{"id":1432,"date":"2016-04-27T07:21:21","date_gmt":"2016-04-27T10:21:21","guid":{"rendered":"http:\/\/ultimato.com.br\/sites\/fatosecorrelatos\/?p=1432"},"modified":"2016-04-27T07:21:21","modified_gmt":"2016-04-27T10:21:21","slug":"uma-cronica-num-tempo-fugidio","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/ultimato.com.br\/sites\/fatosecorrelatos\/2016\/04\/27\/uma-cronica-num-tempo-fugidio\/","title":{"rendered":"Uma cr\u00f4nica num tempo fugidio"},"content":{"rendered":"<p>O avi\u00e3o anda, meio que indeciso, pra l\u00e1 e pra c\u00e1, na pista de pouso do aeroporto de Campinas. Quando uma certa impaci\u00eancia come\u00e7a a tomar conta do ambiente, a voz anasalada do comandante informa que os passageiros devem se preparar para o voo.<\/p>\n<p>As luzes vermelhas intermitentes das demarca\u00e7\u00f5es num\u00e9ricas da pista incomodam meus olhos, e eu, de repente, me lembro de quando, pela primeira vez, pela janela do \u00f4nibus que nos levava do Par\u00e1 at\u00e9 o Rio de Janeiro, vi letras em <em>neon<\/em> de lojas, restaurantes, lanchonetes no caminho. Aquela sensa\u00e7\u00e3o de novidade, aquele \u201ccheiro\u201d de viagem, aquela expectativa de encontrar uma fam\u00edlia bem maior do que est\u00e1vamos acostumados. Eu sonharia repetidas vezes com aquelas letras piscando e fascinando o menino que nunca tinha ido t\u00e3o longe.<\/p>\n<p>Agora aqui estou indo para Maring\u00e1. O dia est\u00e1 quase no fim e a mente cansada pede um al\u00edvio. Eu, que nos \u00faltimos tempos, tenho deixado as cr\u00f4nicas de lado, tive a s\u00fabita vontade de escrever uma. Pare\u00e7o at\u00e9 um abst\u00eamio na fissura. \u00c9 preciso preencher o tempo e exercitar a mem\u00f3ria. Tal exerc\u00edcio tem se tornado dif\u00edcil hoje em dia com tanto desperd\u00edcio de palavras.<\/p>\n<p>Nossas incoer\u00eancias na rela\u00e7\u00e3o com o tempo causam vergonha. Idealizamos o passado, mas n\u00e3o conseguimos respeitar a simples mem\u00f3ria do dia que passou. N\u00e3o demora muito para que o \u201choje\u201d se torne um lastro de algo que aconteceu, mas que j\u00e1 se despediu, sem pedir licen\u00e7a.<\/p>\n<p>Me lembro ent\u00e3o do sorriso de meu filho, do orgulho que senti em v\u00ea-lo escrever cada letra do alfabeto. Trabalhei na editora, carreguei caixa, tomei chuva, almocei, fui aos bancos, paguei contas&#8230; despedi-me da esposa, entrei no carro em dire\u00e7\u00e3o \u00e0 Juiz de Fora, conversamos a viagem toda, fizemos check-in, tomamos um caf\u00e9 com p\u00e3o de queijo, embarcamos no avi\u00e3o, voamos para Campinas. E agora seguimos para Maring\u00e1.<\/p>\n<p>De todo estes movimentos, minha mem\u00f3ria mesmo cansada se deleita com algumas imagens: as montanhas de Minas, o p\u00f4r do sol invadindo-as, e ainda o mesmo sol, agora mais pr\u00f3ximo, visto da janela do avi\u00e3o.<\/p>\n<p>Mesmo aprisionado \u00e0 uma vida moderna na qual n\u00e3o paramos de correr h\u00e1 momentos especiais em que nos quedamos para ver outro movimento, o da natureza. Um movimento que se repete, mas que nunca deixa de ser fascinante. Um movimento que nos conduz para algo mais do que passos artificiais de uma vida artificial. Que olhos podem ver o que se apresenta deslumbrante?<\/p>\n<p>Minha aten\u00e7\u00e3o \u00e9 interrompida pela mesma voz do comandante. \u201cPrepara-se para a aterrissagem em Maring\u00e1\u201d. Percebo que o tempo passou rapidamente. A cr\u00f4nica fez seu papel diante de um tempo sempre fugidio. Bendita mem\u00f3ria!<\/p>\n<p><em>Escrito em 09\/11\/2015, \u00e0s 23h10.<\/em><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>O avi\u00e3o anda, meio que indeciso, pra l\u00e1 e pra c\u00e1, na pista de pouso do aeroporto de Campinas. Quando uma certa impaci\u00eancia come\u00e7a a tomar conta do ambiente, a voz anasalada do comandante informa que os passageiros devem se preparar para o voo. 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