Humildade: somos todos do mesmo barro

Humildade: somos todos do mesmo barro

SÉRIE REVISTA ULTIMATO
Artigo: “Do orgulho à humildade – um itinerário espiritual para todos nós”, de Osmar Ludovico, edição 383

Texto básico: Filipenses 2. 1-13

Textos de apoio
– Deuteronômio 8. 1-6
– Isaías 66. 1-2
– Mateus 11. 27-30
– Efésios 4. 1-6
– Tiago 4. 1-10
– Salmos 138. 3-6

Introdução

Popularmente falando, é comum entendermos a “humildade” como uma característica ligada à condição econômica das pessoas. Assim, fulano é mais “humilde” do que ciclano, pois possui menos posses e bens. Ou, ainda, considerarmos a “humildade” como simplicidade ou modéstia – no falar, nas atitudes, etc.

Mas, ao tratarmos da vida cristã, é importante nos lembrarmos que a humildade é uma das mais importantes virtudes (do latim virtutes = forças) a ser cultivada em nossa espiritualidade. Também podemos lembrar que, para os primeiros monges cristãos, a humildade era considerada uma atitude do ser humano perante Deus, e não primariamente um comportamento entre pessoas. Ou seja, para eles a humildade não era uma virtude social, e sim religiosa; e nesse sentido estava relacionada à consciência e experiência de nossa transitoriedade humana, diante de um Deus absoluto, perfeito e infinito.

Temos um modelo definitivo de compromisso com a humildade: a encarnação de Jesus Cristo, que abriu mão de todo o tratamento que lhe era devido como Deus e assumiu o posto do “Servo sofredor” descrito pelo profeta Isaías, aquele que não “tinha nenhuma beleza que chamasse a nossa atenção ou que nos agradasse”, que foi “rejeitado e desprezado por todos” e “suportou dores e sofrimentos sem fim” (Isaías 53. 2b-3). E que, depois de consumar sua auto-humilhação na cruz, foi agraciado por Deus com a soberania universal (Filipenses 2. 9-11).

Vamos estudar e aprender um pouco mais sobre este modelo de humildade, revelado a nós pelas Escrituras?

Para entender o que a Bíblia fala

1. No início do capítulo, Paulo lembra os cristãos de Filipos que eles estão “unidos com Cristo” e “participam do Espírito de Deus” (v. 1, NTLH*). De que forma estas duas certezas podem ajudar os cristãos a alcançarem a “unidade” desejada pelo apóstolo no verso 2?

2. De acordo com os vv. 3-4, como você descreveria uma pessoa humilde? Paulo orienta seus leitores a considerarem “os outros superiores a si mesmos”. Como diferenciar “humildade” de uma baixa autoestima?

3. A seguir, nos vv. 5-8, o apóstolo apresenta o nosso supremo modelo de “esvaziamento” e humildade: Jesus Cristo. Usando nossa imaginação, podemos vislumbrar neste trecho uma “escada descendente” trilhada por Jesus. Quais são os “quatro degraus” trilhados sucessivamente por ele? Como cada uma de suas ações revelam sua humildade e sua preocupação com “os interesses dos outros”?

4. Reflita, agora, por alguns minutos, na diferença entre a atitude de Jesus e a atitude dos nossos primeiros pais – Adão e Eva (Gênesis 3. 4-5, 22).

5. Como a expressão “Por isso” no início do verso 9 (NTLH*) nos ajuda a compreender a resposta de Deus Pai à auto-humilhação do Filho (vv. 9-11)? Que dimensões são afetadas por esta resposta (observe a repetição da palavra “todo/toda” ao longo deste trecho)?

6. Nos vv. 12-13 nos apresenta duas ideias aparentemente contraditórias. Ele pede que continuemos “trabalhando” pela nossa salvação, pois “Deus está sempre agindo” em nós. Como essas ideias podem ser reconciliadas em nossa vida cristã (pessoal e comunitária)?

(*NTLH – Nova Tradução na Linguagem de Hoje)

Para Refletir

Cada discípulo do Senhor é chamado para trilhar o itinerário espiritual que vai do orgulho em direção à humildade, da autonomia à dependência de Deus; e de querer ser o primeiro a ser o último…  Um itinerário do pecado à virtude, um caminho de santificação com Cristo até Cristo, que nos torna mais humanos, pois no Cordeiro vemos Deus como ele é e o homem como deveria ser.(Osmar Ludovico)

Ele se humilhou, de acordo com as Escrituras, assumindo a forma de um escravo. Ele se tornou como nós para que nos tornássemos como ele. A obra do Espírito procura transformar-nos pela graça em uma cópia perfeita de sua humildade.” (Cirilo de Alexandria, bispo, 370-444)

A humildade implica aceitar a própria fragilidade e inconstância, reconhecer que se é um ser humano, que cai constantemente, cuja estrutura de vida pode desmoronar facilmente. Humildade é a coragem de descer à própria humanidade, à própria sombra. Em vez de engrandecer-se, o humilde deve descer de seu trono e reconhecer que ele foi feito de barro (humilitas deriva de humus).” (Anselm Grun)

Vi todas as emboscadas do inimigo estendidas sobre a terra e disse gemendo: quem, pois, passa além dessas armadilhas? E ouvi uma voz responder: a humildade.” (Antão, um dos Pais do Deserto, século IV)      

Para Terminar

1. “[O orgulho] gera crentes vaidosos, julgadores, preconceituosos, cheios de si, egoístas” (Osmar Ludovico). Essa não é uma descrição agradável. Precisamos de coragem e humildade para reconhecer que também fazemos parte desta lista. Ore a Deus pedindo ajuda para conseguir enxergar onde o pecado do egoísmo (com todos os seus “filhotes”) têm se instalado em sua vida.

2. Pense agora nos seus relacionamentos cotidianos (em casa, no trabalho, na escola, na igreja, etc). Ao lidar com as pessoas nesses ambientes, diariamente, você tem seguido o exemplo de Cristo, que se “esvaziou” (Fp 2. 7) de todos os seus “direitos divinos”, e se comportou como um “servo” de todos? Você está muito longe deste alvo? Há algo especifico que você poderia fazer para diminuir essa distância?

Eu e Deus

“Vem, Espírito Santo, vem, Mestre dos humildes e Juiz dos altivos. Vem, esperança dos pobres, conforto dos cansados. Vem, estrela sobre o mar, salvação no naufrágio. Vem, glorioso adorno de todos os viventes, de todos os mortais única salvação. Vem, Espírito Santo, comisera-te de nós. Prepara-nos para tua obra. Preenche nossa pobreza com o teu poder, vem de encontro à nossa fraqueza com a plenitude de tua graça.”  (Anselmo de Cantuária, bispo inglês, 1033-1109, Orações do Povo de Cristo, p. 17, Editora Sinodal)

Autor do Estudo: Reinaldo Percinoto Júnior

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