{"id":1031,"date":"2014-04-22T17:53:11","date_gmt":"2014-04-22T20:53:11","guid":{"rendered":"http:\/\/ultimato.com.br\/sites\/gladircabral\/?p=1031"},"modified":"2014-04-22T17:55:25","modified_gmt":"2014-04-22T20:55:25","slug":"leitura-solidao-comunhao-e-autoria","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/ultimato.com.br\/sites\/gladircabral\/2014\/04\/22\/leitura-solidao-comunhao-e-autoria\/","title":{"rendered":"Leitura: solid\u00e3o, comunh\u00e3o e autoria"},"content":{"rendered":"<p><a href=\"http:\/\/ultimato.com.br\/sites\/gladircabral\/files\/2014\/04\/boys-reading.jpg\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"alignright size-medium wp-image-1032\" alt=\"boys-reading\" src=\"http:\/\/ultimato.com.br\/sites\/gladircabral\/files\/2014\/04\/boys-reading-300x196.jpg\" width=\"300\" height=\"196\" srcset=\"https:\/\/ultimato.com.br\/sites\/gladircabral\/files\/2014\/04\/boys-reading-300x196.jpg 300w, https:\/\/ultimato.com.br\/sites\/gladircabral\/files\/2014\/04\/boys-reading-150x98.jpg 150w, https:\/\/ultimato.com.br\/sites\/gladircabral\/files\/2014\/04\/boys-reading.jpg 500w\" sizes=\"auto, (max-width: 300px) 100vw, 300px\" \/><\/a>N\u00c3O sei muito bem quando come\u00e7ou, mas suspeito que tenha sido ao ouvir as primeiras hist\u00f3rias da B\u00edblia no quarto de dormir, nas \u00faltimas horas da noite, ou quem sabe nas primeiras idas \u00e0 Escola Dominical. O fato \u00e9 que desde muito cedo criei gosto pela leitura. Primeiro, as leituras feitas por minha m\u00e3e, por meu av\u00f4, gente simples que me anunciava um mundo a ser conhecido e desvendado. Depois, as leituras feitas na escola e em casa, as mem\u00f3rias de um sargento de mil\u00edcia, os livros de hist\u00f3ria, Tiradentes e a corda amarrada ao pesco\u00e7o, Jesus e suas hist\u00f3rias deliciosamente repetidas em quatro evangelhos que coloriram minha f\u00e9 e minha imagina\u00e7\u00e3o com for\u00e7a indel\u00e9vel superior ao tecnicolor. Mais tarde, na adolesc\u00eancia e juventude encontrei amigos para os quais a leitura era alimento para a mente e a alma, e com eles descobri Edgar Allan Poe e suas hist\u00f3rias de mist\u00e9rio, Dostoi\u00e9vski e as suas recorda\u00e7\u00f5es da casa dos mortos, e a lista n\u00e3o tem fim.<\/p>\n<p>A leitura tem um elemento que sempre me fascinou: o sil\u00eancio, a solitude, bem mais que a solid\u00e3o. Ela exige um certo recolhimento, um afastar-se do burburinho, da algazarra, um ir ao encontro do outro no fr\u00e1gil espa\u00e7o da quietude. Por isso mesmo, ler \u00e9 estar muito pr\u00f3ximo de si mesmo. H\u00e1 que se ter certa confian\u00e7a, certa calma de estar na companhia de si mesmo. Qualquer sinal de ansiedade, de pressa, e a leitura se perde na fuma\u00e7a da distra\u00e7\u00e3o. Plim!! E l\u00e1 se foi a voz que me falava. O que dizia mesmo? Espera a\u00ed, tenho de voltar ao par\u00e1grafo anterior. Com um pouco de calma, o di\u00e1logo recome\u00e7a. O que se ouve \u00e9 a voz do outro, a voz dos personagens da hist\u00f3ria, do autor. \u00a0Portanto, a solid\u00e3o \u00e9 s\u00f3 aparente. \u00c9 muito agitado e intenso o momento da leitura.<\/p>\n<p>Por outro lado, a leitura \u00e9 tamb\u00e9m um ato coletivo. Intelectuais falam de comunidade de leitores, comunidades interpretativas (Stanley Fish), mostrando que a rela\u00e7\u00e3o texto-leitor \u00e1 para l\u00e1 de rica e complexa, como sugerem Hans Robert\u00a0Jauss (1994) e Wolfgang Iser (1996). Desse modo, aquele que n\u00e3o l\u00ea n\u00e3o se afasta do mundo, mas interage com ele e se posiciona em rela\u00e7\u00e3o a ele. Em uma palestra proferida no primeiro Congresso Brasileiro de Leitura no in\u00edcio dos anos 1980 em Campinas (SP), Paulo Freire relata suas primeiras experi\u00eancias com a leitura, seu aprendizado lento e org\u00e2nico. Ali ele enfatiza o car\u00e1ter social da leitura. Ningu\u00e9m l\u00ea sozinho, mas em di\u00e1logo com os outros leitores e com a realidade. Em dado momento, Freire faz sua cl\u00e1ssica afirma\u00e7\u00e3o de que &#8220;a leitura de mundo precede a leitura da palavra&#8221;. Mais do que ato solit\u00e1rio, a leitura \u00e9 manifesto solid\u00e1rio, ato comunit\u00e1rio, tamb\u00e9m cr\u00edtico, mas sobretudo sinal de comunh\u00e3o.<\/p>\n<p>Por fim, a leitura \u00e9 tamb\u00e9m ato de cria\u00e7\u00e3o de significado, portanto de coautoria. Quem l\u00ea, colabora com o texto, atualiza-o, de certa forma encarna-o. De certa forma, posso dizer que ler \u00e9 tamb\u00e9m escrever, pois \u00e9 reagir \u00e0 palavra escrita, \u00e9 oferecer um texto novo ao texto lido. O te\u00f3rico russo Mikhail Bakhtin assevera que toda palavra \u00e9 resposta ou interpela\u00e7\u00e3o, todo texto \u00e9 parte de um di\u00e1logo, \u00e9 um fen\u00f4meno hist\u00f3rico e social, coletivo e ao mesmo tempo interior. Ao mesmo tempo que o texto nos constr\u00f3i, vamos, por meio da leitura, construindo novos textos a partir de nossa t\u00eanue voz e de tantas vozes que nos atravessam. Umberto Eco fala do leitor como atualizador do texto, sempre complementando suas incompletudes. Ler \u00e9 fazer-se autor.<\/p>\n<p>Quem l\u00ea precisa de sil\u00eancio. Quem l\u00ea precisa de comunh\u00e3o. Quem l\u00ea se torna escritor.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>N\u00c3O sei muito bem quando come\u00e7ou, mas suspeito que tenha sido ao ouvir as primeiras hist\u00f3rias da B\u00edblia no quarto de dormir, nas \u00faltimas horas da noite, ou quem sabe nas primeiras idas \u00e0 Escola Dominical. O fato \u00e9 que desde muito cedo criei gosto pela leitura. 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