{"id":117,"date":"2009-07-11T21:15:00","date_gmt":"2009-07-12T00:15:00","guid":{"rendered":"http:\/\/ultimato.com.br\/sites\/fatosecorrelatos\/2009\/07\/11\/fui-a-mangue-seco-mas-nao-molhei-os-pes\/"},"modified":"2010-09-25T18:52:11","modified_gmt":"2010-09-25T21:52:11","slug":"fui-a-mangue-seco-mas-nao-molhei-os-pes","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/ultimato.com.br\/sites\/fatosecorrelatos\/2009\/07\/11\/fui-a-mangue-seco-mas-nao-molhei-os-pes\/","title":{"rendered":"Fui \u00e0 Mangue Seco, mas n\u00e3o molhei os p\u00e9s"},"content":{"rendered":"<p><a href=\"http:\/\/1.bp.blogspot.com\/_oPpAxASUdJ8\/Slk1vl6L8VI\/AAAAAAAAAJI\/v3NJ0B2-h0U\/s1600-h\/DSC_0073.JPG\" class=\"lightview\" data-lightview-group=\"group-117\" data-lightview-options=\"skin: 'dark', controls: 'relative', padding: '10', shadow: { color: '#000000', opacity: 0.08, blur: 3 }\"><img decoding=\"async\" style=\"float:left;margin:0 10px 10px 0;cursor:pointer;cursor:hand;width: 200px;height: 134px\" src=\"http:\/\/1.bp.blogspot.com\/_oPpAxASUdJ8\/Slk1vl6L8VI\/AAAAAAAAAJI\/v3NJ0B2-h0U\/s200\/DSC_0073.JPG\" border=\"0\" alt=\"\" \/><\/a><br \/>Quase 7 da manh\u00e3. Quarta-feira, in\u00edcio do meu terceiro e \u00faltimo dia em Recife (PE), e eu s\u00f3 havia visto a praia de longe. Da\u00ed minha resolu\u00e7\u00e3o: acordar cedo e apreci\u00e1-la.<\/p>\n<div>Sentei-me em uma cadeira da estrutura de madeira montada sobre as \u00e1guas, e tentei ficar em sil\u00eancio para ouvir os sons que tanto gosto. N\u00e3o fosse a sujeira deixada pelos bo\u00eamios da noite anterior e a presen\u00e7a inc\u00f4moda de uma cadela gr\u00e1vida, eu teria conseguido me concentrar mais.<\/div>\n<div>Ao sair, vi uma canoa chegando. Tive a ideia de ir ao outro lado e visitar a famosa praia de Mangue Seco (aquela aonde a novela <i>Tieta<\/i> foi filmada). Lembrei que n\u00e3o tinha dinheiro. Cheguei pr\u00f3ximo de Chico, o dono do barco, e perguntei o pre\u00e7o de ida e volta. &#8220;Dois reais para ir e dois para voltar&#8221;. Revirei o bolso da minha mochila e encontrei, por sorte, 3 moedas de um real. Ele aceitou o novo pre\u00e7o e me levou at\u00e9 o outro lado.<\/div>\n<div>Munido de minha m\u00e1quina fotogr\u00e1fica e curiosidade, cheguei \u00e0s margens da praia. Alguns pescadores, areia meio escura, e uma sensa\u00e7\u00e3o de decad\u00eancia. Caminhei v\u00e1rios metros para a direita, mas encontrei pouco encanto. Mato, sujeira, cachorros, alguns homens bebendo aguardente. As poucas casas existentes eram cercadas de grades e algumas com c\u00e3os de guarda. Nem pareciam casas de praia.<\/div>\n<div>Segui em frente, procurando boas imagens para fotografar. Encontrei um peda\u00e7o de pano com v\u00e1rios rasgos, em fortes movimentos causados pelo vento. No fundo, um sol pregui\u00e7oso. Bati duas fotos da cena.<\/div>\n<div>Caminhei um pouco mais, e encontrei uma fila de \u00e1rvores em tamanho ordenadamente crescentes. Foi a foto que mais gostei.<\/div>\n<div>Encontrei um jovem pescador que, apressado, contou-me a raz\u00e3o de ilha estar t\u00e3o vazia de gente. &#8220;Ainda est\u00e1 cedo, e al\u00e9m disso os turistas gostam de vir no fim de semana&#8221;. Com uma vara nos ombros, o pescador seguiu em frente, como que n\u00e3o considerando interessante continuar conversando com um turista que fazia perguntas \u00f3bvias.<\/div>\n<div>Cheguei ent\u00e3o no local onde estavam os diversos bares-restaurantes. E percebi que ali sim \u00e9 que os turistas ficavam, mas naquela hora do dia havia apenas um casal de namorados e um homem em outra mesa. As dezenas de palmeiras enfileiradas davam o ar tur\u00edstico ao ambiente. N\u00e3o pude seguir em frente; precisava voltar ao hotel para o in\u00edcio do evento em que participava.<\/div>\n<div>Ao sentar-se no barco e tomar o caminho de volta \u00e0 praia, comecei a conversar com Chico, o remador. Ele foi apontando as casas que pertenciam \u00e0 fam\u00edlia do dono de uma empresa de cimento. Casas lindas e com tamanhos desproporcionais \u00e0s propriedades dos nativos de Mangue Seco. Ao perguntar a ele se o dono das casas ajudava de alguma maneira a popula\u00e7\u00e3o local, ele sorriu e respondeu, com ironia: &#8220;ajuda nada. Ele vem nos fins de semana, anda na lancha e vai embora&#8221;.<\/div>\n<div>Voltei para o hotel com uma inc\u00f4moda sensa\u00e7\u00e3o de tristeza. A realidade de desigualdade do pa\u00eds se reproduz em cada espa\u00e7o local. Uma vez, outra vez, sempre. Mais recentemente, na praia de Mangue Seco.<\/div>\n<div>Curiosamente, fui \u00e0 praia, mas n\u00e3o molhei os p\u00e9s. As ondas me convidavam, mas sem raz\u00e3o aparente, n\u00e3o quis. Minhas sand\u00e1lias continuaram secas, apesar de sujas de areia. <\/div>\n<div>Cometemos o mesmo absurdo. Vamos \u00e0 praia, tiramos fotos, mas n\u00e3o molhamos p\u00e9s. Mangue Seco, em decad\u00eancia, \u00e9 um recorte de nosso Brasil, desproporcionadamente lindo e desigual.<\/div>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Quase 7 da manh\u00e3. Quarta-feira, in\u00edcio do meu terceiro e \u00faltimo dia em Recife (PE), e eu s\u00f3 havia visto a praia de longe. Da\u00ed minha resolu\u00e7\u00e3o: acordar cedo e apreci\u00e1-la. Sentei-me em uma cadeira da estrutura de madeira montada sobre as \u00e1guas, e tentei ficar em sil\u00eancio para ouvir os sons que tanto gosto. 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