{"id":1369,"date":"2015-09-15T07:56:29","date_gmt":"2015-09-15T10:56:29","guid":{"rendered":"http:\/\/ultimato.com.br\/sites\/fatosecorrelatos\/?p=1369"},"modified":"2015-09-15T07:59:29","modified_gmt":"2015-09-15T10:59:29","slug":"sobre-a-foto-de-aylan","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/ultimato.com.br\/sites\/fatosecorrelatos\/2015\/09\/15\/sobre-a-foto-de-aylan\/","title":{"rendered":"Sobre a foto de Aylan"},"content":{"rendered":"<p>Ainda sobre a tr\u00e1gica foto de Aylan, o menino s\u00edrio encontrado morto na beira da praia, que rodou o mundo. Li os coment\u00e1rios ao meu pequeno texto (pelos quais agrade\u00e7o) e ponderei algumas quest\u00f5es:<\/p>\n<ol>\n<li>Escrevi o texto no calor dos sentimentos. Fui movido mais pela indigna\u00e7\u00e3o do que por uma an\u00e1lise mais apurada do assunto.<\/li>\n<li>Entendo a import\u00e2ncia que a foto teve para sensibilizar autoridades, tornar o assunto priorit\u00e1rio nas agendas t\u00e3o apertadas e mobilizar a opini\u00e3o p\u00fablica. Ela entrou para a Hist\u00f3ria.<\/li>\n<li>Muitas boas a\u00e7\u00f5es come\u00e7am a partir de uma trag\u00e9dia. A trag\u00e9dia \u00e9 ruim, mas ela tem o potencial de mover (mesmo que por sentimentos imediatistas) pessoas para um inconformismo que pode mudar o mundo. Neste sentido, a foto teve um car\u00e1ter revolucion\u00e1rio.<\/li>\n<li>O jornalismo teve uma\u00a0 decis\u00e3o muito dif\u00edcil a tomar. Por isso, n\u00e3o devemos generalizar a qualidade e a inten\u00e7\u00e3o jornal\u00edstica de quem publicou a foto. Fazer isso \u00e9 ter pouca no\u00e7\u00e3o da complexidade da decis\u00e3o. Errei ao subestimar o jornalismo.<\/li>\n<\/ol>\n<p>No entanto, gostaria de ponderar mais algumas coisas:<\/p>\n<ul>\n<li>Mesmo que a foto do pequeno Aylan tenha se tornado um \u00edcone contra a situa\u00e7\u00e3o triste dos refugiados, n\u00e3o podemos nos esquecer de que ela era uma crian\u00e7a, que tinha uma hist\u00f3ria pr\u00f3pria, sonhos s\u00f3 dele e uma roupinha pronta para conhecer um novo lugar para morar. Mesmo que eu considere que a foto gerou efeitos fant\u00e1sticos, ainda assim ela n\u00e3o tira da minha mente a sensa\u00e7\u00e3o de indignidade que o corpo do pequeno teve. A outra foto &#8211; do policial carregando o corpo da crian\u00e7a &#8211; tamb\u00e9m \u00e9 tr\u00e1gica, mas menos indigna.<\/li>\n<li>Fico pensando quais crit\u00e9rios que usamos para definir que uma foto deve ou n\u00e3o ser publicada. Acho que quase todos s\u00e3o baseados na import\u00e2ncia pol\u00edtica do assunto. Entendo. Mas n\u00e3o caberia um espa\u00e7o _ mesmo que um palmo apenas &#8211; para pensarmos que n\u00e3o estamos lidando apenas com manchetes e informa\u00e7\u00f5es, mas com pessoas? E neste sentido, uma crian\u00e7a morta na praia pode ser retratada de v\u00e1rias formas. Quero relativizar o absoluto aqui. A crian\u00e7a precisaria ser fotografada naquele jeito mesmo? \u00c9 dif\u00edcil levantar este ponto depois que a foto fez sucesso. Mesmo assim, o fa\u00e7o.<\/li>\n<li>A compaix\u00e3o pode ser facilmente transformada em fetichismo. A imagem da crian\u00e7a se tornou mat\u00e9ria-prima para desenhos, ilustra\u00e7\u00f5es e formas. N\u00e3o parece meio macabro fazer isso? Que humanidade \u00e9 essa que n\u00e3o respeita uma morte, mas a transforma em &#8220;bandeira&#8221;, mesmo que seja justa? N\u00e3o h\u00e1 alguma coisa errada quando n\u00e3o nos incomodamos nenhum um pouco com isso?<\/li>\n<li>Reitero que meu olhar para a foto n\u00e3o viu primeiramente uma causa pol\u00edtica, mas uma pessoa criada \u00e0<em> imagem e semelhan\u00e7a do Criador<\/em>. Minha an\u00e1lise, portanto, foi impulsionada mais por este sentimento de indigna\u00e7\u00e3o pelo &#8220;templo sagrado de Deus&#8221; ter sido profanado do que pelos efeitos que a imagem causaria. E devo dizer: ainda sinto o mesmo, ainda que reconsiderando a validade dos efeitos.<\/li>\n<li>Trabalhei no jornalismo di\u00e1rio de uma r\u00e1dio de not\u00edcias. Acompanhei casos de assassinatos, mortes tr\u00e1gicas, injusti\u00e7as. E percebi que com o tempo todos n\u00f3s, jornalistas, corremos o risco de ficar indiferentes ao drama de cada hist\u00f3ria contada. \u00c9 preciso nadar contra a mar\u00e9 para n\u00e3o perder a sensibilidade, mesmo que seja necess\u00e1rio tamb\u00e9m desenvolver &#8220;muros de prote\u00e7\u00e3o emocionais&#8221; para dar conta do trabalho. Nunca me esque\u00e7o de um colega setorizado na se\u00e7\u00e3o de pol\u00edcia contando alegremente o caso de uma pessoa decapitada. N\u00e3o que ele tivesse alegria com o fim tr\u00e1gico, mas ele n\u00e3o tinha compaix\u00e3o. O caso de Aylan deve lembrar ao jornalismo que n\u00e3o conseguiremos contar a verdade dos fatos sem compaix\u00e3o. A grandeza da verdade exige de n\u00f3s mais do que precis\u00e3o.<\/li>\n<\/ul>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Ainda sobre a tr\u00e1gica foto de Aylan, o menino s\u00edrio encontrado morto na beira da praia, que rodou o mundo. 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