{"id":1024,"date":"2013-04-23T17:48:39","date_gmt":"2013-04-23T20:48:39","guid":{"rendered":"http:\/\/ultimato.com.br\/sites\/fatosecorrelatos\/?p=1024"},"modified":"2013-04-23T17:48:39","modified_gmt":"2013-04-23T20:48:39","slug":"juntando-os-cacos","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/ultimato.com.br\/sites\/fatosecorrelatos\/2013\/04\/23\/juntando-os-cacos\/","title":{"rendered":"Juntando os cacos"},"content":{"rendered":"<p>Reproduzo aqui a cr\u00f4nica \u201cJuntando os cacos\u201d da estudante de jornalismo Agnes Sofia. Al\u00e9m do seu talento para a escrita, Agnes se mostrou realmente interessada em aperfei\u00e7oar sua habilidade. Com isso, ela me encorajou a continuar escrevendo, pelo qual agrade\u00e7o e espero tamb\u00e9m encorajar os leitores. Vale a pena ler a cr\u00f4nica abaixo.<\/p>\n<p>***<\/p>\n<p>Jo\u00e3o Cabral de Melo Neto diz que poesia \u00e9 \u201ccatar feij\u00e3o\u201d. Por muito tempo procurei por uma defini\u00e7\u00e3o para a cr\u00f4nica. Sentia que ela era a \u201covelha negra\u201d da \u201cprodu\u00e7\u00e3o textual\u201d. E digo esse nome pomposo porque se eu dissesse literatura, s\u00f3 pioraria ainda mais a j\u00e1 vida severina dos cronistas, que j\u00e1 jogam no escanteio do jornalismo.<\/p>\n<p>Ent\u00e3o como defini-la?<\/p>\n<p>Tentei descobrir a resposta no \u00faltimo s\u00e1bado. Desde o final de janeiro, viajo toda semana a S\u00e3o Paulo, para o curso \u201cDescobrir S\u00e3o Paulo, Descobrir-se Rep\u00f3rter\u201d. Ao todo, s\u00e3o quase doze horas de viagem, j\u00e1 que agora moro no interior. E nesse \u00fanico e precioso dia da semana, respiro os ares de uma cidade psicod\u00e9lica para mim, pois me sinto perdida no deslumbramento de descobrir recortes dos recortes nas ocasi\u00f5es mais t\u00edmidas, mesmo quando tudo indica que elas n\u00e3o est\u00e3o l\u00e1.<\/p>\n<p>E para quem toda semana se sente um gaiato no navio, uma turista que nada tem a ver com a cidade, descobrir esses recortes inusitados \u00e9 como encontrar as chaves de casa, e sentir-se, finalmente, a par dos acontecimentos, antenada, de volta ao mundo.<\/p>\n<p>Um desses recortes encontrei numa velha pessoa conhecida: o Z\u00e9. Ele estava retra\u00eddo no s\u00e1bado, com ares de maresia, e tenho autoridade para dizer isso porque, assim como ele, passei boa parte da minha vida na praia e sei o que \u00e9 viver o eterno porre de transformar o que era rotina em feriado.<\/p>\n<p>\u00c9 como nascer no o\u00e1sis e ter que morrer no deserto e usando a suposta generosidade que a ascend\u00eancia cai\u00e7ara me permitiria, eu me esqueci, por um momento, do esnobismo dos santistas, e me solidarizei com meu amigo adiado.<\/p>\n<p>Mas por que adiado? A palavra surgiu adiada, emprestada das imagens que a frustra\u00e7\u00e3o projeta no tico do meu c\u00e9rebro enquanto o teco enlouquece com o tempo do deadline. Ent\u00e3o explicarei por tr\u00eas \u201csketches\u201d porque ele \u00e9 um amigo adiado e porque ele me respondeu sobre a cr\u00f4nica. No primeiro, tenho doze anos e estou preocupada, pois a professora de portugu\u00eas nos disse que Castro Alves declamava poemas em pra\u00e7a p\u00fablica na nossa idade. Procuro por saraus, entro em grupos de poetas, quero viver a boemia liter\u00e1ria. Mas s\u00f3 tenho doze anos e tudo isso \u00e9 em Santos, e para ir preciso que a minha m\u00e3e v\u00e1 comigo.<\/p>\n<p>Contam para n\u00f3s que depois do grupo de leitura tem uma palestra muito bacana, de um projeto chamado Terceiras Ter\u00e7as, e que os convidados s\u00e3o escritores \u201cfamos\u00e9rrimos\u201d. Vejo a primeira, com o consagrado Milton Hatoum, e depois que ele declama um poema em franc\u00eas, n\u00e3o vejo mais nada al\u00e9m dele. Nem o Z\u00e9, respons\u00e1vel por entrevistar o convidado.<\/p>\n<p>No m\u00eas seguinte, Zuenir Ventura, e demorei cinco anos para saber sua import\u00e2ncia na \u00e1rea que escolhi. Afoita, fa\u00e7o minha pergunta, sobre a \u00fanica cr\u00f4nica que eu lera de um livro que ganhara alguns meses antes, em alguma feira liter\u00e1ria de Santos, quando consegui o aut\u00f3grafo do escritor(e jornalista, ou vice-versa?).<\/p>\n<p>Ventura responde, e eu aproveito para dizer que era um prazer rev\u00ea-lo.<\/p>\n<p>Ele faz um gracejo inocente, mas que na \u00e9poca eu n\u00e3o entendo, e todos riem, inclusive o Z\u00e9. Eu volto ao meu lugar, envergonhada e com certo frisson por ter agradado a plateia, de maioria universit\u00e1ria.<\/p>\n<p>No m\u00eas seguinte, n\u00e3o vejo nem a metade da palestra com Lu\u00eds Fernando Ver\u00edssimo.<\/p>\n<p>Nem sombra do Z\u00e9. Mas ele estava l\u00e1.<\/p>\n<p>Os anos se passam e vou rever as senhoras do grupo de leitura. Cada m\u00eas elas escolhem um autor para estudar, e me contam que, no \u00faltimo dezembro, o afortunado foi um escritor, roteirista santista, orgulho de Santos. E que ele foi l\u00e1 conversar com elas, todo prosa, distribuindo livros e simpatia. Lamentei horrores. Mais uma tert\u00falia adiada com algu\u00e9m que, percebi naquele instante, era meu amigo, fora testemunha da minha primeira paix\u00e3o, pelos livros, e o final de Casablanca nos ensina que as testemunhas de grandes romances tamb\u00e9m podem come\u00e7ar grandes amizades conosco.<\/p>\n<p>Mas no \u00faltimo s\u00e1bado, eis que surge um \u00faltimo \u201csketch\u201d, aquele que comentei em que o Z\u00e9 est\u00e1 todo t\u00edmido. Mas \u00e9 com essa timidez que ele resolve minha quest\u00e3o, por meio de outra, menos capciosa, \u00e9 verdade: o que um santista como ele estava fazendo num encontro sobre hist\u00f3rias de S\u00e3o Paulo? Por acaso queria solidarizar comigo, uma das \u00fanicas que n\u00e3o possu\u00eda, at\u00e9 ent\u00e3o, v\u00ednculos com a cidade?<\/p>\n<p>Foi um passe de mestre a sua resposta. Timidamente ele leu duas cr\u00f4nicas suas, da \u00e9poca em que escrevia sobre futebol. Eram hist\u00f3rias relacionadas a times de S\u00e3o Paulo, como o Juventus, e num par\u00e1grafo ou outro, como na hist\u00f3ria do sorveteiro, encontr\u00e1vamos grandes pautas para pensar sobre a cidade, como o sempre atual problema das desigualdades sociais.<\/p>\n<p>Cacos, foi isso que vi na minha frente ap\u00f3s ouvir as suas cr\u00f4nicas e suas considera\u00e7\u00f5es sobre a cr\u00f4nica e o jornalismo. Cacos da realidade, perdidos por a\u00ed e que se juntadas de qualquer jeito, s\u00e3o pesadas demais para nossas m\u00e3os. Para isso, existe o refino e a desenvoltura da cr\u00f4nica.<\/p>\n<p>Ah! Nesse \u201csketch\u201d, eu falei com o Z\u00e9. Apenas comentei sobre nossa mesma proced\u00eancia regional, pois a garota de doze anos deu lugar a uma universit\u00e1ria atrapalhada e t\u00edmida, e esqueci de cobrar todas as conversas perdidas. Ser\u00e1 que ele aceitaria essa breja adiada?<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>__________<\/p>\n<p><strong>Agnes Sofia Guimar\u00e3es Cruz<\/strong> \u00e9 estudante de jornalismo da Unesp. Nasceu na cidade de Praia Grande\/SP, mas agora mora em Bauru, onde estuda. Passou a adolesc\u00eancia entre o livros, mas desistiu de fazer letras pois queria algo que a colocasse no mundo, e que a deixasse fazer poesia com o asfalto das ruas. Desde janeiro, ela vai para S\u00e3o Paulo todos os s\u00e1bados para o 6\u00b0 M\u00f3dulo `Descobrir S\u00e3o Paulo, Descobrir-se Rep\u00f3rter`, do Projeto Rep\u00f3rter do Futuro, curso de complementa\u00e7\u00e3o universit\u00e1ria promovido pela ABRAJI \u2013 Associa\u00e7\u00e3o Brasileira de Jornalismo Investigativo e pela OBOR\u00c9 &#8211; Projetos Especiais em Comunica\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Reproduzo aqui a cr\u00f4nica \u201cJuntando os cacos\u201d da estudante de jornalismo Agnes Sofia. Al\u00e9m do seu talento para a escrita, Agnes se mostrou realmente interessada em aperfei\u00e7oar sua habilidade. Com isso, ela me encorajou a continuar escrevendo, pelo qual agrade\u00e7o e espero tamb\u00e9m encorajar os leitores. 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