00e7as esquecem que est\u00e3o nesse est\u00e1bulo cheio de pulgas, deixam de sentir o cheiro de carne queimada, deixam de ter medo. Durante esses minutos, as crian\u00e7as s\u00e3o felizes. [&#8230;] Se olharmos para a realidade, sentimos asco e raiva. S\u00f3 nos resta a imagina\u00e7\u00e3o, senhora Mark\u00e9ta\u201d (p. 406).<br \/><br \/>Gladir Cabral<br \/><br \/>Antonio Iturbe. A Bibliotec\u00e1ria de Auschwitz. Trad. D\u00eania Sad. Rio de Janeiro: Agir, 2014.<\/p>\r\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Que tenha havido inf\u00e2ncia em Auschwitz j\u00e1 \u00e9 surpreendente. As crian\u00e7as eram enviadas para as c\u00e2maras de g\u00e1s logo na chegada. Que tenha havido biblioteca, ent\u00e3o, \u00e9 um milagre. Num espa\u00e7o constru\u00eddo para a extin\u00e7\u00e3o do humano, para o apagamento da mem\u00f3ria e da liberdade, o acesso aos livros configura absurdo de ousadia e resist\u00eancia. 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