{"id":1777,"date":"2018-11-23T11:34:12","date_gmt":"2018-11-23T13:34:12","guid":{"rendered":"http:\/\/ultimato.com.br\/sites\/elbencesar\/?p=1777"},"modified":"2018-11-23T11:41:42","modified_gmt":"2018-11-23T13:41:42","slug":"muitos-desafios-a-evangelizacao-do-brasil","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/ultimato.com.br\/sites\/elbencesar\/2018\/11\/23\/muitos-desafios-a-evangelizacao-do-brasil\/","title":{"rendered":"Muitos desafios \u00e0 evangeliza\u00e7\u00e3o do Brasil\u00a0"},"content":{"rendered":"<blockquote><p>Ao chegar ao Brasil, na segunda metade do s\u00e9culo 17, o mission\u00e1rio europeu encontrava muitos desafios pela frente:<\/p><\/blockquote>\n<p><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"alignright size-medium wp-image-1779\" src=\"http:\/\/ultimato.com.br\/sites\/elbencesar\/files\/photo-1518065896235-a4c93e088e7a-300x200.jpg\" alt=\"\" width=\"300\" height=\"200\" srcset=\"https:\/\/ultimato.com.br\/sites\/elbencesar\/files\/photo-1518065896235-a4c93e088e7a-300x200.jpg 300w, https:\/\/ultimato.com.br\/sites\/elbencesar\/files\/photo-1518065896235-a4c93e088e7a-768x512.jpg 768w, https:\/\/ultimato.com.br\/sites\/elbencesar\/files\/photo-1518065896235-a4c93e088e7a-1024x683.jpg 1024w, https:\/\/ultimato.com.br\/sites\/elbencesar\/files\/photo-1518065896235-a4c93e088e7a-732x488.jpg 732w, https:\/\/ultimato.com.br\/sites\/elbencesar\/files\/photo-1518065896235-a4c93e088e7a.jpg 1050w\" sizes=\"auto, (max-width: 300px) 100vw, 300px\" \/><\/p>\n<p><strong>Muito ch\u00e3o<\/strong><\/p>\n<p>A extens\u00e3o territorial do novo campo mission\u00e1rio era enorme. Embora as fronteiras n\u00e3o estivessem demarcadas, alguns anos depois o Brasil seria pouco menor que a Europa toda, quatorze vezes maior que a Pen\u00ednsula Ib\u00e9rica e cem vezes maior que o min\u00fasculo Portugal.<\/p>\n<p><strong>Muitas migra\u00e7\u00f5es<\/strong><\/p>\n<p>As gentes para evangelizar provinham de tr\u00eas grandes migra\u00e7\u00f5es: da \u00c1sia (os ind\u00edgenas), da Europa (os portugueses e mais alguns europeus) e da \u00c1frica (os negros que come\u00e7aram a chegar em 1538).<\/p>\n<p><strong>Muitas etnias<\/strong><\/p>\n<p>Havia uma diversidade enorme de etnias ind\u00edgenas (mais de mil) e africanas (mais de 250), com caracter\u00edsticas e culturas distintas, em alguns casos, bem diferentes. Havia ind\u00edgenas pac\u00edficos e ind\u00edgenas guerreiros, ind\u00edgenas que comiam carne humana em rituais de guerra e ind\u00edgenas n\u00e3o antrop\u00f3fagos, ind\u00edgenas que viviam praticamente nus e ind\u00edgenas que cobriam-se de peles. Havia negros da costa atl\u00e2ntica e da costa \u00edndica, de toda a \u00c1frica subsaariana.<\/p>\n<p><strong>Muita dist\u00e2ncia<\/strong><\/p>\n<p>Os ind\u00edgenas se encontravam totalmente dispersos, ocupando o litoral de norte a sul e o interior do pa\u00eds, de leste a oeste. Eram t\u00e3o numerosos quanto a popula\u00e7\u00e3o de Portugal.<\/p>\n<p><strong>Muitas l\u00ednguas<\/strong><\/p>\n<p>A comunica\u00e7\u00e3o era um problema quase intranspon\u00edvel por causa da diversidade de l\u00ednguas. At\u00e9 hoje h\u00e1 equipes de mission\u00e1rios linguistas gastando em m\u00e9dia 25 anos para traduzir o Novo Testamento para l\u00ednguas ind\u00edgenas. E ainda falta bem mais da metade de tradu\u00e7\u00f5es a fazer. Quanto aos negros, o problema era menor porque, como escravos, eram obrigados a aprender a l\u00edngua dos portugueses.<\/p>\n<p><!--more--><\/p>\n<p><strong>Muita tenta\u00e7\u00e3o<\/strong><\/p>\n<p>A dificuldade natural de conviver com respeito e castidade com a nudez das \u00edndias era uma situa\u00e7\u00e3o absolutamente nova para os europeus. Jos\u00e9 de Anchieta explica: \u201cElas andam nuas e n\u00e3o sabem negar-se a ningu\u00e9m, mas elas mesmas assediam e importunam os homens, metendo-se com eles nas redes, pois consideram uma honra dormir com os crist\u00e3os\u201d2.\u00a0 A este respeito, o padre Quir\u00edcio Caxa, o primeiro bi\u00f3grafo de Jos\u00e9 de Anchieta, diz que os tam\u00f3ios ficavam pasmados \u201cde ver um mancebo [o pr\u00f3prio Anchieta] rodeado de todo fogo babil\u00f4nico e estar nele sem lhe chamuscar um cabelo\u201d3. Para se livrar \u201cdesses ardent\u00edssimos perigos e propinqu\u00edssimas ocasi\u00f5es, [Anchieta] usava de muita ora\u00e7\u00e3o e comunica\u00e7\u00e3o com Deus\u201d, completa Caxa4.\u00a0 Segundo o cronista italiano Francisco Antonio Pigafetta, quando o navio Trinidad, no qual se encontrava, entrou na Ba\u00eda de Guanabara, em 1519, v\u00e1rios nativos se aproximaram de canoa ou a nado dos navios e as mulheres que subiram a bordo \u201cestavam nuas, eram muito jovens e se ofereciam aos marujos em troca de facas alem\u00e3s da pior qualidade\u201d5.<\/p>\n<p><strong>Muitos perigos<\/strong><\/p>\n<p>Em 1556, o navio em que viajava Pero Fernandes Sardinha, o primeiro bispo do Brasil, que tamb\u00e9m fora colega de Calvino na Universidade de Paris6, naufragou no litoral de Alagoas. Os n\u00e1ufragos foram mortos pelos caet\u00e9s. Entre 1570 e 1571, quatorze anos depois, o desastre foi muito pior: piratas franceses atacaram dois navios nas proximidades das Can\u00e1rias, mataram alguns passageiros e jogaram os outros ao mar. Entre os mortos estavam 43 jesu\u00edtas a caminho do Brasil.7 Dizia-se na \u00e9poca: \u201cSe queres aprender a orar, faze-te ao mar\u201d.8<\/p>\n<p><strong>Muito desconforto<\/strong><\/p>\n<p>Embora ensolarado e exuberante, o campo mission\u00e1rio n\u00e3o oferecia nenhum conforto, por causa do calor, das doen\u00e7as tropicais, dos animais selvagens e dos insetos. Certo jesu\u00edta contou 45 grilos e 450 pulgas entre a grand\u00edssima multid\u00e3o de insetos que perturbavam a missa, o sono, a mesa e tudo o mais.<\/p>\n<p><strong>Muito pecado<\/strong><\/p>\n<p>Os brancos que haviam fixado resid\u00eancia e os que passavam certo per\u00edodo de tempo aqui eram, com raras exce\u00e7\u00f5es, pessoas de baixo padr\u00e3o moral. Bom n\u00famero eram degredados, desterrados e desertores. Outros eram n\u00e1ufragos e colonos, \u00e1vidos de enriquecimento r\u00e1pido. Os jesu\u00edtas diziam que eles se portavam \u201cde acordo com a lei natural\u201d9, cercados de mulheres e escravos. Eduardo Bueno assevera que eles \u201cviviam para al\u00e9m dos limites, para al\u00e9m da lei e para aqu\u00e9m da \u00e9tica\u201d10. O degredado Bacharel de Cananeia tinha seis mulheres, 200 escravos e um ex\u00e9rcito de mil ind\u00edgenas e era o maior traficante de escravos da \u00e9poca. Manoel da N\u00f3brega chamava o misterioso Jo\u00e3o Ramalho de petra scandali para a miss\u00e3o.11\u00a0 Eram todos batizados na igreja e \u201ccrist\u00e3os\u201d. Al\u00e9m do baixo padr\u00e3o moral, esses portugueses, ao contr\u00e1rio dos colonizadores da Nova Inglaterra, vieram para o Brasil sem suas esposas, o que explica em grande parte o concubinato de quase todos. Gilberto Freyre escreveu que o colonizador portugu\u00eas chegou ao Brasil \u201chiperexcitado\u201d e aqui encontrou o ambiente prop\u00edcio para liberar sua sexualidade. Segundo Freyre, seria o portugu\u00eas, mesti\u00e7o de europeu com mouro, o grande respons\u00e1vel pela forte sexualiza\u00e7\u00e3o da cultura brasileira, mais que o negro ou o \u00edndio. Havia tamb\u00e9m a influ\u00eancia do culto afro-brasileiro, cujos deuses s\u00e3o louvados por suas proezas sexuais. Xang\u00f4, por exemplo, tinha 400 mulheres e Oxum \u00e9 uma esp\u00e9cie de deusa do desejo.12<\/p>\n<p><strong>Muita injusti\u00e7a<\/strong><\/p>\n<p>O sentimento de superioridade \u00e9tnica do europeu aliado ao seu poder econ\u00f4mico e militar causou inomin\u00e1veis barb\u00e1ries, especialmente no Brasil col\u00f4nia. \u00cdndios eram perseguidos, escravizados e exterminados. Depois de um pequeno per\u00edodo de recupera\u00e7\u00e3o f\u00edsica e de engorda, os negros rec\u00e9m-chegados da \u00c1frica eram separados de seus familiares e misturados entre si para dificultar a comunica\u00e7\u00e3o entre eles e evitar uma poss\u00edvel rebeli\u00e3o. Eles recebiam os famosos tr\u00eas p\u00eas: p\u00e3o (comida), pano (roupa) e pau (castigo f\u00edsico). Por qualquer transgress\u00e3o eram a\u00e7oitados, acorrentados e torturados. A escravid\u00e3o no Brasil durou exatamente 350 anos (de 1538 a 1888).<\/p>\n<p><strong>Muitas desvantagens<\/strong><\/p>\n<p>Os primeiros brasileiros eram todos mamelucos, filhos de pai branco e m\u00e3e \u00edndia. E, como as crian\u00e7as eram criadas pela m\u00e3e, meninos e meninas de sangue mesti\u00e7o eram educados na cultura e cren\u00e7as nativas, n\u00e3o na f\u00e9 crist\u00e3.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<h6><strong>Notas<\/strong><\/h6>\n<h6>2 In: BUENO, Eduardo. N\u00e1ufragos, traficantes e degredados. Rio de Janeiro: Objetiva, 1998. p. 177.<\/h6>\n<h6>3 CAXA, Quir\u00edcio, RODRIGUES, Pero. Primeiras biografias de Jos\u00e9 de Anchieta. S\u00e3o Paulo: Loyola, 1988. p. 20.<\/h6>\n<h6>4 Id., ibid.<\/h6>\n<h6>5 In: BUENO, Eduardo. N\u00e1ufragos, traficantes e degredados. Rio de Janeiro: Objetiva, 1998. p. 13.<\/h6>\n<h6>6 PRIORE, Mary Del. Religi\u00e3o e religiosidade no Brasil colonial. S\u00e3o Paulo: \u00c1tica. p. 10.<\/h6>\n<h6>7 Id., ibid. p. 11.<\/h6>\n<h6>8 BUENO, Eduardo. A viagem do descobrimento. Rio de Janeiro: Objetiva, 1998. p. 10.<\/h6>\n<h6>9 In: ____. N\u00e1ufragos, traficantes e degredados. Rio de Janeiro: Objetiva, 1998. p. 195.<\/h6>\n<h6>10 BUENO, Eduardo. N\u00e1ufragos, traficantes e degredados. Rio de Janeiro: Objetiva, 1998. p. 10.<\/h6>\n<h6>11 ____. A viagem do descobrimento. Rio de Janeiro: Objetiva, 1998. pp. 178179.<\/h6>\n<h6>12 MASSON, Celso, FERNANDES, Manuel. A sexo-m\u00fasica. Veja, p. 84, 12 fev. 1997.<\/h6>\n<h6><\/h6>\n<pre>Trecho originalmente publicado no livro <a style=\"font-family: Consolas, Monaco, monospace; font-size: 16px;\" href=\"https:\/\/www.ultimato.com.br\/loja\/produtos\/historia-da-evangelizacao-do-brasil\">Hist\u00f3ria da Evangeliza\u00e7\u00e3o do Brasil<\/a><span style=\"font-family: Consolas, Monaco, monospace; font-size: 16px;\">.<\/span><\/pre>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Ao chegar ao Brasil, na segunda metade do s\u00e9culo 17, o mission\u00e1rio europeu encontrava muitos desafios pela frente: Muito ch\u00e3o A extens\u00e3o territorial do novo campo mission\u00e1rio era enorme. 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