{"id":889,"date":"2017-11-20T00:00:32","date_gmt":"2017-11-20T02:00:32","guid":{"rendered":"http:\/\/ultimato.com.br\/sites\/elbencesar\/?p=889"},"modified":"2017-11-20T10:39:10","modified_gmt":"2017-11-20T12:39:10","slug":"o-mineiro-com-cara-de-matuto-visita-comunidades-quilombolas","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/ultimato.com.br\/sites\/elbencesar\/2017\/11\/20\/o-mineiro-com-cara-de-matuto-visita-comunidades-quilombolas\/","title":{"rendered":"O Mineiro com Cara de Matuto visita comunidades quilombolas"},"content":{"rendered":"<blockquote><p><span style=\"font-weight: 400;\">Antes de visitar a comunidade quilombola Cachoeira dos Forros, na zona rural da pequena cidade mineira de Passa Tempo (8 mil habitantes), MG, a 143 quil\u00f4metros de Belo Horizonte, o Mineiro com Cara de Matuto procurou ficar bem inteirado do significado da palavra \u201cquilombo\u201d. Para tanto, leu o precioso livro <\/span><i><span style=\"font-weight: 400;\">Quilombolas \u2013 somos todos parte dessa hist\u00f3ria<\/span><\/i><span style=\"font-weight: 400;\">, de Nila Rodrigues Barbosa e Ulisses Manoel da Silva, e com muitas fotografias de Roberto Murta (Bicho do Mato, 2014), al\u00e9m de passar os olhos nas 331 p\u00e1ginas do <\/span><i><span style=\"font-weight: 400;\">Dicion\u00e1rio da Escravid\u00e3o<\/span><\/i><span style=\"font-weight: 400;\"> e nas 174 p\u00e1ginas do <\/span><i><span style=\"font-weight: 400;\">Dicion\u00e1rio Escolar Afro-brasileiro<\/span><\/i><span style=\"font-weight: 400;\">.<\/span><\/p><\/blockquote>\n<p><span style=\"font-weight: 400;\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"alignright wp-image-893\" title=\"Murilo, do quilombo Vila da Mezina | Foto: Ana Cl\u00e1udia Nunes\" src=\"http:\/\/ultimato.com.br\/sites\/elbencesar\/files\/ult_362_reportagem_1-300x257.jpg\" alt=\"\" width=\"230\" height=\"197\" srcset=\"https:\/\/ultimato.com.br\/sites\/elbencesar\/files\/ult_362_reportagem_1-300x257.jpg 300w, https:\/\/ultimato.com.br\/sites\/elbencesar\/files\/ult_362_reportagem_1.jpg 332w\" sizes=\"auto, (max-width: 230px) 100vw, 230px\" \/>Historicamente, quilombo \u00e9 a \u201ccomunidade formada pela fuga de negros, \u00edndios e, por vezes, at\u00e9 mesmo de brancos pobres, da condi\u00e7\u00e3o de trabalho for\u00e7ado\u201d. De origem bantu, a palavra \u201cquilombo\u201d sempre existiu, mas com outro significado: lugar de pouso para viajantes e desenraizados, lugar de ref\u00fagio. Em 1740, a defini\u00e7\u00e3o oficial era de uma habita\u00e7\u00e3o de pelo menos seis negros fugidos em algum lugar despovoado e sem moradias dispon\u00edveis. Os quilombos eram chamados tamb\u00e9m de terras de preto, comunidades negras e mocambos. Hoje, quilombo \u00e9 uma comunidade afrorrural, habitada por afrodescendentes oriundos dos antigos quilombos, que se organizaram e mant\u00eam sua identidade. Seus moradores s\u00e3o conhecidos como quilombolas. H\u00e1 tamb\u00e9m comunidades quilombolas urbanas, poucas em rela\u00e7\u00e3o \u00e0s rurais, por\u00e9m oficialmente reconhecidas como tal.<\/span><\/p>\n<h4><strong><!--more--><\/strong><\/h4>\n<p><span style=\"font-weight: 400;\">Segundo o governo, deve haver 2.849 quilombos reconhecidos no Brasil, que abrigam 214 mil fam\u00edlias e 1,17 milh\u00e3o de quilombolas, a maior parte abaixo da linha da extrema pobreza (74,73%). Praticamente s\u00e3o todos pretos ou pardos (92,1%). Um quarto deles n\u00e3o sabe ler (24,81%). Mas o Minist\u00e9rio do Desenvolvimento Social identifica um n\u00famero bem maior: 3.524 comunidades. \u00c9 prov\u00e1vel que o n\u00famero final possa chegar a 5 mil. Os cinco estados com maior n\u00famero de quilombos em ordem decrescente s\u00e3o Maranh\u00e3o (856), Bahia (549), Par\u00e1 (417), Minas Gerais (207) e Piau\u00ed (173). Eles abrigam 62,5% das comunidades quilombolas.<\/span><\/p>\n<h4><strong>Jord\u00e2nia<\/strong><\/h4>\n<p><span style=\"font-weight: 400;\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"alignright wp-image-894\" title=\"Jord\u00e2nia Mariano, do quilombo Cachoeira dos Forros | Foto: Davi Bastos\" src=\"http:\/\/ultimato.com.br\/sites\/elbencesar\/files\/ult_362_reportagem_2-267x300.jpg\" alt=\"\" width=\"205\" height=\"230\" \/>Ao chegar ao quilombo Cachoeira dos Forros, o Mineiro procurou logo a casa de Jord\u00e2nia e Paulo Mariano, por indica\u00e7\u00e3o de Miriam Zanutti, autora do livro <\/span><i><span style=\"font-weight: 400;\">Cora\u00e7\u00e3o Quilombola<\/span><\/i><span style=\"font-weight: 400;\"> (ainda n\u00e3o publicado), membro fundadora da Alian\u00e7a Evang\u00e9lica Pr\u00f3-Quilombolas do Brasil, p\u00f3s-graduada em missiologia e p\u00f3s-graduanda em africanidades e cultura africana. Um dos cap\u00edtulos do seu livro \u00e9 exatamente sobre o quilombo Cachoeira dos Forros, para ela um dos mais bem organizados. At\u00e9 pouco tempo atr\u00e1s, Jord\u00e2nia era a presidente do quilombo. Afastou-se porque fora convidada a concorrer ao cargo de vereadora no munic\u00edpio de Passa Tempo pelo Partido Trabalhista Crist\u00e3o (PTC). Ela tem a idade de Cristo ao morrer, nasceu no pr\u00f3prio quilombo, \u00e9 casada com um quilombola que faz de tudo na \u00e1rea de constru\u00e7\u00e3o e tem dois filhos. A casa deles, bem constru\u00edda e equipada, fica entre a casa dos pais dela e o templo da Assembleia de Deus, igreja na qual s\u00e3o membros.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400;\">Embora tenha nascido 95 anos depois da lei que declarou extinta a escravid\u00e3o no Brasil, Jord\u00e2nia e v\u00e1rios outros quilombolas de Cachoeira dos Forros, anos atr\u00e1s, passaram por situa\u00e7\u00f5es bem pr\u00f3ximas daquelas do per\u00edodo da escravid\u00e3o. Na \u00e9poca da colheita do caf\u00e9, um caminh\u00e3o vinha busc\u00e1-los para trabalhar em fazendas no sul de Minas, em troca de um sal\u00e1rio miser\u00e1vel do qual era descontado o pre\u00e7o da comida, produzida e vendida pela pr\u00f3pria fazenda. Dormiam num barrac\u00e3o e trabalhavam sob os olhares de um capataz. Pelo menos uma coisa boa acontecia: enquanto os mais velhos iam dormir, os mais jovens dan\u00e7avam em volta de uma fogueira e alguns encontravam ali o seu futuro c\u00f4njuge, como Jord\u00e2nia e Paulo.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400;\">O quilombo Cachoeira dos Forros \u00e9 banhado pelo rio Par\u00e1 e possui aproximadamente duzentos moradores, quase todos primos entre si, distribu\u00eddos em 62 fam\u00edlias. Seus bisav\u00f3s e tetrav\u00f3s s\u00e3o oriundos de Serra Leoa, um dos menores pa\u00edses da \u00c1frica. Suas terras foram doadas pelo padre Ant\u00f4nio Rodrigues da Costa e entregues ao escravo e sacrist\u00e3o Severino, de sua inteira confian\u00e7a, na primeira metade do s\u00e9culo 19, de acordo com Dom Miguel \u00c2ngelo, bispo de Oliveiras, MG.<\/span><\/p>\n<h4><strong>Uma casa para cada fam\u00edlia<\/strong><\/h4>\n<p><span style=\"font-weight: 400;\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"alignright wp-image-895\" title=\"Maria Helena Mateus, do quilombo Buiei\u00e9 | Foto: Ana Cl\u00e1udia Nunes\" src=\"http:\/\/ultimato.com.br\/sites\/elbencesar\/files\/ult_362_reportagem_3-297x300.jpg\" alt=\"\" width=\"228\" height=\"230\" srcset=\"https:\/\/ultimato.com.br\/sites\/elbencesar\/files\/ult_362_reportagem_3-297x300.jpg 297w, https:\/\/ultimato.com.br\/sites\/elbencesar\/files\/ult_362_reportagem_3-150x150.jpg 150w, https:\/\/ultimato.com.br\/sites\/elbencesar\/files\/ult_362_reportagem_3.jpg 300w\" sizes=\"auto, (max-width: 228px) 100vw, 228px\" \/>Duas surpresas estavam \u00e0 espera do Mineiro no quilombo Cachoeira dos Forros. Uma era a quantidade de templos religiosos, considerando o pequeno tamanho da \u00e1rea e o pequeno n\u00famero de moradores: os templos da Igreja Cat\u00f3lica, das Testemunhas de Jeov\u00e1, da Congrega\u00e7\u00e3o Crist\u00e3 no Brasil e da Assembleia de Deus. O padre que d\u00e1 assist\u00eancia aos quilombolas \u00e9 o respons\u00e1vel pela Par\u00f3quia Nossa Senhora da Gl\u00f3ria, em Passa Tempo. Ele \u00e9 negro e tem boa afinidade com o pessoal do quilombo. A outra surpresa foi ver casas novas e casas em constru\u00e7\u00e3o. Casas n\u00e3o geminadas, de dois quartos, sala, banheiro e cozinha, com \u00e1gua encanada, energia el\u00e9trica e rede de esgoto. Dez dias antes, o Mineiro havia visitado os quilombos Buiei\u00e9 e Vila da Mezina e o que vira neste \u00faltimo era totalmente oposto ao que encontrou em Cachoeira dos Forros.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400;\">Jord\u00e2nia explica que aquelas casas fazem parte do Programa Nacional de Habita\u00e7\u00e3o Rural, criado pelo governo federal em 2009, com a finalidade de possibilitar, n\u00e3o s\u00f3 ao quilombola, mas a todo agricultor familiar rural, o acesso \u00e0 moradia digna no campo, seja construindo uma nova casa ou concluindo, reformando e ampliando a j\u00e1 existente.<\/span><\/p>\n<h4><strong>Iniciativas governamentais<\/strong><\/h4>\n<p><span style=\"font-weight: 400;\">De volta a Vi\u00e7osa, o Mineiro teve acesso ao <\/span><i><span style=\"font-weight: 400;\">Guia de Pol\u00edticas P\u00fablicas Para Comunidades Quilombolas<\/span><\/i><span style=\"font-weight: 400;\">, publicado pela presid\u00eancia da Rep\u00fablica, em Bras\u00edlia, em 2013. Foi quando tomou conhecimento da Secretaria de Pol\u00edticas de Promo\u00e7\u00e3o da Igualdade Racial (SEPPIR). Nesse documento ele encontrou todos os programas de que os quilombolas precisam: \u00c1gua para Todos; Luz para Todos; Programa do Livro Did\u00e1tico; Programa Bolsa Fam\u00edlia; Programa Sa\u00fade da Fam\u00edlia; Programa Sa\u00fade Bucal; Programa Brasil Quilombola e o referido Programa Nacional de Habita\u00e7\u00e3o Rural.<\/span><\/p>\n<h4><strong>Iniciativas particulares<\/strong><\/h4>\n<p><span style=\"font-weight: 400;\">Providencialmente, o Mineiro teve a oportunidade de conhecer duas pessoas de Passa Tempo que chegaram ao quilombo Cachoeira dos Forros quase no mesmo momento. Um deles \u00e9 formado em rela\u00e7\u00f5es p\u00fablicas e trabalha com eventos sociais, como m\u00fasica na pra\u00e7a. Chama-se Bianc Amorim. O outro \u00e9 Wilson Ribeiro, professor de educa\u00e7\u00e3o f\u00edsica. Ambos colaboraram muito com Jord\u00e2nia para o bem-estar dos quilombolas. Em fevereiro de 2015, Bianc promoveu o 1\u00ba Semin\u00e1rio Universo Quilombola em Cachoeira dos Forros, com oficinas de cer\u00e2mica, medicina natural, tran\u00e7as e penteados afro e semin\u00e1rios sobre pol\u00edticas p\u00fablicas para as comunidades quilombolas do Brasil. J\u00e1 o professor Wilson tem o prop\u00f3sito de desenvolver um projeto de atividade f\u00edsica para a popula\u00e7\u00e3o quilombola em benef\u00edcio de sua sa\u00fade, principalmente entre os mais idosos, j\u00e1 que o negro \u00e9 mais prop\u00edcio a desenvolver doen\u00e7as cardiovasculares e press\u00e3o alta.<\/span><\/p>\n<h4><strong>Muita \u00e1gua e muita luz<\/strong><\/h4>\n<p><span style=\"font-weight: 400;\">Dois programas do governo t\u00eam nomes muito significativos: \u00c1gua para Todos e Luz para Todos. A \u00e1gua, por\u00e9m, que ele quer e deve oferecer \u00e0 popula\u00e7\u00e3o rural \u00e9 aquele l\u00edquido sem cheiro nem sabor, essencial \u00e0 vida; e a luz \u00e9 aquela luz produzida por uma l\u00e2mpada acesa. Ambas s\u00e3o indispens\u00e1veis, mas n\u00e3o suficientes. As comunidades urbanas e rurais precisam tamb\u00e9m de outra \u00e1gua e de outra luz. Esse tipo de \u00e1gua e de luz n\u00e3o s\u00e3o vis\u00edveis nem produzem coisas necessariamente vis\u00edveis, como saciedade espiritual, comunh\u00e3o com Deus, quietude, paz de esp\u00edrito, alegria, vontade de viver, certeza da salva\u00e7\u00e3o, sensa\u00e7\u00e3o de perd\u00e3o, seguran\u00e7a emocional e outras riquezas transcendentais. Por se apresentar como a luz do mundo e como a fonte da \u00e1gua viva, Jesus fornece \u00e1gua para todos e luz para todos, aquela \u00e1gua que mata a sede \u00edntima ou sede da alma e aquela luz que ilumina o caminho em dire\u00e7\u00e3o ao Pai.<\/span><\/p>\n<h4><strong>Alian\u00e7a Evang\u00e9lica Pr\u00f3-Quilombola do Brasil<\/strong><\/h4>\n<p><span style=\"font-weight: 400;\">Em junho de 2015 realizou-se em Jo\u00e3o Pessoa, PB, uma assembleia s\u00e9ria que est\u00e1 se tornando cada vez mais hist\u00f3rica. L\u00edderes de v\u00e1rias ag\u00eancias e projetos mission\u00e1rios reuniram-se para listar o panorama geral dos segmentos menos evangelizados do pa\u00eds. A consulta arrolou cinco grupos em ordem alfab\u00e9tica: ciganos, ind\u00edgenas, quilombolas, ribeirinhos e sertanejos. \u00c9 poss\u00edvel que os menos conhecidos at\u00e9 ent\u00e3o sejam os quilombolas.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400;\">Dois anos antes, em abril de 2013, tinha acontecido no mesmo lugar a Consulta Quilombolas do Brasil, coordenada pelo missi\u00f3logo e pesquisador Ronaldo Lid\u00f3rio, ex-mission\u00e1rio brasileiro em Gana, na \u00c1frica, e com a presen\u00e7a de 55 pessoas, inclusive os quilombolas Jos\u00e9 de Anchieta da Silva, um dos l\u00edderes da igreja organizada no quilombo Serra do Machado (117 casas e 600 moradores), em S\u00e3o Jos\u00e9 do Egito, PE<\/span><span style=\"font-weight: 400;\">, <\/span><span style=\"font-weight: 400;\">e Edvan Jo\u00e3o da Costa, pastor da Assembleia de Deus de Capoeiras em Maca\u00edba, RJ. O maior trunfo desse evento foi a cria\u00e7\u00e3o da Alian\u00e7a Evang\u00e9lica Pr\u00f3-Quilombola do Brasil, cujos objetivos s\u00e3o: 1) fomentar pesquisas entre os quilombos do pa\u00eds; 2) ampliar a mobiliza\u00e7\u00e3o da igreja brasileira em prol dos quilombolas; 3) colaborar com o treinamento mission\u00e1rio neste objetivo; e 4) promover a rela\u00e7\u00e3o de comunh\u00e3o entre ag\u00eancias, pessoas e igrejas que atuam neste segmento. O paraibano Alisson Gomes Medeiros, graduado em teologia, missiologia e gest\u00e3o de processos, al\u00e9m de coordenar a Central de Miss\u00f5es da Miss\u00e3o Juvep, \u00e9 representande da Alian\u00e7a. Outras tr\u00eas pessoas ligadas \u00e0 Alian\u00e7a Evang\u00e9lica Pr\u00f3-Quilombolas do Brasil s\u00e3o S\u00e9rgio Ribeiro, Ronaldo Lid\u00f3rio e Paulo Feniman.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400;\">A hist\u00f3ria dos quilombos e dos quilombolas deu uma forte guinada em dire\u00e7\u00e3o \u00e0 luz para todos e \u00e0 \u00e1gua para todos.<\/span><\/p>\n<h4><strong>O tamanho da d\u00edvida que a sociedade brasileira tem com a ra\u00e7a negra<\/strong><\/h4>\n<p><span style=\"font-weight: 400;\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"alignright wp-image-896 size-medium\" title=\"Charge publicada na Revista Ilustrada de 20 de agosto de 1886. \" src=\"http:\/\/ultimato.com.br\/sites\/elbencesar\/files\/ult_362_reportagem_4-300x134.jpg\" alt=\"\" width=\"300\" height=\"134\" srcset=\"https:\/\/ultimato.com.br\/sites\/elbencesar\/files\/ult_362_reportagem_4-300x134.jpg 300w, https:\/\/ultimato.com.br\/sites\/elbencesar\/files\/ult_362_reportagem_4.jpg 400w\" sizes=\"auto, (max-width: 300px) 100vw, 300px\" \/>A escravid\u00e3o africana come\u00e7ou, no Brasil, em meados do s\u00e9culo 16 e terminou tr\u00eas s\u00e9culos depois, em 1888.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400;\">Vai de 2,5 a 10 milh\u00f5es o n\u00famero de escravos embarcados em navios negreiros em todo o per\u00edodo da escravid\u00e3o. Entre 38 e 39% deles eram destinados ao Brasil (quase 4 milh\u00f5es).<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400;\">Ao desembarcar nos portos brasileiros, a esposa e os filhos iam para um lugar e o marido para outro, e, regra geral, nunca mais se encontravam.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400;\">No in\u00edcio do s\u00e9culo 18, o padre jesu\u00edta Antonil dizia que para o negro era reservado um tratamento baseado em tr\u00eas \u201cp\u201d: \u201cp\u00e3o\u201d, \u201cpau\u201d e \u201cpano\u201d \u2013 p\u00e3o para comer, pau para apanhar e pano (grosseiro) para vestir. Os escravos moravam em por\u00f5es ou casas separadas (senzalas), altamente insalubres.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400;\">Em meados do s\u00e9culo 19, os escravos homens, aos 15 anos, teriam uma expectativa de vida entre 29 e 32 anos.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400;\">O escravo era uma \u201ccoisa\u201d, e n\u00e3o gente; \u201calgo\u201d, e n\u00e3o \u201calgu\u00e9m\u201d para ser comprado e vendido. Era um reprodutor de beb\u00eas escravos para aumentar o capital de seu senhor.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400;\">No in\u00edcio do s\u00e9culo 19, 40% ou mais da popula\u00e7\u00e3o brasileira era constitu\u00edda de negros e pardos.<\/span><\/p>\n<h4><strong>Os invis\u00edveis de ontem tendem a permanecer invis\u00edveis hoje<\/strong><\/h4>\n<p><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"alignright wp-image-897\" title=\"&quot;Escravid\u00e3o no Brasil&quot;, de Jean-Baptiste Debret, 1835\" src=\"http:\/\/ultimato.com.br\/sites\/elbencesar\/files\/ult_362_reportagem_5-275x300.jpg\" alt=\"\" width=\"211\" height=\"230\" \/>Em mar\u00e7o de 1816, 72 anos antes da Lei \u00c1urea, um franc\u00eas nascido em Paris chegou ao Rio de Janeiro. Era o famoso pintor Jean-Baptiste Debret, de 48 anos. Ele veio para iniciar no Brasil o ensino de artes pl\u00e1sticas. De volta \u00e0 Fran\u00e7a, quinze anos depois, Debret publica em tr\u00eas volumes o seu livro <i>Viagem Pitoresca e Hist\u00f3rica ao Brasil<\/i>, com forte conte\u00fado social. Por meio de algumas telas, o pintor torna vis\u00edvel o que era invis\u00edvel, as mazelas sociais do Brasil Col\u00f4nia. Uma delas mostra o espancamento de um negro com as pernas dobradas e presas ao peito e com as m\u00e3os amarradas. Outra exibe a magreza de crian\u00e7as escravas, que se \u201calimentavam mediocremente\u201d, como ele mesmo escreve.<\/p>\n<p>A maior parte da sociedade brasileira daquela \u00e9poca n\u00e3o enxergava ou n\u00e3o dava aten\u00e7\u00e3o aos horrores da escravid\u00e3o. Isso explica por que o Brasil foi o \u00faltimo pa\u00eds do mundo a extinguir o trabalho escravo.<\/p>\n<p>Mas os invis\u00edveis de ontem tendem a continuar invis\u00edveis hoje. Conforme recente relat\u00f3rio da Anistia Internacional, as comunidades quilombolas continuam enfrentando graves amea\u00e7as a seus direitos humanos geralmente em decorr\u00eancia de lit\u00edgios vinculados a terra. A ju\u00edza Catarina Volkart Pinto, de Novo Hamburgo, RS, lembra que tramita no Supremo Tribunal Federal uma a\u00e7\u00e3o contr\u00e1ria ao decreto que regulamenta todo o processo em rela\u00e7\u00e3o \u00e0s terras quilombolas. Segundo a ju\u00edza, os quilombolas \u201cs\u00e3o desconhecidos inclusive perante grande parte da pr\u00f3pria popula\u00e7\u00e3o local. Parecem ser invis\u00edveis\u201d, como os \u201cningu\u00e9ns\u201d de Eduardo Galeano: \u201cAqueles que n\u00e3o fazem arte, mas artesanato; que n\u00e3o t\u00eam arte, mas t\u00eam artesanato; que n\u00e3o t\u00eam nome, mas t\u00eam n\u00famero\u201d.<\/p>\n<p>Apesar de o governo estar melhorando a situa\u00e7\u00e3o dos quilombos, h\u00e1 verbas prometidas que ainda n\u00e3o foram repassadas ao programa Brasil Quilombola.<\/p>\n<p><strong>Leia mais<br \/>\n<\/strong><a href=\"http:\/\/ultimato.com.br\/sites\/blogdaultimato\/2016\/09\/03\/mais-reportagem-362\/\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">Mais textos da reportagem<\/a><br \/>\n<a href=\"http:\/\/www.ultimato.com.br\/conteudo\/companha-convoca-igreja-brasileira-a-orar-pelos-quilombolas\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">Campanha convoca igreja brasileira a orar pelos quilombolas<\/a><\/p>\n<pre>Texto originalmente publicado na edi\u00e7\u00e3o <a href=\"http:\/\/www.ultimato.com.br\/revista\/362\">362<\/a> de <strong>Ultimato<\/strong>.<\/pre>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Antes de visitar a comunidade quilombola Cachoeira dos Forros, na zona rural da pequena cidade mineira de Passa Tempo (8 mil habitantes), MG, a 143 quil\u00f4metros de Belo Horizonte, o Mineiro com Cara de Matuto procurou ficar bem inteirado do significado da palavra \u201cquilombo\u201d. Para tanto, leu o precioso livro Quilombolas \u2013 somos todos parte [&hellip;]<\/p>\n","protected":false},"author":24,"featured_media":0,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"ngg_post_thumbnail":0,"footnotes":""},"categories":[116,32192],"tags":[5609,31110,36930,31111,5952],"class_list":["post-889","post","type-post","status-publish","format-standard","hentry","category-blog","category-mineiro-matuto","tag-historia","tag-quilombo","tag-quilombola","tag-reportagem","tag-revista"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/ultimato.com.br\/sites\/elbencesar\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/889","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/ultimato.com.br\/sites\/elbencesar\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/ultimato.com.br\/sites\/elbencesar\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/ultimato.com.br\/sites\/elbencesar\/wp-json\/wp\/v2\/users\/24"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/ultimato.com.br\/sites\/elbencesar\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=889"}],"version-history":[{"count":11,"href":"https:\/\/ultimato.com.br\/sites\/elbencesar\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/889\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":916,"href":"https:\/\/ultimato.com.br\/sites\/elbencesar\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/889\/revisions\/916"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/ultimato.com.br\/sites\/elbencesar\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=889"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/ultimato.com.br\/sites\/elbencesar\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=889"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/ultimato.com.br\/sites\/elbencesar\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=889"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}