{"id":1412,"date":"2020-03-21T18:41:20","date_gmt":"2020-03-21T21:41:20","guid":{"rendered":"http:\/\/ultimato.com.br\/sites\/gladircabral\/?p=1412"},"modified":"2020-03-21T18:53:13","modified_gmt":"2020-03-21T21:53:13","slug":"o-virus-o-principe-e-a-mascara-num-conto-de-edgar-allan-poe","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/ultimato.com.br\/sites\/gladircabral\/2020\/03\/21\/o-virus-o-principe-e-a-mascara-num-conto-de-edgar-allan-poe\/","title":{"rendered":"O v\u00edrus, o pr\u00edncipe e a m\u00e1scara num conto de Edgar Allan Poe"},"content":{"rendered":"<p>&nbsp;<\/p>\n<p>O conto de Edgar Allan Poe \u201cA m\u00e1scara da morte rubra\u201d (1842) \u00e9 uma hist\u00f3ria aterradora sobre um v\u00edrus que assola um pa\u00eds inteiro. A popula\u00e7\u00e3o j\u00e1 havia sido reduzida \u00e0 metade. Ironicamente, o pr\u00edncipe daquele reino arrasado se chama Pr\u00f3spero, e este resolve isolar-se do resto da popula\u00e7\u00e3o contaminada. Pensando nisso, ele chama \u201cmil amigos saud\u00e1veis e festivos\u201d para se esconderem numa \u201cabadia acastelada\u201d \u2013 s\u00e3o os c\u00famplices dos desejos de felicidade privada do pr\u00edncipe e seus pares. Entre as muralhas, os port\u00f5es do castelo eram feitos de a\u00e7o e foram chumbados a ferrolhos. \u201cA abadia tinha provis\u00f5es em abund\u00e2ncia. Com tais precau\u00e7\u00f5es, os cortes\u00e3os poderiam desafiar o cont\u00e1gio. O mundo exterior tomaria conta de si mesmo\u201d. Enquanto isso, a peste se alastrava pelo pa\u00eds. A contamina\u00e7\u00e3o era fulminante: entre os primeiros sintomas e a morte fatal, passavam-se apenas 30 minutos.<\/p>\n<p>A hist\u00f3ria exp\u00f5e v\u00e1rios ind\u00edcios da insanidade mental do pr\u00edncipe, devidamente negada por ele e por seus amigos, a come\u00e7ar pelo seu gosto duvidoso pelo bizarro, pelo exc\u00eantrico, pelo extravagante. A abadia que escolhera como ref\u00fagio contava com sete sal\u00f5es, cada um decorado pesadamente com cores e motivos distintos \u2013 havia o sal\u00e3o azul, o p\u00farpura, o verde, o laranja, o branco, o violeta e o preto. Cada sal\u00e3o era decorado com as mesmas cores \u2013 teto, paredes e ch\u00e3o. Nas paredes de cada sal\u00e3o havia vitrais combinando com as cores internas de cada sal\u00e3o. A ilumina\u00e7\u00e3o vinha de um corredor externo, onde trip\u00e9s sustentando braseiros em chama que lan\u00e7avam seus clar\u00f5es atrav\u00e9s dos vitrais. A inten\u00e7\u00e3o talvez fosse produzir efeitos belos; o resultado, no entanto, era fantasmag\u00f3rico e aterrador, principalmente no \u00faltimo sal\u00e3o, decorado de preto, que tamb\u00e9m continha um grande rel\u00f3gio de \u00e9bano que marcava as horas com fortes badalas. Movendo-se entre o desespero e a loucura, o Pr\u00edncipe parece deseja r evitar o cont\u00e1gio a todo custo, elevar a moral dos convivas. No entanto, tudo soava no limite do insano. \u201cAlguns o viam como louco, mas seus seguidores n\u00e3o compartilhavam desta opini\u00e3o\u201d. Loucura, insanidade no comportamento, excentricidade nas atitudes, isolamento do resto do mundo.<\/p>\n<p>Passado algum tempo, para vencer o t\u00e9dio e a rotina daquela quarentena sem data para acabar, o Pr\u00edncipe resolve dar uma grande festa. Este \u00e9 mais um sinal de uma racionalidade enviesada: uma festa palaciana em meio \u00e0 desgra\u00e7a do mundo. Ele foge da atitude mais sensata para um governante naquela altura da hist\u00f3ria, que seria um esp\u00edrito contrito capaz de conhecer a linguagem do lamento, uma mente capaz de raciocinar conscientemente sobre o que estava acontecendo. Em vez disso, ele segue a trilha do escapismo e promove um grande baile \u00e0 fantasia, com muita comida, bebida, orquestra de m\u00fasica, dan\u00e7a, buf\u00f5es, artistas, improvisadores, e os convidados usando m\u00e1scaras ex\u00f3ticas, bizarras. As pr\u00f3prias fantasias utilizadas pelos convivas revelam a insanidade generalizada. \u201cHavia figuras arabescas com membros e adornos desproporcionais. Eram fantasias delirantes como as de um louco\u201d. O tempo \u00e9 de Peste e Morte, mas Pr\u00f3spero quer celebrar a Beleza e o vinho. Deseja tudo o que possa proporcionar prazer e fuga daquela realidade t\u00e3o sombria ao redor do castelo.<\/p>\n<p>Em toda a narrativa do conto h\u00e1 uma presen\u00e7a constante: o tempo. Desde o in\u00edcio, pela rapidez do avan\u00e7o da doen\u00e7a, at\u00e9 as constantes e assustadoras batidas do rel\u00f3gio de parede, cujo som \u00e9 t\u00e3o forte que obriga a orquestra a silenciar e deixa a todos assustados e perplexos, o tempo marca a narrativa, que vem num crescendo de tens\u00e3o. Por esse motivo muitos acabam interpretando o conto como uma grande alegoria da morte, da finitude humana. A praga se espalhando pelo pa\u00eds, os moribundos todos. Enquanto isso, no castelo, os ecos das batidas do rel\u00f3gio imp\u00f5em sil\u00eancio, interrompem a festas, fazem pensar. Por\u00e9m essa n\u00e3o \u00e9 a \u00fanica leitura poss\u00edvel.<\/p>\n<p>H\u00e1 tamb\u00e9m no conto um ingrediente de desmesura, de quebra dos limites, de ultrapassagem do que \u00e9 apropriado e sensato. Nota-se isso a come\u00e7ar pela caracteriza\u00e7\u00e3o do Pr\u00edncipe como um sujeito exc\u00eantrico e de gosto extravagante. A decora\u00e7\u00e3o pesada dos sal\u00f5es, o jogo de luz e sombra que deixa tudo dram\u00e1tico, tenso, horripilante. No baile de m\u00e1scaras, do qual os convidados participam de modo ca\u00f3tico, desabrido, quase imoral, luxurioso, tudo faz crer que estamos no limite entre o que \u00e9 aceit\u00e1vel, o que est\u00e1 dentro do decoro, e o grotesco, o que ultrapassa essa medida, algo que os antigos gregos associavam ao conceito de <em>hybris<\/em>. Entretanto, embora a festa fosse grande, nenhum foli\u00e3o se aventurava adentrar o sal\u00e3o negro e rubro. Ali o medo era maior. Ali o pavor imperava. Os da corte sentiam a press\u00e3o do decoro: \u201cH\u00e1 cordas no cora\u00e7\u00e3o dos mais imprudentes que n\u00e3o podem ser tocadas sem emo\u00e7\u00e3o\u201d. At\u00e9 os insanos temem ultrapassar esse limite. E foi essa desmesura \u00faltima e absoluta que identificaram no porte e na m\u00e1scara do novo convidado, do estranho que subitamente apareceu e interrompeu a festa, uma presen\u00e7a perturbadora que desfaz a roda do poder. H\u00e1 algo de blasf\u00eamia no mascarado. No fundo, o mascarado vem para revelar a desmesura do Pr\u00edncipe, como reflexo fantasmag\u00f3rico, como espelho de pavor. Ele chega ao fim da narrativa, perto da meia noite, quando a tens\u00e3o das batidas do rel\u00f3gio atingia seu \u00e1pice. Ele vem para dar fim \u00e0 festa, ao pr\u00edncipe e \u00e0 corte. Quando sua m\u00e1scara \u00e9 retirada, revela-se um grande e profundo vazio de morte e peste e medo. Todos s\u00e3o imediatamente contaminados. A princ\u00edpio todos sentem repulsa pelo mascarado, como se ele fosse blasfemo. Todos pensam que ele \u00e9 uma farsa, mas esse mascarado vem de fato para desmascarar a farsa e a blasf\u00eamia do Pr\u00edncipe e de todos na corte.<\/p>\n<p>Creio que essa \u00e9 tamb\u00e9m uma hist\u00f3ria sobre o poder e como o Pr\u00edncipe foge das urg\u00eancias do dia e do povo (a peste) em busca da seguran\u00e7a do isolamento da corte e seu mundo imagin\u00e1rio. \u00c9 assustadora a falta de solidariedade e responsabilidade para com os que ficaram do lado de fora da abadia, os que foram condenados \u00e0 morte pela peste. Ou seja, no final esse \u00e9 um conto sobre o poder e a omiss\u00e3o de cuidado para com o povo que sofre. \u00c9 o poder sem amor, sem um m\u00ednimo de empatia pelos pobres e adoentados. O poder e o desejo delirante de perman\u00eancia a qualquer pre\u00e7o, de festa do sem fim, de celebra\u00e7\u00e3o desesperada da vida que se agarra a um fiapo de ilus\u00e3o, uma chama flamejante de prazer alienado e alucinado. \u00c9 a grande festa da elite da corte, que quer se salvar sozinha e deixar que a popula\u00e7\u00e3o se vire com o v\u00edrus, com a doen\u00e7a, com a morte.<\/p>\n<p>O conto n\u00e3o mostra, mas deixa impl\u00edcito, e podemos imaginar a cena: o povo fora dos muros fechados da abadia, chorando, morrendo, sofrendo sem assist\u00eancia e sem piedade, a ouvir o som distante da festa nos sal\u00f5es do Pr\u00edncipe. Entretanto, ali entre os desalentados n\u00e3o h\u00e1 ilus\u00f5es e falsas esperan\u00e7as. Quem sabe ali haja a solidariedade humana que n\u00e3o h\u00e1 e nunca houve na corte palaciana, a proximidade e a nudez do real, do sofrimento, da verdade da dor humana. Talvez ali haja algo novo, mais nobre, longe do Belo grotesco da corte, do Belo como fantasia, como fuga e idealiza\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>A vida n\u00e3o \u00e9 uma festa \u00e0 fantasia, a vida \u00e9 para valer. Quem n\u00e3o leva isso a s\u00e9rio se d\u00e1 mal na hist\u00f3ria. Quem evita o caminho da responsabilidade pelo outro, a vida da solidariedade, e cria para si um mundo imagin\u00e1rio acaba tendo de encarar um acerto de contas final consigo mesmo e com a hist\u00f3ria. O erro fatal de Pr\u00f3spero foi negar a realidade, fugir de suas responsabilidades como l\u00edder da na\u00e7\u00e3o, tirar de sua vida a colossal presen\u00e7a dos enfermos, oprimidos e moribundos do seu povo. Foi achar que a beleza, a arte, a festa, o vinho, seriam suficientes para deixar do lado de fora o outro e sua dor.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>Leia o conto na \u00edntegra:<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><a href=\"https:\/\/seer.ufrgs.br\/cadernosdetraducao\/article\/view\/82996\/48201\">https:\/\/seer.ufrgs.br\/cadernosdetraducao\/article\/view\/82996\/48201<\/a><\/p>\n<p><a href=\"http:\/\/ultimato.com.br\/sites\/gladircabral\/files\/2020\/03\/poe.jpg\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"aligncenter size-full wp-image-1413\" src=\"http:\/\/ultimato.com.br\/sites\/gladircabral\/files\/2020\/03\/poe.jpg\" alt=\"\" width=\"201\" height=\"320\" srcset=\"https:\/\/ultimato.com.br\/sites\/gladircabral\/files\/2020\/03\/poe.jpg 201w, https:\/\/ultimato.com.br\/sites\/gladircabral\/files\/2020\/03\/poe-188x300.jpg 188w\" sizes=\"auto, (max-width: 201px) 100vw, 201px\" \/><\/a><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>&nbsp; O conto de Edgar Allan Poe \u201cA m\u00e1scara da morte rubra\u201d (1842) \u00e9 uma hist\u00f3ria aterradora sobre um v\u00edrus que assola um pa\u00eds inteiro. 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