{"id":49,"date":"2010-08-18T08:46:10","date_gmt":"2010-08-18T11:46:10","guid":{"rendered":"http:\/\/ultimato.com.br\/sites\/espiritualidade\/"},"modified":"2010-08-18T09:00:44","modified_gmt":"2010-08-18T12:00:44","slug":"entrevista","status":"publish","type":"page","link":"https:\/\/ultimato.com.br\/sites\/espiritualidade\/extras\/entrevista\/","title":{"rendered":"Entrevista"},"content":{"rendered":"<h3>N\u00e3o ao analfabetismo b\u00edblico<\/h3>\n<p><em>Harold Segura observador n\u00e3o cat\u00f3lico da V Confer\u00eancia Geral do Episcopado Latino-americano e Caribenho diz que espiritualidade nada mais \u00e9 do que seguir a Jesus e imitar seus passos.<\/em><\/p>\n<p>Ex-reitor do Semin\u00e1rio Teol\u00f3gico Batista Internacional de Cali, na Col\u00f4mbia, e membro da comiss\u00e3o teol\u00f3gica do Conselho Latino-americano de Igrejas (CLAI), o te\u00f3logo e escritor colombiano Harold Segura foi um dos oito observadores n\u00e3o cat\u00f3licos convidados pelo cardeal Walter Kasper, presidente do Pontif\u00edcio Conselho para a Promo\u00e7\u00e3o da Unidade dos Crist\u00e3os, para participar da V Confer\u00eancia Geral do Episcopado Latino-americano e Caribenho, realizada em Aparecida, SP, em maio de 2007. Como coordenador do Compromisso Crist\u00e3o da Vis\u00e3o Mundial para a Am\u00e9rica Latina e Caribe, Segura mora h\u00e1 alguns anos em San Jos\u00e9, em Costa Rica. Na v\u00e9spera do in\u00edcio da confer\u00eancia, o ilustre visitante passou o dia na Faculdade de Teologia da Universidade Metodista do Estado de S\u00e3o Paulo (UMESP), onde fez uma confer\u00eancia sobre \u201cA espiritualidade como pr\u00e1xis de liberdade no contexto da Am\u00e9rica Latina\u201d e lan\u00e7ou o seu primeiro livro traduzido para o portugu\u00eas, &#8220;Al\u00e9m da Utopia \u2014 Lideran\u00e7a Servidora e Espiritualidade Crist\u00e3&#8221; (Encontro Publica\u00e7\u00f5es, 2007).<\/p>\n<p>Parece que a preocupa\u00e7\u00e3o de Harold Segura \u00e9 a mesma no que diz respeito ao catolicismo e ao protestantismo na Am\u00e9rica Latina e no Caribe: ambos precisam refor\u00e7ar o ensino da Palavra de Deus para evitar o analfabetismo b\u00edblico.<\/p>\n<p><strong>Ultimato \u2014 Em e-mail de 11 de abril, o sr. comunicou aos seus companheiros da Vis\u00e3o Mundial que a Santa S\u00e9 havia confirmado seu convite para participar da V Confer\u00eancia Geral do Episcopado Latino-americano e Caribenho. O sr. foi o \u00fanico observador protestante? De quem foi a iniciativa?<\/strong><\/p>\n<p><strong>Segura \u2014<\/strong> O convite chegou por carta assinada pelo cardeal Kasper, presidente do Pontif\u00edcio Conselho para a Promo\u00e7\u00e3o da Unidade dos Crist\u00e3os, em nome de Bento XVI. Os convidados n\u00e3o cat\u00f3licos foram oito: monsenhor Tarasios (Argentina), arcebispo grego ortodoxo de Buenos Aires e da Am\u00e9rica do Sul; monsenhor Dexel Wellington G\u00f3mez (Bahamas), arcebispo anglicano; pastor Walter Altmann (Brasil), presidente da Igreja Evang\u00e9lica de Confiss\u00e3o Luterana do Brasil e moderador do Comit\u00ea Central do Conselho Mundial de Igrejas; pastor N\u00e9stor Oscar M\u00edguez (Argentina), pastor metodista, professor de B\u00edblia e teologia sistem\u00e1tica; pastor Juan Sep\u00falveda (Chile), da Igreja Miss\u00e3o Pentecostal; pastora Ofelia Ortega (Cuba), presbiteriana, co-presidenta do Conselho Mundial de Igrejas; sr. Claudio Epelman, representante da Comunidade Judaica; e eu, pastor Harold Segura, representando a Uni\u00e3o Batista Latino-americana (UBLA) e a Vis\u00e3o Mundial Internacional.<\/p>\n<p>N\u00e3o \u00e9 a primeira vez que a Igreja Cat\u00f3lica convida observadores evang\u00e9licos. Recordemos que o dr. Jos\u00e9 M\u00edguez Bonino (Argentina), te\u00f3logo metodista, esteve no Conc\u00edlio Vaticano II, e tamb\u00e9m na Confer\u00eancia de Medell\u00edn, em 1968. Esses convites s\u00e3o gestos de cordialidade ecum\u00eanica que t\u00eam contribu\u00eddo para sustentar rela\u00e7\u00f5es fraternais e para manter abertas as portas do di\u00e1logo e da coopera\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>No meu caso, a iniciativa foi, primeiramente, da Vis\u00e3o Mundial Internacional, e, em seguida, da Uni\u00e3o Batista Latino-americana. Foram enviadas muitas cartas solicitando a participa\u00e7\u00e3o de um representante. O cardeal Err\u00e1zuriz (Chile), presidente do CELAM (Conselho Episcopal Latino-americano), respondeu essas cartas, inicialmente explicando os crit\u00e9rios de participa\u00e7\u00e3o e, depois, confirmando a minha participa\u00e7\u00e3o. A Vis\u00e3o Mundial tinha raz\u00f5es para querer estar presente em Aparecida por ser uma organiza\u00e7\u00e3o de ajuda humanit\u00e1ria de identidade crist\u00e3 e de ampla abertura inter-confessional. Por parte da Uni\u00e3o Batista Latino-americana as raz\u00f5es tamb\u00e9m s\u00e3o v\u00e1rias, sobretudo porque, h\u00e1 mais de quinze anos, a Alian\u00e7a Batista Mundial iniciou di\u00e1logos formais com o Vaticano em busca de caminhos de encontro e reconcilia\u00e7\u00e3o. Eu participei do \u00faltimo desses di\u00e1logos, em Buenos Aires, em dezembro de 2000, quando nos reunimos com o cardeal Walter Kasper e mais cinco representantes de Jo\u00e3o Paulo II.<\/p>\n<p>Entendo meu convite como uma confirma\u00e7\u00e3o do desejo oficial da Igreja Cat\u00f3lica de nosso continente de continuar os di\u00e1logos anteriores.<\/p>\n<p><strong>Ultimato \u2014 Desde a I Confer\u00eancia Geral do Episcopado Latino-americano e Caribenho, convocada pelo Papa Pio XII e realizada no Rio de Janeiro h\u00e1 52 anos, a Am\u00e9rica Latina, colonizada e evangelizada pelos dois pa\u00edses mais cat\u00f3licos e fi\u00e9is a Roma na \u00e9poca da Reforma, \u00e9 reconhecida como o Continente da Esperan\u00e7a. Essa esperan\u00e7a \u00e9 para o catolicismo ou para o cristianismo em geral?<\/strong><\/p>\n<p><strong>Segura \u2014<\/strong> Na recente visita ao Brasil, o papa disse que, al\u00e9m de ser o Continente da Esperan\u00e7a, tamb\u00e9m \u00e9 o do amor, tema no qual vem insistindo desde sua Carta Enc\u00edclica &#8220;Deus Caritas Est&#8221; (2005). Minha interpreta\u00e7\u00e3o muito pessoal dessas express\u00f5es \u00e9 que a Igreja deve alentar a esperan\u00e7a e fortalecer o amor. Se essa interpreta\u00e7\u00e3o est\u00e1 correta, a Igreja acerta em sua perspectiva e, nesse sentido, tanto cat\u00f3licos como evang\u00e9licos temos a oportunidade \u2014 e a responsabilidade \u2014 de trabalhar juntos para que essa esperan\u00e7a e esse amor se tornem realidade e n\u00e3o meros referenciais ret\u00f3ricos.<\/p>\n<p>A esperan\u00e7a e o amor poderiam ser campos de trabalho comum. Refiro-me \u00e0 luta contra a pobreza, \u00e0 den\u00fancia prof\u00e9tica, \u00e0 constru\u00e7\u00e3o da paz, \u00e0 promo\u00e7\u00e3o da justi\u00e7a, \u00e0 defesa da dignidade humana, ao zelo pela cria\u00e7\u00e3o e a tantos outros temas urgentes no momento atual. Nesses temas falta a esperan\u00e7a e juntos poder\u00edamos fazer algo como testemunho comum do amor de Deus.<\/p>\n<p>Se o ecumenismo tem esperan\u00e7a, ela est\u00e1 em sua miss\u00e3o comum de servi\u00e7o e de evangeliza\u00e7\u00e3o, ou seja, juntos servindo no nome de Jesus \u00e0queles que necessitam e juntos tamb\u00e9m anunciando que em Jesus h\u00e1 esperan\u00e7a e que ela \u00e9 a fonte do amor.<\/p>\n<p>Voltando \u00e0 sua pergunta original, posso dizer que o catolicismo cr\u00ea que a Am\u00e9rica Latina representa para ele uma esperan\u00e7a de revitaliza\u00e7\u00e3o institucional. Aqui se encontra o maior percentual de cat\u00f3licos do mundo e, tanto o papa como os bispos admitiram, durante os dias da confer\u00eancia em Aparecida, que esses n\u00fameros n\u00e3o s\u00e3o suficientes se n\u00e3o h\u00e1 uma verdadeira viv\u00eancia do evangelho. H\u00e1 uma clara consci\u00eancia de que essa esperan\u00e7a pode se diluir se n\u00e3o se refor\u00e7ar a catequese, o atendimento pastoral, a forma\u00e7\u00e3o dos sacerdotes, al\u00e9m de outras a\u00e7\u00f5es pastorais.<\/p>\n<p>Por\u00e9m, repito que falar de esperan\u00e7a deveria ter o sentido de miss\u00e3o e n\u00e3o o de proselitismo evangelizador. Isso nos salvaria das a\u00e7\u00f5es de conquista proselitista por parte dos evang\u00e9licos ou de reconquista religiosa por parte do catolicismo.<\/p>\n<p><strong>Ultimato \u2014 A grande maioria dos cat\u00f3licos do Continente da Esperan\u00e7a n\u00e3o pratica a religi\u00e3o (no Brasil, 61% \u00e9 praticante, de acordo com uma pesquisa do Datafolha). A situa\u00e7\u00e3o \u00e9 tal que o jornalista Marcelo Coelho (Folha de S\u00e3o Paulo) diz que \u201co catolicismo \u00e9 uma religi\u00e3o de pessoas que n\u00e3o ligam tanto para religi\u00e3o\u201d. Este panorama pode mudar?<\/strong><\/p>\n<p><strong>Segura \u2014<\/strong> Pessoalmente, tive uma grata surpresa com algumas declara\u00e7\u00f5es que a Igreja Cat\u00f3lica fez nos documentos pr\u00e9vios \u00e0 confer\u00eancia de Aparecida. Em dois deles, no Documento de Participa\u00e7\u00e3o (2005) e no Documento de S\u00edntese (2007), se admite que o catolicismo da Am\u00e9rica Latina e do Caribe \u00e9 formado por uma grande multid\u00e3o de batizados, mas n\u00e3o de verdadeiros disc\u00edpulos e seguidores de Jesus na vida di\u00e1ria. Esta \u00e9 uma declara\u00e7\u00e3o honesta e corajosa que eu n\u00e3o havia encontrado antes nos textos oficiais.<\/p>\n<p>Esse mesmo diagn\u00f3stico se confirmou por parte de v\u00e1rios dos bispos presentes na confer\u00eancia em Aparecida. O papa Bento XVI falou desse tema em seu discurso inaugural quando disse que os fi\u00e9is estavam esperando da confer\u00eancia \u201cuma renova\u00e7\u00e3o e uma revitaliza\u00e7\u00e3o de sua f\u00e9 em Cristo\u201d. E acrescentou que era necess\u00e1rio e urgente empreender uma nova pastoral para que os batizados pudessem seguir a Jesus, \u201cviver em intimidade com Ele, imitar seu exemplo e dar testemunho\u2026 Pois ser disc\u00edpulo e mission\u00e1rio de Jesus Cristo e buscar a vida nele implica estar profundamente enraizado nele\u201d. Portanto, me deparo com um diagn\u00f3stico correto, que n\u00f3s evang\u00e9licos j\u00e1 hav\u00edamos assinalado quando fal\u00e1vamos de \u201cum catolicismo nominal\u201d.<\/p>\n<p>Por\u00e9m, h\u00e1 que se esperar se, diante desse diagn\u00f3stico, s\u00e3o gerados novos modelos pastorais. Particularmente, n\u00e3o creio que a Igreja Cat\u00f3lica v\u00e1 conseguir enfrentar esse dilema. Por um lado, porque n\u00e3o contam com a quantidade de sacerdotes necess\u00e1rios para dar aten\u00e7\u00e3o aos milh\u00f5es de batizados; por outro, porque seu sistema clerical e sacramental n\u00e3o permite que um maior n\u00famero de leigos tomem parte nas a\u00e7\u00f5es pastorais. A necessidade \u00e9 grande e eles s\u00e3o conscientes disso; mas como responder de maneira adequada com uma eclesiologia centralista, clerical e que exclui as mulheres do minist\u00e9rio ordenado?<\/p>\n<p>Mas, como nesta entrevista quero manter um equil\u00edbrio e n\u00e3o deixar a impress\u00e3o de que todos os problemas s\u00e3o do catolicismo, \u00e9 importante ressaltar que o protestantismo evang\u00e9lico no continente come\u00e7a a viver uma situa\u00e7\u00e3o similar. H\u00e1 estudos muito bem documentados que mostram que dentro de nossas fileiras j\u00e1 se observam os primeiros sinais do \u201cprotestantismo popular\u201d, de \u201canalfabetismo b\u00edblico\u201d e de separa\u00e7\u00e3o entre f\u00e9 e \u00e9tica. Devemos agir logo no que se refere a esses primeiros sinais se n\u00e3o queremos repetir os erros de uma f\u00e9 de multid\u00f5es, massificada, mas irrelevante em seu impacto social e cultural.<\/p>\n<p><strong>Ultimato \u2014 Como o sr. v\u00ea o crescimento do protestantismo nos pa\u00edses ibero-americanos?<\/strong><\/p>\n<p><strong>Segura \u2014 <\/strong>Pelo que eu disse at\u00e9 agora \u00e9 f\u00e1cil saber que vejo esse crescimento com grande preocupa\u00e7\u00e3o. Houve \u00e9pocas em que nossa grande pergunta foi: como obter o crescimento? Hoje, por\u00e9m, depois do crescimento explosivo que temos alcan\u00e7ado, a pergunta \u00e9: o que fazer com esse crescimento? E n\u00e3o encontramos a resposta.<\/p>\n<p>Em alguns pa\u00edses o crescimento transformou-se em oportunidade pol\u00edtica (o crescimento foi igual a votos), em outros, em oportunidade econ\u00f4mica (o crescimento foi igual a poder econ\u00f4mico), e, em outros, em poder social (crescimento foi igual a caudilhismo). Mas a verdade \u00e9 que nosso crescimento ainda n\u00e3o conseguiu traduzir-se em impacto social, em a\u00e7\u00f5es prof\u00e9ticas, em testemunho \u00e9tico, enfim, em ser verdadeiramente \u201csal da terra e luz do mundo\u201d, como quis Jesus. Se n\u00e3o conseguirmos mudar essa situa\u00e7\u00e3o, o crescimento nos asfixiar\u00e1 e nos tornaremos uma segunda for\u00e7a religiosa oficial, grande mas irrelevante, como aquela que j\u00e1 temos h\u00e1 quinhentos anos.<\/p>\n<p><strong>Ultimato \u2014 No discurso de inaugura\u00e7\u00e3o da V Confer\u00eancia do Episcopado Latino-americano e Caribenho, Bento XVI se refere \u00e0 Igreja Cat\u00f3lica como uma \u201c\u00fanica Igreja de Cristo governada pelo sucessor de Pedro e pelos bispos em comunh\u00e3o com ele\u201d. Isso \u00e9 um retrocesso da Igreja ou uma confirma\u00e7\u00e3o do que ela sempre pensou?<\/strong><\/p>\n<p><strong>Segura \u2014 <\/strong>\u00c9 uma confirma\u00e7\u00e3o do que ela sempre pensou. Basta ler a Declara\u00e7\u00e3o Dominus Iesus (2005), ou o Catecismo da Igreja, ou os documentos pontif\u00edcios em rela\u00e7\u00e3o \u00e0 doutrina da Igreja para comprovar que essa doutrina tem estado presente sem varia\u00e7\u00e3o alguma. A Igreja Cat\u00f3lica oficial cr\u00ea que h\u00e1 somente uma Igreja e que ela est\u00e1 sob a dire\u00e7\u00e3o do sucessor de Pedro e dos bispos em comunh\u00e3o com ele.<\/p>\n<p>Partindo dessa afirma\u00e7\u00e3o, posso dizer que n\u00f3s, observadores evang\u00e9licos em Aparecida, n\u00e3o esper\u00e1vamos que nos concedessem o t\u00edtulo de Igreja. Repito que, para eles, s\u00f3 h\u00e1 uma Igreja e, verdade seja dita, n\u00f3s queremos pertencer a ela. O que quisemos em Aparecida foi que nos denominassem de uma forma mais respeitosa, em vez de \u201cseitas fundamentalistas\u201d ou outras denomina\u00e7\u00f5es que nos deram nas \u00faltimas d\u00e9cadas. Propusemos que nos chamassem de comunidades eclesiais ou comunidades crist\u00e3s. Era uma simples \u201cvit\u00f3ria gramatical\u201d, mas importante no sentido de abrir portas de respeito para a unidade na miss\u00e3o\u2026 n\u00e3o na eclesiologia.<\/p>\n<p><strong>Ultimato \u2014 Segundo o economista americano Jeffrey Sachs, de 20 a 30 mil pessoas morrem diariamente por n\u00e3o poder suprir suas necessidades b\u00e1sicas. S\u00f3 na Am\u00e9rica Latina, onde vive a metade de todos os cat\u00f3licos, 30% da popula\u00e7\u00e3o est\u00e1 abaixo da linha da pobreza. H\u00e1 um meio termo entre a teologia da liberta\u00e7\u00e3o e o movimento carism\u00e1tico cat\u00f3lico, entre a preocupa\u00e7\u00e3o social e a preocupa\u00e7\u00e3o espiritual, entre tradi\u00e7\u00e3o e revolu\u00e7\u00e3o? Esse delicado desafio tamb\u00e9m \u00e9 para os protestantes?<\/strong><\/p>\n<p><strong>Segura \u2014<\/strong> Eu creio que tem de haver um meio termo, e o quanto antes o encontrarmos ser\u00e1 melhor. Esta \u00e9, na minha opini\u00e3o, uma das maiores urg\u00eancias do movimento evang\u00e9lico de nossos dias. Necessitamos encontrar o equil\u00edbrio entre a Igreja e o mundo, entre piedade e compromisso, entre adora\u00e7\u00e3o e servi\u00e7o, entre &#8220;kerygma&#8221; e &#8220;diakonia&#8221;, entre an\u00fancio e den\u00fancia. Este \u00e9 um desafio tamb\u00e9m para o protestantismo.<\/p>\n<p><strong>Ultimato \u2014 O que voc\u00ea chama de espiritualidade evang\u00e9lica comprometida?<\/strong><\/p>\n<p><strong>Segura \u2014<\/strong> Escrevi no ano 2000 um pequeno livro intitulado &#8220;Hacia Una Espiritualidad Evang\u00e9lica Comprometida&#8221; (Rumo a uma espiritualidade evang\u00e9lica comprometida) e o que quis foi fazer um chamado pastoral a uma nova maneira de seguir a Jesus, caracterizada pela radicalidade, pela integralidade e pela diversidade. Em resumo: para mim, espiritualidade \u00e9 seguir a Jesus e imitar seus passos em meio \u00e0 vida e aos desafios de cada dia. A espiritualidade, ent\u00e3o, \u00e9 imitar a Jesus, viver como Ele viveu e comprometer-se com a causa com que Ele se comprometeu, a causa do reino de Deus e sua justi\u00e7a.<\/p>\n<p>A renova\u00e7\u00e3o de que necessitamos tem no centro a renova\u00e7\u00e3o da espiritualidade. Enquanto continuarmos crendo que ser espiritual \u00e9 manter-se isolado das realidades sociais e do que acontece no mundo, n\u00e3o conseguiremos dar o \u201csalto qualitativo\u201d rumo a uma Igreja mais relevante e presente neste mundo como testemunho do amor de Deus. Necessitamos, pois, deixar que a a\u00e7\u00e3o do Esp\u00edrito Santo nos transforme, para que possamos ser agentes de transforma\u00e7\u00e3o e colaboradores de Deus em sua tarefa de \u201cfazer novas todas as coisas\u201d.<\/p>\n<p><strong>Ultimato \u2014 Parece que o livro sobre miss\u00e3o integral que o sr. e Ren\u00e9 Padilla publicaram no ano passado coloca os verbos ser, fazer e dizer na sua ordem correta.<\/strong><\/p>\n<p><strong>Segura \u2014<\/strong> Essa observa\u00e7\u00e3o me parece muito precisa. Sabia que eu n\u00e3o havia pensado na ordem? Eu n\u00e3o pus o t\u00edtulo; isso foi tarefa do dr. Ren\u00e9 Padilla e de sua equipe da Editora Kair\u00f3s. A \u00fanica coisa que fiz foi dar minha aprova\u00e7\u00e3o quando recebi a proposta. Mas a ordem, de fato, \u00e9 intencional, porque sei como Ren\u00e9 trabalha esses detalhes.<\/p>\n<p>Geralmente, n\u00f3s, evang\u00e9licos, colocamos o dizer em primeiro lugar. Nossa especialidade \u00e9 o an\u00fancio do evangelho de Jesus. Talvez o segundo lugar seja do ser, porque, pela heran\u00e7a pietista, damos muita import\u00e2ncia \u00e0 vida como elemento fundamental para o testemunho. Procuramos ser com o prop\u00f3sito de respaldar aquilo que dizemos. E quanto ao fazer? Essa parte do tri\u00e2ngulo relegamos ao \u00faltimo lugar. E a ordem fica assim: primeiro o evangelismo, depois o testemunho pessoal e, por \u00faltimo, a diaconia.<\/p>\n<p>No livro, desde o t\u00edtulo h\u00e1 uma proposta de mudan\u00e7a: primeiro vem a vida, o ser diante de Deus e dos homens; depois, o fazer, como express\u00e3o daquilo que somos; e, finalmente, o dizer, pelo qual explicamos para que vivemos como vivemos e quais s\u00e3o as raz\u00f5es para agirmos em favor dos demais.<\/p>\n<p>De todas as maneiras, se me permite, eu prefiro apresentar este t\u00edtulo de uma forma circular: essas tr\u00eas dimens\u00f5es se relacionam mutuamente, sempre mantendo no centro a gl\u00f3ria de Deus.<\/p>\n<p><strong>Notas<br \/>\n<\/strong>Traduzido do espanhol por Wagner Guimar\u00e3es.<br \/>\nEntrevista publicada originalmente na <a href=\"http:\/\/www.ultimato.com.br\/?pg=show_artigos&amp;artigo=1878&amp;secMestre=1972&amp;sec=1988&amp;num_edicao=307\" target=\"_blank\">edi\u00e7\u00e3o 307<\/a> da Revista Ultimato.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>N\u00e3o ao analfabetismo b\u00edblico Harold Segura observador n\u00e3o cat\u00f3lico da V Confer\u00eancia Geral do Episcopado Latino-americano e Caribenho diz que espiritualidade nada mais \u00e9 do que seguir a Jesus e imitar seus passos. 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