DESIGREJISMO – crentes caindo fora da igreja

DESIGREJISMO – crentes caindo fora da igreja

 

Texto Básico:  Hebreus 10.25

Leitura Diária:
D 1Pe 2.1-10 – A pedra que vive
S 2Jó 7 – 11 – Deixando de fora o herege
T Ap 2.12-17 – Zelando pela igreja
Q Mt 18.15-20 – Trazendo o irmão de volta
Q 1Co 5.1-13 – O impuro rejeitado
S 1Jo 4.15 – Confissão de fé
S 1Tm 3.1-13 – A qualificação dos oficiais

 

INTRODUÇÃO

Talvez você não saiba o que significa a palavra “desigrejismo” e fique muito desconfiado ao ver uma lição sobre isso. Afinal, será mesmo que este é um dos “ismos de nossos dias”. Se é, então por que nunca ouvi falar dele? Bem, embora a palavra seja desconhecida de muitos cristãos e seja bem esquisita, com certeza você já se deparou com aquilo que ela representa. Desigrejismo é a tendência atual de muitos crentes acharem que podem ter um cristianismo sem igreja e, por isso, abandonam a igreja e tentam viver a fé cristã sozinhos. Será que isso é possível? Será que é certo?

 1. O DESIGREJISMO: EM QUE CREEM OS DESIGREJADOS

A igreja institucional e organizada está hoje no centro de acirradas discussões em praticamente todas as denominações da cristandade. O surgimento de milhares de denominações evangélicas, o poderio apostólico de igrejas neopentecostais, a institucionalização e secularização das denominações históricas, a profissionalização do ministério pastoral, a busca de diplomas teológicos reconhecidos pelo Estado, a variedade infindável de métodos de crescimento de igrejas, de sucesso pastoral, os escândalos ocorridos nas igrejas, a falta de crescimento das igrejas tradicionais, o fracasso das igrejas emergentes – tudo isso tem levado muitos a se desencantarem com a igreja institucional e organizada.

Alguns simplesmente abandonaram a igreja e a fé. Mas outros querem abandonar apenas a igreja e manter a fé. Querem ser cristãos, mas sem a igreja. Alguns, além de não mais frequentarem a igreja, tomaram esta bandeira e passaram a defender abertamente o fracasso total da igreja organizada, a necessidade de um cristianismo sem igreja e a necessidade de sairmos da igreja para podermos encontrar Cristo. São os desigrejados.

Em linhas gerais, os desigrejados defendem os seguintes pontos.

1) Cristo não deixou nenhuma forma de igreja organizada e institucional.

2) Já nos primeiros séculos, os cristãos se afastaram dos ensinos de Jesus, organizando-se como uma instituição, a Igreja, criando estruturas, inventando ofícios e elaborando hierarquias para proteger e defender a própria instituição e de tal maneira se organizaram que acabaram deixando Deus de fora. Com a influência da filosofia grega na teologia e a oficialização do cristianismo por Constantino, a igreja corrompeu-se completamente.

3) Apesar de a Reforma ter se levantado contra esta corrupção, os protestantes e evangélicos acabaram caindo nos mesmíssimos erros, ao criarem denominações organizadas, sistemas interligados de hierarquia e processos de manutenção do sistema, como a disciplina e a exclusão dos dissidentes, e ao elaborarem confissões de fé, catecismos e declarações de fé que engessaram a mensagem de Jesus e impediram o livre pensamento teológico.

4) A igreja verdadeira não tem templos, cultos regulares aos domingos, tesouraria, hierarquia, ofícios, ofertas, dízimos, clero oficial, confissões de fé, rol de membros, propriedades, escolas, seminários.

5) De acordo com Jesus, onde estiverem dois ou três que creem nele, ali está a igreja, pois Cristo está com eles, conforme prometeu em Mateus 18.

6) A igreja, como organização humana, tem falhado e caído em muitos erros, pecados e escândalos e prestado um desserviço ao evangelho.

Infelizmente, os desigrejados estão certos quanto ao fato de que muitos evangélicos confundem a igreja organizada com a igreja de Cristo e lutam com unhas e dentes para defender sua denominação e sua igreja, mesmo quando estas não representam genuinamente os valores da Igreja de Cristo. Concordo também que a igreja de Cristo subsistiu de forma vigorosa nos quatro primeiros séculos se reunindo em casas, cavernas, vales, campos e até cemitérios. Os templos cristãos só foram erigidos após a oficialização do Cristianismo por Constantino, no quarto século.

Os desigrejados estão certos ao criticar os sistemas de defesa criados para perpetuar as estruturas e a hierarquia das igrejas organizadas, esquecendo-se das pessoas e dando prioridade à organização. E também estou de acordo com a constatação de que a igreja institucional tem cometido muitos erros no decorrer de sua longa história.

Dito isto, pergunto se ainda assim está correto abandonarmos a igreja institucional e seguirmos um cristianismo solitário.

 

2. IGREJISMO: O ENSINO BÍBLICO

É verdade que Jesus não deixou uma igreja institucionalizada aqui neste mundo. Todavia, ele disse algumas coisas sobre a igreja que levaram seus discípulos a se organizarem em comunidades ainda no período apostólico e muito antes de Constantino.

1) Jesus disse aos discípulos que sua igreja seria edificada sobre a declaração de Pedro, que ele era o Cristo, o Filho do Deus vivo (Mt 16.15-19). A igreja foi fundada sobre esta pedra, que é a verdade sobre a pessoa de Jesus (1Pe 2.4-8). O que se desviar desta não é igreja cristã. As igrejas foram instruídas pelos apóstolos a rejeitar os livre-pensadores como os gnósticos e judaizantes, e libertinos desobedientes, como os seguidores de Balaão e os nicolaítas (2Jo 10; Rm 16.17; 1Co 5.11; 2Ts 3.6; 3.14; Tt 3.10; Jd 4; Ap 2.6, 14-15). Fica praticamente impossível nos mantermos sobre a rocha, Cristo, e sobre a tradição dos apóstolos registrada nas Escrituras, sem sermos igreja, onde somos ensinados, corrigidos, admoestados, advertidos, confirmados, e onde os que se desviam da verdade apostólica são rejeitados.

3) Jesus instituiu também o que chamamos de processo disciplinar, quando ensinou aos seus discípulos de que maneira deveriam proceder no caso de um irmão que caiu em pecado (Mt 18.15-20) e não demonstrou arrependimento. Após repetidas advertências em particular, o irmão faltoso, porém endurecido, deveria ser excluído da “igreja” – pois é, Jesus usou o termo – e não deveria mais ser tratado como parte dela (Mt 18.17), como aconteceu com o “irmão” imoral da igreja de Corinto (1Co 5). Isso não pode ser feito numa fraternidade informal e livre onde não existe a consciência de pertencemos a um corpo que se guia conforme as regras estabelecidas por Cristo.

4) Jesus determinou que seus seguidores fizessem discípulos em todo o mundo e que os batizassem e ensinassem a eles tudo o que ele havia mandado (Mt 28.19-20). Os discípulos organizaram os convertidos em igrejas, os quais eram batizados e instruídos no ensino apostólico. Eles estabeleceram líderes espirituais sobre estas igrejas, que eram responsáveis por instruir os convertidos, advertir os faltosos e cuidar dos necessitados (At 6.1-6; At 14.23). Definiram claramente o perfil destes líderes e suas funções (1Tm 31-13; Tt 1.5-9; Tg 5.14).

5) Não demorou também para que os cristãos apostólicos elaborassem as primeiras declarações ou confissões de fé que encontramos (cf. Rm 10.9; 1Jo 4.15; At 8.36-37; Fp 2.5-11; etc.), que serviam de base para o ensino e a instrução dos novos convertidos e para examinarem e rejeitarem os falsos mestres. Veja, por exemplo, João usando uma destas declarações para repelir livre-pensadores gnósticos das igrejas da Ásia (2Jo 7-10; 1Jo 4.1-3). Ainda no período apostólico já encontramos sinais de que as igrejas haviam se organizado e estruturado, tendo presbíteros, diáconos, mestres e guias, uma ordem de viúvas e ainda presbitérios (1Tm 3.1; 5.17,19; Tt 1.5; Fp 1.1; 1Tm 3.8,12; 1Tm 5.9; 1Tm 4.14). O exemplo mais antigo que temos desta organização é a reunião dos apóstolos e presbíteros em Jerusalém para tratar de um caso de doutrina (At 15.1-6).

6) Jesus também mandou que seus discípulos se reunissem regularmente para comer o pão e beber o vinho em memória dele (Lc 22.14-20). Os apóstolos seguiram a ordem e reuniam-se regularmente para celebrar a Ceia (At 2.42; 20.7; 1Co 10.16). Todavia, dada à natureza da Ceia, cedo introduziram normas para a participação nela, como fica evidente no caso da igreja de Corinto (1Co 11.23-34).

É curioso que a passagem predileta dos desigrejados (Mt 18.20) foi proferida por Jesus no contexto da igreja organizada. Estes dois ou três que ele menciona são os dois ou três que vão tentar ganhar o irmão faltoso e reconduzi-lo à comunhão da igreja (Mt 18.16). Ou seja, são os dois ou três que estão agindo para preservar a pureza da igreja como corpo, e não dois ou três que se separam dos demais e resolvem fazer sua própria igrejinha informal ou seguir carreira solo como cristãos.

Muito antes do período pós-apostólico, da intrusão da filosofia grega na teologia da Igreja e do decreto de Constantino, a igreja de Cristo já estava organizada, com seus ofícios, hierarquia, sistema disciplinar, funcionamento regular, credos e confissões. A ponto de o autor de Hebreus repreender os que deixavam de se congregar com os demais cristãos (Hb 10.25).

No final, fico com a impressão de que os desigrejados, na verdade, não são contra a igreja organizada meramente porque desejam uma forma mais pura de Cristianismo, mais próxima da forma original – pois esta forma original já nasceu organizada e estruturada, nos Evangelhos e no restante do Novo Testamento. Acho que eles querem mesmo é liberdade para serem cristãos do jeito deles, acreditar no que quiserem e viver do jeito que acham correto, sem ter que prestar contas a ninguém. Pertencer a uma igreja organizada, especialmente àquelas que historicamente são confessionais e que têm autoridades constituídas, conselhos e concílios, significa submeter nossas idéias e nossa maneira de viver ao crivo do Evangelho, conforme entendido pelo Cristianismo histórico. Para muitos, isto é pedir demais.

 

CONCLUSÃO

Eu não tenho ilusões quanto ao estado atual da igreja. Ela é imperfeita e continuará assim enquanto eu for membro dela. A teologia Reformada não deixa dúvidas quanto ao estado de imperfeição, corrupção, falibilidade e miséria em que a igreja militante se encontra no presente, enquanto aguarda a vinda do Senhor Jesus, ocasião em que se tornará igreja triunfante. Ao mesmo tempo, ensina que não podemos ser cristãos sem ela. Que apesar de tudo, precisamos uns dos outros, precisamos da pregação da Palavra, da disciplina e dos sacramentos, da comunhão de irmãos e dos cultos regulares.

 

APLICAÇÃO

Como está sua frequência aos cultos da igreja? Você tem se reunido regularmente com seus irmãos em Cristo para adorar ao Senhor, ser instruído por ele e participar dos sacramentos?

 

Autor da lição: Vagner Barbosa
>> Estudo publicado originalmente pela Editora Cultura Cristã, na Revista Nossa Fé – “ISMOS DE NOSSOS DIAS – Ideias atuais à luz da Bíblia”. Usado com permissão.
[Adaptada de artigo de Augustus Nicodemus em Ó Tempora, ó Mores]

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36 Comentários para “DESIGREJISMO – crentes caindo fora da igreja”

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