{"id":1475,"date":"2016-06-01T13:51:35","date_gmt":"2016-06-01T16:51:35","guid":{"rendered":"http:\/\/ultimato.com.br\/sites\/fatosecorrelatos\/?p=1475"},"modified":"2016-06-01T13:52:44","modified_gmt":"2016-06-01T16:52:44","slug":"sao-paulo-e-o-nao-lugar","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/ultimato.com.br\/sites\/fatosecorrelatos\/2016\/06\/01\/sao-paulo-e-o-nao-lugar\/","title":{"rendered":"S\u00e3o Paulo e o n\u00e3o-lugar"},"content":{"rendered":"<div id=\"attachment_1477\" style=\"width: 310px\" class=\"wp-caption alignright\"><a href=\"http:\/\/ultimato.com.br\/sites\/fatosecorrelatos\/files\/2016\/06\/resize.jpg\" class=\"lightview\" data-lightview-group=\"group-1475\" data-lightview-options=\"skin: 'dark', controls: 'relative', padding: '10', shadow: { color: '#000000', opacity: 0.08, blur: 3 }\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" aria-describedby=\"caption-attachment-1477\" class=\"wp-image-1477 size-medium\" src=\"http:\/\/ultimato.com.br\/sites\/fatosecorrelatos\/files\/2016\/06\/resize-300x300.jpg\" alt=\"Robson Leandro da Silva \/ Estad\u00e3o\" width=\"300\" height=\"300\" srcset=\"https:\/\/ultimato.com.br\/sites\/fatosecorrelatos\/files\/2016\/06\/resize-300x300.jpg 300w, https:\/\/ultimato.com.br\/sites\/fatosecorrelatos\/files\/2016\/06\/resize-150x150.jpg 150w, https:\/\/ultimato.com.br\/sites\/fatosecorrelatos\/files\/2016\/06\/resize-80x80.jpg 80w, https:\/\/ultimato.com.br\/sites\/fatosecorrelatos\/files\/2016\/06\/resize.jpg 320w\" sizes=\"auto, (max-width: 300px) 100vw, 300px\" \/><\/a><p id=\"caption-attachment-1477\" class=\"wp-caption-text\">Robson Leandro da Silva \/ Estad\u00e3o<\/p><\/div>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>Desembarquei do \u00f4nibus ap\u00f3s 12 horas de viagem. Os olhos ainda sonolentos s\u00f3 denunciavam a noite mal dormida. O dia seria cheio na grande cidade brasileira: S\u00e3o Paulo.<\/p>\n<p>Meu caso com S\u00e3o Paulo \u00e9 meio estranho. Por um lado, perdi a conta de quantas vezes a visitei. Por outro, nunca fui nada al\u00e9m disso, um visitante. Outrora gostava de critic\u00e1-la, a partir do olhar desdenhoso de quem aprecia mesmo \u00e9 a vida mais simples do interior. No entanto, nos \u00faltimos anos, tenho tentado ser mais realista e &#8220;justo&#8221; com S\u00e3o Paulo. Ela n\u00e3o \u00e9 a antagonista, mas somente o lugar onde os seres humanos fazem suas escolhas. Algumas destas s\u00e3o bem ruins, outras s\u00e3o por pura necessidade de sobreviv\u00eancia; mas h\u00e1 outras que s\u00e3o express\u00f5es de resist\u00eancia, de persist\u00eancia.<\/p>\n<p>Fui para a fila do metr\u00f4. Exatamente naquele dia ela era enorme. Atr\u00e1s de mim, um jovem com uma mochila grande. Nos cumprimentamos. A\u00ed ele me perguntou &#8211; em ingl\u00eas &#8211; se eu falava ingl\u00eas. Pouco, eu disse. Mesmo assim continuamos a conversa. Descobri que ele \u00e9 de Israel e que estava de f\u00e9rias no Brasil. A conversa foi agrad\u00e1vel, mesmo que tenha sido em um n\u00edvel de di\u00e1logo t\u00e3o b\u00e1sico.<\/p>\n<p>Chegou minha vez de comprar os <em>tickets<\/em> do metr\u00f4, o que fiz rapidamente. Subi para a esta\u00e7\u00e3o. A luz no fim do t\u00fanel apareceu e com ela o metropolitano. Entrei e, como sempre, n\u00e3o consegui poltrona vaga. Tudo bem, eu pensei. J\u00e1 estou acostumado. Meu passatempo nos metr\u00f4s n\u00e3o \u00e9 ler, nem ouvir m\u00fasica. \u00c9 olhar para as pessoas. Disfar\u00e7adamente, eu olho e fa\u00e7o o exerc\u00edcio de diferenciar os olhares. Me intriga aquela sensa\u00e7\u00e3o de &#8220;dupla dimens\u00e3o&#8221;: enquanto est\u00e1 ali, tamb\u00e9m n\u00e3o est\u00e1. Assim percebo cada pessoa. H\u00e1 um n\u00e3o-lugar evidente. Distra\u00eddas ou preocupadas, as pessoas preferem abandonar o aqui e agora para ent\u00e3o permanecer nas imagens e sensa\u00e7\u00f5es criadas pelas ferramentas do n\u00e3o-lugar: do simb\u00f3lico que a m\u00fasica traz, da fantasia que a lembran\u00e7a refor\u00e7a, do di\u00e1logo virtual que as redes sociais refor\u00e7am.<\/p>\n<p>E o que somos neste n\u00e3o-lugar? Somos os mesmos, mas em partes? Somos outra pessoa, aquela que sonhamos ser, mas que ainda n\u00e3o somos?<\/p>\n<p>A voz feminina do metr\u00f4 avisa que minha esta\u00e7\u00e3o est\u00e1 pr\u00f3xima. Curioso. Parece que apenas uma voz n\u00e3o-pessoa \u00e9 respons\u00e1vel por tirarmos do n\u00e3o-lugar e trazer-nos de volta para o lugar. Ou n\u00e3o. Ou as pessoas ouvem mecanicamente a voz, entendem a mensagem e continuam seus sonhos, fantasias e pensamentos, dedicando apenas o necess\u00e1rio para cumprir o compromisso de sair na hora certa.<\/p>\n<p>Estou em S\u00e3o Paulo. E S\u00e3o Paulo sempre ati\u00e7a meus sentidos. Aqui n\u00e3o estou perdido, mesmo que n\u00e3o conhe\u00e7a quase nada da cidade. Aqui me vejo vendo o ser humano. Me vejo vendo a mim mesmo. E vejo muito mais do que minha rotina di\u00e1ria me permite ver.<\/p>\n<p>E eu que gosto de cr\u00f4nicas, aproveito para transformar meu olhar em senten\u00e7as, frases e palavras na expectativa de que se torne talvez uma hist\u00f3ria.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>&nbsp; Desembarquei do \u00f4nibus ap\u00f3s 12 horas de viagem. Os olhos ainda sonolentos s\u00f3 denunciavam a noite mal dormida. O dia seria cheio na grande cidade brasileira: S\u00e3o Paulo. Meu caso com S\u00e3o Paulo \u00e9 meio estranho. Por um lado, perdi a conta de quantas vezes a visitei. 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