Cuidado com a “ostentação espiritual”

SÉRIE REVISTA ULTIMATO
Artigo: “Por que desejamos a aprovação dos outros?”, de Paul Freston, Ultimato 390

Texto básico
Mateus 6. 1-6, 16-18

Textos de apoio
– 1 Samuel 16. 6-7
– Provérbios 11. 2
– Salmos 139. 23-24
– Lucas 18. 9-14
– 2 Coríntios 10. 17-18
– Filipenses 2. 3-5

Introdução

Uma tentação sempre presente na experiência cristã é aquela que diz respeito ao que pode ser definido como “orgulho espiritual”. Ora, orgulho é sempre orgulho! Mas o uso do adjetivo “espiritual” nos ajuda a lembrar que o orgulho também pode estar presente em meio à realização daquelas ações ditas “religiosas” ou “espirituais”. E, pior, nesse ambiente “sagrado” esse pecado pode aparecer mascarado, sendo confundido com “santidade”, “poder espiritual” ou “autoridade”… Como alguns costumam dizer, ironicamente, mas com uma boa dose de verdade, o “pecado de auréola” é o mais perigoso!

Jesus alertou seus seguidores sobre este perigo, que costuma andar de mãos dadas com o desejo de ser reconhecido, aprovado ou elogiado pelos outros. É um ciclo vicioso (orgulho – reconhecimento – orgulho), que precisa ser quebrado pela humildade (o reconhecimento de nossas limitações, nossa finitude e nossa dependência de Deus).

O caminho da humildade, amparado pela graça de Deus, nos liberta da dependência em relação às opiniões humanas. Como nos ensina o clássico A imitação de Cristo, do século 15: “O humilde, ao sofrer afrontas, conserva sua paz, porque confia em Deus e não no mundo” (Livro II, 2). Ou, ainda: “A glória dos bons está na própria consciência e não na boca dos homens. (…) Não é mais santo porque te louvam, nem mais ruim porque te censuram. (…) Proceder sempre bem e ter-se em pequena conta é indício de alma humilde” (Livro II, 6).

Cristo, nosso Mestre, é também nosso modelo, pois como nos relata o apóstolo João, ele não buscava “a glória que vem dos homens”, mas sim o “testemunho” (reconhecimento e aprovação) do Pai (João 5. 37, 41). Podemos nos tornar imitadores de Jesus?

 

Para entender o que a Bíblia fala

1) No v.1, que critério fundamental Jesus estabelece para a realização de nossas “obras de justiça”? Qual será a consequência da não observância de tal critério?

2) É possível seguir este critério de Jesus mesmo quando nossas boas ações (“obras de justiça”) precisam ser realizadas em público? Qual é, então, o verdadeiro problema denunciado por Jesus?

3) Começando no v. 2 Jesus passa a descrever três situações nas quais o seu critério inicial deverá ser posto em prática: na ajuda ao próximo (“esmolas”, v. 2), na prática da oração (v. 5) e no exercício do jejum (v. 16). Em cada um dos casos, Jesus contrasta o comportamento do cristão (discípulo) com o dos “hipócritas” (do grego hypokrités, que significa primariamente um ator. Segundo John Stott, “figuradamente, a palavra passou a ser aplicada a qualquer pessoa que trata o mundo como se fosse um palco onde ela executa um papel”). Qual era a principal intenção destes hipócritas? Com que objetivo, na sua opinião?

4) Por que Jesus disse que aqueles hipócritas já haviam recebido “sua plena recompensa” (vv. 2, 5, 16, na NVI)? E, ao contrário, onde se manifesta a “recompensa do Pai celestial”? Qual seria esta “recompensa” da parte de Deus, em cada um dos casos?

5) À luz do ensino de Jesus, por que nossas motivações são tão importantes quanto os nossos atos religiosos em si?

 

Para pensar

“A pessoa que vive nessa busca de reconhecimento e de manutenção de uma fachada não pode crer, porque está presa ao jogo da sociedade que se tornou seu deus. Nas escolas rabínicas, o estudo das Escrituras havia se tornado um meio de ascensão pela via da capacidade intelectual. (…) Quem mais estudou a teologia deveria estar entre as pessoas mais santas, que mais oram, que mais vivem para a glória de Deus, que estão mais prontas a sacrificar tudo pelo reino de Deus. Caso contrário, está caindo na cilada dos escribas.

Porém, a tentação da glória dos homens é sutil e recorrente. Quando o mundo não consegue amoldar alguém e fazê-lo participar do jogo dele, começa a elogiá-lo e a colocá-lo num pedestal como uma pessoa religiosa e admirável, procurando neutralizá-lo e fazê-lo temer a perda da popularidade. E há a glória que vem dos irmãos na fé, duplamente importante no caso de uma atividade pouco valorizada pela sociedade!”

(Paul Freston, em Por que desejamos a aprovação dos outros?)

 

“Embora um dos refrões desta passagem seja ‘diante dos homens, com o fim de serdes vistos por eles’, não é com os homens que o hipócrita fica obcecado, mas consigo mesmo. ‘Em última análise’, escreve o Dr. Lloyd-Jones, ‘nosso único motivo para agradar aos homens que nos rodeiam é agradar a nós mesmos’. O remédio, portanto, é obvio. Precisamos ter tal consciência de Deus que deixemos de ser autoconscientes. E é nisto que Jesus se concentra.”

(John Stott, em A Mensagem do Sermão do Monte, ABU Editora, 1989, p. 143)

 

“O profundo mistério do meu ser frequentemente me é oculto pelo conceito que faço de mim mesmo. A ideia que faço de mim mesmo é falsificada pela admiração que tenho por meus atos. E as ilusões que acalento a meu respeito são produzidas pelo contágio das ilusões de outros homens. Cada qual procura imitar a imaginária grandeza do outro.”

(Thomas Merton, em Homem Algum é Uma Ilha, Verus, 2003, p. 115) 

 

“E agora, José?”

1. “Entrar no secreto significa entrar no silêncio e na quietude. O secreto não é um local, mas um estado de consciência. No secreto não estamos sozinhos, pois nossa alma encontra o Deus vivo e verdadeiro” (Osmar Ludovico, Meditatio, Mundo Cristão, 2007, p. 46). Você tem conseguido desenvolver esta “consciência” da presença de Deus, o Senhor “vivo e verdadeiro”, ao realizar as “obras de justiça” no seu dia a dia? Como esse “estado de consciência” pode libertá-lo do desejo de reconhecimento e aprovação dos outros? Ore pedindo a ajuda de Deus para que isto seja uma experiência real em sua vida, e para que as armadilhas da “ostentação espiritual” sejam desmascaradas e vencidas.

 

Eu e Deus

“Põe-me à prova, Senhor, e examina-me;
investiga meu coração e minha mente.
Pois estou sempre consciente do teu amor
e tenho vivido de acordo com a tua verdade.
Não passo tempo com mentirosos,
nem ando com hipócritas.
Detesto as reuniões dos que praticam o mal
e não me associo aos perversos.
Lavo as mãos para declarar minha inocência.
Venho ao teu altar, ó Senhor,
para entoar um cântico de gratidão
e anunciar todas as tuas maravilhas.
Amo o teu santuário, Senhor,
o lugar onde habita tua presença gloriosa.”

(Salmos 26. 2-8, Nova Versão Transformadora)

 

Autor: Reinaldo Percinoto Junior

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