{"id":611,"date":"2017-06-26T07:00:17","date_gmt":"2017-06-26T10:00:17","guid":{"rendered":"http:\/\/ultimato.com.br\/sites\/elbencesar\/?p=611"},"modified":"2017-06-22T16:45:12","modified_gmt":"2017-06-22T19:45:12","slug":"o-mineiro-com-cara-de-matuto-no-semiarido-o-que-semeia-dignidade-colhe-cidadania","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/ultimato.com.br\/sites\/elbencesar\/2017\/06\/26\/o-mineiro-com-cara-de-matuto-no-semiarido-o-que-semeia-dignidade-colhe-cidadania\/","title":{"rendered":"O Mineiro com Cara de Matuto no semi\u00e1rido \u2013 O que semeia dignidade colhe cidadania"},"content":{"rendered":"<blockquote><p>Est\u00e1 para nascer uma pessoa t\u00e3o ignorante quanto o Mineiro com Cara de Matuto. Numa recente viagem \u00e0 regi\u00e3o semi\u00e1rida do Nordeste (maio de 2002), ele levou na bagagem um par de galochas, uma capa de chuva e um guarda-chuva. S\u00f3 l\u00e1 ficou sabendo que naquela enorme \u00e1rea, que abrange oito Estados brasileiros e o norte de Minas Gerais (18% do territ\u00f3rio nacional) e que abriga 18,5 milh\u00f5es de habitantes, chove em m\u00e9dia apenas 700 mil\u00edmetros por ano.<\/p><\/blockquote>\n<p>De qualquer modo, a viagem foi um sucesso. O Mineiro voltou mais consciente dos problemas do Nordeste do que qualquer pol\u00edtico por a\u00ed afora. Ele fez at\u00e9 uma lista daquilo que aprendeu:<\/p>\n<p><strong>1)<\/strong> Embora haja evid\u00eancias de que o sert\u00e3o nordestino tenha sido mar h\u00e1 milh\u00f5es de anos (foram encontrados f\u00f3sseis de peixes na fronteira entre Pernambuco e Cear\u00e1), certas \u00e1reas do semi\u00e1rido j\u00e1 eram secas muito tempo antes dos portugueses aportarem aqui.<\/p>\n<p><strong>2)<\/strong> Ao longo do s\u00e9culo passado, houve 28 anos de seca na regi\u00e3o \u2013 em m\u00e9dia, 1 ano de seca a cada 4 anos.<\/p>\n<p><strong>3)<\/strong> L\u00e1 a esta\u00e7\u00e3o da chuva \u00e9 chamada de inverno e \u00e9 muito curta: dura de 4 a 7 meses. A esta\u00e7\u00e3o seca \u00e9 chamada de ver\u00e3o e dura de 5 a 8 meses.<\/p>\n<p><strong>4)<\/strong> A chuva \u00e9 muito irregular. Numa \u00fanica semana pode chover mais da metade de toda a chuva de um ano. \u00c9 muito comum cair num s\u00f3 dia a chuva de um m\u00eas inteiro.<!--more--><\/p>\n<p><strong>5)<\/strong> Al\u00e9m da secura natural, o desmatamento das \u00faltimas d\u00e9cadas e a ocupa\u00e7\u00e3o humana t\u00eam provocado aquilo que chamam de desertifica\u00e7\u00e3o. A vegeta\u00e7\u00e3o pr\u00f3pria do cerrado, que exige pouca \u00e1gua, tem sido substitu\u00edda pela soja e pelo eucalipto, que exigem muita \u00e1gua.<\/p>\n<p><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"alignright wp-image-616 size-medium\" title=\"Freeimages.com\" src=\"http:\/\/ultimato.com.br\/sites\/elbencesar\/files\/2017\/06\/silverton-1-1384735-639x424-300x200.jpg\" alt=\"\" width=\"300\" height=\"200\" srcset=\"https:\/\/ultimato.com.br\/sites\/elbencesar\/files\/2017\/06\/silverton-1-1384735-639x424-300x200.jpg 300w, https:\/\/ultimato.com.br\/sites\/elbencesar\/files\/2017\/06\/silverton-1-1384735-639x424.jpg 639w\" sizes=\"auto, (max-width: 300px) 100vw, 300px\" \/>Depois de conversar com caipiras e doutores e de estudar uma cartilha publicada por uma tal de Diaconia, o Mineiro com Cara de Matuto entendeu que o morador do semi\u00e1rido tem de aprender com o mandacaru e com o imbuzeiro a conviver com a escassez de \u00e1gua. O t\u00e9cnico Felipe Jalfim, da Diaconia, explicou-lhe que o mandacaru, um cacto muito grande e de porte arb\u00f3reo, pode guardar muita \u00e1gua no seu tronco. Para n\u00e3o perder essa \u00e1gua pela evapora\u00e7\u00e3o, a planta criou um tipo de capa grossa para isolar o seu tronco e galhos do vento quente e seco. J\u00e1 o imbuzeiro, uma arvoreta muito copada, tem, em suas ra\u00edzes, grandes tub\u00e9rculos que funcionam como cisternas para guardar \u00e1gua.<\/p>\n<p>O que o sertanejo precisa fazer n\u00e3o \u00e9 abrir po\u00e7o, pois a \u00e1gua \u00e9 escassa, profunda e frequentemente salobra. A solu\u00e7\u00e3o \u00e9 muito mais simples: \u00e0 semelhan\u00e7a do imbuzeiro, ele precisa recolher a \u00e1gua da chuva e armazen\u00e1-la. Basta construir uma cisterna no n\u00edvel do ch\u00e3o ou semienterrada que comporte pelo menos 15 mil litros de \u00e1gua. Essa \u00e1gua vem das chuvas, cai sobre o telhado, da\u00ed para as calhas e, depois, para a cisterna. \u00c9 \u00e1gua da melhor qualidade, sem o p\u00f3 da terra, sem as sujeiras da terra, sem qualquer contamina\u00e7\u00e3o. A cisterna, constru\u00edda com placas ligeiramente curvas feitas de concreto, \u00e9 totalmente fechada, o que a protege dos animais, dos parasitas e tamb\u00e9m da evapora\u00e7\u00e3o. Uma vez cheia, essa \u00e1gua d\u00e1 para uma fam\u00edlia beber e cozinhar durante um ano inteiro. Foi com 500 mil dessas cisternas que a China resolveu o problema da falta d\u2019\u00e1gua no Planalto do Norte, uma regi\u00e3o parecida com o Nordeste brasileiro. Esse sistema de capta\u00e7\u00e3o de \u00e1gua da chuva foi suficiente para fornecer \u00e1gua pot\u00e1vel e uma melhor alimenta\u00e7\u00e3o para 1,3 milh\u00e3o de chineses. Esse projeto de cisternas tomou mais corpo depois da 9\u00aa Confer\u00eancia Internacional sobre Sistemas de Capta\u00e7\u00e3o de \u00c1gua de Chuva, realizada em julho de 1999, em Petrolina, PE, com a presen\u00e7a de especialistas de 30 pa\u00edses.<\/p>\n<p>Espantado com o n\u00famero de cisternas na China, o Mineiro com Cara de Matuto multiplicou 500.000 cisternas por 15.000 litros para achar a quantidade de \u00e1gua retirada da chuva e encontrou a fabulosa marca de 22,5 bilh\u00f5es de litros. Vendo-o assim t\u00e3o deslumbrado, o pastor Arnulfo Barbosa, secret\u00e1rio executivo da Diaconia, disse-lhe que a ASA (Articula\u00e7\u00e3o do Semi-\u00c1rido), uma esp\u00e9cie de guarda-chuva que engloba cerca de 100 entidades da sociedade civil nordestina, est\u00e1 comprometida com o projeto denominado \u201cUm milh\u00e3o de cisternas para o semi\u00e1rido\u201d \u2013 o dobro do que j\u00e1 foi feito na China. Isso significa 45 bilh\u00f5es de litros de \u00e1gua boa para beber e para cozinhar.<\/p>\n<p>A essa altura, o Mineiro estava a caminho de Afogados da Ingazeira, na metade exata de Pernambuco, quase na fronteira com a Para\u00edba, onde a Diaconia tem um escrit\u00f3rio e uma equipe de t\u00e9cnicos. Ele havia sa\u00eddo do Recife pela manh\u00e3 na companhia de Arnulfo. J\u00e1 havia tomado um rico caf\u00e9 da manh\u00e3, que mais parecia um almo\u00e7o, em um restaurante \u00e0 beira da estrada: mandioca, cuscuz, carne de sol, ovo, queijo de manteiga e de coalho, melancia, p\u00e3o e caf\u00e9 com leite.<\/p>\n<p><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"alignright wp-image-617 size-medium\" title=\"Freeimages.com\" src=\"http:\/\/ultimato.com.br\/sites\/elbencesar\/files\/2017\/06\/drought-1200556-639x426-300x200.jpg\" alt=\"\" width=\"300\" height=\"200\" srcset=\"https:\/\/ultimato.com.br\/sites\/elbencesar\/files\/2017\/06\/drought-1200556-639x426-300x200.jpg 300w, https:\/\/ultimato.com.br\/sites\/elbencesar\/files\/2017\/06\/drought-1200556-639x426.jpg 639w\" sizes=\"auto, (max-width: 300px) 100vw, 300px\" \/>Na zona rural de Afogados, em quase todo telhado havia calhas que recolhiam \u00e1gua da chuva e a mandavam por meio de um cano branco de pl\u00e1stico para a cisterna constru\u00edda ao lado da casa. Numa delas, o Mineiro parou para conversar com Z\u00e9 da Antonia, de 54 anos, dono de uma pequena \u00e1rea toda plantada e irrigada. Ele j\u00e1 havia trabalhado 4 anos em S\u00e3o Paulo e 6 em Bras\u00edlia, e ia ao semi\u00e1rido muito raramente para visitar a fam\u00edlia. Z\u00e9 da Antonia desabafou: \u201cAntes trabalhava mais, gastava mais e obtinha menos. Agora, trabalho menos, gasto menos e obtenho mais. Hoje, nem eu nem meus filhos nem meus netos precisamos andar por este mundo para sustentar a fam\u00edlia. Temos servi\u00e7o aqui para todos.\u201d A fam\u00edlia desse trabalhador rural \u00e9 uma das muitas fam\u00edlias assistidas pela Diaconia.<\/p>\n<p>No dia seguinte, depois de visitar outros s\u00edtios, o Mineiro passou por um dep\u00f3sito de lixo da Prefeitura de Afogados da Ingazeira e viu tr\u00eas ou quatro mulheres tentando recolher alguma coisa porventura aproveit\u00e1vel no meio daquela sujeira e mau cheiro. Talvez tenham encontrado uma ou outra latinha de refrigerante. Ent\u00e3o o Mineiro se lembrou de tudo aquilo que havia recolhido de um lixo na cidade de Hirakata, no Jap\u00e3o, em abril de 1997: v\u00e1rias blusas de l\u00e3 e outras pe\u00e7as de roupa, um rel\u00f3gio, dois guarda-chuvas, uma bolsa a tiracolo, v\u00e1rias pe\u00e7as de lou\u00e7a, um v\u00eddeo, dois pares de patins, um massageador el\u00e9trico, bichinhos de pel\u00facia, muitos brinquedos, uma mala Samsonite e outras bugigangas.<\/p>\n<p>Na viagem de volta, em companhia de Arnulfo e de Jo\u00e3o Tin\u00f4co, um professor universit\u00e1rio nascido no \u00fanico Estado do Nordeste n\u00e3o atingido pelo semi\u00e1rido e convertido recentemente ao evangelho, o Mineiro passou perto do chamado Pol\u00edgono da Maconha, da cidade natal do vice-presidente Marco Maciel (Pesqueira), da cidade onde se fez a filmagem do Central do Brasil (Cruzeiro do Nordeste) e de Nova Jerusal\u00e9m (onde existe o maior teatro ao ar livre do mundo, cercado por quase 3 quil\u00f4metros de muralhas de 7 metros de altura, e onde se encena todo ano a Paix\u00e3o de Cristo, de acordo com o texto do rec\u00e9m-falecido jornalista Pl\u00ednio Pacheco, desde 1968). Durante a viagem, Arnulfo explicou ao Jo\u00e3o Tin\u00f4co e ao Mineiro o que \u00e9 a Diaconia:<\/p>\n<p>\u201cFundada em 1967 no Rio de Janeiro por um grupo de 11 igrejas evang\u00e9licas, a Diaconia tem como miss\u00e3o estar a servi\u00e7o dos exclu\u00eddos da sociedade, identificando-se com suas lutas na constru\u00e7\u00e3o da sua cidadania e tendo a regi\u00e3o Nordeste do Brasil como \u00e1rea preferencial de atua\u00e7\u00e3o. Atuamos em tr\u00eas frentes: Programa de Promo\u00e7\u00e3o da Crian\u00e7a e do Adolescente (PPCA), Programa de Apoio \u00e0 Agricultura Familiar (PAAF) e Programa de Apoio \u00e0 A\u00e7\u00e3o Diaconal das Igrejas (PAADI). Apoiamos e participamos da gest\u00e3o e da execu\u00e7\u00e3o do programa Um milh\u00e3o de cisternas para o semi\u00e1rido (P1MC). Evitamos o paternalismo e enfatizamos a promo\u00e7\u00e3o humana. Damos for\u00e7a aos movimentos e eventos populares em favor da dignidade do homem, da mulher e da crian\u00e7a, como A Marcha das Margaridas, O Grito da Terra, A Marcha dos Trabalhadores, O Encontro dos \u2018Sem-terrinhas\u2019 de Pernambuco etc. Nosso slogan para comemorar os 35 anos da Diaconia \u00e9 Semeando dignidade, colhendo cidadania.\u201d<\/p>\n<p>Ao chegar em casa, o Mineiro com Cara de Matuto abriu a revista Superinteressante de junho e encontrou na p\u00e1gina 48 que o Programa 1 Milh\u00e3o de Cisternas Rurais, do qual participa a Diaconia, havia recebido o Pr\u00eamio Super Ecologia, para o qual havia 438 inscritos.<\/p>\n<pre>Texto originalmente publicado na edi\u00e7\u00e3o <a href=\"http:\/\/www.ultimato.com.br\/revista\/278\">278<\/a> de Ultimato.<\/pre>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Est\u00e1 para nascer uma pessoa t\u00e3o ignorante quanto o Mineiro com Cara de Matuto. 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