{"id":938,"date":"2017-12-01T09:00:27","date_gmt":"2017-12-01T11:00:27","guid":{"rendered":"http:\/\/ultimato.com.br\/sites\/elbencesar\/?p=938"},"modified":"2017-12-01T12:57:35","modified_gmt":"2017-12-01T14:57:35","slug":"frente-a-epidemia-de-aids-a-igreja-nao-pode-deixar-de-se-envolver-com-o-sofrimento-alheio","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/ultimato.com.br\/sites\/elbencesar\/2017\/12\/01\/frente-a-epidemia-de-aids-a-igreja-nao-pode-deixar-de-se-envolver-com-o-sofrimento-alheio\/","title":{"rendered":"Frente \u00e0 epidemia de aids, a Igreja n\u00e3o pode deixar de se envolver com o sofrimento alheio"},"content":{"rendered":"<blockquote><p>O Dia Mundial de Combate \u00e0 Aids \u00e9 comemorado anualmente no dia 1\u00ba de dezembro e tem por finalidade levar informa\u00e7\u00e3o sobre a doen\u00e7a e diminuir o preconceito.<\/p>\n<p>Pensando nisso, Ultimato decidiu recuperar um dos relatos de viagem do Mineiro com Cara de Matuto \u00e0 cidade S\u00e3o Paulo, onde conheceu o hospital Em\u00edlio Ribas &#8211; refer\u00eancia na assist\u00eancia a pessoas portadoras de doen\u00e7as infectocontagiosas, no Brasil e no exterior, e um dos primeiros a tratar casos de HIV no pa\u00eds.<\/p><\/blockquote>\n<p><strong>Hospital das Cl\u00ednicas e Cemit\u00e9rio do Ara\u00e7\u00e1 lado a lado<br \/>\n<img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"alignright wp-image-954\" title=\"Foto: ONU\" src=\"http:\/\/ultimato.com.br\/sites\/elbencesar\/files\/blog_EC_1_12_2017_aids.png\" alt=\"\" width=\"220\" height=\"147\" srcset=\"https:\/\/ultimato.com.br\/sites\/elbencesar\/files\/blog_EC_1_12_2017_aids.png 1024w, https:\/\/ultimato.com.br\/sites\/elbencesar\/files\/blog_EC_1_12_2017_aids-300x200.png 300w, https:\/\/ultimato.com.br\/sites\/elbencesar\/files\/blog_EC_1_12_2017_aids-768x512.png 768w, https:\/\/ultimato.com.br\/sites\/elbencesar\/files\/blog_EC_1_12_2017_aids-732x488.png 732w\" sizes=\"auto, (max-width: 220px) 100vw, 220px\" \/><\/strong>Foi no dia 24 de fevereiro de 2006. Desci do metr\u00f4 na Esta\u00e7\u00e3o das Cl\u00ednicas e caminhei at\u00e9 o Instituto de Infectologia Em\u00edlio Ribas. Do lado direito da rua Dr. Arnaldo fica o Hospital das Cl\u00ednicas e, do esquerdo, o Cemit\u00e9rio do Ara\u00e7\u00e1. N\u00e3o gostei da associa\u00e7\u00e3o nem da proximidade entre hospital e cemit\u00e9rio. O hospital n\u00e3o \u00e9 uma tentativa de me distanciar do cemit\u00e9rio por mais algum tempo? O perfume, as cores e os formatos das flores me levam invariavelmente ao Criador, mas n\u00e3o aquelas flores \u00e0 venda nas cal\u00e7adas da rua Dr. Arnaldo. Naquele lugar, elas lembram mais o fim do que a beleza da vida.<\/p>\n<p>Embora o Em\u00edlio Ribas seja a \u00faltima esperan\u00e7a humana para quem \u00e9 portador de alguma doen\u00e7a infectocontagiosa grave, como meningite, neurotoxoplasmose ou leptospirose, a conhecida rela\u00e7\u00e3o desse nome com o v\u00edrus HIV e com a aids me fechou a cara. Mas o antigo nome do hospital assustava muito mais: por 110 anos (de 1880 a 1990), ele foi conhecido como Hospital de Isolamento. O nome Em\u00edlio Ribas foi acrescentado em 1932 para homenagear o m\u00e9dico paulista que lutou contra a peste em Santos e, junto com o famoso Vital Brasil, preparou o soro antipestoso.<\/p>\n<p>Se o Hospital de Isolamento tivesse sido criado vinte anos antes, em 1860, quem sabe teria salvo a vida do jovem mission\u00e1rio Ashbel Green Simonton? O fundador da Igreja Presbiteriana do Brasil morreu de febre amarela, em S\u00e3o Paulo, em dezembro de 1867, um m\u00eas antes de completar 34 anos. Ele est\u00e1 sepultado no Cemit\u00e9rio dos Protestantes, ali perto, na esquina da rua Dr. Arnaldo com a Cardeal Arcoverde.<\/p>\n<p><strong><!--more-->Todo dia \u00e9 dia de alegria<br \/>\n<\/strong>Dois dias antes de minha visita ao Em\u00edlio Ribas, havia 95 pessoas soropositivas nas enfermarias do segundo ao oitavo andares do hospital; mais homens (67) do que mulheres (28); mais adultos (67) do que crian\u00e7as (8), adolescentes (4), jovens (13) e idosos (3). O paciente mais novo era um beb\u00ea de um m\u00eas, com o diagn\u00f3stico de aids associada a toxoplasmose cong\u00eanita e h\u00e9rnia umbilical. Ele tinha sido internado logo ao nascer. O mais idoso era uma senhora de 62 anos, cujo diagn\u00f3stico era aids associada a turberculose pulmonar e neurocriptococose. Mais da metade dos pacientes (55) tinha de um a dez dias de internamento. O que estava l\u00e1 havia mais tempo (84 dias) era um rapaz de 33 anos.<\/p>\n<p>O Em\u00edlio Ribas possui uma equipe multidisciplinar para dar assist\u00eancia integral ao doente. Ela \u00e9 formada por m\u00e9dicos, enfermeiros, auxiliares de enfermagem, assistentes sociais, terapeutas ocupacionais, psic\u00f3logos, fisioterapeutas, nutricionistas, capel\u00e3es e estagi\u00e1rios. \u00c9 um verdadeiro ex\u00e9rcito de profissionais da sa\u00fade. Encontrei-me com alguns deles.<\/p>\n<p>Acompanhei a capel\u00e3 Janny de Almeida em algumas visitas aos doentes. No quarto andar, onde ficam as crian\u00e7as, vi na parede do corredor um cartaz com um desenho infantil e a frase: \u201cTodo dia \u00e9 dia de alegria!\u201d No mesmo corredor, vi um menino de 12 anos chorando abra\u00e7ado a uma assistente social. Ele chorava porque minutos antes uma menina um ano mais nova que ele, em estado terminal, havia sido levada para o CTI. Ela estava internada desde o dia 30 de janeiro, com aids associada a pancitopenia. Fui v\u00ea-la atrav\u00e9s de um enorme vidro transparente. Estava toda entubada. Percebi que o corpo dela estremeceu. Na manh\u00e3 seguinte, a menina estava morta.<\/p>\n<p>Conversei com tr\u00eas outros doentes: um senhor de 45 anos, um rapaz de 33 e uma mo\u00e7a de 30. \u00c0 porta do elevador eu j\u00e1 tinha me encontrado com uns dez familiares do primeiro. Eu e a capel\u00e3 Eleny Vass\u00e3o Aitken ficamos impressionados com as muitas vezes que a mo\u00e7a de 30 anos referiu-se \u00e0 m\u00e3e, que cuida dos quatro filhos da mo\u00e7a e a visita quase diariamente. O quadro \u00e9 muito triste.<\/p>\n<p>Uma das passagens menos saborosas da B\u00edblia \u00e9 o cap\u00edtulo que lista os descendentes de Ad\u00e3o. Oito dos 32 vers\u00edculos que aparecem no cap\u00edtulo 5 de G\u00eanesis terminam com a curta e seca express\u00e3o: \u201cE morreu\u201d. Ao referir-se \u00e0 morte, Paulo usa o verbo \u201cdormir\u201d, que \u00e9 muito mais ameno (1 Co 15.6, 18, 20, 51). No Em\u00edlio Ribas, tomei conhecimento de outras palavras amenas, como \u201cletalidade\u201d e \u201cterminalidade\u201d. Se o conte\u00fado \u00e9 a morte, n\u00e3o faz diferen\u00e7a embrulh\u00e1-la com celofane ou com folhas de jornal. S\u00f3 h\u00e1 um conforto s\u00f3lido para a amarga experi\u00eancia da morte \u2014 o rein\u00edcio da vida por meio da ressurrei\u00e7\u00e3o do corpo, esperan\u00e7a que n\u00e3o encontramos apenas na repeti\u00e7\u00e3o do Credo Apost\u00f3lico, mas no patrim\u00f4nio religioso acumulado durante os anos.<\/p>\n<p><strong>\u201cA aids me fez mais humilde e mais humana\u201d<br \/>\n<img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"alignright wp-image-948 size-full\" src=\"http:\/\/ultimato.com.br\/sites\/elbencesar\/files\/Emilio-Ribas-Aprimoramento-PAP.jpg\" alt=\"\" width=\"231\" height=\"174\" \/><\/strong>A amea\u00e7a de morte por meio da epidemia de aids, que come\u00e7ou a aparecer no in\u00edcio da d\u00e9cada de 80, deixou em polvorosa muita gente, inclusive o pessoal do Em\u00edlio Ribas. \u201cOs funcion\u00e1rios estavam assustados, temendo a contamina\u00e7\u00e3o ao manipular o paciente\u201d, lembra Helo\u00edsa Helena de Ara\u00fajo Campos, a primeira psic\u00f3loga a dar assist\u00eancia aos internos e seus familiares. Como n\u00e3o se conhecia a doen\u00e7a, usavam-se crit\u00e9rios bem r\u00edgidos de isolamento, incluindo luvas, m\u00e1scara, avental e gorro. Os m\u00e9dicos viviam um momento de grande impot\u00eancia.<\/p>\n<p>Porque as primeiras v\u00edtimas da aids, tanto em S\u00e3o Paulo e Rio de Janeiro como em Los Angeles e Nova York, eram homens de alta renda e homossexuais, pensava-se que o risco seria s\u00f3 para essas pessoas. Mas, quando a epidemia alcan\u00e7ou outros brasileiros, quase todos entraram em p\u00e2nico. Foi nessa ocasi\u00e3o, em 1985, que a educadora em sa\u00fade p\u00fablica Ester Aparecida Abib, do Em\u00edlio Ribas, lan\u00e7ou o Disk-Aids, para acalmar e informar a popula\u00e7\u00e3o sobre o assunto. A t\u00e9cnica em servi\u00e7o social Lilian Calazani explica que os primeiros anos foram terr\u00edveis: \u201cOs doentes lotavam os corredores e era comum os \u00f3bitos acontecerem ali mesmo\u201d. Os desafios, no entanto, foram sendo enfrentados e produziram coisas positivas, como se pode ver no testemunho da m\u00e9dica Mara Cristina Pappalardo: \u201cTrabalhar com a aids me fez ser mais humilde, mais humana. Com a aids, discutimos sexualidade, uso de drogas, relacionamentos familiares, sexo seguro e tamb\u00e9m culpa, perd\u00e3o, perdas, recome\u00e7o e morte\u201d.<\/p>\n<p>Atualmente, o Em\u00edlio Ribas tem se destacado no cen\u00e1rio nacional e mundial. Dos 790 trabalhos cient\u00edficos produzidos pelo Hospital de 1992 a 2005, mais da metade foi sobre HIV e aids. A cada ano, cerca de 3 mil estudantes de medicina, enfermagem e de outras \u00e1reas da sa\u00fade recebem treinamento ali.<\/p>\n<p><strong>A pauperiza\u00e7\u00e3o, a interioriza\u00e7\u00e3o e a feminiza\u00e7\u00e3o da aids<br \/>\n<\/strong>De acordo com a <a href=\"https:\/\/unaids.org.br\/\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">UNAIDS<\/a>, um projeto da Organiza\u00e7\u00e3o das Na\u00e7\u00f5es Unidas, deve haver em torno de 40,3 milh\u00f5es de pessoas vivendo com o HIV no mundo. A cada dia, 16 mil habitantes do planeta se contaminam com o v\u00edrus da aids, dos quais a metade s\u00e3o jovens entre 15 e 24 anos. Para ser mais preciso, a cada dezesseis segundos um jovem \u00e9 infectado. No per\u00edodo de um quarto de s\u00e9culo (de 1981 a 2005), 26 milh\u00f5es de pessoas morreram em consequ\u00eancia da aids. S\u00f3 em 2003, foram 3 milh\u00f5es de mortes e 5 milh\u00f5es de novas infec\u00e7\u00f5es.<\/p>\n<p>A maioria (95%) das pessoas portadoras do HIV vive nos pa\u00edses em desenvolvimento. A \u00c1frica Subsaariana \u00e9 o continente mais afetado, com 25,8 milh\u00f5es de v\u00edtimas. A cada dia, 9 mil africanos se tornam aid\u00e9ticos. No Mal\u00e1ui, pa\u00eds localizado entre Mo\u00e7ambique e Z\u00e2mbia, com mais de 70% da popula\u00e7\u00e3o abaixo de 30 anos, 15% dos habitantes est\u00e3o infectados.<\/p>\n<p>Segundo o m\u00e9dico infectologista Andr\u00e9 Villela Lomar, do Em\u00edlio Ribas e do Hospital Israelita Albert Einstein, no Brasil h\u00e1 mais de 270 mil casos notificados, desde a descoberta da aids at\u00e9 setembro de 2003. Desses, mais de 135 mil (50%) s\u00e3o pessoas que j\u00e1 morreram.<br \/>\nOs especialistas explicam que est\u00e3o ocorrendo tr\u00eas fen\u00f4menos quanto \u00e0 difus\u00e3o da aids.<\/p>\n<p>Primeiro, a\u00a0<em>pauperiza\u00e7\u00e3o<\/em>\u00a0da epidemia. O m\u00e9dico Sebasti\u00e3o Andr\u00e9 de Felice, diretor t\u00e9cnico do Em\u00edlio Ribas, explica que \u201co perfil social dos pacientes com aids transitou de um v\u00e9rtice ao outro\u201d, isto \u00e9, depois de acometer pessoas das camadas privilegiadas, \u201clogo se expandiu para diferentes segmentos sociais\u201d. O alastramento \u00e9 cada vez maior entre as camadas mais pobres.<\/p>\n<p>Segundo, a\u00a0<em>interioriza\u00e7\u00e3o<\/em>\u00a0da epidemia. Ela est\u00e1 saindo do eixo Rio-S\u00e3o Paulo (onde ainda est\u00e3o 36% dos casos notificados) e alcan\u00e7ando todo o territ\u00f3rio nacional, at\u00e9 os rinc\u00f5es mais remotos.<\/p>\n<p>Terceiro, a\u00a0<em>feminiza\u00e7\u00e3o<\/em>\u00a0da epidemia. Segundo o Minist\u00e9rio da Sa\u00fade, mulheres na faixa et\u00e1ria de 19 a 39 anos representam hoje 70% dos novos casos notificados. Na d\u00e9cada de 80, a propor\u00e7\u00e3o era de uma mulher para cada 23 homens. Agora, a m\u00e9dia \u00e9 de uma mulher para cada dois homens. Em outros pa\u00edses, o problema \u00e9 ainda mais grave: na \u00c1frica do Sul h\u00e1 vinte mulheres para dez homens e no Qu\u00eania e Mali, a propor\u00e7\u00e3o \u00e9 de 45 mulheres para dez homens. Isso agrava seriamente o problema, por causa da transmiss\u00e3o vertical \u2014 o sangue da placenta e o leite materno de uma mulher com aids podem infectar seu filho antes e depois do parto.<\/p>\n<p><strong>Uma doen\u00e7a ainda sem cura<br \/>\n<\/strong>O m\u00e9dico sanitarista Artur Kalichman e a infectologista Stella Maria Bueno, ambos do Programa Estadual DST\/AIDS, afirmam que \u201cao longo de vinte anos de epidemia, a assist\u00eancia aos portadores de HIV\/aids no Estado de S\u00e3o Paulo evoluiu em termos t\u00e9cnicos, num\u00e9ricos e, principalmente, em qualidade\u201d. At\u00e9 julho de 2003, o \u00f3rg\u00e3o contabilizou 55.050 pacientes em terapia anti-retroviral em todo o Estado.<\/p>\n<p>Apesar de todos os esfor\u00e7os, ainda n\u00e3o h\u00e1 cura para a aids nem vacina imunizante contra o HIV. Em todo o mundo h\u00e1 muita gente trabalhando para alcan\u00e7ar outros e melhores resultados. Uma dessas pessoas \u00e9 o m\u00e9dico e professor universit\u00e1rio Luiz Cl\u00e1udio Arraes de Alencar, filho do rec\u00e9m-falecido Miguel Arraes, ex-governador de Pernambuco. A revista brit\u00e2nica\u00a0<em>Nature Medicine<\/em>\u00a0publicou em 2004 os resultados da pesquisa por ele coordenada sobre uma poss\u00edvel vacina terap\u00eautica contra a aids. Ali\u00e1s, o Brasil tem cada vez mais destaque no cen\u00e1rio mundial no que diz respeito a esse desafio. O j\u00e1 citado dr. Andr\u00e9 Lomar d\u00e1 uma boa not\u00edcia: \u201cEstamos conseguindo diminuir a velocidade da epidemia\u201d. Segundo ele havia uma incid\u00eancia de 25 mil novos casos por ano, que caiu para cerca de 20 mil.<\/p>\n<p>Um dos instrumentos respons\u00e1veis por esse avan\u00e7o \u00e9 o chamado \u201ccoquetel\u201d, um conjunto de medicamentos que n\u00e3o cura, mas prolonga e melhora a qualidade de vida dos pacientes. Lomar garante que \u201ca vinda do coquetel constitui um divisor de \u00e1guas na hist\u00f3ria natural da infec\u00e7\u00e3o pelo HIV\u201d. Hoje h\u00e1 um verdadeiro arsenal de mais de quinze drogas anti-retrovirais (amprenavir, abacavir, atazanavir, biovir, efavirenz, fosamprenavir, ganciclovir, indinavir, lopinavir, ritonavir, tenofovir e outras). O grande problema, acrescenta Lomar em entrevista \u00e0 revista\u00a0<em>Pr\u00e1tica Hospitalar<\/em>, \u00e9 que os pacientes ter\u00e3o de fazer uso desses medicamentos pelo resto da vida, \u201cpois n\u00e3o h\u00e1, at\u00e9 o momento, perspectiva de cura do HIV atrav\u00e9s dos anti-retrovirais\u201d. Al\u00e9m do mais a quantia di\u00e1ria de comprimidos \u00e9 enorme (\u00e0s vezes mais de 20 unidades) e os efeitos colaterais s\u00e3o desanimadores.<\/p>\n<p>Uma informa\u00e7\u00e3o muito triste \u00e9 dada pelo dr. Luiz Cl\u00e1udio Arraes \u00e0 revista\u00a0<em>Infecto Atual<\/em>: \u201cApenas 5% da popula\u00e7\u00e3o infectada do mundo tem acesso a elas [\u00e0s drogas anti-retrovirais]\u201d.<\/p>\n<p>A terribilidade do HIV est\u00e1 nas co-infec\u00e7\u00f5es, provocadas infalivelmente quando o v\u00edrus alcan\u00e7a sua for\u00e7a total. A\u00ed aparecem os tem\u00edveis processos oportunistas relacionados \u00e0 imunodefici\u00eancia grave, como criptococose, micobacterioses, pneumocistose, sarcoma de Kaposi e outras.<\/p>\n<p>Diante de um quadro t\u00e3o realista, precisamos ser s\u00e1bios e honestos para nos convencer, e convencer os outros (principalmente adolescentes e jovens), de que vale a pena nos submetermos aos princ\u00edpios que regem o nosso comportamento, sobretudo na \u00e1rea da sexualidade, dada a \u00edntima e comprovada rela\u00e7\u00e3o da promiscuidade com o HIV. Se n\u00e3o dermos ouvidos \u00e0 voz divina, \u00e9 bom ouvirmos a voz da medicina. Ambas recomendam o sexo seguro: a primeira, por meio da abstin\u00eancia da imoralidade sexual (At 15.20); a segunda, pelo do uso da camisinha.<\/p>\n<p><strong>O terreno f\u00e9rtil do HIV e da aids<br \/>\n<img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"alignright wp-image-950\" src=\"http:\/\/ultimato.com.br\/sites\/elbencesar\/files\/5749137360_f070d912f4_z.jpg\" alt=\"\" width=\"200\" height=\"200\" srcset=\"https:\/\/ultimato.com.br\/sites\/elbencesar\/files\/5749137360_f070d912f4_z.jpg 640w, https:\/\/ultimato.com.br\/sites\/elbencesar\/files\/5749137360_f070d912f4_z-150x150.jpg 150w, https:\/\/ultimato.com.br\/sites\/elbencesar\/files\/5749137360_f070d912f4_z-300x300.jpg 300w\" sizes=\"auto, (max-width: 200px) 100vw, 200px\" \/><\/strong>\u00c9 preciso repetir o par\u00e1grafo anterior para lan\u00e7ar outro desafio. Diante de um quadro t\u00e3o realista, t\u00e3o triste, t\u00e3o amplo, a igreja de Nosso Senhor Jesus Cristo precisa se envolver na guerra contra o HIV e sua \u00faltima e mortal consequ\u00eancia, a aids.<\/p>\n<p>A prega\u00e7\u00e3o do padr\u00e3o de vida b\u00edblico, do temor do Senhor, do perd\u00e3o de pecados, das boas novas da salva\u00e7\u00e3o, da santifica\u00e7\u00e3o progressiva e da esperan\u00e7a escatol\u00f3gica n\u00e3o \u00e9 a \u00fanica miss\u00e3o da igreja. Nem foi a \u00fanica miss\u00e3o de Jesus e dos ap\u00f3stolos. Na luta contra o HIV, precisamos combater o que est\u00e1 por tr\u00e1s e ao lado da epidemia. N\u00e3o \u00e9 s\u00f3 a promiscuidade sexual. Em nossa cultura crist\u00e3 deu-se mais \u00eanfase \u00e0 moralidade sexual do que \u00e0 justi\u00e7a social. Precisamos fortalecer a corrente crist\u00e3 que equilibrou as coisas, que redescobriu o evangelho hol\u00edstico, que n\u00e3o abra\u00e7ou apenas a prega\u00e7\u00e3o da moralidade sexual nem apenas a prega\u00e7\u00e3o da justi\u00e7a social. Nesse sentido, temos uma d\u00edvida muito grande com o Pacto de Lausanne, produzido pelo Congresso sobre Evangeliza\u00e7\u00e3o Mundial, realizado em Lausanne, na Su\u00ed\u00e7a, em 1974.<\/p>\n<p>Al\u00e9m de reconhecer a neglig\u00eancia quanto \u00e0 responsabilidade social e de confessar as vezes que consideraram a evangeliza\u00e7\u00e3o e a a\u00e7\u00e3o social mutuamente exclusivas, os participantes de Lausanne I assentiram que \u201ca mensagem da salva\u00e7\u00e3o implica tamb\u00e9m uma mensagem de ju\u00edzo sobre toda forma de aliena\u00e7\u00e3o, de opress\u00e3o e de discrimina\u00e7\u00e3o, e n\u00e3o devemos ter medo de denunciar o mal e a injusti\u00e7a onde quer que existam\u201d.<\/p>\n<p>A dra. Musa W. Dube, da Universidade de Botsuana, no centro-sul da \u00c1frica, diz que \u201ca injusti\u00e7a social \u00e9 terreno f\u00e9rtil para o HIV\/Aids\u201d. O fato de que 95% dos infectados vivem em pa\u00edses em desenvolvimento, a maior parte deles na \u00c1frica, um dos continentes mais explorados da hist\u00f3ria (basta lembrar os 300 anos de escravatura), parece comprovar essa verdade. A prostitui\u00e7\u00e3o tamb\u00e9m tem \u00edntima rela\u00e7\u00e3o com a pobreza, que por sua vez tem \u00edntima rela\u00e7\u00e3o com a injusti\u00e7a social, quer seja pela explora\u00e7\u00e3o ou pela omiss\u00e3o dos governos e da sociedade.<\/p>\n<p>\u00c9 mais do que oportuno ouvir a exorta\u00e7\u00e3o, o desafio, da m\u00e9dica Kiran Martin, que trabalha na \u00cdndia: \u201cOs crist\u00e3os s\u00e3o gigantes adormecidos \u2014 eles podem mudar o mundo inteiro se desejarem\u201d. O fato \u00e9 que, \u201ccomo Corpo de Cristo, a Igreja n\u00e3o pode deixar de entrar no sofrimento dos outros, de estar ao seu lado contra toda rejei\u00e7\u00e3o e desespero\u201d, como diz o caderno Aids e Igrejas \u2014 um convite \u00e0 a\u00e7\u00e3o, publicado no Rio de Janeiro por KOINONIA Presen\u00e7a Ecum\u00eanica e Servi\u00e7o. Esse caderno \u00e9 leitura obrigat\u00f3ria para os crist\u00e3os que n\u00e3o querem mais ser tachados de gigantes adormecidos.<\/p>\n<p>Fontes:\u00a0<em>Infecto Atual<\/em>, fev.\/mar. 2005;\u00a0<em>Pr\u00e1tica Hospitalar<\/em>, maio\/jun. 2004;\u00a0<em>\u00c9ducation Chr\u00e9tienne et VIH\/SIDA<\/em>\u00a0(Edition Haho 2005);\u00a0<em>Curr\u00edculo sobre HIV\/SIDA<\/em>\u00a0(MAP Internacional);\u00a0<em>Em\u00edlio Ribas \u2014 a trajet\u00f3ria do Instituto de Infectologia Em\u00edlio Ribas no combate \u00e1 Aids\u00a0<\/em>(Secretaria de Sa\u00fade do Estado de S\u00e3o Paulo); <em>Aids\u00a0e Igrejas \u2014 um convite \u00e0 a\u00e7\u00e3o<\/em>\u00a0(KOINONIA) e\u00a0<em>John Stott Comenta o Pacto de Lausanne<\/em>\u00a0(ABU e Vis\u00e3o Mundial).<\/p>\n<p><strong>Para pesquisar<\/strong><br \/>\n<a class=\"link\" href=\"http:\/\/www.wcc-coe.org\/en\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">www.wcc-coe.org\/en<\/a>\u00a0\u2014 Na sess\u00e3o sobre a EHAIA (sigla inglesa para Iniciativa Ecum\u00eanica contra HIV\/Aids na \u00c1frica), h\u00e1 v\u00e1rios textos informativos sobre a aids, em v\u00e1rias l\u00ednguas, inclusive em portugu\u00eas.<\/p>\n<pre>Texto originalmente publicado na edi\u00e7\u00e3o <a href=\"http:\/\/www.ultimato.com.br\/revista\/300\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">300<\/a> de <strong>Ultimato<\/strong>.<\/pre>\n<p><strong>Mais informa\u00e7\u00f5es:<br \/>\n<a href=\"http:\/\/aidsinfo.unaids.org\/\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">Mapa mundial da AIDS<\/a><\/strong><br \/>\n<strong> <a href=\"https:\/\/unaids.org.br\/relatorios-e-publicacoes\/\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">Relat\u00f3rios e publica\u00e7\u00f5es da UNAIDS<\/a><\/strong><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>O Dia Mundial de Combate \u00e0 Aids \u00e9 comemorado anualmente no dia 1\u00ba de dezembro e tem por finalidade levar informa\u00e7\u00e3o sobre a doen\u00e7a e diminuir o preconceito. Pensando nisso, Ultimato decidiu recuperar um dos relatos de viagem do Mineiro com Cara de Matuto \u00e0 cidade S\u00e3o Paulo, onde conheceu o hospital Em\u00edlio Ribas &#8211; [&hellip;]<\/p>\n","protected":false},"author":24,"featured_media":0,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"ngg_post_thumbnail":0,"footnotes":""},"categories":[116,32192],"tags":[28350,36941,38,31111,7642,6019],"class_list":["post-938","post","type-post","status-publish","format-standard","hentry","category-blog","category-mineiro-matuto","tag-aids","tag-dia-mundial-de-combate-a-aids","tag-igreja","tag-reportagem","tag-sociedade","tag-sofrimento"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/ultimato.com.br\/sites\/elbencesar\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/938","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/ultimato.com.br\/sites\/elbencesar\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/ultimato.com.br\/sites\/elbencesar\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/ultimato.com.br\/sites\/elbencesar\/wp-json\/wp\/v2\/users\/24"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/ultimato.com.br\/sites\/elbencesar\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=938"}],"version-history":[{"count":12,"href":"https:\/\/ultimato.com.br\/sites\/elbencesar\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/938\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":955,"href":"https:\/\/ultimato.com.br\/sites\/elbencesar\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/938\/revisions\/955"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/ultimato.com.br\/sites\/elbencesar\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=938"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/ultimato.com.br\/sites\/elbencesar\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=938"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/ultimato.com.br\/sites\/elbencesar\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=938"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}