{"id":181,"date":"2017-01-25T16:15:24","date_gmt":"2017-01-25T18:15:24","guid":{"rendered":"http:\/\/ultimato.com.br\/sites\/elbencesar\/?p=181"},"modified":"2017-01-26T09:12:20","modified_gmt":"2017-01-26T11:12:20","slug":"o-mineiro-com-cara-de-matuto-vai-a-austria-e-ve-johann-strauss-tocando-violino-no-stadtpark","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/ultimato.com.br\/sites\/elbencesar\/2017\/01\/25\/o-mineiro-com-cara-de-matuto-vai-a-austria-e-ve-johann-strauss-tocando-violino-no-stadtpark\/","title":{"rendered":"O Mineiro com Cara de Matuto vai \u00e0 \u00c1ustria e v\u00ea Johann Strauss tocando violino no Stadtpark"},"content":{"rendered":"<blockquote><p>Ao ver o rio Dan\u00fabio l\u00e1 embaixo, cortando a cidade, o <strong>Mineiro com Cara de Matuto<\/strong> pensou que desceria do avi\u00e3o no aeroporto de Viena ao som de Dan\u00fabio Azul. Nos tr\u00eas dias que passou na \u00c1ustria, o mineiro n\u00e3o ouviu Haydn nem Mozart nem Schubert nem os Strauss. A \u00fanica m\u00fasica que ele ouviu foi cantada a quatro vozes por um pequeno grupo de turistas defronte o forno cremat\u00f3rio do campo de concentra\u00e7\u00e3o de Mauthausen, nas proximidades de Lins. Ent\u00e3o se lembrou do R\u00e9quien, de Mozart, que o famoso compositor n\u00e3o p\u00f4de terminar porque morreu antes, com apenas 36 anos incompletos.<\/p><\/blockquote>\n<p><a href=\"http:\/\/ultimato.com.br\/sites\/elbencesar\/files\/2017\/01\/blog_reve_strauss.jpg\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"alignright size-full wp-image-189\" src=\"http:\/\/ultimato.com.br\/sites\/elbencesar\/files\/2017\/01\/blog_reve_strauss.jpg\" alt=\"\" width=\"120\" height=\"228\" \/><\/a>Por sugest\u00e3o do missi\u00f3logo Ant\u00f4nio Carlos Barro e com o apoio da Vis\u00e3o Mundial, o Mineiro com Cara de Matuto passou 21 dias do m\u00eas de maio na Europa. A partir desta edi\u00e7\u00e3o (254), <strong>Ultimato<\/strong> publica uma s\u00e9rie de cinco reportagens de cunho hist\u00f3rico e religioso sobre os cinco pa\u00edses visitados: \u00c1ustria (<em>O Mineiro com Cara de Matuto vai \u00e0 \u00c1ustria e v\u00ea Johann Strauss tocando violino no Stadtpark<\/em>), It\u00e1lia (<em>O Mineiro com Cara de Matuto vai a Roma e n\u00e3o v\u00ea o Papa<\/em>), Rom\u00eania (<em>O Mineiro com Cara de Matuto vai \u00e0 Rom\u00eania e v\u00ea L\u00facifer de joelhos no Museu Ion Jalea<\/em>), Portugal (<em>O Mineiro com Mara de Matuto vai a Lisboa e v\u00ea a Expo 98<\/em>) e Su\u00ed\u00e7a (<em>O Mineiro com Cara de Matuto vai \u00e0 Su\u00ed\u00e7a e n\u00e3o v\u00ea Genebra<\/em>).<\/p>\n<p><!--more--><\/p>\n<h4><strong>Contos dos bosques de Viena<\/strong><\/h4>\n<p>Ao ver o rio Dan\u00fabio l\u00e1 embaixo, cortando a cidade, o Mineiro com Cara de Matuto pensou que desceria do avi\u00e3o no aeroporto de Viena ao som de Dan\u00fabio Azul. Nos tr\u00eas dias que passou na \u00c1ustria, o mineiro n\u00e3o ouviu Haydn nem Mozart nem Schubert nem os Strauss. A \u00fanica m\u00fasica que ele ouviu foi cantada a quatro vozes por um pequeno grupo de turistas defronte o forno cremat\u00f3rio do campo de concentra\u00e7\u00e3o de Mauthausen, nas proximidades de Lins. Ent\u00e3o se lembrou do <em>R\u00e9quien<\/em>, de Mozart, que o famoso compositor n\u00e3o p\u00f4de terminar porque morreu antes, com apenas 36 anos incompletos.<\/p>\n<p>Deus foi muito generoso com a \u00c1ustria, dando-lhe, nos s\u00e9culos XVIII e XIX, uma quantidade enorme de compositores da mais alta qualidade, que at\u00e9 hoje o mundo inteiro aprecia. Primeiro foi Joseph Haydn (1732-1809), \u201co pai da sinfonia\u201d, que comp\u00f4s mais de 100 sinfonias, mais de 80 quartetos de corda e n\u00e3o poucas \u00f3peras e orat\u00f3rios. O orat\u00f3rio <em>A Cria\u00e7\u00e3o<\/em> foi composto quando Haydn j\u00e1 estava com 66 anos e <em>As esta\u00e7\u00f5es<\/em>, tr\u00eas anos depois. O segundo foi o bem humorado Wolfgang Amadeus Mozart (1756-1791), que teve a felicidade de possuir um pai que descobriu logo os dons musicais do filho e a ele se dedicou como professor de m\u00fasica. Ao lado de Haydn, Mozart foi o mais importante compositor do per\u00edodo chamado cl\u00e1ssico. Comp\u00f4s 22 \u00f3peras, entre elas a famosa <em>Dom Giovanni<\/em>, <em>As bodas de F\u00edgaro<\/em> e <em>A flauta m\u00e1gica<\/em>, e mais de 40 sinfonias (<em>J\u00fapiter<\/em> \u00e9 a mais apreciada). O descuidado Franz Schubert (1797-1828), que morreu de tifo, solteiro, aos 31 anos, \u00e9 autor de muitas dan\u00e7as, aberturas e sinfonias. O que o celebrizou, no entanto, foram as can\u00e7\u00f5es, como<em> Ave Maria, Quem \u00e9 S\u00edlvia?<\/em>, <em>A morte e a donzela<\/em> e a <em>Serenata<\/em> que leva o seu nome. Schubert nunca ouviu sua obra-prima <em>Sinfonia em d\u00f3 maior<\/em>, cuja partitura foi entregue por seu irm\u00e3o a Schuman e este passou para Mendelssohn, que finalmente a apresentou em Leipzig, na Alemanha, anos depois da morte do autor. Em quarto lugar est\u00e3o os Strauss: o pai Johann Strauss (1804-1849), os filhos Johann Strauss II (1825-1899), Joseph Strauss (1807-1870) e Eduard Strauss (1825-1916) e o neto Johann Strauss III (1866-1939). Entre o nascimento do primeiro e a morte do \u00faltimo s\u00e3o 135 anos de Strauss. O mais c\u00e9lebre deles \u00e9 Johann Strauss Filho, \u201co rei da valsa\u201d, autor de mais de 500 pe\u00e7as, entre elas <em>Dan\u00fabio azul<\/em>, <em>Contos dos bosques de Viena<\/em> e <em>Vinho, mulheres e canto<\/em>. Strauss organizou sua pr\u00f3pria orquestra aos 19 anos.<\/p>\n<p>O mineiro passou defronte \u00e0 \u00d3pera Nacional de Viena, mas n\u00e3o entrou. Nem ouviu os Meninos Cantores de Viena, a Orquestra Filarm\u00f4nica de Viena e a Orquestra Sinf\u00f4nica de Viena. Ele n\u00e3o ouviu, mas <em>viu<\/em> Johann Strauss (filho) tocando violino no Stadtpark&#8230; A est\u00e1tua de bronze est\u00e1 l\u00e1 h\u00e1 77 anos.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<h4><strong><a href=\"http:\/\/ultimato.com.br\/sites\/elbencesar\/files\/2017\/01\/MCMatuto_800px-1_hallstatt_austria-Wikimedia-Commons.jpg\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"alignleft size-full wp-image-192\" src=\"http:\/\/ultimato.com.br\/sites\/elbencesar\/files\/2017\/01\/MCMatuto_800px-1_hallstatt_austria-Wikimedia-Commons.jpg\" alt=\"\" width=\"400\" height=\"282\" srcset=\"https:\/\/ultimato.com.br\/sites\/elbencesar\/files\/2017\/01\/MCMatuto_800px-1_hallstatt_austria-Wikimedia-Commons.jpg 400w, https:\/\/ultimato.com.br\/sites\/elbencesar\/files\/2017\/01\/MCMatuto_800px-1_hallstatt_austria-Wikimedia-Commons-300x212.jpg 300w\" sizes=\"auto, (max-width: 400px) 100vw, 400px\" \/><\/a>T\u00e9dio, t\u00e9dio, t\u00e9dio e nada mais!<\/strong><\/h4>\n<p>A terra \u00e9 bonita, o povo \u00e9 culto, o pa\u00eds \u00e9 rico, a m\u00fasica est\u00e1 no sangue de todo austr\u00edaco e a guerra acabou h\u00e1 mais de 50 anos. Ent\u00e3o, perguntou o mineiro com seus bot\u00f5es, por que a \u00c1ustria est\u00e1 entre os pa\u00edses de maior \u00edndice de suic\u00eddio, ao lado de outras seis na\u00e7\u00f5es europ\u00e9ias? Das 80.818 mortes ocorridas na \u00c1ustria em 1996, 1.779 foram por suic\u00eddio (2,2% dos mortos). Que o austr\u00edaco Stefan Sweig tenha se matado com a esposa, aqui no Brasil, em 1942, d\u00e1 para entender. O escritor era judeu e n\u00e3o suportou o peso dos problemas mundiais na \u00e9poca da Segunda Guerra. Que o austr\u00edaco Adolf Hitler tenha se suicidado com Eva Braun em 1945, no dia seguinte ao casamento e uma semana antes da rendi\u00e7\u00e3o da Alemanha tamb\u00e9m \u00e9 explic\u00e1vel. \u00c0 semelhan\u00e7a de Saul, no Velho Testamento, e de Judas, no Novo Testamento, o F\u00fchrer n\u00e3o conseguiu mais conviver com os seus pr\u00f3prios crimes. Que o decorador do interior do Teatro Imperial da \u00d3pera de Viena, Eduard van der N\u00fcll, tenha posto fim \u00e0 pr\u00f3pria vida, d\u00e1 para entender tamb\u00e9m. O artista n\u00e3o suportou o peso das duras cr\u00edticas feitas \u00e0 sua obra. Mas, insistiu o mineiro, por que o austr\u00edaco comum se mata tanto? Por que Rodolfo, o \u00fanico filho homem do poderoso Francisco Jos\u00e9, rei da \u00c1ustria-Hungria, se matou em 1889? Ser\u00e1 o t\u00e9dio? O que provoca o t\u00e9dio?<\/p>\n<p>Para entender melhor o assunto, o mineiro consultou o Aur\u00e9lio e ali encontrou estes versos de Antonio Nobre: \u201cCantando, ao luar, errei nas ruas da Alemanha, \/ Armei na Fran\u00e7a minha tenda de campanha \/ E t\u00e9dio, t\u00e9dio, t\u00e9dio e nada mais!\u201d Em outro dicion\u00e1rio, fastio \u00e9 desgosto, avers\u00e3o, repugn\u00e2ncia que se tem pelas pessoas e coisas. Ora, o t\u00e9dio ou o fastio, numa an\u00e1lise s\u00e9ria e religiosa, decorre do vazio da alma, da falta de satisfa\u00e7\u00e3o interior, dos desejos mais fundos e mais exigentes, onde Deus est\u00e1. Da\u00ed o conselho do pregador: \u201cLembre-se do seu Criador enquanto voc\u00ea ainda \u00e9 jovem, antes que venham os dias maus, e cheguem os anos em que voc\u00ea dir\u00e1: \u2018N\u00e3o tenho mais prazer na vida\u2019.\u201d (Ec 12.1 BLH.) \u201cSem Deus\u201d, indaga Salom\u00e3o, \u201ccom que nos divertir?\u201d (Ec 2.25.) A resposta poderia repetir Antonio Nobre: Sem Deus \u00e9 \u201ct\u00e9dio, t\u00e9dio, t\u00e9dio e nada mais\u201d!<\/p>\n<p>Em termos de porcentagem, e sem entrar no m\u00e9rito de crist\u00e3os professos e praticantes, a \u00c1ustria \u00e9 mais crist\u00e3 que o Brasil, desde o in\u00edcio do s\u00e9culo. Enquanto na \u00c1ustria havia 96,6% de crist\u00e3os em 1980, no Brasil, na mesma \u00e9poca, eram 94%. Para o ano 2000, as previs\u00f5es dizem que essa porcentagem vai cair para 94,6% na \u00c1ustria, e 91,2% no Brasil. Quase todos os crist\u00e3os austr\u00edacos s\u00e3o cat\u00f3licos. Apenas 8,3% dos crist\u00e3os s\u00e3o protes-tantes, anglicanos, m\u00f3rmons, testemunhas de Jeov\u00e1, ortodoxos e cat\u00f3licos n\u00e3o-romanos.<\/p>\n<p>Um m\u00eas depois da viagem do mineiro \u00e0 \u00c1ustria, o papa Jo\u00e3o Paulo II esteve em Salsburg, onde Mozart nasceu, e pediu aos austr\u00edacos que \u201cn\u00e3o abandonem o rebanho de Deus, o Bom Pastor\u201d. \u00c9 que, depois do esc\u00e2ndalo envolvendo o Cardeal Hans Hermann Groer, mais de 50 mil cat\u00f3licos se afastaram da igreja (veja<a href=\"http:\/\/www.ultimato.com.br\/revista\/artigos\/254\/filhos-de-belial-na-sacristia\"> Os filhos de Belial na sacristia<\/a>). Al\u00e9m disso, os cat\u00f3licos progressistas andam muito aborrecidos com a nomea\u00e7\u00e3o do bispo Kurt Krenn, considerado pr\u00f3ximo \u00e0 organiza\u00e7\u00e3o ultra conservadora <em>Opus Dei<\/em>, fundada h\u00e1 70 anos pelo bispo espanhol Jos\u00e9 Maria Escriv\u00e1 de Balaguer. Diz-se que apenas 14% dos crist\u00e3os austr\u00edacos assistem regularmente os of\u00edcios religiosos.<\/p>\n<p>O mineiro se lembrou de ter lido que o <em>hobby<\/em> do ex-pol\u00edtico austr\u00edaco Josef Leutsch era colecionar c\u00e2nticos marianos. Em 1982, ele tinha, entre fitas gravadas, partituras e discos, 3 mil cantos em honra \u00e0 Virgem Maria. Infelizmente, ele n\u00e3o p\u00f4de ver nem fotografar a est\u00e1tua da bem-aventurada M\u00e3e de Jesus, com a infeliz inscri\u00e7\u00e3o: \u201cMaria, Redentora dos Pecados\u201d. No ano que vem, far\u00e1 90 anos que a escultura est\u00e1 na Ponte Virgem Maria, sobre o rio Dan\u00fabio.<\/p>\n<p>Logo no in\u00edcio da primavera, os austr\u00edacos da prov\u00edncia do Tirol, onde o padre Josef Mohr e o organista Frans Gruber compuseram, h\u00e1 180 anos, <em>Stille nacht<\/em> (Noite de paz), o mais cantado hino de Natal, saem \u00e0s ruas com roupas e m\u00e1scaras especiais e agitam no ar grandes bast\u00f5es como que expulsando de seus territ\u00f3rios os maus esp\u00edritos do inverno. O mineiro pensou consigo mesmo: al\u00e9m do sofrido e prolongado inverno, uma elite crist\u00e3 de austr\u00edacos precisa urgentemente expulsar os maus esp\u00edritos de um cristianismo sem vida, sem alegria e sem entusiasmo.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<h4><strong>A \u00faltima olhada \u00e0 terra natal<\/strong><\/h4>\n<p>O mineiro adoraria ter estado no Rio de Janeiro na data de 5 de novembro de 1818, h\u00e1 180 anos. Ele queria muito ver a cara do pr\u00edncipe Dom Pedro, filho de Dom Jo\u00e3o VI, ent\u00e3o com 20 anos de idade, e a cara da princesa Maria Leopoldina, filha de Francisco I, imperador da \u00c1ustria, ent\u00e3o com 19 anos. Eles j\u00e1 estavam casados (por procura\u00e7\u00e3o) desde 13 de maio, mas nem sequer se conheciam. Ele residia no Rio de Janeiro e ela em Viena. O casamento durou apenas oito anos, o suficiente para a primeira imperatriz do Brasil (uma austr\u00edaca) ter um filho por ano e aborrecer-se demais com a infidelidade do marido. Maria Leopoldina morreu em 1826, aos 29 anos. O Brasil deve muito a esta austr\u00edaca \u2014 n\u00e3o t\u00e3o bonita como a irm\u00e3 Maria Lu\u00edsa, segunda esposa de Napole\u00e3o \u2014 mas muito culta e entendida em mineralogia e bot\u00e2nica. Foi ela quem trouxe ao Brasil uma equipe de cientistas europeus para pesquisar as riquezas naturais da terra, entre eles o bot\u00e2nico Carl Friedrich von Martius e o zo\u00f3logo Jo\u00e3o Batista Sprix. Por ser favor\u00e1vel \u00e0 independ\u00eancia do Brasil, Maria Leopoldina \u00e9 chamada a Paladina da Independ\u00eancia.<\/p>\n<p>Com tudo isso na mente, o mineiro obrigou o mission\u00e1rio brasileiro Paulo Moreira a voltar atr\u00e1s e parar numa pra\u00e7a de Viena onde est\u00e1 a est\u00e1tua de Maria Tereza, bisav\u00f3 da imperatriz brasileira. Essa Maria Tereza era fora de s\u00e9rie. Casou-se com a idade de 19 anos e enviuvou-se 29 anos depois. Nesse curto per\u00edodo de tempo, Maria Tereza engravidou 16 vezes. O mineiro fez as contas e chegou \u00e0 conclus\u00e3o de que ela esteve gr\u00e1vida 144 meses (12 longos anos)! Em m\u00e9dia, a valorosa rainha da Hungria e da Bo\u00eamia e arquiduquesa da \u00c1ustria teve um filho de 20 em 20 meses. Ela pertencia \u00e0 fam\u00edlia real Habsburgo, que ocupou diversos tronos da Europa Central, de 1273 a 1918, com exce\u00e7\u00e3o de alguns poucos anos. O nome Habsburgo vem de <em>Habichtsburg<\/em>, o castelo do falc\u00e3o, o que fez o mineiro lembrar do <em>Ein Feste Burg<\/em> (Castelo forte \u00e9 o nosso Deus), a Marselhesa da Reforma, composta por Lutero em 1529.<\/p>\n<p>Foi Josef II, filho de Maria Tereza, que assinou, em 1781, o <em>Tolerenzpatent<\/em>, o edito de toler\u00e2ncia com os protestantes. Na mesma semana, 73 mil austr\u00edacos se declararam protestantes. Eram at\u00e9 ent\u00e3o protestantes ocultos. Cinq\u00fcenta anos antes, em 31 de outubro de 1731, por coincid\u00eancia ou n\u00e3o, no dia do 214\u00ba anivers\u00e1rio da Reforma, o arcebispo cat\u00f3lico Leopold Firmian assinou o <em>Das Emigrations \u2014 patent<\/em>, o edito da imigra\u00e7\u00e3o, segundo o qual as fam\u00edlias evang\u00e9licas (luteranos e calvinistas) eram obrigadas a deixar o pa\u00eds. No lugar deles viriam cat\u00f3licos de pa\u00edses protestantes para a \u00c1ustria. A essa mudan\u00e7a parcial da popula\u00e7\u00e3o deu-se o nome de <em>catoliza\u00e7\u00e3o<\/em> da \u00c1ustria. A chamada grande imigra\u00e7\u00e3o deu-se nos anos de 1731 e 1732. Na \u00e9poca, o Tirol tinha o maior n\u00famero de protestantes. Nas seis primeiras levas sa\u00edram do pa\u00eds 5.080 deles. A esposa do mission\u00e1rio brasileiro Almir Barbosa mostrou ao mineiro com cara de matuto o quadro de Mathias Schmid que retrata um grupo de protestantes olhando para a aldeia nativa enquanto dela se retiravam para sempre, sob o sugestivo t\u00edtulo <em>A \u00faltima olhada<\/em>. Tanto a gravura como os dados aqui mencionados foram retirados do livro <em>Um des Christlichen Glaubens Willen<\/em>. A princ\u00edpio, a ordem era para deixar as crian\u00e7as menores de 15 anos, mas ela n\u00e3o foi cumprida. A d\u00edvida hist\u00f3rica dos protestantes austr\u00edacos n\u00e3o \u00e9 s\u00f3 com o edito de toler\u00e2ncia de 1781. \u00c0 Maria Tereza eles devem o fato de a imperatriz ter diminu\u00eddo em seus dias a influ\u00eancia do clero sobre o governo.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<h4><strong>Contrabando de B\u00edblias<\/strong><\/h4>\n<p>O paranaense Almir Antunes Barbosa, de 35 anos, \u00e9 um homem feliz. De 1901 at\u00e9 hoje s\u00f3 houve duas mortes em sua fam\u00edlia: a av\u00f3 que morreu de trombose e um primo que morreu de acidente de carro. O av\u00f4 paterno, de 90 e tantos anos, depois de 70 anos de matrim\u00f4nio, rompeu com a esposa e casou-se com outra mulher. Esse Almir, a esposa Maria Ang\u00e9lica e os dois filhos s\u00e3o obreiros da Junta de Miss\u00f5es Estrangeiras da Igreja Presbiteriana do Brasil na \u00c1ustria h\u00e1 12 anos, a princ\u00edpio com a Opera\u00e7\u00e3o Mobiliza\u00e7\u00e3o (OM). De 1986 a 1989, o minist\u00e9rio de Almir era levar B\u00edblias para os pa\u00edses do outro lado da Cortina de Ferro, especialmente Rom\u00eania e Ucr\u00e2nia. Almir entrava de carro como turista, e, por uma quest\u00e3o de seguran\u00e7a, levava na cabe\u00e7a todos os nomes e endere\u00e7os dos crentes aos quais deveria entregar as B\u00edblias. Memorizava tamb\u00e9m o mapa das estradas e das ruas. O mineiro trouxe como lembran\u00e7a uma dessas B\u00edblias. Com a queda do comunismo, hoje Almir faz constantes viagens para o Leste Europeu, transportando ajuda social para carentes, al\u00e9m de exercer um minist\u00e9rio de aconselhamento pastoral e evangelismo na \u00c1ustria, especialmente em Stockerau, nas proximidades de Viena, onde reside. Maria Ang\u00e9lica \u00e9 formada pelo Instituto B\u00edblico das Assembl\u00e9ias de Deus em Pindamonhangaba, SP, e, antes de ir para a Europa, foi professora do Curso de Treinamento Mission\u00e1rio da Miss\u00e3o Antioquia.<\/p>\n<p>Paulo Moreira Filho e Virg\u00ednia s\u00e3o tamb\u00e9m mission\u00e1rios brasileiros no Leste Europeu, com resid\u00eancia em Viena. Pertencem \u00e0 Junta de Miss\u00f5es Mundiais da Conven\u00e7\u00e3o Batista Brasileira. O minist\u00e9rio de Paulo Moreira \u00e9 de suma import\u00e2ncia: al\u00e9m de ser o l\u00edder de todos os mission\u00e1rios brasileiros da Europa Central, ele fornece treinamento b\u00edblico pastoral a dezenas de l\u00edderes e pastores dos pa\u00edses vizinhos como Hungria, Rep\u00fablica Tcheca, Rom\u00eania, Pol\u00f4nia, Ucr\u00e2nia etc. O trabalho come\u00e7a a se expandir para regi\u00f5es mais a leste ainda, j\u00e1 na \u00c1sia Ocidental.<\/p>\n<p>Foi com Paulo Moreira que o mineiro visitou a famosa Catedral de Santo Est\u00eav\u00e3o e a n\u00e3o menos bela Igreja de S\u00e3o Carlos, que foi erguida em 1716 pelo imperador Carlos VI, pai de Maria Tereza, em gratid\u00e3o a Deus por ter livrado o pa\u00eds de uma epidemia de gripe. Num dos monumentos \u00e0 entrada do templo h\u00e1 um anjo apontando para a cruz, em cuja haste h\u00e1 uma serpente enrolada e, aos p\u00e9s dela, uma caveira representando a morte. \u00c9 uma alus\u00e3o \u00e0 serpente de bronze, para a qual todo israelita picado pelo veneno de cobra deveria olhar com f\u00e9 para n\u00e3o morrer (Nm 21.4-9, Jo 3.14). Mas, estranhamente, a Igreja de S\u00e3o Carlos \u00e9 dedicada a S\u00e3o Carlos Borromeu e n\u00e3o a Deus. Esse S\u00e3o Carlos foi um dos bispos mais proeminentes da Contra-Reforma, no s\u00e9culo XVI. J\u00e1 a Igreja Votiva, de arquitetura g\u00f3tica, constru\u00edda 140 anos depois, foi consagrada \u201cao Divino Salvador\u201d, que teria livrado o imperador Francisco Jos\u00e9 I de um atentado terrorista (1853). Todavia a esposa Elizabeth, mais conhecida como Sissi por causa do filme do mesmo nome, estrelado por Romy Schneider, foi assassinada por um anarquista italiano exatamente h\u00e1 100 anos (1889).<\/p>\n<p>O Mineiro com Cara de Matuto fez inteira quest\u00e3o de ir \u00e0 casa de Sigmund Freud, hoje museu. Descobriu o endere\u00e7o (Berggasse, 19) gra\u00e7as ao livro que acaba de ser publicado em portugu\u00eas (<a href=\"http:\/\/www.ultimato.com.br\/loja\/produtos\/cartas-entre-freud-pfister\">Cartas entre Freud &amp; Pfister<\/a>).<\/p>\n<p>Ali Freud viveu por quase 50 anos (de 1891 a 1938), ali atendeu centenas de clientes (o mineiro fotografou o famoso div\u00e3), ali escreveu seus livros, ali produziu uma intensa correspond\u00eancia, inclusive com o pastor protestante Oskar Pfister. Com a ocupa\u00e7\u00e3o da \u00c1ustria pelos nazistas e a tomada do poder pelos nacional-socialistas, Freud, que era judeu e tinha um c\u00e2ncer de 15 anos na mand\u00edbula, foi obrigado a imigrar para Londres em 1938, pouco antes de come\u00e7ar a guerra. Morreu no ano seguinte, aos 73 anos. Ao sair da casa de Freud, o mineiro achou na rua um papel amarelo com o desenho da estrela de Davi, s\u00edmbolo do juda\u00edsmo.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<h4><strong>No campo de concentra\u00e7\u00e3o de Mauthausen<\/strong><\/h4>\n<p>O que mais impressionou o Mineiro com Cara de Matuto na \u00c1ustria foi a visita ao campo de concentra\u00e7\u00e3o de Mauthausen, nas proximidades de Lins, a 200 e poucos quil\u00f4metros de Viena. A visita choca logo na entrada, onde h\u00e1, no ch\u00e3o, a escultura de 60 cr\u00e2nios, um ao lado do outro. Em seguida, entrando por tr\u00e1s e n\u00e3o pela frente, o mineiro topou com uma enorme escadaria de pedra, sem corrim\u00e3o, ao ar livre, ligando a parte de baixo, onde h\u00e1 uma pedreira, \u00e0 parte de cima, onde est\u00e3o os alojamentos. Por essa escada, conhecida como a escada da morte, subiam os prisioneiros mal tratados e mal nutridos, carregando \u00e0s costas, numa esp\u00e9cie de mochila de madeira, uma pedra enorme. Alguns n\u00e3o ag\u00fcentavam \u2014 ou eram empurrados para tr\u00e1s pelos guardas \u2014 e ca\u00edam sobre os demais, logo atr\u00e1s, provocando ferimentos e mortes, num efeito domin\u00f3. O mineiro catou ali umas pedrinhas que estavam no ch\u00e3o como lembran\u00e7a e fez quest\u00e3o de subir os 186 degraus para sentir na pele o sofrimento daqueles homens. L\u00e1 em cima havia uma s\u00e9rie de monumentos em homenagem aos mortos, todos muito sombrios, constru\u00eddos pelos governos de v\u00e1rios pa\u00edses. Os que mais chamaram a aten\u00e7\u00e3o do mineiro foram os memoriais judaico (um menor\u00e1 todo retorcido) e h\u00fangaro (v\u00e1rios homens com as m\u00e3os fechadas e bra\u00e7os levantados). O mais sinistro de todos era a escultura de um esqueleto, tamb\u00e9m com as m\u00e3os para cima, como que clamando por justi\u00e7a. Outro era uma cruz toda cercada de espinhos de tal modo que era de dif\u00edcil identifica\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>O mineiro gastou horas ali dentro. Viu a c\u00e2mara de g\u00e1s, o forno cremat\u00f3rio, o dormit\u00f3rio, o banheiro, a mesa em que os cad\u00e1veres eram estendidos para se retirar dos dentes alguma obtura\u00e7\u00e3o de ouro e do \u00e2nus alguma j\u00f3ia porven-tura ali escondida. Visitou a capela onde era outrora a lavanderia, viu uma cruz r\u00fastica linda na porta e uma singela escultura sobre a paz: duas m\u00e3os estendidas e abertas para receber um raminho de \u00e1rvore que estava no bico de dois pombinhos. Ali mesmo, o mineiro tentou fazer uma ora\u00e7\u00e3o ao Deus Soberano que, um dia, vai p\u00f4r fim a todas as mis\u00e9rias do mundo.<\/p>\n<p>O campo de concentra\u00e7\u00e3o de Mauthausen foi aberto em 1938. Por ele e por seus 47 subcampos passaram mais de 195 mil deportados. Destes, mais de 105 mil foram mortos ou morreram por causa dos maus tratos. Quando as tropas americanas come\u00e7aram a entrar ali \u00e0s 2 horas da tarde do dia 5 de maio de 1945, encontraram 81 mil sobreviventes, alguns semimortos. Os prisioneiros eram de v\u00e1rias nacionalidades: albaneses, alem\u00e3es, austr\u00edacos, belgas, espanh\u00f3is, franceses, ingleses, italianos, iugosl\u00e1vios, h\u00fangaros, poloneses, sovi\u00e9ticos, tchecos e outros. S\u00f3 da Hungria havia 18.015, da Pol\u00f4nia 15.803 e da antiga Uni\u00e3o Sovi\u00e9tica 15.581. Eram tamb\u00e9m de diversas posi\u00e7\u00f5es sociais, como professores, artistas, intelectuais, sacerdotes, comerciantes etc. Alguns eram protestantes, outros cat\u00f3licos e a maioria judeus. Todos vestiam um uniforme listrado e no peito traziam um n\u00famero e o desenho de um tri\u00e2ngulo. Se o tri\u00e2ngulo fosse vermelho, os detentos eram prisioneiros pol\u00edticos, se fosse verde, eram criminosos, se fosse preto ou castanho eram \u201celementos anti-sociais\u201d. Uma letra escura dentro do tri\u00e2ngulo indicava a nacionalidade (\u201cF\u201d era franc\u00eas, \u201cP\u201d era polon\u00eas, \u201cS\u201d era espanhol e assim por diante). Os judeus usavam uma estrela de Davi amarela, logo abaixo do tri\u00e2ngulo. No ver\u00e3o, eles acordavam \u00e0s 4h45 e trabalhavam das 6 \u00e0s 12 e das 13 \u00e0s 19 (11 horas por dia) e comiam ao meio-dia e \u00e0 noite. No inverno acordavam meia hora mais tarde e trabalhavam, sob um frio intenso, do amanhecer at\u00e9 o escurecer. O n\u00famero de guardas da SS (Schutz-Staffed) aumentava de acordo com o n\u00famero de prisioneiros: eram 1.500 em 1939 e 9 mil em 1945.<\/p>\n<p>O mineiro foi obrigado a encerrar sua visita ao campo de Mauthausen quando os funcion\u00e1rios come\u00e7aram a encerrar o expediente. No livro de visitas ele escreveu em portugu\u00eas mesmo: \u201cDepois de ver o que vi, s\u00f3 tenho uma palavra: Deus tenha miseric\u00f3rdia de n\u00f3s!\u201d<\/p>\n<pre>Texto publicado na <a href=\"http:\/\/www.ultimato.com.br\/revista\/254\">edi\u00e7\u00e3o 254<\/a> da revista <strong>Ultimato<\/strong>.<\/pre>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Ao ver o rio Dan\u00fabio l\u00e1 embaixo, cortando a cidade, o Mineiro com Cara de Matuto pensou que desceria do avi\u00e3o no aeroporto de Viena ao som de Dan\u00fabio Azul. Nos tr\u00eas dias que passou na \u00c1ustria, o mineiro n\u00e3o ouviu Haydn nem Mozart nem Schubert nem os Strauss. 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