{"id":1351,"date":"2018-11-01T21:41:24","date_gmt":"2018-11-02T00:41:24","guid":{"rendered":"http:\/\/ultimato.com.br\/sites\/gladircabral\/?p=1351"},"modified":"2018-11-01T21:41:24","modified_gmt":"2018-11-02T00:41:24","slug":"sinais-do-humano-em-vidas-secas-de-graciliano-ramos","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/ultimato.com.br\/sites\/gladircabral\/2018\/11\/01\/sinais-do-humano-em-vidas-secas-de-graciliano-ramos\/","title":{"rendered":"Sinais do humano em Vidas Secas, de Graciliano Ramos"},"content":{"rendered":"<p><a href=\"http:\/\/ultimato.com.br\/sites\/gladircabral\/files\/vidas-secas.jpg\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"aligncenter size-full wp-image-1352\" src=\"http:\/\/ultimato.com.br\/sites\/gladircabral\/files\/vidas-secas.jpg\" alt=\"\" width=\"640\" height=\"295\" srcset=\"https:\/\/ultimato.com.br\/sites\/gladircabral\/files\/vidas-secas.jpg 640w, https:\/\/ultimato.com.br\/sites\/gladircabral\/files\/vidas-secas-300x138.jpg 300w\" sizes=\"auto, (max-width: 640px) 100vw, 640px\" \/><\/a><\/p>\n<p>O romance <strong>Vidas Secas<\/strong>, de Graciliano Ramos, \u00e9 hoje um cl\u00e1ssico da literatura moderna brasileira. Vinculado ao regionalismo, o livro foi publicado em 1938 e traz a hist\u00f3ria de uma fam\u00edlia de retirantes nordestinos fugindo da seca em busca de um lugar onde possam viver. Os principais personagens s\u00e3o: Fabiano, o pai; Sinh\u00e1 Vit\u00f3ria, a m\u00e3e; o menino mais velho; o menino mais novo; o papagaio; e a cachorrinha Baleia. Em 2018 a obra completa 80 anos de publica\u00e7\u00e3o e este texto pretende ser uma singela celebra\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>O livro mostra como a inclem\u00eancia da seca, a aridez da Caatinga e o abandono do governo se juntam para conspirar contra a vida de uma pequena fam\u00edlia do interior do Brasil.<\/p>\n<p>Desde o come\u00e7o do romance fica evidente o embrutecimento das pessoas pelo modo como se tratam, pela din\u00e2mica das rela\u00e7\u00f5es que estabelecem, pela dificuldade na articula\u00e7\u00e3o da linguagem, pela aspereza dos sentimentos. Fabiano, por exemplo, \u201c[e]ra bruto, n\u00e3o fora ensinado. [&#8230;] Um cabra [&#8230;] Bruto, sim senhor [&#8230;] n\u00e3o sabia ler (um bruto, sim senhor)\u201d (1986, p. 93).<\/p>\n<p>Fabiano tem momentos excruciantes de sofrimento na tentativa de organizar o pensamento e articular uma fala que seja. Ele \u201c[p]endia para um lado, para o outro lado, cambaio, torto e feio. \u00c0s vezes utilizava nas rela\u00e7\u00f5es com as pessoas a mesma l\u00edngua com que se dirigia aos brutos \u2013 exclama\u00e7\u00f5es, onomatopeias. Na verdade falava pouco\u201d (1986, p. 20).<\/p>\n<p>Todavia, ainda que haja uma for\u00e7a violenta de desumaniza\u00e7\u00e3o agindo na hist\u00f3ria, um peso de embrutecimento e animaliza\u00e7\u00e3o, h\u00e1 tamb\u00e9m um \u00edmpeto de resist\u00eancia do humano que se revela nas personagens, em sua vida interior e em suas rela\u00e7\u00f5es. A esperan\u00e7a de encontrar um lugar melhor \u00e9 uma pot\u00eancia irresist\u00edvel que impulsiona os retirantes a seguir adiante. O exerc\u00edcio cont\u00ednuo da mem\u00f3ria e dos la\u00e7os de fam\u00edlia.<\/p>\n<p>Ironicamente, o maior sinal de resist\u00eancia do humano \u00e9 protagonizado pela cachorra Baleia, cuja sensibilidade, solidariedade e afetividade contrastam com a desumaniza\u00e7\u00e3o circundante. Ela \u00e9 figura lembrada atrav\u00e9s de toda narrativa ao confirmar a humanidade das personagens humanas. Ela guarda tra\u00e7os humanizados e, em seu comovente circular pela casa e interagir com fam\u00edlia, inspira tra\u00e7os humanizantes.<\/p>\n<p>Baleia, cujo nome tamb\u00e9m \u00e9 sugestivo, pois chama aten\u00e7\u00e3o para a falta de \u00e1gua do seu ambiente de vida, \u00e9 sempre alvo de viol\u00eancia, pontap\u00e9s, xingamentos, mas perdoa sempre, salva a fam\u00edlia da fome ao trazer um pre\u00e1 para o jantar, \u00e9 paciente, espera seu momento, sua parte da refei\u00e7\u00e3o, isto \u00e9, os ossos. Baleia tem sonhos, sonhos de c\u00e3o. Sua vida e morte s\u00e3o heroicas em propor\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>Em tempos atuais de tantas formas de embrutecimento, <strong>Vidas Secas<\/strong> segue sendo um chamamento \u00e0 consci\u00eancia humana, \u00e0 consci\u00eancia ambiental e ao respeito pelos animais n\u00e3o humanos.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>Gladir Cabral<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>RAMOS, Graciliano. <strong>Vidas Secas<\/strong>. 56. ed. S\u00e3o Paulo: Record, 1986.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><iframe loading=\"lazy\" width=\"750\" height=\"563\" src=\"https:\/\/www.youtube.com\/embed\/do-ZTroCt-Y?feature=oembed\" frameborder=\"0\" allow=\"accelerometer; autoplay; encrypted-media; gyroscope; picture-in-picture\" allowfullscreen><\/iframe><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>O romance Vidas Secas, de Graciliano Ramos, \u00e9 hoje um cl\u00e1ssico da literatura moderna brasileira. 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