{"id":1197,"date":"2016-01-02T18:25:41","date_gmt":"2016-01-02T21:25:41","guid":{"rendered":"http:\/\/ultimato.com.br\/sites\/gladircabral\/?p=1197"},"modified":"2016-01-02T18:26:23","modified_gmt":"2016-01-02T21:26:23","slug":"a-cegueira-iluminada-de-quintana","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/ultimato.com.br\/sites\/gladircabral\/2016\/01\/02\/a-cegueira-iluminada-de-quintana\/","title":{"rendered":"A cegueira iluminada de Quintana"},"content":{"rendered":"<p><a href=\"http:\/\/ultimato.com.br\/sites\/gladircabral\/files\/2016\/01\/mario_quintana.jpg\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"alignleft size-medium wp-image-1198\" src=\"http:\/\/ultimato.com.br\/sites\/gladircabral\/files\/2016\/01\/mario_quintana-300x194.jpg\" alt=\"mario_quintana\" width=\"300\" height=\"194\" srcset=\"https:\/\/ultimato.com.br\/sites\/gladircabral\/files\/2016\/01\/mario_quintana-300x194.jpg 300w, https:\/\/ultimato.com.br\/sites\/gladircabral\/files\/2016\/01\/mario_quintana-150x97.jpg 150w, https:\/\/ultimato.com.br\/sites\/gladircabral\/files\/2016\/01\/mario_quintana.jpg 720w\" sizes=\"auto, (max-width: 300px) 100vw, 300px\" \/><\/a>O sol se p\u00f5e na linha do horizonte. A escurid\u00e3o pouco a pouco invade a terra. No risco distante do poente v\u00ea-se apenas um clar\u00e3o. Olhando para tr\u00e1s, o escuro da noite parece encobrir a cidade, menos os pr\u00e9dios mais altos, ainda tocados pela claridade do sol. Tenho para mim que nossos poetas, nossos grandes escritores s\u00e3o como pr\u00e9dios iluminados ao cair da tarde. Num mundo rodeado por sombras cada vez maiores, eles refletem certos raios da luz do Sol. Assim \u00e9 que vejo a poesia de M\u00e1rio Quintana.<\/p>\n<p>O poeta tem os olhos abertos para a beleza, e nada escapa ao seu foco preciso. No seu livro <em>Ba\u00fa de Espantos<\/em>, ele vai mostrando a cada poema a extraordin\u00e1ria beleza das coisas corriqueiras, a sacralidade e o mist\u00e9rio das coisas banais e cotidianas. Nas entrelinhas de seus versos \u00e9 poss\u00edvel perceber sinais da presen\u00e7a do divino, n\u00e3o uma presen\u00e7a pesada ou indiscut\u00edvel como um livro de doutrina, mas movente como as \u00e1guas de um rio.<\/p>\n<p>Na po\u00e9tica quintaneira, a palavra \u201cespanto\u201d expressa a capacidade humana de maravilhar-se diante da vida e do mundo. O poeta \u00e9 algu\u00e9m que n\u00e3o cansa de surpreender-se. E sua grande tarefa consiste em nos ensinar a li\u00e7\u00e3o do maravilhar-se perante as pessoas, perante as palavras e perante as coisas. Esse maravilhar-se inclui um tanto de estranhamento em rela\u00e7\u00e3o ao mundo moderno e seus aparatos tecnol\u00f3gicos e produtos de massa, como m\u00fasica pop ou novelas de TV. Inclui tamb\u00e9m um tanto de contempla\u00e7\u00e3o e percep\u00e7\u00e3o da singularidade das pessoas e do mundo natural, como a leveza das nuvens, a for\u00e7a dos ventos, a sinuosidade dos rios ou o \u201c[f]rescor agradecido de capim molhado como algu\u00e9m que chorou e depois sentiu uma grande, uma quase envergonhada alegria por ter a vida continuado&#8230;.\u201d.<\/p>\n<p>Alguns poemas de Quintana mostram como \u00e9 t\u00eanue e tenso o limite entre o tempo e a eternidade, a morte e a vida. No poema \u201cO Olhar\u201d, Quintana mostra o quanto \u201c[o] olhar do poeta \u00e9 como o olhar de um condenado&#8230; como o olhar de Deus&#8230;\u201d. \u00c9 que \u201c[o] \u00faltimo olhar do condenado \u00e9 n\u00edtido como uma fotografia: v\u00ea at\u00e9 a pequenina formiga que sobe acaso pelo rude bra\u00e7o do verdugo, v\u00ea o fr\u00eamito da \u00faltima folha no alto daquela \u00e1rvore, al\u00e9m&#8230;\u201d. O olhar da finitude nos permite ver as coisas como s\u00e3o, em sua temporalidade, em sua fugacidade. A consci\u00eancia da mortalidade nos faz abrir os olhos para a realidade do mundo em seu mais duro e claro contorno.<\/p>\n<p>\u00c9 tamb\u00e9m muito n\u00edtido o olhar que Deus tem das coisas criadas, Ele que as v\u00ea a partir da Sua eternidade e pleno conhecimento. Mas esse saber divino tem a delicadeza de um olhar e ao mesmo tempo um postergar sempre o fim. \u00c9 assim que, de maneira irreverente, o poeta vai mostrando o quanto a eternidade de Deus est\u00e1 ligada \u00e0 sua capacidade para \u201cdeixar tudo para depois\u201d, adiar o fim das coisas. E ele completa: \u201cS\u00f3 \u00e9 verdadeiramente vida a que tem um inquieto depois!\u201d.<\/p>\n<p><span style=\"color: #ffffff;\">.<\/span><\/p>\n<p>QUINTANA, M\u00e1rio. <em>Ba\u00fa de Espantos<\/em>. 2. ed. S\u00e3o Paulo: Globo 2006.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>QUINTANA, M\u00e1rio. O Olhar. Dispon\u00edvel em: &lt;<a href=\"http:\/\/www.umdiadepoesia.com.br\/o-olhar\/\">http:\/\/www.umdiadepoesia.com.br\/o-olhar\/<\/a>&gt;. Acessad em 30 nov 15.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>O sol se p\u00f5e na linha do horizonte. A escurid\u00e3o pouco a pouco invade a terra. No risco distante do poente v\u00ea-se apenas um clar\u00e3o. Olhando para tr\u00e1s, o escuro da noite parece encobrir a cidade, menos os pr\u00e9dios mais altos, ainda tocados pela claridade do sol. 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