{"id":892,"date":"2012-09-24T17:10:45","date_gmt":"2012-09-24T20:10:45","guid":{"rendered":"http:\/\/ultimato.com.br\/sites\/fatosecorrelatos\/?p=892"},"modified":"2012-09-24T17:10:45","modified_gmt":"2012-09-24T20:10:45","slug":"sangria","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/ultimato.com.br\/sites\/fatosecorrelatos\/2012\/09\/24\/sangria\/","title":{"rendered":"Sangria"},"content":{"rendered":"<p>Ainda fica em minha mem\u00f3ria a linearidade das filas de seringueiras no lugarejo por onde pass\u00e1vamos em dire\u00e7\u00e3o \u00e0 Bel\u00e9m (PA). D\u00e9cada de 80, e eu ainda um menino. A planta\u00e7\u00e3o de seringueiras n\u00e3o era vasta, mas eu ouvia vozes de adultos dizendo que ela representava um futuro pr\u00f3spero. Na verdade, j\u00e1 n\u00e3o havia mais tempo para isso. A vila que sobrevivia da extra\u00e7\u00e3o da borracha era apenas um ponto isolado de uma produ\u00e7\u00e3o h\u00e1 muito desacreditada.<\/p>\n<p>At\u00e9 hoje n\u00e3o sei por que aquela vila ainda existia. Descobri depois nos livros escolares que a \u00e9poca \u00e1urea da borracha havia ocorrido em um passado distante (entre os s\u00e9culos 19 e 20).<!--more--><\/p>\n<p>Minha vista das seringueiras acontecia com o \u00f4nibus em movimento. N\u00e3o viaj\u00e1vamos muito, mas sempre que acontecia, era pela rodovia estadual de S\u00e3o Francisco \u2013 estrada de terra esburacada que nos levava a Castanhal e depois \u00e0 Bel\u00e9m. Entre minha casa em Igarap\u00e9-A\u00e7u e a cidade mais pr\u00f3xima \u2013 S\u00e3o Francisco \u2013 l\u00e1 estava a vila dos seringueiros.<\/p>\n<p>Talvez a lembran\u00e7a ainda esteja viva, tanto pela paisagem quanto pela for\u00e7a dos personagens. A primeira grande amiga de m\u00e3e morava l\u00e1. Joana, seu esposo Arimat\u00e9ia e seus filhos \u2013 tr\u00eas ou quatro. Lembro-me da voz forte e da rigidez de Joana no trato com os filhos. O nome do esposo me remetia a um personagem b\u00edblico distante. Eram bem pobres, mas com uma f\u00e9 firme. As visitas entre as duas fam\u00edlias sempre deixavam minha m\u00e3e alegre.<\/p>\n<p>Enquanto seguia dentro de um \u00f4nibus em movimento, eu apreciava a beleza das \u00e1rvores e me fascinava com o fato de que a borracha realmente surgia daqueles caules, de forma imediata e simples. Era meu \u201cprimeiro milagre\u201d preferido. Gostava porque podia imaginar o que fazer com a borracha: bolas, estilingues, brinquedos sem forma, mas que tinham a impressionante capacidade de quicar.<\/p>\n<p>Nunca soube muito sobre a t\u00e9cnica dos seringueiros, mas gostava dos riscos em \u201cv\u201d marcados pelas facas e de uma esp\u00e9cie de tigela de pl\u00e1stico que aparava o l\u00e1tex. O seringueiro extra\u00eda o l\u00edquido branco em um processo onde a for\u00e7a impunha-se ao volume (caule) e o apertava at\u00e9 \u201csangrar\u201d. Achava bonito aquilo tudo.<\/p>\n<p>A vida estava apenas come\u00e7ando para mim. A instabilidade econ\u00f4mica da d\u00e9cada de 80 persistiria por mais alguns anos, e o trabalho daquelas fam\u00edlias estava fadado a desaparecer. Mal sabiam eles que eram os \u00faltimos na minha regi\u00e3o a acreditarem no trabalho que faziam.<\/p>\n<p>Minha fam\u00edlia passou por grandes dificuldades financeiras na \u201cd\u00e9cada perdida\u201d, mas eu nunca seria um trabalhador bra\u00e7al como meus conterr\u00e2neos do seringal. Minha \u201cextra\u00e7\u00e3o\u201d, por assim dizer, se daria no campo das palavras.<\/p>\n<p>Escrever \u00e9 fazer sangrar.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Ainda fica em minha mem\u00f3ria a linearidade das filas de seringueiras no lugarejo por onde pass\u00e1vamos em dire\u00e7\u00e3o \u00e0 Bel\u00e9m (PA). D\u00e9cada de 80, e eu ainda um menino. A planta\u00e7\u00e3o de seringueiras n\u00e3o era vasta, mas eu ouvia vozes de adultos dizendo que ela representava um futuro pr\u00f3spero. 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