{"id":1211,"date":"2016-07-08T13:53:37","date_gmt":"2016-07-08T16:53:37","guid":{"rendered":"http:\/\/ultimato.com.br\/sites\/gladircabral\/?p=1211"},"modified":"2016-07-08T13:53:37","modified_gmt":"2016-07-08T16:53:37","slug":"o-exercicio-da-leitura-em-don-quixote","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/ultimato.com.br\/sites\/gladircabral\/2016\/07\/08\/o-exercicio-da-leitura-em-don-quixote\/","title":{"rendered":"O exerc\u00edcio da leitura em Don Quixote"},"content":{"rendered":"<div id=\"attachment_1212\" style=\"width: 265px\" class=\"wp-caption alignleft\"><a href=\"http:\/\/ultimato.com.br\/sites\/gladircabral\/files\/2016\/07\/quixote-reading.jpg\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" aria-describedby=\"caption-attachment-1212\" class=\"size-medium wp-image-1212\" src=\"http:\/\/ultimato.com.br\/sites\/gladircabral\/files\/2016\/07\/quixote-reading-255x300.jpg\" alt=\"\u00d6\u00e8\u00f4\u00f0\u00ee\u00e2\u00e0\u00ff \u00f0\u00e5\u00ef\u00f0\u00ee\u00e4\u00f3\u00ea\u00f6\u00e8\u00ff \u00ed\u00e0\u00f5\u00ee\u00e4\u00e8\u00f2\u00f1\u00ff \u00e2 \u00e8\u00ed\u00f2\u00e5\u00f0\u00ed\u00e5\u00f2-\u00ec\u00f3\u00e7\u00e5\u00e5 Gallerix.ru\" width=\"255\" height=\"300\" srcset=\"https:\/\/ultimato.com.br\/sites\/gladircabral\/files\/2016\/07\/quixote-reading-255x300.jpg 255w, https:\/\/ultimato.com.br\/sites\/gladircabral\/files\/2016\/07\/quixote-reading-768x904.jpg 768w, https:\/\/ultimato.com.br\/sites\/gladircabral\/files\/2016\/07\/quixote-reading-870x1024.jpg 870w, https:\/\/ultimato.com.br\/sites\/gladircabral\/files\/2016\/07\/quixote-reading-127x150.jpg 127w\" sizes=\"auto, (max-width: 255px) 100vw, 255px\" \/><\/a><p id=\"caption-attachment-1212\" class=\"wp-caption-text\">\u00d6\u00e8\u00f4\u00f0\u00ee\u00e2\u00e0\u00ff \u00f0\u00e5\u00ef\u00f0\u00ee\u00e4\u00f3\u00ea\u00f6\u00e8\u00ff \u00ed\u00e0\u00f5\u00ee\u00e4\u00e8\u00f2\u00f1\u00ff \u00e2 \u00e8\u00ed\u00f2\u00e5\u00f0\u00ed\u00e5\u00f2-\u00ec\u00f3\u00e7\u00e5\u00e5 Gallerix.ru<\/p><\/div>\n<p>Em seu ensaio sobre a import\u00e2ncia da leitura dos cl\u00e1ssicos da literatura, Italo Calvino afirma, entre v\u00e1rias teses, que \u201c[u]m cl\u00e1ssico \u00e9 um livro que nunca terminou de dizer aquilo que tinha para dizer\u201d. A obra <em>Don Quixote<\/em>, de Miguel de Cervantes, confirma plenamente essa afirma\u00e7\u00e3o. Passados mais de 400 anos de sua publica\u00e7\u00e3o, o livro continua falando coisas, dialogando com seus leitores, provocando risos e reflex\u00f5es sobre a realidade e a vida.<\/p>\n<p>Entre os tantos temas que obra desenvolve, <em>Don Quixote de la Mancha<\/em> trata do fen\u00f4meno da leitura e de sua pr\u00e1tica na sociedade humana. Documento importante sobre a hist\u00f3ria da leitura, a obra fala da aceita\u00e7\u00e3o literatura popular no per\u00edodo renascentista. Entre os v\u00e1rios g\u00eaneros liter\u00e1rios que se tornaram populares na \u00e9poca, est\u00e3o os romances de cavalaria, resqu\u00edcios e sonhos de um mundo medieval que naquela altura j\u00e1 n\u00e3o eram mais poss\u00edveis. A obra de Cervantes celebra essa tradi\u00e7\u00e3o, ao mesmo tempo em que a ironiza e a revisa. Em v\u00e1rias passagens do livro, discute-se se o papel da literatura seria apenas \u201cdeleitar\u201d ou \u201censinar\u201d. Cruzando dualismos reducionistas, Cervantes mostra que, a partir de um g\u00eanero popular, \u00e9 poss\u00edvel propor quest\u00f5es profundas sobre a vida e a arte.<\/p>\n<p>Outro aspecto interessante do livro \u00e9 que ele prop\u00f5e uma discuss\u00e3o sobre fic\u00e7\u00e3o e realidade, sugerindo que a literatura permite o desvelamento do car\u00e1ter ficcional da realidade. Ao abandonar sua c\u00f4moda (e med\u00edocre) realidade para buscar a as aventuras de um cavaleiro andante, Don Quixote deseja intensamente ressignificar sua vida. Por das leituras em sua vasta biblioteca, ele reconstr\u00f3i sua identidade. Vida \u00e9 narrativa, \u00e9 hist\u00f3ria que se conta e que se tece no dia a dia. Momento cr\u00edtico \u00e9 aquele em que o her\u00f3i \u00e9 derrotado em seu pr\u00f3prio mundo ficcional. Desenganado, recupera a sua sanidade ao final da hist\u00f3ria, volta \u00e0 raz\u00e3o para, simplesmente, morrer e enfim adentrar os portais da realidade perante a qual tudo o mais \u00e9 sonho.<\/p>\n<p>Esse \u00e9 um livro sobre a condi\u00e7\u00e3o humana, sua fragilidade total, sua busca incessante por significado e ventura, sua situa\u00e7\u00e3o rid\u00edcula e ao mesmo tempo admir\u00e1vel, sua nobreza e seu desvario. Sobressalta aos olhos a incompletude da exist\u00eancia, o modo como o her\u00f3i precisa de Sancho Pan\u00e7a, seu fiel escudeiro, a tal ponto que \u00e9 imposs\u00edvel conceber Don Quixote sem Sancho Pan\u00e7a. O idealismo do \u201ccavaleiro da triste figura\u201d precisa ardentemente da sobriedade simples e ch\u00e3 de Sancho Pan\u00e7a. Isso aponta para o car\u00e1ter dialogal da vida humana. Somos feitos para o outro, em coopera\u00e7\u00e3o com o outro. Somos seres feitos para a rela\u00e7\u00e3o, para o relacionamento.<\/p>\n<p>Ao final, o her\u00f3i que volta de suas aventuras n\u00e3o \u00e9 o mesmo que saiu. Chegando \u00e0 sua pequena vila de La Mancha, Don Quixote, \u201cderrotado pelos bra\u00e7os dos outros, retorna vencedor de si mesmo\u201d (<em>Quixote<\/em>, p. 993). Assim o \u201cdesocupado leitor\u201d da obra de Cervantes chega ao final da leitura transformado, diferente do que era quando come\u00e7ou as primeiras linhas.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Em seu ensaio sobre a import\u00e2ncia da leitura dos cl\u00e1ssicos da literatura, Italo Calvino afirma, entre v\u00e1rias teses, que \u201c[u]m cl\u00e1ssico \u00e9 um livro que nunca terminou de dizer aquilo que tinha para dizer\u201d. A obra Don Quixote, de Miguel de Cervantes, confirma plenamente essa afirma\u00e7\u00e3o. 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