{"id":1329,"date":"2018-02-27T10:01:59","date_gmt":"2018-02-27T13:01:59","guid":{"rendered":"http:\/\/ultimato.com.br\/sites\/gladircabral\/?p=1329"},"modified":"2018-02-07T11:09:21","modified_gmt":"2018-02-07T14:09:21","slug":"a-ressignificacao-do-sagrado","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/ultimato.com.br\/sites\/gladircabral\/2018\/02\/27\/a-ressignificacao-do-sagrado\/","title":{"rendered":"A ressignifica\u00e7\u00e3o do sagrado"},"content":{"rendered":"<h4><strong>\u201cVim para sofrer as influ\u00eancias do tempo \/ E para afirmar o princ\u00edpio eterno de onde vim\u201d: a ressignifica\u00e7\u00e3o do sagrado em Murilo Mendes<\/strong><\/h4>\n<p style=\"text-align: left;\"><em>Por Edson Munck Junior<a href=\"#_ftn1\" name=\"_ftnref1\">*<\/a><\/em><\/p>\n<p>A obra po\u00e9tica <em>Tempo e eternidade<\/em>, publicada por Murilo Mendes em 1935, pode ser lida como promotora de di\u00e1logo entre o modernismo e a tradi\u00e7\u00e3o b\u00edblico-crist\u00e3. O livro, elaborado em parceria com o poeta Jorge de Lima, tinha, em sua primeira edi\u00e7\u00e3o, a ep\u00edgrafe \u201crestauremos a Poesia em Cristo\u201d. Assim, a publica\u00e7\u00e3o pretendia efetivar esfor\u00e7os da intelectualidade cat\u00f3lica brasileira com vistas \u00e0 reelabora\u00e7\u00e3o da experi\u00eancia e da significa\u00e7\u00e3o do sagrado na primeira metade do s\u00e9culo XX no pa\u00eds. A partir das reflex\u00f5es cr\u00edticas de Jos\u00e9 Guilherme Merquior, La\u00eds Corr\u00eaa de Ara\u00fajo, Oct\u00e1vio Paz, Mircea Eliade e outros te\u00f3ricos, verificou-se como se deram esses esfor\u00e7os de associa\u00e7\u00e3o entre a linguagem po\u00e9tica modernista e a linguagem religiosa crist\u00e3, refletindo-se sobre os efeitos dessa aproxima\u00e7\u00e3o. Nesse sentido, sugere-se um exerc\u00edcio de leitura dos poemas murilianos presentes em <em>Tempo e eternidade<\/em>, abarcando tr\u00eas movimentos do livro, a saber: o mundo ca\u00eddo, o mundo em Cristo e o mundo vindouro. Desse modo, prop\u00f5e-se que, mediante esta chave de leitura, compreenda-se o percurso da restaura\u00e7\u00e3o po\u00e9tica proposto no mote original.<\/p>\n<p>A din\u00e2mica do contato da literatura com o sagrado \u00e9 percept\u00edvel na po\u00e9tica de Murilo Mendes. Em <em>Tempo e eternidade<\/em>, especificamente, livro publicado em 1935, os 36 poemas murilianos est\u00e3o em di\u00e1logo intenso com o universo m\u00edtico-religioso crist\u00e3o, tornando-o atual mediante a aproxima\u00e7\u00e3o deste com a linguagem liter\u00e1ria modernista. Para Mircea Eliade, o mito est\u00e1 vinculado \u00e0 no\u00e7\u00e3o de sagrado, j\u00e1 que lida com o aspecto sobrenatural, sobre-humano. A empreitada de ativa\u00e7\u00e3o dos mitos, mediante a reencena\u00e7\u00e3o ou vocaliza\u00e7\u00e3o dos mesmos, promove a reintegra\u00e7\u00e3o dos homens com aquele \u201ctempo fabuloso\u201d (ELIADE, 2010, p. 21), permitindo-lhes ser \u201ccontempor\u00e2neos\u201d dos deuses, dos her\u00f3is e dos eventos que estes promoveram <em>in illo tempore<\/em> (ELIADE, 2010, p. 21). Reviver os mitos permite ao sujeito a sa\u00edda \u201cdo tempo profano, cronol\u00f3gico, ingressando num tempo qualitativamente diferente, um tempo \u201csagrado\u201d, ao mesmo tempo primordial e indefinidamente recuper\u00e1vel\u201d (ELIADE, 2010, p. 21). Assim, ao colocar em contato a tradi\u00e7\u00e3o religiosa crist\u00e3 e a dic\u00e7\u00e3o modernista de sua linguagem, Murilo Mendes, em seu tempo, ativa o mito e esbo\u00e7a criativamente a l\u00edngua do eterno, fazendo-a presente mediante sua <em>poi\u00e9sis<\/em>.<\/p>\n<p>Jos\u00e9 Guilherme Merquior sumariza os exerc\u00edcios de religiosidade que o modernista executou em sua obra e, sobretudo, em <em>Tempo e eternidade<\/em>. Segundo o cr\u00edtico liter\u00e1rio, a religiosidade muriliana \u00e9 marcada por uma condi\u00e7\u00e3o de ambival\u00eancia tal que permite notar um eu l\u00edrico no qual se entrev\u00ea a condi\u00e7\u00e3o de um \u201ccrist\u00e3o dial\u00e9tico\u201d, de um \u201creligioso moderno\u201d, evidenciando \u201cuma concep\u00e7\u00e3o de vida sob o signo marcante do devir\u201d (MERQUIOR, 1965, p. 55). Esse sujeito marcado pela redefini\u00e7\u00e3o constante de sua condi\u00e7\u00e3o e de sua exist\u00eancia coloca em jogo um perfil interessante na l\u00edrica de Murilo Mendes. O tra\u00e7o em devir da religiosidade manifesta nos textos do poeta faz lembrar o que, em <em>O arco e a lira<\/em>, Octavio Paz escreve acerca do sagrado, dizendo que o sagrado \u00e9 redefinidor do tempo e do espa\u00e7o, afirmando \u201caqui e l\u00e1\u201d, tornando os corpos \u201cub\u00edquos\u201d, dissolvendo os \u201climites do nosso pensar\u201d (PAZ, 2012, p. 133).<\/p>\n<p><!--more--><\/p>\n<p>Neste trabalho, quer-se destacar as rela\u00e7\u00f5es que a literatura estabelece com o sagrado na obra po\u00e9tica de Murilo Mendes, especificamente, no livro <em>Tempo e eternidade<\/em>. Pelo fato de, biograficamente, o poeta ser crist\u00e3o e cat\u00f3lico, tratar-se-\u00e1, em geral, do sacro relacionado ao Cristianismo. A hip\u00f3tese que se quer perseguir nestas linhas \u00e9 a de que o poeta se dedicou a retratar poeticamente a experi\u00eancia com o sagrado ap\u00f3s sua experi\u00eancia de convers\u00e3o \u00e0 f\u00e9 crist\u00e3<a href=\"#_ftn2\" name=\"_ftnref2\">[1]<\/a>. Segundo La\u00eds Corr\u00eaa de Ara\u00fajo, \u00e9 em <em>Tempo e eternidade<\/em> que o processo de convers\u00e3o de Murilo Mendes se documenta literariamente (ARA\u00daJO, 1972, p. 35). E, como proposta de an\u00e1lise desse livro, sugerem-se tr\u00eas chaves de leitura: o mundo ca\u00eddo, o mundo em Cristo e o mundo vindouro.<\/p>\n<p><strong>Afirma\u00e7\u00f5es do eterno sob as influ\u00eancias do tempo<\/strong><\/p>\n<p>No poema \u201cAng\u00fastia e rea\u00e7\u00e3o\u201d, Murilo Mendes elabora um exerc\u00edcio de reflex\u00e3o e problematiza\u00e7\u00e3o da condi\u00e7\u00e3o ca\u00edda do homem e do mundo.<\/p>\n<blockquote><p>H\u00e1 noites intranspon\u00edveis,<br \/>\nH\u00e1 dias em que para nosso movimento em Deus.<br \/>\nH\u00e1 tardes em que qualquer vagabunda<br \/>\nParece mais alta do que a pr\u00f3pria musa.<br \/>\nH\u00e1 instantes em que um avi\u00e3o<br \/>\nNos parece mais belo que um mist\u00e9rio de f\u00e9,<br \/>\nEm que uma teoria pol\u00edtica<br \/>\nTem mais realidade que o Evangelho.<br \/>\nEm que Jesus foge de n\u00f3s, foi para o Egito:<br \/>\nO tempo sobrep\u00f5e-se \u00e0 ideia do eterno.<br \/>\n\u00c9 necess\u00e1rio morrer de tristeza e nojo<br \/>\nPor viver num mundo aparentemente abandonado por Deus,<br \/>\nE ressuscitar pela for\u00e7a da prece, da poesia e do amor.<br \/>\n\u00c9 necess\u00e1rio multiplicar-se em dez, em cinco mil.<br \/>\n\u00c9 necess\u00e1rio chicotear os que profanam as igrejas<br \/>\n\u00c9 necess\u00e1rio caminhar sobre as ondas.<\/p>\n<p>(MENDES, 1994, p. 252-253)<\/p><\/blockquote>\n<p>A ang\u00fastia do sujeito l\u00edrico se faz notar mediante a organiza\u00e7\u00e3o discursiva da an\u00e1fora de abertura do poema: \u201cH\u00e1&#8230;\u201d. Nos quatro movimentos anaf\u00f3ricos, percebem-se situa\u00e7\u00f5es que provocam tens\u00e3o no indiv\u00edduo, levando-o a se lamentar. Soma-se a essa angustiante repeti\u00e7\u00e3o o elencar substantivos que sugerem temporalidade cronol\u00f3gica, \u201cnoites\u201d, \u201cdias\u201d, \u201ctardes\u201d e \u201cinstantes\u201d, qui\u00e7\u00e1, numa sugest\u00e3o da amplitude dessa ang\u00fastia, que envolve todos os tempos conhecidos da cronologia do homem. Os lamentos percept\u00edveis relacionam-se ao apego \u00e0quilo que \u00e9 ef\u00eamero ou material (\u201cqualquer vagabunda\u201d, avi\u00e3o\u201d, \u201cteoria pol\u00edtica\u201d, \u201ctristeza e nojo\u201d, \u201cmundo aparentemente abandonado por Deus\u201d), gerando imobilidade no sujeito, conforme se percebe no voc\u00e1bulo \u201cintranspon\u00edveis\u201d e na ora\u00e7\u00e3o \u201cH\u00e1 dias em que para nosso movimento em Deus\u201d.<\/p>\n<p>A outra an\u00e1fora que domina os versos 11 a 16 do poema torna flagrante o car\u00e1ter de rea\u00e7\u00e3o do texto muriliano: \u201c\u00c9 necess\u00e1rio&#8230;\u201d. Tal atitude afirmativa que se sugere ganha fei\u00e7\u00f5es imperativas pelo uso do voc\u00e1bulo \u201cnecess\u00e1rio\u201d, conferindo car\u00e1ter injuntivo \u00e0s a\u00e7\u00f5es propostas. Os atos sugeridos de forma exortativa \u2013 \u201cmorrer de tristeza e nojo\u201d, \u201cmultiplicar-se em dez, em cinco mil\u201d, \u201cchicotear os que profanam as igrejas\u201d e \u201ccaminhar sobre as ondas\u201d \u2013 come\u00e7am pela convoca\u00e7\u00e3o \u00e0 morte, talvez, para que se realize o que afirma o verso \u201cE ressuscitar pela for\u00e7a da prece, da poesia e do amor\u201d, ou seja, a inaugura\u00e7\u00e3o de uma exist\u00eancia conjugadora do duplo a\u00e7\u00e3o-rea\u00e7\u00e3o, levando o sujeito a viv\u00ea-lo em seu dinamismo, ativando o \u201cmovimento em Deus\u201d das primeiras estrofes. Ressalta-se que a <em>causa mortis<\/em> assinalada pelo poeta evidencia ang\u00fastia e desprezo, respectivamente, pelo emprego dos termos \u201ctristeza\u201d e \u201cnojo\u201d, em uma poss\u00edvel sugest\u00e3o de ultraje ao que se concebia como viver.<\/p>\n<p>Ainda quanto \u00e0s an\u00e1foras, pode-se perceber que, nas tr\u00eas ocorr\u00eancias finais, h\u00e1 uma conex\u00e3o entre as atitudes sugeridas pelo poeta e os milagres de Jesus Cristo nos relatos evang\u00e9licos.\u00a0 O \u201cmultiplicar-se em dez, em cinco mil\u201d pode ser lido como uma alus\u00e3o ao epis\u00f3dio da multiplica\u00e7\u00e3o dos p\u00e3es e dos peixes<a href=\"#_ftn3\" name=\"_ftnref3\">[2]<\/a>, mas, al\u00e9m disso, opera no poema como uma sugest\u00e3o de se pluralizar o eu, de se ganhar for\u00e7a, de se tornar v\u00e1rios. O \u201cchicotear os que profanam as igrejas\u201d refere-se \u00e0 cena em que o Nazareno expulsa os vendilh\u00f5es do templo, vociferando contra o intento ganancioso dos homens que faziam daquele local sagrado um meio de obten\u00e7\u00e3o de lucros<a href=\"#_ftn4\" name=\"_ftnref4\">[3]<\/a>. E o \u201ccaminhar sobre as ondas\u201d trata do epis\u00f3dio em que os disc\u00edpulos atravessavam o Mar da Galileia rumo a Cafarnaum, em uma embarca\u00e7\u00e3o sem a presen\u00e7a de Jesus, que ficara em ora\u00e7\u00e3o em um monte; contudo, \u00e0 noite, avistaram o Messias caminhando por sobre as \u00e1guas, indo em dire\u00e7\u00e3o ao barco e, temerosos de que se tratasse de um fantasma, n\u00e3o reconheceram o Mestre de imediato<a href=\"#_ftn5\" name=\"_ftnref5\">[4]<\/a>.<\/p>\n<p>Por fim, ap\u00f3s as an\u00e1foras finais, marcadas pelo \u201c\u00c9 necess\u00e1rio&#8230;\u201d, pode-se inferir que, em uma admoesta\u00e7\u00e3o aut\u00eantica \u00e0 ang\u00fastia de ser, seria necess\u00e1rio ser como Cristo, nas express\u00f5es de ang\u00fastia e de resposta e, sobretudo, ser como ele na concilia\u00e7\u00e3o do tempo e da eternidade. Estar meramente preso ao tempo seria acomodar-se \u00e0 condi\u00e7\u00e3o de queda. O poeta n\u00e3o se acomoda.<\/p>\n<p>Reagindo \u00e0 condi\u00e7\u00e3o da queda, a express\u00e3o po\u00e9tica que Murilo Mendes perseguia, em meio \u00e0s e a partir das suas convic\u00e7\u00f5es crist\u00e3s, n\u00e3o era sublimadora, alienante, evasiva, tampouco negligente para com os valores \u00e9ticos, ao contr\u00e1rio, constru\u00eda-se como discurso comprometido com o tempo dos homens e em constante e insistente di\u00e1logo com este. Que o poeta seja ouvido no entoar do canto vocacional:<\/p>\n<blockquote><p><strong>Voca\u00e7\u00e3o do Poeta<\/strong><\/p>\n<p>N\u00e3o nasci no come\u00e7o deste s\u00e9culo:<br \/>\nNasci no plano do eterno,<br \/>\nNasci de mil vidas superpostas,<br \/>\nNasci de mil ternuras desdobradas.<br \/>\nVim para conhecer o mal e o bem<br \/>\nE para separar o mal do bem.<br \/>\nVim para amar e ser desamado.<br \/>\nVim para ignorar os grandes e consolar os pequenos.<br \/>\nN\u00e3o vim para construir minha pr\u00f3pria riqueza<br \/>\nNem para destruir a riqueza dos outros.<br \/>\nVim para reprimir o choro formid\u00e1vel<br \/>\nQue as gera\u00e7\u00f5es anteriores me transmitiram.<br \/>\nVim para experimentar d\u00favidas e contradi\u00e7\u00f5es.<\/p>\n<p>Vim para sofrer as influ\u00eancias do tempo<br \/>\nE para afirmar o princ\u00edpio eterno de onde vim.<br \/>\nVim para distribuir inspira\u00e7\u00e3o \u00e0s musas.<br \/>\nVim para anunciar que a voz dos homens<br \/>\nAbafar\u00e1 a voz da sirene e da m\u00e1quina<br \/>\nE que a palavra essencial de Jesus Cristo<br \/>\nDominar\u00e1 as palavras do patr\u00e3o e do oper\u00e1rio.<br \/>\nVim para conhecer a Deus meu criador, pouco a pouco,<br \/>\nPois se O visse de repente, sem preparo, morreria.<\/p>\n<p>(MENDES, 1994, p. 248-249)<\/p><\/blockquote>\n<p>O movimento inicial que se pode ler no primeiro verso do poema indica que o sujeito l\u00edrico possui um v\u00ednculo que extrapola o tempo, ou o seu tempo. No verso seguinte, afirma-se que tal vincula\u00e7\u00e3o est\u00e1 atrelada ao \u201cplano do eterno\u201d. Ap\u00f3s a primeira negativa, que se explicita em \u201cN\u00e3o nasci&#8230;\u201d, surgem tr\u00eas afirmativas seguidas, em an\u00e1fora, indicando a rela\u00e7\u00e3o da voz l\u00edrica com a eternidade, com o ac\u00famulo de experi\u00eancias, as \u201cmil vidas superpostas\u201d, e com o desdobramento de afetos tantos, as \u201cmil ternuras desdobradas\u201d. Nota-se a hip\u00e9rbole marcada pela repeti\u00e7\u00e3o do mil no terceiro e no quarto versos, qui\u00e7\u00e1, em um sinal de extrapola\u00e7\u00e3o da conting\u00eancia pela identidade eterna que se parece querer afirmar. O [s] sibilante que se pode notar nos quatro primeiros versos do poema refor\u00e7a a sugest\u00e3o de eternidade que o sujeito l\u00edrico parece querer enfatizar.<\/p>\n<p>A voca\u00e7\u00e3o do poeta se desdobra em apresentar sua identidade \u2013 marcada pela exposi\u00e7\u00e3o da origem que o verbo \u201cNasci\u201d sugere \u2013 e sua miss\u00e3o \u2013 indicada pela recorr\u00eancia do verbo \u201cVim\u201d, ao longo do texto, seguido da conjun\u00e7\u00e3o final \u201cpara\u201d. Assim, a voz l\u00edrica que canta sua voca\u00e7\u00e3o afirma sua perten\u00e7a e suas incumb\u00eancias no tempo. Ao postular, em \u201cVim para conhecer o mal e o bem \/ E para separar o mal do bem\u201d, ser participante da condi\u00e7\u00e3o humana de conhecedor do bem e do mal, o sujeito l\u00edrico indica vincular-se \u00e0 condi\u00e7\u00e3o da queda que marca a humanidade. No poema, ao se perceber o postulado do \u201cseparar o mal do bem\u201d, ouve-se um eco da par\u00e1bola de Jesus Cristo acerca do joio e do trigo<a href=\"#_ftn6\" name=\"_ftnref6\">[5]<\/a>, na qual a tarefa de distinguir as plantas compete ao Messias<a href=\"#_ftn7\" name=\"_ftnref7\">[6]<\/a>.<\/p>\n<p>O chamado para ser provado, para experimentar o sofrimento, tamb\u00e9m se faz percept\u00edvel no poema, conforme se pode notar na sugest\u00e3o do confronto que se esbo\u00e7a nos versos \u201cVim para amar e ser desamado. \/ Vim para ignorar os grandes e consolar os pequenos\u201d: h\u00e1 aqui uma indica\u00e7\u00e3o do car\u00e1ter contracultural que o Reino de Deus, anunciado e vivenciado pelo Cristo, pode manifestar no tempo, subvertendo os valores e as l\u00f3gicas convencionais e provocando uma reformula\u00e7\u00e3o do viver que se origina na <em>metanoia<\/em>. Essa voca\u00e7\u00e3o para ser provado se mostra no texto pelo gesto do sujeito l\u00edrico de experimentar o tempo, mesmo sendo nascido no plano eterno, como se percebe em \u201cVim para sofrer as influ\u00eancias do tempo \/ E para afirmar o princ\u00edpio eterno de onde vim\u201d. Desse modo, a eternidade afirma-se na conting\u00eancia das eras.<\/p>\n<p>O movimento seguinte do poema, que come\u00e7a no terceiro verso da segunda estrofe e se processa at\u00e9 o final, corresponde \u00e0 afirma\u00e7\u00e3o da superioridade do Poeta: ele inspira as musas, ele humaniza os homens, ele d\u00e1 voz aos indiv\u00edduos a fim de abafar a sirene e a m\u00e1quina. Exsurge no texto o soberano Poeta, aquele que \u00e9 maior do que tudo e todos e que \u00e9 capaz de restaurar a realidade em que vive o sujeito l\u00edrico. \u00c9 o Poeta o respons\u00e1vel por, mesmo em face dos sintomas da modernidade, representados pela \u201cvoz da sirene e da m\u00e1quina\u201d, refazer os v\u00ednculos do transit\u00f3rio com o eterno. \u00c9 o Poeta o respons\u00e1vel pelo gesto improv\u00e1vel e, aparentemente, imprudente de aproximar \u201ca palavra essencial de Jesus Cristo\u201d das \u201cpalavras do patr\u00e3o e do oper\u00e1rio\u201d, correspondendo a uma proposta de di\u00e1logo entre as tens\u00f5es da hist\u00f3ria com a din\u00e2mica eterna da cria\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>O ep\u00edlogo poem\u00e1tico, \u201cVim para conhecer a Deus meu criador, pouco a pouco, \/ Pois se O visse de repente, sem preparo, morreria\u201d, corresponde a uma afirma\u00e7\u00e3o do restabelecimento do relacionamento com Deus, conhecendo o Criador parcimoniosamente. Ademais, pode-se ler, nesses versos de fechamento, que o sujeito l\u00edrico parece se criar, descobrir sua voca\u00e7\u00e3o e sua miss\u00e3o, ao passo que, \u201cpouco a pouco\u201d, conhece a sua origem, o seu criador. Em contraste com esse modo de aproxima\u00e7\u00e3o, o \u201cde repente\u201d, t\u00edpico da sociedade moderna, maqu\u00ednica, marcada pela urg\u00eancia e pela velocidade, \u00e9 deixado de lado para que se figure a presen\u00e7a do perenal. \u00a0 O jogo parat\u00e1tico predominante no poema de Murilo Mendes parece prefigurar a ideia do conhecer a Deus \u201cpouco a pouco\u201d que se expressa ao final do texto. A cada ora\u00e7\u00e3o que se coordena em \u201cVoca\u00e7\u00e3o do Poeta\u201d pode-se entender um passo nesse processo paulatino de envolvimento e relacionamento com o Criador, acumulando experi\u00eancias que criam o mosaico do conhecimento do Eterno na experi\u00eancia hodierna do tempo. Considerando-se o texto, pode-se ler nele uma meton\u00edmia dos poetas, segundo a divisa que orienta <em>Tempo e eternidade<\/em> (\u201crestauremos a Poesia em Cristo\u201d) e, simultaneamente, verifica-se a plausibilidade de reconhecer a figura\u00e7\u00e3o do Cristo como o Poeta que se mostra nos versos do poema, devido \u00e0s refer\u00eancias que intercruzam a express\u00e3o l\u00edrica muriliana com aquelas b\u00edblicas que aludem ao Messias.<\/p>\n<p>Ao diagnosticar o mundo fraturado, ca\u00eddo e perdido, o poeta enxerga a figura do Cristo como aquele capaz de restaurar a condi\u00e7\u00e3o humana limitada pela queda, aquele capaz de restaurar a Poesia. Em refer\u00eancias po\u00e9ticas que aludem \u00e0 <em>parousia<\/em>, ao <em>Apocalipse<\/em>, \u00e0 consuma\u00e7\u00e3o dos s\u00e9culos, \u00e0s tens\u00f5es do tempo, Murilo Mendes estabelece um di\u00e1logo com as vis\u00f5es joaninas, exercitando a possibilidade de cria\u00e7\u00e3o de outro mundo pela palavra. O exerc\u00edcio de aproxima\u00e7\u00e3o de imagens apocal\u00edpticas fazendo uso da tonalidade surrealista gera um texto capaz de resgatar o vigor po\u00e9tico, posto que conjuga a tradi\u00e7\u00e3o e a modernidade\u00a0 Tamb\u00e9m o poeta se v\u00ea como e se torna espectador dos acontecimentos que culminam na revela\u00e7\u00e3o, conforme se pode ler no poema \u201cA Testemunha\u201d, \u00faltimo de <em>Tempo e eternidade<\/em>,\u00a0 que parece conjugar o in\u00edcio e o fim, o <em>G\u00eanesis<\/em> e o <em>Apocalipse<\/em>. O poeta exercita-se como vision\u00e1rio, enxergando no tempo os sinais que apontam para as possibilidades futuras do ser humano.<\/p>\n<p><strong>Conclus\u00e3o<\/strong><\/p>\n<p>Em <em>Tempo e eternidade<\/em>, Murilo Mendes se disp\u00f5e \u00e0 elabora\u00e7\u00e3o de uma po\u00e9tica que movimenta e descentra as teologias, dado que se apropria das imagens do sagrado de modo criativo, gerando novas interpreta\u00e7\u00f5es de suas manifesta\u00e7\u00f5es e recobrando a sagrada palavra para, no rito da imagina\u00e7\u00e3o po\u00e9tica, difundir a presen\u00e7a do sacro no contempor\u00e2neo e a partir dele. Despontam na obra a teofania, a verdadeira realidade, a recria\u00e7\u00e3o, o ser contempor\u00e2neo dos deuses. A po\u00e9tica muriliana evidente no livro quer resgatar o sagrado sufocado pelo discurso institucionalizado, dinamiz\u00e1-lo, libert\u00e1-lo, deix\u00e1-lo solto no mundo moderno. Desse modo, o sujeito l\u00edrico percorre os poemas com um sentimento \u00f3rfico.<\/p>\n<p>Em tempos nos quais a humanidade experimenta a dist\u00e2ncia dos deuses, o poeta, em <em>Tempo e eternidade<\/em>, arrisca seus versos em busca de rastros do sagrado. Arriscando-se ele mesmo na linguagem que cria e abriga sua exist\u00eancia, o sujeito l\u00edrico assinala a falta de salva\u00e7\u00e3o a que est\u00e1 preso, bem como os seus contempor\u00e2neos. Ao deparar-se com o Cristo, conciliador do humano e do divino, o poeta enxerga o reencontro da eternidade com o tempo, refundando o <em>cosmos<\/em> e declarando, em gesto prof\u00e9tico, que vir\u00e1 o momento da irrup\u00e7\u00e3o definitiva dessa restaura\u00e7\u00e3o no universo. O Verbo, que estava presente na cria\u00e7\u00e3o e que promete sua presen\u00e7a na consuma\u00e7\u00e3o dos s\u00e9culos, \u00e9 o ponto para o qual convergem a g\u00eanese e o apocalipse pessoais do sujeito que se denuncia nos poemas, ofertando a possibilidade de se elaborar a exist\u00eancia.<\/p>\n<p><strong>Refer\u00eancias<\/strong><\/p>\n<p>ARA\u00daJO, La\u00eds Corr\u00eaa de. <em>Murilo Mendes<\/em>. 2. ed. (Poetas modernos do Brasil, 2) Petr\u00f3polis: Vozes, 1972.<\/p>\n<p>B\u00cdBLIA DE ESTUDO ALMEIDA. S\u00e3o Paulo: Sociedade B\u00edblica do Brasil, 1999.<\/p>\n<p>ELIADE, Mircea. <em>Mito e realidade<\/em>. Trad. Pola Civelli. S\u00e3o Paulo: Perspectiva, 2010.<\/p>\n<p>MENDES, Murilo. <em>Poesia completa e prosa<\/em>. Rio de Janeiro: Nova Aguilar, 1994.<\/p>\n<p>MERQUIOR, Jos\u00e9 Guilherme. <em>Raz\u00e3o do poema<\/em>: ensaios de cr\u00edtica e de est\u00e9tica. Rio de Janeiro: Civiliza\u00e7\u00e3o Brasileira, 1965.<\/p>\n<p>PAZ, Octavio. <em>O arco e a lira<\/em>. Trad. Ari Roitman e Paulina Wacht. S\u00e3o Paulo: Cosac Naify, 2012.<\/p>\n<p><strong>Notas:<\/strong><br \/>\n<a href=\"#_ftnref1\" name=\"_ftn1\">*<\/a> Doutorando pelo Programa de P\u00f3s-gradua\u00e7\u00e3o em Ci\u00eancia da Religi\u00e3o da Universidade Federal de Juiz de Fora. <a href=\"mailto:munckjr@yahoo.com.br\">munckjr@yahoo.com.br<\/a><br \/>\n<a href=\"#_ftnref2\" name=\"_ftn2\">[1]<\/a> Em <em>O c\u00edrio perfeito<\/em>, Pedro Nava descreve detalhadamente o testemunho do epis\u00f3dio de convers\u00e3o de Murilo Mendes quando do vel\u00f3rio de Ismael Nery, a quem o poeta dedicou a obra <em>Tempo e eternidade<\/em>.<br \/>\n<a href=\"#_ftnref3\" name=\"_ftn3\">[2]<\/a> Conforme <em>Mateus<\/em> 14,13-21.<br \/>\n<a href=\"#_ftnref4\" name=\"_ftn4\">[3]<\/a> Conforme <em>Marcos<\/em> 11,15-17.<br \/>\n<a href=\"#_ftnref5\" name=\"_ftn5\">[4]<\/a> Conforme Mateus 14,22-33.<br \/>\n<a href=\"#_ftnref6\" name=\"_ftn6\">[5]<\/a> Conforme <em>Mateus <\/em>13,24-30.<br \/>\n<a href=\"#_ftnref7\" name=\"_ftn7\">[6]<\/a> Em <em>Mateus<\/em> 13,36-43.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>\u201cVim para sofrer as influ\u00eancias do tempo \/ E para afirmar o princ\u00edpio eterno de onde vim\u201d: a ressignifica\u00e7\u00e3o do sagrado em Murilo Mendes Por Edson Munck Junior* A obra po\u00e9tica Tempo e eternidade, publicada por Murilo Mendes em 1935, pode ser lida como promotora de di\u00e1logo entre o modernismo e a tradi\u00e7\u00e3o b\u00edblico-crist\u00e3. O [&hellip;]<\/p>\n","protected":false},"author":24,"featured_media":0,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"ngg_post_thumbnail":0,"footnotes":""},"categories":[12744],"tags":[36099,32231,38132,36098],"class_list":["post-1329","post","type-post","status-publish","format-standard","hentry","category-de-outros","tag-arte-e-literatura","tag-mais-na-internet","tag-sagrado","tag-ult-370"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/ultimato.com.br\/sites\/gladircabral\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/1329","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/ultimato.com.br\/sites\/gladircabral\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/ultimato.com.br\/sites\/gladircabral\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/ultimato.com.br\/sites\/gladircabral\/wp-json\/wp\/v2\/users\/24"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/ultimato.com.br\/sites\/gladircabral\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=1329"}],"version-history":[{"count":2,"href":"https:\/\/ultimato.com.br\/sites\/gladircabral\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/1329\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":1331,"href":"https:\/\/ultimato.com.br\/sites\/gladircabral\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/1329\/revisions\/1331"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/ultimato.com.br\/sites\/gladircabral\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=1329"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/ultimato.com.br\/sites\/gladircabral\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=1329"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/ultimato.com.br\/sites\/gladircabral\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=1329"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}