{"id":1861,"date":"2020-06-04T14:13:39","date_gmt":"2020-06-04T17:13:39","guid":{"rendered":"http:\/\/ultimato.com.br\/sites\/fatosecorrelatos\/?p=1861"},"modified":"2023-01-04T18:31:51","modified_gmt":"2023-01-04T21:31:51","slug":"quintal","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/ultimato.com.br\/sites\/fatosecorrelatos\/2020\/06\/04\/quintal\/","title":{"rendered":"O quintal, as frutas e a chuva"},"content":{"rendered":"<p><a href=\"http:\/\/ultimato.com.br\/sites\/fatosecorrelatos\/files\/2020\/06\/INFANCIA-600x399-1.jpg\" class=\"lightview\" data-lightview-group=\"group-1861\" data-lightview-options=\"skin: 'dark', controls: 'relative', padding: '10', shadow: { color: '#000000', opacity: 0.08, blur: 3 }\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"aligncenter size-full wp-image-1864\" src=\"http:\/\/ultimato.com.br\/sites\/fatosecorrelatos\/files\/2020\/06\/INFANCIA-600x399-1.jpg\" alt=\"\" width=\"600\" height=\"399\" srcset=\"https:\/\/ultimato.com.br\/sites\/fatosecorrelatos\/files\/2020\/06\/INFANCIA-600x399-1.jpg 600w, https:\/\/ultimato.com.br\/sites\/fatosecorrelatos\/files\/2020\/06\/INFANCIA-600x399-1-300x200.jpg 300w\" sizes=\"auto, (max-width: 600px) 100vw, 600px\" \/><\/a><\/p>\n<p>O menino corria alegremente, desviando-se das po\u00e7as de \u00e1gua artisticamente formadas pela chuva da tarde, e procurando esconderijos entre as \u00e1rvores frondosas. O objetivo da brincadeira era este mesmo: esconder-se pelo maior tempo poss\u00edvel. Para ele tudo isso era normal, nada de maravilhoso em brincar em um quintal grande e cheio de esconderijos providenciados pela natureza. Comer frutas que caem das \u00e1rvores tamb\u00e9m n\u00e3o era nada fora do comum. Quem nunca saboreou uma manga fresquinha?<\/p>\n<p>Mas quando assistia \u00e0 TV, ele via aqueles pr\u00e9dios imensos, aquela gente toda bonita, bem arrumada. E ent\u00e3o pensava: &#8220;que mundo \u00e9 esse?&#8221;. Na escola, ensinavam que o futuro era morar nas cidades, ganhar um bom sal\u00e1rio, ter um carro novinho. No in\u00edcio, o menino n\u00e3o entendeu muito bem o que isso significava, mas depois, de tanto falarem, tamb\u00e9m come\u00e7ou a imaginar uma vida assim: moderna, interessante e rica.<\/p>\n<p>Sua mente ficava dividida entre o que vivia e experimentava e o que gostaria de viver e experimentar. Isso o fez ter mais garra para estudar, j\u00e1 que, como diziam seus professores, o melhor caminho para chegar onde voc\u00ea quer \u00e9 estudando.<\/p>\n<p>Mas os estudos quase sempre falavam sobre coisas totalmente estranhas ao seu mundo, e ele ent\u00e3o passava a achar que estudar \u00e9 uma coisa, viver \u00e9 outra. Matem\u00e1tica, geografia, portugu\u00eas, biologia&#8230; as classifica\u00e7\u00f5es, os conceitos, nada falava sobre o quintal de sua casa, a mangueira ou a chuva que caia regularmente. Os cheiros da sua vida n\u00e3o eram sentidos quando ele abria o livro da escola.<\/p>\n<p>Passou um bom tempo para ele ent\u00e3o perceber que precisava se acostumar com esse outro mundo de sonhos. Sonhava vestir terno e ter um sorriso sempre no rosto. Via aqueles filmes em que o mocinho sempre era amado e as pessoas confiavam nele. Passou a querer ser assim tamb\u00e9m.<\/p>\n<p>O menino, que j\u00e1 era adolescente, entendeu o recado: dedicou-se aos estudos e n\u00e3o parou de aprender. \u00c9 verdade que o maior problema era a conviv\u00eancia com os colegas da escola. Alguns eram chatos e arrogantes e quase sempre faziam piadas com sua apar\u00eancia ou sua cor. Mas tamb\u00e9m tinha um grupo menor, bem pequeno, que gostava dele; eles estudavam juntos e riam das bobeiras uns dos outros.<\/p>\n<p>O menino sentia-se feliz, na maior parte do tempo, quando estava na escola, mas sonhava com algo maior. Queria uma vida melhor para ele e sua fam\u00edlia. Descobriu que poderia aprender a construir casas e pr\u00e9dios. Foi aprendendo, aprendendo at\u00e9 conseguir entrar na universidade. Demorou um pouco, mas como desde cedo gostava de estudar e contou com a ajuda dos amigos, sua vit\u00f3ria acad\u00eamica finalmente veio.<\/p>\n<p>A universidade era aquele mundo fascinante de conhecimento e pessoas. Tudo muito din\u00e2mico e interessante. Ele dedicou-se bastante, mesmo vivendo com poucos recursos. As boas notas o empolgavam ainda mais. J\u00e1 quase n\u00e3o se lembrava mais de seu quintal, das frutas, da chuva.<\/p>\n<p>Veio o primeiro amor e, logo depois, a primeira decep\u00e7\u00e3o. Foi dif\u00edcil, mas superou tamb\u00e9m. A doen\u00e7a da m\u00e3e foi pior. Os dias de ang\u00fastia marcavam suas emo\u00e7\u00f5es. Quando se viu diante de um grande desafio pessoal, teve medo, mas logo depois venceu o temor e tamb\u00e9m o desafio. Assim sua vida foi amadurecendo entre vit\u00f3rias, derrotas, coragem e medo. Com o tempo percebeu uma coisa: sempre que estava em situa\u00e7\u00f5es de crise, sua mente trazia \u00e0 tona a mem\u00f3ria do seu quintal, das frutas, da chuva. E isso dava a ele um tipo de paz, de calma.<\/p>\n<p>20 anos depois, o menino, que j\u00e1 \u00e9 adulto, acostumou-se com os pr\u00e9dios, o asfalto, as facilidades da cidade grande. Mas seu cora\u00e7\u00e3o nunca deixou de visitar, vez ou outra, o quintal, as frutas, a chuva. Talvez n\u00e3o seja apenas isso; talvez seja aquela vida por tr\u00e1s do quintal, das frutas, da chuva. De qualquer forma, ele n\u00e3o se arrepende das escolhas, da vida escolhida, mas sabe que h\u00e1 um tesouro vivo cuidadosamente preservado por sua mem\u00f3ria e resgatado pelas crises: o quintal, as frutas, a chuva.<\/p>\n<p>O menino agora adulto ainda gosta de imaginar o futuro. E nele v\u00ea um mundo ideal, cheio de inova\u00e7\u00e3o tecnol\u00f3gica, de criatividade, de gente colocando em pr\u00e1tica novas ideias para beneficiar o maior n\u00famero de pessoas. Ele v\u00ea uma sociedade mais justa, menos desigual; v\u00ea casas coloridas e pontes bonitas. V\u00ea sol, lua e estrelas. Um lugar em que todos podem desenvolver suas potencialidades, sem medo de preconceito ou injusti\u00e7a. Um mundo onde a f\u00e9 em Deus n\u00e3o \u00e9 fuga, mas \u00e9 plenitude.<\/p>\n<p>De tudo o que o menino agora adulto sonha, no entanto, ele nunca deixar\u00e1 de imaginar aquele para\u00edso que deixou para tr\u00e1s e que representa todo o planeta. Afinal, que mundo de fato sobreviveria sem um quintal, as frutas e a chuva?<\/p>\n<p>**<\/p>\n<p><em>Nota: Esta cr\u00f4nica \u00e9 uma homenagem ao Dia Mundial do Meio Ambiente e ao trabalho do <a href=\"https:\/\/renewourworld.net\/pt-br\/\">Renovar o Nosso Mundo<\/a>.\u00a0<\/em><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<hr \/>\n<p><strong><a href=\"https:\/\/ultimato.com.br\/sites\/fatosecorrelatos\/files\/2006\/01\/capa-e1672867165595.jpg\" class=\"lightview\" data-lightview-group=\"group-1861\" data-lightview-options=\"skin: 'dark', controls: 'relative', padding: '10', shadow: { color: '#000000', opacity: 0.08, blur: 3 }\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"alignright size-full wp-image-2157\" src=\"https:\/\/ultimato.com.br\/sites\/fatosecorrelatos\/files\/2006\/01\/capa-e1672867165595.jpg\" alt=\"\" width=\"300\" height=\"300\" srcset=\"https:\/\/ultimato.com.br\/sites\/fatosecorrelatos\/files\/2006\/01\/capa-e1672867165595.jpg 300w, https:\/\/ultimato.com.br\/sites\/fatosecorrelatos\/files\/2006\/01\/capa-e1672867165595-150x150.jpg 150w\" sizes=\"auto, (max-width: 300px) 100vw, 300px\" \/><\/a>LEIA MEU LIVRO DE CR\u00d4NICAS!<\/strong><\/p>\n<p>Que tal ler essa e dezenas de outras breves cr\u00f4nicas reunidas em um \u00fanico livro?<\/p>\n<p>Selecionei os melhores textos que escrevi ao longo de 16 anos e publiquei o livro <span style=\"color: #800000;\"><strong><em>O Cotidiano Extraordin\u00e1rio &#8211; a vida em pequenas cr\u00f4nicas<\/em><\/strong><\/span>, pela <a href=\"https:\/\/www.ultimato.com.br\/\">Editora Ultimato<\/a> em parceria com a <a href=\"https:\/\/www.w4editora.com.br\/\">W4 Editora<\/a>.<\/p>\n<p>Voc\u00ea pode adquiri-lo <a href=\"https:\/\/www.amazon.com.br\/cotidiano-extraordin%C3%A1rio-vida-pequenas-cr%C3%B4nicas\/dp\/6587009182\">aqui<\/a>.<\/p>\n<p>Obrigado!<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>O menino corria alegremente, desviando-se das po\u00e7as de \u00e1gua artisticamente formadas pela chuva da tarde, e procurando esconderijos entre as \u00e1rvores frondosas. 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