{"id":631,"date":"2014-10-13T12:01:21","date_gmt":"2014-10-13T15:01:21","guid":{"rendered":"http:\/\/ultimato.com.br\/sites\/estudos-biblicos\/?p=631"},"modified":"2017-09-20T11:04:16","modified_gmt":"2017-09-20T14:04:16","slug":"a-reforma-a-vida-e-a-arte","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/ultimato.com.br\/sites\/estudos-biblicos\/igreja\/a-reforma-a-vida-e-a-arte\/","title":{"rendered":"A Reforma, a vida e a arte"},"content":{"rendered":"<h3>A Reforma, a vida e a arte<\/h3>\n<p><strong>Texto b\u00e1sico:<\/strong> Salmo 24.1,2; Romanos 12.1,2; 1 Cor\u00edntios 10.23-31<\/p>\n<p><strong>Para Ler e Meditar Durante a Semana<\/strong><br \/>\nD \u2013 Salmo 27.1-14\u00a0 &gt;\u00a0 A beleza do Senhor<br \/>\nS \u2013 Salmo 96.1-13\u00a0 &gt;\u00a0 A beleza da Santidade de Deus<br \/>\nT \u2013 G\u00eanesis 1.26-31\u00a0 &gt;\u00a0 Tudo era muito bom<br \/>\nQ \u2013 Eclesiastes 3.9-15\u00a0 &gt;\u00a0 Tudo fez Deus formoso<br \/>\nQ \u2013 Salmos 33.1-22\u00a0 &gt;\u00a0 Cultuar a Deus com arte<br \/>\nS \u2013 2 Cor\u00edntios 13.1-10\u00a0 &gt;\u00a0 Nada podemos contra a verdade<br \/>\nS \u2013 1 Cor\u00edntios 10.23-33\u00a0 &gt;\u00a0 Tudo para gl\u00f3ria de Deus<\/p>\n<h4>Introdu\u00e7\u00e3o<\/h4>\n<p>A B\u00edblia afirma que \u201c&#8230; o deus deste s\u00e9culo cegou o entendimento dos incr\u00e9dulos, para que lhes n\u00e3o resplande\u00e7a a luz do evangelho da gl\u00f3ria de Cristo, o qual \u00e9 a imagem de Deus\u201d (2Co 4.4). O que isso quer dizer? Que o mundo est\u00e1 sob controle de Satan\u00e1s? Mas o diabo \u00e9 chamado o deus deste mundo exatamente da mesma forma como Baal era chamado deus em Cana\u00e3. N\u00e3o s\u00e3o de fato deuses, embora sejam tratados como tais pela imagina\u00e7\u00e3o humana pecaminosa. O pr\u00f3prio diabo, como disse Lutero, \u201c&#8230; \u00e9 o diabo de Deus\u201d. Embora o ser humano ca\u00eddo tenha transformado este mundo em lugar de rebeldia, Satan\u00e1s n\u00e3o tem a m\u00ednima chance de vit\u00f3ria final; ele n\u00e3o pode frustrar os intentos de Deus (Dn 4.34-37).<\/p>\n<p>Sendo que este \u00e9 o mundo de Deus e que ele reina soberano (Sl 24.1) ainda mesmo quando n\u00e3o reina como Salvador, como podemos nos tornar \u201ccrist\u00e3os do mundo\u201d (Jo 17.15-18) no melhor sentido da frase? Lutero sabia que compreender a justifica\u00e7\u00e3o pela f\u00e9 em Cristo<a href=\"#_ftn1\" name=\"_ftnref1\">[1]<\/a> revolucionaria os relacionamentos humanos. O crente estaria livre para ver o mundo como uma atividade espiritual e piedosa, em vez de separar-se dele com o entendimento distorcido de que estivesse assim se separando do pecado. \u201cPois at\u00e9 mesmo na cela do monge,\u201d Lutero lembrava, \u201ceu ainda tinha aquela malandra (<em>sua pr\u00f3pria natureza pecaminosa<\/em>) ali junto comigo\u201d. Sem esse entendimento recomendaremos a algu\u00e9m, que quer dedicar a sua vida a Deus, que fa\u00e7a o semin\u00e1rio ou que arranje emprego numa firma evang\u00e9lica, e n\u00e3o veremos nossas atividades seculares como parte do nosso Cristianismo mesmo sem incluir algum vers\u00edculo b\u00edblico no meio. Noutras palavras, Deus se agrada de nossa atividade comum e fiel neste mundo, de tal forma que um crente n\u00e3o tem de exercer uma atividade religiosa para servir ao Senhor.<\/p>\n<p>Vejamos como a Reforma, com esse entendimento da soberania de Deus, influenciou as v\u00e1rias \u00e1reas da vida secular.<\/p>\n<h4>I. A Santidade do dia-a-dia: a Arte<\/h4>\n<p>Nas pinturas medievais o assunto era quase sempre religioso. Mesmo quando retratados assuntos seculares (tais como os mitos pag\u00e3os), personagens ou imagens b\u00edblicas eram integradas como se de alguma forma o assunto secular exigisse alguma justificativa. Mas os artistas influenciados pela Reforma n\u00e3o faziam arte para pregar ou ensinar. Faziam arte secular sem complexo de culpa porque sabiam que estavam glorificando a Deus (1Co 10.31). Somos tocados por seus retratos de vida comum nos vilarejos, camponeses trabalhando, descansando ou fam\u00edlias em volta de suas mesas.<\/p>\n<p>H\u00e1, portanto, dois princ\u00edpios importantes funcionando:<\/p>\n<ol>\n<li>H\u00e1 a aceita\u00e7\u00e3o do mundo como \u00e9 de verdade, criado por Deus, sob o cuidado de Deus, mas quebrado e corrupto. A arte influenciada pela Reforma \u00e9 totalmente realista, n\u00e3o espiritualizada. Existe perspectiva verdadeira, dando a impress\u00e3o de que (por exemplo) a fam\u00edlia retratada \u00e9 de verdade, mora num lugar de verdade, dentro de um tempo verdadeiro, n\u00e3o uma fam\u00edlia espiritualizada e sem liga\u00e7\u00e3o com a realidade do mundo. A Reforma enfatizou que Deus se fez homem, trazendo dignidade \u00e0 vida terrena e secular.<\/li>\n<li>N\u00e3o \u00e9 necess\u00e1rio \u201csantificar&#8221; a arte exigindo que ela sirva aos interesses morais e religiosos da igreja. A Cria\u00e7\u00e3o \u00e9 uma esfera leg\u00edtima em si mesma e a arte n\u00e3o precisa de justificativas.<a href=\"#_ftn2\" name=\"_ftnref2\">[2]<\/a><\/li>\n<\/ol>\n<p>O reformador de Zurique, Ulrico Zu\u00ednglio (1484-1531) proibiu a arte e a m\u00fasica na igreja porque insistia na centralidade \u00fanica da Palavra e dos sacramentos. Contudo ele pr\u00f3prio tocava instrumentos e fundou a orquestra de Zurique. \u201cN\u00e3o sou da opini\u00e3o\u201d, disse Lutero, \u201cque as artes devam ser jogadas de lado ou desprezadas pelo evangelho, como protestam algumas pessoas superespirituais.\u201d<a href=\"#_ftn3\" name=\"_ftnref3\">[3]<\/a> Compositor de hinos ele mesmo, Lutero inspirou toda uma tradi\u00e7\u00e3o de hinologia evang\u00e9lica, mas os artistas influenciados pela Reforma n\u00e3o criaram apenas arte religiosa. As pe\u00e7as seculares de Bach e os quadros de Rembrandt, por exemplo, s\u00e3o uma declara\u00e7\u00e3o de que \u00e9 poss\u00edvel tamb\u00e9m fazer arte secular para a gl\u00f3ria de Deus.<\/p>\n<p>O que esses artistas compreenderam foi que, no secular e no sagrado, Deus \u00e9 Senhor. As \u00e1reas s\u00e3o distintas, mas Deus \u00e9 o mesmo. A tradi\u00e7\u00e3o reformada mais influenciada por Jo\u00e3o Calvino produziu tamb\u00e9m uma rica tradi\u00e7\u00e3o art\u00edstica. O Barroco Holand\u00eas foi um tributo \u00e0 sua influ\u00eancia. At\u00e9 mesmo nas artes dram\u00e1ticas, houve um impacto not\u00e1vel. A maioria das pe\u00e7as dram\u00e1ticas antes da Reforma era em forma de pe\u00e7as de moralidade, que freq\u00fcentemente tinham o mesmo final: o bom era recebido na gl\u00f3ria e os que n\u00e3o aprenderam a li\u00e7\u00e3o eram lan\u00e7ados no inferno. Mas os reformadores libertaram tamb\u00e9m esta esfera do dom\u00ednio da igreja. Na verdade, o pastor associado de Calvino e seu sucessor em Genebra, Teodoro Beza (1519-1605), enquanto produzia os seus escritos teol\u00f3gicos escreveu a primeira trag\u00e9dia francesa. Os puritanos na Inglaterra estavam longe de condenar o teatro, como demonstrou uma obra teatral importante por Martin Butler, <em>Theater and Crisis<\/em>, 1632-1642 (Cambridge University Press, 1984). Muitos deles eram, eles pr\u00f3prios, arquitetos do palco shakesperiano.<\/p>\n<h4>II. A Santidade do dia-a-dia: a Literatura, a Ci\u00eancia e a Educa\u00e7\u00e3o<\/h4>\n<p>Nas artes liter\u00e1rias tamb\u00e9m a Reforma inspirou liberdade das imposi\u00e7\u00f5es eclesi\u00e1sticas. Lutero escreveu sobre uma variedade de assuntos seculares e Calvino at\u00e9 mesmo experimentou fazer poesia. A primeira obra publicada de Calvino foi o coment\u00e1rio <em>De Clementia<\/em> (sobre a clem\u00eancia), um estudo do antigo jurista romano S\u00eaneca. Beza escreveu textos pol\u00edticos que muitos historiadores hoje consideram como tendo grande influ\u00eancia na forma\u00e7\u00e3o da teoria democr\u00e1tica moderna.<\/p>\n<p>O mesmo esp\u00edrito prevaleceu na ci\u00eancia. N\u00e3o h\u00e1 melhor exemplo da confus\u00e3o e do dom\u00ednio da Igreja Cat\u00f3lica sobre os empreendimentos cient\u00edficos do que no caso de Cop\u00e9rnico.<a href=\"#_ftn4\" name=\"_ftnref4\">[4]<\/a> Quando a igreja fala onde a Escritura n\u00e3o falou, enfraquece a autoridade b\u00edblica com afirmativas dogm\u00e1ticas imposs\u00edveis de ser reconciliadas com os fatos. Quando a ci\u00eancia provou que a terra girava em torno do sol, muitos conclu\u00edram que a B\u00edblia estava errada. Mas para os reformadores a B\u00edblia era sobre Cristo, n\u00e3o sobre o relacionamento dos planetas. Calvino admoestou contra a expectativa de Mois\u00e9s dar informa\u00e7\u00f5es cient\u00edficas. N\u00e3o devemos \u201ccensurar a Mois\u00e9s por n\u00e3o falar com maior exatid\u00e3o&#8230; Mois\u00e9s escreveu em estilo popular coisas que, sem instru\u00e7\u00f5es, pessoas comuns, dotadas de bom senso, s\u00e3o capazes de entender; mas os astr\u00f4nomos investigam com grande esmero aquilo que a sagacidade da mente humana pode compreender\u201d.<a href=\"#_ftn5\" name=\"_ftnref5\">[5]<\/a> Como a B\u00edblia n\u00e3o foi feita como manual de teoria art\u00edstica, liter\u00e1ria, musical ou pol\u00edtica, tamb\u00e9m n\u00e3o deveria ser vista como livro texto para as ci\u00eancias. Tudo nas Escrituras \u00e9 verdade, no sentido daquilo para o qual foi escrito pelo autor original. S\u00f3 que o prop\u00f3sito das Escrituras n\u00e3o \u00e9 nos contar tudo sobre todas as coisas, mas explicar \u2013 na linguagem mais comum e b\u00e1sica poss\u00edvel \u2013 o progresso da obra salv\u00edfica de Deus em Cristo ao longo da hist\u00f3ria da reden\u00e7\u00e3o. Alguns crentes ficaram nervosos com o surgimento da astronomia e das mudan\u00e7as em potencial que ela poderia trazer para o modo que se entendia o universo, mas Calvino avisou: \u201cEsse estudo n\u00e3o deve ser reprovado, nem a ci\u00eancia deve ser condenada, porque algumas pessoas desesperadas tendem a rejeitar ousadamente qualquer coisa que lhes \u00e9 desconhecida\u201d.<a href=\"#_ftn6\" name=\"_ftnref6\">[6]<\/a><\/p>\n<p>Os reformadores deram grande espa\u00e7o \u00e0 \u201crevela\u00e7\u00e3o natural&#8221; e \u00e0s disciplinas seculares que desfraldavam a sabedoria divina de modo a complementar as Escrituras. O resultado foi enorme: \u201cNingu\u00e9m pode negar a preponder\u00e2ncia dos protestantes entre os cientistas ap\u00f3s 1640. Luteranos, anglicanos e, acima de tudo, calvinistas, fizeram mais descobertas cient\u00edficas do que os cat\u00f3licos e apreciam ser mais flex\u00edveis em coloc\u00e1-las em pr\u00e1tica\u201d.<a href=\"#_ftn7\" name=\"_ftnref7\">[7]<\/a><\/p>\n<p>Na \u00e1rea da educa\u00e7\u00e3o (assunto de li\u00e7\u00e3o anterior) Lutero persuadiu o governo a proclamar a educa\u00e7\u00e3o universal compuls\u00f3ria tanto para meninas como para meninos e criou um sistema de educa\u00e7\u00e3o p\u00fablica na Alemanha. Calvino argumentou em suas <em>Ordenan\u00e7as<\/em> de 1541: \u201cComo \u00e9 necess\u00e1rio preparar para as gera\u00e7\u00f5es futuras, a fim de n\u00e3o se deixar a igreja num deserto para os nossos filhos, \u00e9 imperativo que se estabele\u00e7a um col\u00e9gio para se instruir os filhos e prepar\u00e1-los tanto para o minist\u00e9rio quanto para o governo civil\u201d. Esta Academia, que mais tarde tornou-se na Universidade de Genebra, tornou-se modelo para as grandes universidades da Europa e do Novo Mundo. Jo\u00e3o Comenius foi o reformador polon\u00eas que procurou integrar sua vis\u00e3o reformada do mundo com a vis\u00e3o da educa\u00e7\u00e3o p\u00fablica universal. Ele \u00e9 visto por muitos como sendo o pai da educa\u00e7\u00e3o moderna.<\/p>\n<p>Os reformadores n\u00e3o apenas amaldi\u00e7oaram as trevas: estavam decididos a trabalhar de maneira positiva para o bem do pr\u00f3ximo e para a gl\u00f3ria de Deus. Tomaram o estandarte e ergueram os padr\u00f5es para toda uma \u00e9poca, em vez de simplesmente lamentar as condi\u00e7\u00f5es e propor legisla\u00e7\u00e3o. Estavam longe de ser perfeitos, mas foi uma experi\u00eancia not\u00e1vel naquilo que pode ser feito quando o povo de Deus \u00e9 libertado pelo evangelho para o bem de seu pr\u00f3ximo e para a gl\u00f3ria do seu Redentor.<\/p>\n<p>Mas esse testemunho evang\u00e9lico, naturalmente, n\u00e3o come\u00e7ou nem terminou com os s\u00e9culos 16 e 17. Um exemplo mais recente \u00e9 o de Abra\u00e3o Kuyper (1837-1920). Uma das suas contribui\u00e7\u00f5es importantes foi sua insist\u00eancia de que os crist\u00e3os na pol\u00edtica servissem \u00e0 na\u00e7\u00e3o toda e que n\u00e3o apenas promovessem o bem de seus pr\u00f3prios guetos espirituais. Para Kuyper, \u201cN\u00e3o existe uma s\u00f3 polegada, em todo o dom\u00ednio de nossa vida humana, da qual Cristo, que \u00e9 soberano de tudo, n\u00e3o proclame: Meu!\u201d. \u00c9 claro que essa frase poderia ser tomada pelos incr\u00e9dulos como uma tentativa de impor a f\u00e9 crist\u00e3 sobre toda a sociedade. Mas Kuyper estava destacando o senhorio de Cristo sobre \u201ctodo o dom\u00ednio da vida de cada crente\u201d. A vida dos <em>crentes <\/em>ser\u00e1 regulamentada e regida pela vontade revelada de Deus, n\u00e3o apenas nos domingos, mas \u00e0s segundas-feiras tamb\u00e9m. Todo pensamento tem que ser levado cativo a Cristo, declarou Paulo. Homens e mulheres <em>todos<\/em> devem se curvar ante o reino de Cristo sobre toda a vida, mas at\u00e9 o dia final <em>somente os crentes<\/em> o far\u00e3o. Naquele dia \u201c<em>todo <\/em>joelho se dobrar\u00e1 e toda l\u00edngua confessar\u00e1 que Jesus Cristo \u00e9 o Senhor, para a gl\u00f3ria de Deus pai\u201d (Fp 2.10,11).<\/p>\n<h4>III. Afinal, existe arte crist\u00e3?<\/h4>\n<p>Eram os grandes escritores e artistas de s\u00e9culos passados, como Milton, Bunyan H\u00e4ndel e Rembrandt pioneiros da \u201cliteratura e arte crist\u00e3\u201d, ou simplesmente crist\u00e3os que criaram boa arte? Em qualquer curso secular de literatura que ainda aprecie os cl\u00e1ssicos do Ocidente, pessoas que professavam ser crist\u00e3s dominam os nomes, mas suas obras s\u00e3o classificadas como \u201ccl\u00e1ssicos da literatura\u201d. N\u00e3o havia necessidade de criar uma classe especial de literatura para eles, porque foram reconhecidos por seus pr\u00f3prios m\u00e9ritos inerentes. \u00c9 somente quando nossa arte torna-se de segunda categoria que temos de criar um lugar especial para ela e justific\u00e1-la pelo uso moral e evangel\u00edstico com que serve a comunidade crist\u00e3.<\/p>\n<p>Mas nesse modelo que estou sugerindo, seria perfeitamente aceit\u00e1vel um cantor crist\u00e3o talentoso encontrar uma gravadora secular e gravar um \u00e1lbum que n\u00e3o mencionasse temas religiosos. Ironicamente, ao sugerir isso, crist\u00e3os reformados se arriscam a ser chamados de \u201cmundanos\u201d pelos mesmos crentes que permitiram que o mundo definisse sua vida espiritual e a arte que produzem.<\/p>\n<h4>IV. Quando Deus fica fora do dia-a-dia<\/h4>\n<p>A B\u00edblia adverte contra <em>confundir <\/em>as \u201ccoisas celestes\u201d com as \u201ccoisas terrestres\u201d, mas n\u00e3o adverte contra as \u201ccoisas terrestres\u201d em geral. Quando Paulo disse: \u201cCuidado que ningu\u00e9m vos venha a enredar com sua filosofia e v\u00e3s sutilezas, conforme a tradi\u00e7\u00e3o dos homens, conforme os rudimentos do mundo, e n\u00e3o segundo Cristo\u201d (Cl 2.8) ele n\u00e3o afirmava que os crist\u00e3os devessem considerar toda a sabedoria e filosofia humanas como hostis \u00e0 f\u00e9. Lembre-se de que Paulo \u00e9 o homem que argumentou em favor do Cristianismo a partir da filosofia humana em Atos 17. A sabedoria humana tem valor, mas ainda \u00e9 humana e n\u00e3o tem supremacia sobre a divina. Aqueles que confundem as coisas celestes e as terrestres trivializam as terrestres quando acham que, em raz\u00e3o da Queda, n\u00e3o existe nada (ou quase nada) verdadeiro, bom ou belo no mundo que n\u00e3o seja especificamente crist\u00e3o.<a href=\"#_ftn8\" name=\"_ftnref8\">[8]<\/a> \u00c9 por isso que temos a subcultura de m\u00fasica crist\u00e3, arte crist\u00e3 e penduricalhos crist\u00e3os. Temos at\u00e9 mesmo \u201cdivertimentos crist\u00e3os\u201d, pol\u00edticos crist\u00e3os, turismo crist\u00e3o em navios crist\u00e3os, e assim por diante. Mas essa confus\u00e3o se sentia durante a Idade M\u00e9dia, antes que a Reforma distinguisse e devolvesse a dignidade \u00e0s duas esferas \u2013 a secular e a sagrada. Calvino criticou os \u201cfan\u00e1ticos\u201d que consideravam os afazeres seculares como \u201cn\u00e3o espirituais\u201d e portanto, desnecess\u00e1rios.<a href=\"#_ftn9\" name=\"_ftnref9\">[9]<\/a><\/p>\n<h4>Conclus\u00e3o<\/h4>\n<p>O povo de Deus ainda est\u00e1 no mundo, e vive tanto na esfera comum quanto na esfera sagrada. A igreja medieval tamb\u00e9m distinguia entre o sagrado e o comum, mas fazia com que um fosse bom e o outro mau, definindo os crist\u00e3os mais espirituais como os que seguiam o \u201cservi\u00e7o crist\u00e3o de tempo integral\u201d, em vez de voca\u00e7\u00f5es \u201cseculares\u201d (ou seja, comuns). Os reformadores mantiveram a distin\u00e7\u00e3o b\u00edblica entre o que \u00e9 santo e o que \u00e9 comum, mas insistiram que, como Deus havia criado o mundo e o sust\u00e9m por seu poder, o mundo n\u00e3o pode ser uma \u00e2mbito inerentemente mau. Certamente \u00e9 um campo de batalha no qual o bem e o mal, verdade e erro, f\u00e9 e incredulidade lutam. Mas a igreja tamb\u00e9m \u00e9! Deus \u00e9 que mant\u00e9m a ambos, mas eles servem dois prop\u00f3sitos distintos. O prop\u00f3sito da igreja \u00e9 adorar a Deus<a href=\"#_ftn10\" name=\"_ftnref10\">[10]<\/a> conforme ele ordenou e levar o evangelho \u00e0s na\u00e7\u00f5es. O mundo jamais poder\u00e1 ser meio de reden\u00e7\u00e3o. A cultura n\u00e3o pode redimir. A arte n\u00e3o pode redimir. Ci\u00eancias, educa\u00e7\u00e3o, literatura e pol\u00edtica n\u00e3o podem redimir. Mas nem por isso o mundo deixa de ser o \u201cteatro da gl\u00f3ria de Deus\u201d, porque dele ainda \u201c\u00e9 a terra e tudo o que nela se cont\u00e9m, o mundo e os que nele habitam\u201d (Sl 24.1).<\/p>\n<p>Foi esse conhecimento que libertou os grandes artistas seguidores da Reforma para criar obras que servissem tanto a religi\u00e3o quanto o avan\u00e7o da cultura de modos apropriados para cada tarefa, sem confundir as duas. E \u00e9 desse entendimento que precisamos hoje. Assim deixaremos de nos isolar em subculturas religiosas e passaremos a ser sal da terra e luz do mundo.<\/p>\n<h4>Aplica\u00e7\u00e3o<\/h4>\n<ol>\n<li>Fa\u00e7a uma lista de atividades seculares em que voc\u00ea pode se envolver para a gl\u00f3ria de Deus.<\/li>\n<li>Avalie que diferen\u00e7a far\u00e1 para o seu trabalho secular faz\u00ea-lo para a gl\u00f3ria de Deus.<\/li>\n<li>Em qual \u00e1rea art\u00edstica secular voc\u00ea pode se envolver como um meio de glorificar a Deus?<\/li>\n<\/ol>\n<p><em>Autor do estudo:<\/em> Cl\u00e1udio Marra<br \/>\nEstudo publicado originalmente pela <a href=\"http:\/\/www.editoraculturacrista.com.br\/\">Editora Cultura Crist\u00e3<\/a>, na revista <em>Express\u00e3o<\/em> \u2013 <em>Li\u00e7\u00f5es da Hist\u00f3ria da Igreja 2<\/em>. Usado com permiss\u00e3o.<\/p>\n<h5><a href=\"#_ftnref1\" name=\"_ftn1\">[1]<\/a> Uma justi\u00e7a que n\u00e3o \u00e9 nossa \u00e9 atribu\u00edda a n\u00f3s. N\u00f3s somos e continuamos pecadores. Se nos isolarmos, ainda continuaremos tendo de conviver com a nossa natureza inclinada para o pecado.<br \/>\n<a href=\"#_ftnref2\" name=\"_ftn2\">[2]<\/a> O mandato cultural n\u00e3o \u00e9 isolado do mandato espiritual, mas distinto dele (Gn 1.26).<br \/>\n<a href=\"#_ftnref3\" name=\"_ftn3\">[3]<\/a>Ewald M.Plass, <em>What Luther Says<\/em> (St. Louis: Concordia, 1986), no. 3815.<br \/>\n<a href=\"#_ftnref4\" name=\"_ftn4\">[4]<\/a> Nicholas Copernicus (1473-1543) escreveu <em>De revolutionibus orbium coelestium<\/em>, sobre a antiga hip\u00f3tese pitag\u00f3rica de que o sol era o centro do universo e que os planetas, como a terra, giravam em torno dele. Galileo Galilei (1564-1642) ensinou essa teoria e encontrou oposi\u00e7\u00e3o da Igreja Cat\u00f3lica. Foi condenado, for\u00e7ado a negar suas posi\u00e7\u00f5es e exilado. Para mais informa\u00e7\u00f5es ver http:\/\/galileo.imss.firenze.it\/museo\/b\/egalilg.html<br \/>\n<a href=\"#_ftnref5\" name=\"_ftn5\">[5]<\/a>Jo\u00e3o Calvino, <em>Commentary on Genesis<\/em>, trad. James King (Grand Rapids: Eerdmans, 1948), 85-87.<br \/>\n<a href=\"#_ftnref6\" name=\"_ftn6\">[6]<\/a>Ibid.<br \/>\n<a href=\"#_ftnref7\" name=\"_ftn7\">[7]<\/a>Lewis Spitz, <em>The Renaissance and Reformation Movements<\/em> (Chicago: Rand McNally, 1971), 581.<br \/>\n<a href=\"#_ftnref8\" name=\"_ftn8\">[8]<\/a> N\u00e3o existe uma Medicina especificamente crist\u00e3, mesmo assim, a Medicina tem aben\u00e7oado muitos crist\u00e3os.<br \/>\n<a href=\"#_ftnref9\" name=\"_ftn9\">[9]<\/a>Jo\u00e3o Calvino,<em> Institutas<\/em>, 2.2.15.<br \/>\n<a href=\"#_ftnref10\" name=\"_ftn10\">[10]<\/a> Ver o excelente livro de John Piper <em>Alegrem-se os Povos <\/em>(Editora Cultura Crist\u00e3).<\/h5>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>A B\u00edblia adverte contra confundir as \u201ccoisas celestes\u201d com as \u201ccoisas terrestres\u201d, mas n\u00e3o adverte contra as \u201ccoisas terrestres\u201d em geral.  <\/p>\n<p>Alguns, em raz\u00e3o da Queda, acham que n\u00e3o existe nada (ou quase nada) verdadeiro, bom ou belo no mundo que n\u00e3o seja especificamente crist\u00e3o. \u00c9 por isso que temos a subcultura de m\u00fasica crist\u00e3, arte crist\u00e3 e penduricalhos crist\u00e3os. Temos at\u00e9 mesmo \u201cdivertimentos crist\u00e3os\u201d, pol\u00edticos crist\u00e3os, turismo crist\u00e3o em navios crist\u00e3os, e assim por diante. <\/p>\n<p>Existe arte crist\u00e3? Como servir a Deus nos diferentes campos da cultura?<\/p>\n","protected":false},"author":6,"featured_media":53,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"ngg_post_thumbnail":0,"footnotes":""},"categories":[7636,38,6051],"tags":[],"class_list":["post-631","post","type-post","status-publish","format-standard","has-post-thumbnail","hentry","category-etica","category-igreja","category-teologia"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/ultimato.com.br\/sites\/estudos-biblicos\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/631","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/ultimato.com.br\/sites\/estudos-biblicos\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/ultimato.com.br\/sites\/estudos-biblicos\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/ultimato.com.br\/sites\/estudos-biblicos\/wp-json\/wp\/v2\/users\/6"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/ultimato.com.br\/sites\/estudos-biblicos\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=631"}],"version-history":[{"count":5,"href":"https:\/\/ultimato.com.br\/sites\/estudos-biblicos\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/631\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":1923,"href":"https:\/\/ultimato.com.br\/sites\/estudos-biblicos\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/631\/revisions\/1923"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/ultimato.com.br\/sites\/estudos-biblicos\/wp-json\/wp\/v2\/media\/53"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/ultimato.com.br\/sites\/estudos-biblicos\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=631"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/ultimato.com.br\/sites\/estudos-biblicos\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=631"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/ultimato.com.br\/sites\/estudos-biblicos\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=631"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}