Deus e a arte de nos “formar”

Artigo: “Jeremias: esperança em tempos de caos”, de Christian Gillis, Ultimato 390

Texto básico

Jeremias 18. 1-12

 Textos de apoio

– Deuteronômio 30. 11-20

– Miqueias 6. 6-8

– Salmo 103. 8-14

– Mateus 7. 24-27

–  2 Timóteo 2. 14-26

– Tiago 1. 22-27

Introdução

Todo artesão (artífice, artista) se preocupa criteriosamente com a matéria-prima que utiliza na produção de suas obras. Isso porque o resultado final do seu trabalho será influenciado, e até mesmo determinado, pela qualidade dos materiais que ele tem à mão. A presença de impurezas (ou contaminantes) na matéria-prima fará com que o produto final seja de qualidade inferior, tanto em termos de beleza quanto de funcionalidade.

Davi, no Salmo 139, reconhece poeticamente Quem era o artesão de sua existência: “Tu criaste cada parte do meu corpo; tu me formaste na barriga da minha mãe” (v. 13). Isso não está em contradição com o conhecimento científico que possuímos hoje, absolutamente. A preocupação de Davi é “ontológica” (aquilo que diz respeito ao significado mais profundo do seu ser e da sua existência).

Sim, de fato Deus é o artesão que “fabrica” o nosso ser, o nosso estar e o nosso fazer. Ele trabalha igualmente com paciência, criatividade e persistência para fazer com que “existamos” como “utensílios” únicos, belos e úteis para o Seu reino, neste mundo em que vivemos e nos movemos (Atos 17. 24-28).

Deus está tão preocupado com aquilo que Ele está fazendo (criando) em nós quanto com aquilo que Ele está fazendo (criando) através de nós! De fato, provavelmente, mais preocupado até com a primeira questão, pois iremos agir a partir do que somos. Os frutos são alimentados pelas raízes.

Mas, e quando falhamos, o que Deus faz, como nosso artesão? Desiste de nós? Troca de matéria-prima? Esse estudo quer nos ajudar a refletir sobre estas (e outras) questões. Vamos em frente?

 

Para entender o que a Bíblia fala

1) Por que Deus convida Jeremias a ir primeiro até a casa do oleiro (v. 1)? Não seria mais fácil simplesmente transmitir sua mensagem aos ouvidos do profeta? De que forma esta experiência na casa do oleiro traria maior profundidade à mensagem que seria recebida e transmitida por Jeremias?

2) Os oleiros eram artífices bem conhecidos nas comunidades israelenses daquele período, e sua atividade (produção de recipientes de barro) era muito importante para a manutenção da vida cotidiana. Provavelmente Jeremias já tinha visto outros oleiros trabalhando, mas nesta ocasião havia algo diferente? Como o trabalho do oleiro com o barro poderia ajudar o profeta a discernir o trabalho de Deus com o povo de Israel (vv. 3-4)? Que características estavam presentes em ambos os trabalhos (v. 6)?

3) Eugene Peterson, comentando sobre este trecho de Jeremias (vv. 7-10), disse: “Nenhuma previsão agourenta é definitiva em sua condenação que não possa ser retirada, como também, nenhuma promessa divina é uma licença para a indolência” (Corra Com os Cavalos, Ultimato/Textus, 2003, p. 97). Em ambos os casos, o QUE, ou melhor, QUEM, poderá fazer com que Deus “mude de ideia”? O que seria determinante/necessário para isto acontecer?

4) Pensando no trecho estudado, faça uma lista das indicações que nos ajudam a entender que, na mensagem de Jeremias ao povo, a advertência e a esperança “andam de mãos dadas”? O que isto nos revela sobre o caráter de Deus?

 

Para pensar

 “Jeremias é, mais que tudo, o profeta que quer trazer à memória o que pode dar esperança em meio à devastação. Embora sua mensagem inicie com a difícil constatação da derrocada de Israel do Sul, seu propósito é apontar para as saídas providenciadas por Deus, para a continuidade e os desenvolvimentos da história da salvação. Deus tem bons pensamentos e bons propósitos para a humanidade.

(…) Por fim, Jeremias ensina que, apesar de reis e governos maus, apesar de lideranças religiosas que perdem de vista os propósitos divinos, apesar do caos e confusão para os quais a história parece descambar, Deus é o Senhor dos Exércitos, aquele que julga não apenas a Israel, mas todas as nações,  todos os governos. Os capítulos finais de seu livro destacam o juízo sobre as nações, inclusive sobre o poder imperial da Babilônia, sinalizando que o reinado do Senhor não se abala, seu reino é eterno haja o que houver, e que um dia todas as babilônias e seus governantes terão fim. Então, ainda que estejamos presenciando devastação hoje, mantenhamos a esperança em Deus viva no coração.”

(Christian Gillis, em Jeremias: esperança em tempos de caos)

 

“As frases iniciais do primeiro capítulo do livro de Jeremias lançam luz sobre o conceito cristão de inspiração. Elas estabelecem que estas são as ‘palavras de Jeremias’ (Jr 1.1) e que ‘a palavra do Senhor veio a ele’ (v. 2). Assim, as Escrituras não se restringem apenas à Palavra de Deus e nem às palavras de homens – trata-se da Palavra de Deus transmitida através dos homens. Essa é a dupla autoria das Escrituras, que não podemos perder de vista.”

(John Stott, em A Bíblia toda, o ano todo, Ultimato, 2007, p. 109)

 

“A imaginação de Jeremias nos desperta para a realidade divina que permeia tudo ao nosso redor, nos mostra como a nossa vida é interiormente, e nos obriga a examinar o que supomos estar fazendo e o que Deus está realizando em nós.

(…) A tarefa de Deus, por intermédio de Jeremias, era esta: como posso fazer com que estas pessoas me levem a sério, exatamente onde elas estão? Como posso fazê-las enxergar que estou trabalhando, agora mesmo, silenciosa e invisivelmente, porém certa e eternamente, na história de suas vidas? (…) Como posso fazer com que elas se dispam de seus tediosos egos, dando lugar à minha gloriosa vontade, aqui e agora?”

(Eugene Peterson, em Corra Com os Cavalos, Ultimato/Textus, 2003, pp. 91-92) 

 

“E agora, José?”

  1. O texto bíblico que estamos estudando está inserido no contexto do juízo de Deus sobre a nação de Judá (o “Israel do Sul”). Mas, a pergunta que Deus dirige à nação, através do profeta Jeremias, pode e precisa ser abraçada pessoalmente por cada um de nós: “Será que eu não posso fazer [com você] o mesmo que o oleiro faz com o barro?”. Por mais retórica que esta pergunta possa parecer, as implicações de nossa resposta são bem desafiadoras, pois apontam para um chamado duplo: arrependimento de nossos maus caminhos, e esperança confiante no poder transformador de Deus! Você gostaria de transformar esses dois desafios em agenda de oração e de mudança pessoal? Você pode começar estabelecendo o compromisso de realizar diariamente a “oração de exame” contida no Salmo 139. 23-24.

 

Eu e Deus

            “Desde os tempos antigos ninguém ouviu, nenhum ouvido percebeu, e olho nenhum viu outro Deus, além de ti, que trabalha para aqueles que nele esperam.

            Vens ajudar aqueles que praticam a justiça com alegria, que se lembram de ti e dos teus caminhos. Mas, prosseguindo nós em nossos pecados, tu te iraste. Como, então, seremos salvos?

            Somos como o impuro — todos nós! Todos os nossos atos de justiça são como trapo imundo. Murchamos como folhas, e como o vento as nossas iniqüidades nos levam para longe.

            Não há ninguém que clame pelo teu nome, que se anime a apegar-se a ti, pois escondeste de nós o teu rosto e nos deixaste perecer por causa das nossas iniqüidades.

            Contudo, Senhor, tu és o nosso Pai. Nós somos o barro; tu és o oleiro. Todos nós somos obra das tuas mãos.

            Não te ires demais, ó Senhor! Não te lembres constantemente das nossas maldades. Olha para nós! Somos o teu povo!”

(Isaías 64. 4-9, Nova Versão Internacional)

 

Autor: Reinaldo Percinoto Junior

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