{"id":1926,"date":"2021-03-13T23:23:20","date_gmt":"2021-03-14T02:23:20","guid":{"rendered":"http:\/\/ultimato.com.br\/sites\/fatosecorrelatos\/?p=1926"},"modified":"2021-03-14T14:48:55","modified_gmt":"2021-03-14T17:48:55","slug":"a-morte-de-meu-pai","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/ultimato.com.br\/sites\/fatosecorrelatos\/2021\/03\/13\/a-morte-de-meu-pai\/","title":{"rendered":"A morte de meu pai"},"content":{"rendered":"<h3><em>Cr\u00f4nica sobre um Luto<\/em><\/h3>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<div id=\"attachment_1927\" style=\"width: 410px\" class=\"wp-caption alignright\"><a href=\"http:\/\/ultimato.com.br\/sites\/fatosecorrelatos\/files\/2021\/03\/meu_pai-e1615688505890.jpg\" class=\"lightview\" data-lightview-group=\"group-1926\" data-lightview-options=\"skin: 'dark', controls: 'relative', padding: '10', shadow: { color: '#000000', opacity: 0.08, blur: 3 }\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" aria-describedby=\"caption-attachment-1927\" class=\"wp-image-1927\" src=\"http:\/\/ultimato.com.br\/sites\/fatosecorrelatos\/files\/2021\/03\/meu_pai-e1615688505890.jpg\" alt=\"\" width=\"400\" height=\"354\" \/><\/a><p id=\"caption-attachment-1927\" class=\"wp-caption-text\">Professor Miguel: meu pai<\/p><\/div>\n<p>Era um dia qualquer: rotina, trabalho, decis\u00f5es, planejamentos e um bolo para a turma da firma comer ap\u00f3s o almo\u00e7o. Mas a verdade \u00e9 que nenhum dia \u00e9 \u201cqualquer\u201d. Eis que veio a mensagem: \u201caconteceu alguma coisa com seu pai\u201d. Os 30 minutos seguintes foram de indaga\u00e7\u00f5es, enquanto o medo ia crescendo. Informa\u00e7\u00f5es vinham aos poucos, mas depois chegou a fat\u00eddica not\u00edcia: ele havia falecido.<\/p>\n<p>O que aconteceu depois disso foi uma sucess\u00e3o de decis\u00f5es r\u00e1pidas para que fosse ent\u00e3o poss\u00edvel realizar um enterro r\u00e1pido e sem aglomera\u00e7\u00f5es.<\/p>\n<p>Foram sete dias intensos, dif\u00edceis, estranhos.<\/p>\n<p>O infarto que fez o cora\u00e7\u00e3o de meu pai parar veio repentina e definitivamente. Ele havia acordado feliz, cheio de planos. Tomou caf\u00e9 com minha m\u00e3e e seguiu de bicicleta para o seu s\u00edtio a uns 10 quil\u00f4metros da cidade. L\u00e1 ele plantou \u00e1rvores, colheu frutas e conversou com as pessoas. Papai e mam\u00e3e combinaram de almo\u00e7ar juntos, quando ele voltasse. Ele voltou, mas n\u00e3o deu tempo de cumprir a promessa. Estava ca\u00eddo na parte externa da casa quando mam\u00e3e o encontrou, inerte.<\/p>\n<p>Tudo foi interrompido em um segundo e, como que um vento forte, a vida nos convocou para participar daquele momento. Chegamos na madrugada do dia seguinte ao Par\u00e1, um tanto abismados, mas focamos em resolver tudo. Os quatro filhos estavam juntos para assumir as circunst\u00e2ncias da morte.<\/p>\n<p>Os dias passaram rapidamente, j\u00e1 que as tarefas tomavam nosso tempo. Quando nos sent\u00e1vamos para as refei\u00e7\u00f5es, era poss\u00edvel compartilhar as lembran\u00e7as sobre meu pai e tamb\u00e9m respeitar o sil\u00eancio da dor de cada um de n\u00f3s.<\/p>\n<p>Cinco dias ap\u00f3s a morte, eu me dediquei, junto com outros dois irm\u00e3os, a separar pap\u00e9is e objetos pessoais de papai. Mas eles tiveram que sair para resolver outras demandas e ent\u00e3o eu fiquei sozinho diante daquela tarefa. Foi o meu momento com a presen\u00e7a-aus\u00eancia do meu pai. Enquanto separava e descartava as coisas, meu cora\u00e7\u00e3o falava com minha mente sobre quem foi o homem que acabara de morrer. Sua caligrafia me lembrava as tantas cartas que escreveu. Seus livros velhos me fizeram pensar em como o conhecimento \u2013 por mais precioso \u2013 pode simplesmente ser enterrado em um certo dia comum da vida. O conhecimento de meu pai se foi com sua mente morta.<\/p>\n<p>Meu esfor\u00e7o principal n\u00e3o era separar os pap\u00e9is, mas sim descobrir quem eu sou a partir do legado do meu pai. Descobri diplomas, cartas de terceiros, documentos, objetos sujos e muito velhos, mas tamb\u00e9m coisas novas, nunca utilizadas. Sou um pouco de tudo aquilo: desgastado e novo, ao mesmo tempo, mem\u00f3ria e certificados, intens\u00f5es e conquistas. Mas aquilo era apenas vest\u00edgio de quem meu pai realmente era. Sua identidade n\u00e3o estava contida naquele pequeno quarto velho, mas sim nas experi\u00eancias com os outros.<\/p>\n<p class=\"graf graf--p\">Meu pai era um homem simples e, ao mesmo tempo, culto. Lia e estudava muito. Sua flu\u00eancia no ingl\u00eas era sofisticada e seu dom\u00ednio do portugu\u00eas era grande.\u00a0Se quando mais jovem era fechado e de poucos amigos, quando foi envelhecendo tornou-se d\u00f3cil e agrad\u00e1vel. Tinha suas frases de efeito e brincava sempre. Parecia um otimista degenerado. \u201cPara frente, Brasil!\u201d, vociferava entusiasticamente ao despedir-se de cada pessoa que encontrava. Em seu funeral, encontramos feirantes, estudantes, professores, agricultores, mission\u00e1rios, funcion\u00e1rios p\u00fablicos. Todos, de alguma forma, foram tocados por sua vida e por seus valores. Todos tinham alguma hist\u00f3ria para contar.<\/p>\n<p>Momentos antes de seguirmos para o cemit\u00e9rio, um senhor que conhecia meu pai h\u00e1 30 anos, pediu para cantar alguns hinos crist\u00e3os. O primeiro tinha a seguinte estrofe: \u201cPorque Ele vive, posso crer no amanh\u00e3; porque Ele vive, temor n\u00e3o h\u00e1\u201d. Aquela voz j\u00e1 idosa, mas afinada, nos levou at\u00e9 a ess\u00eancia do meu pai: sua f\u00e9 em Jesus Cristo. E foi uma f\u00e9 sempre apaixonada, sempre cheia de palavras e li\u00e7\u00f5es, que tentava nos conduzir para um futuro brilhante, nunca para um passado escravizador. Meu pai era professor e mission\u00e1rio, que percorria quil\u00f4metros e quil\u00f4metros de bicicleta para compartilhar do amor de Deus \u00e0s pessoas mais simples. Apesar de ele ter um grande conhecimento acad\u00eamico, era mais amigo dos pobres do que dos poderosos. Alguns mais abastados o procuravam para traduzir coisas, mas, no geral, seus amigos eram agricultores e donas de casa. Um dos companheiros mais presentes se chama Rosivaldo, um homem simples, com pouco estudo formal, mas muito habilidoso na agricultura e na constru\u00e7\u00e3o de casas. Um dos seus muitos filhos agora \u00e9 estudante de Medicina em uma universidade p\u00fablica. Ele expressou gratid\u00e3o ao meu pai pelo incentivo e os ensinos de ingl\u00eas.<\/p>\n<p>N\u00e3o passava um anivers\u00e1rio nosso sem que meu pai nos repassasse refer\u00eancias b\u00edblicas que ele chamava de \u201cbrinde espiritual\u201d. Ele gostava muito dos Salmos e do Novo Testamento, entre eles o Salmo 01 e Hebreus 12.2. S\u00e3o textos impregnados em n\u00f3s que nunca mais ser\u00e3o esquecidos.<\/p>\n<p>Quando crian\u00e7a, eu sentia falta do toque do meu pai. Ele sempre foi uma pessoa de pouco afeto f\u00edsico, que se preocupava mais em nos ensinar do que em demonstrar amor. Cresci assim, sem a presen\u00e7a paterna na dimens\u00e3o emocional. Certa vez escrevi uma cr\u00f4nica que tinha como protagonista os \u201cbra\u00e7os do meu pai\u201d. No texto, eu me lembrava quando ele me levava de bicicleta para a zona rural \u2013 eu na garupa da frente e ele dirigindo, com a respira\u00e7\u00e3o ofegante e os bra\u00e7os fortes me guiando. A imagem dos seus bra\u00e7os me conduzindo era o mais pr\u00f3ximo do afeto f\u00edsico que tive dele. Nos \u00faltimos meses de sua vida, tive que lev\u00e1-lo algumas vezes ao banco para receber o seu sal\u00e1rio mensal. Foi estranho ter que tocar em sua m\u00e3o e conduzir seus dedos at\u00e9 o local da identifica\u00e7\u00e3o biom\u00e9trica no caixa eletr\u00f4nico. Parecia que eu estava invadindo algum territ\u00f3rio de outra pessoa, mas, na verdade, eram simplesmente os dedos de meu pai que, naquele momento, eram guiados por mim.<\/p>\n<p>S\u00e3o tantos os detalhes significativos destes \u00faltimos dias ap\u00f3s o falecimento dele! Ainda estou processando o luto, e vez ou outra, me vem uma tristeza persistente que me arranca l\u00e1grimas.<\/p>\n<p>Eu n\u00e3o trouxe quase nada do meu pai comigo, em minha bagagem, exceto algumas fotos, um livro e um par de sand\u00e1lias escuras. Cada um desses objetos tem um valor simb\u00f3lico imenso para mim, mas o par de sand\u00e1lias trouxe mais impacto imediato. Ao cal\u00e7\u00e1-las, meus p\u00e9s se encaixaram perfeitamente, como se j\u00e1 fossem minhas. Os passos que passei a dar tamb\u00e9m foram dados por ele. Era uma met\u00e1fora de um legado \u2013 simples, desconhecido, mas profundo &#8211; de uma vida \u00fanica de um homem \u00fanico.<\/p>\n<p>Sei que eu sou um pouco de quem meu pai foi. E me orgulho muito disso. Meu desafio agora \u00e9 ressignificar o luto e me tornar uma pessoa melhor a partir de sua mem\u00f3ria e de seus valores.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><strong>NOTA: <\/strong><strong><br \/>\n<\/strong>Meu pai Miguel Monteiro do Amaral faleceu em 04 de mar\u00e7o de 2021, v\u00edtima de um infarto fulminante, em Igarap\u00e9-A\u00e7u (PA), aos 78 anos de idade. Deixa a esposa (Maria Helena), os filhos (Rowney, Liss\u00e2nder, Milena e \u00c9zer) e quatro netos (B\u00e1rbara, Beatriz, Miguel e Manuela).<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Cr\u00f4nica sobre um Luto &nbsp; Era um dia qualquer: rotina, trabalho, decis\u00f5es, planejamentos e um bolo para a turma da firma comer ap\u00f3s o almo\u00e7o. 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