{"id":1180,"date":"2018-03-08T08:45:04","date_gmt":"2018-03-08T11:45:04","guid":{"rendered":"http:\/\/ultimato.com.br\/sites\/elbencesar\/?p=1180"},"modified":"2018-05-08T08:53:44","modified_gmt":"2018-05-08T11:53:44","slug":"a-conversa-que-mudou-minha-vida","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/ultimato.com.br\/sites\/elbencesar\/2018\/03\/08\/a-conversa-que-mudou-minha-vida\/","title":{"rendered":"A conversa que mudou minha vida"},"content":{"rendered":"<h4><strong>O drama de uma mulher que chegou a ter seis maridos<\/strong><\/h4>\n<blockquote><p>Embora religiosa e criada numa sociedade que n\u00e3o tolerava o sexo fora do casamento, muito cedo me enveredei por caminhos diferentes.<\/p><\/blockquote>\n<div id=\"attachment_1188\" style=\"width: 310px\" class=\"wp-caption alignright\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" aria-describedby=\"caption-attachment-1188\" class=\"wp-image-1188 size-medium\" src=\"http:\/\/ultimato.com.br\/sites\/elbencesar\/files\/blog_EC_mulher_8_3_2018-300x234.jpeg\" alt=\"\" width=\"300\" height=\"234\" srcset=\"https:\/\/ultimato.com.br\/sites\/elbencesar\/files\/blog_EC_mulher_8_3_2018-300x234.jpeg 300w, https:\/\/ultimato.com.br\/sites\/elbencesar\/files\/blog_EC_mulher_8_3_2018.jpeg 700w\" sizes=\"auto, (max-width: 300px) 100vw, 300px\" \/><p id=\"caption-attachment-1188\" class=\"wp-caption-text\">Cristo e a samaritana no po\u00e7o \u2013 Angelika Kauffmann, 1796 | \u00a9 Dom\u00ednio P\u00fablico<\/p><\/div>\n<p>Talvez tenha havido problema de educa\u00e7\u00e3o, eu mesma n\u00e3o sei explicar. Na verdade, eu tinha dificuldade na \u00e1rea sexual. Vivi com alguns homens alternadamente. N\u00e3o me tornei prostituta vulgar, mas \u00e0s vezes me sentia como uma delas e ficava horrorizada.<\/p>\n<p>Sei que o n\u00edvel moral havia ca\u00eddo muito em rela\u00e7\u00e3o ao padr\u00e3o inicial, porque, j\u00e1 nos meus dias, havia a tend\u00eancia de se exigir mais da mulher do que do homem nessa \u00e1rea. H\u00e1 pouco, por exemplo, queriam apedrejar em Jerusal\u00e9m uma mulher flagrada em adult\u00e9rio. No entanto, a lei em que os acusadores se apoiavam n\u00e3o pune s\u00f3 a mulher: \u201cSe um homem adulterar com a mulher do pr\u00f3ximo, ser\u00e1 morto o ad\u00faltero e a ad\u00faltera\u201d (Lv 20.10; Dt 22.22-24).<\/p>\n<p>V\u00e1rias vezes quis justificar-me e interpretar as coisas de maneira diversa. N\u00e3o me enquadrava como ad\u00faltera, porque me considerava solteira e n\u00e3o me relacionava com homem casado. Por que o sexo deveria ser praticado apenas dentro de um casamento est\u00e1vel e at\u00e9 que a morte o interrompesse? N\u00e3o poderia haver outras formas de relacionamento respons\u00e1vel, mas tempor\u00e1rio, sob a prote\u00e7\u00e3o de um amor n\u00e3o necessariamente eterno? Por que s\u00f3 o amor justifica a uni\u00e3o conjugal? O desejo e a conveni\u00eancia de viverem juntos um homem e uma mulher n\u00e3o s\u00e3o suficientes?<\/p>\n<p><!--more-->Ao mesmo tempo, eu percebia, por experi\u00eancia pr\u00f3pria, que essa liberdade n\u00e3o estimula a perseveran\u00e7a e o esp\u00edrito de luta para preservar o v\u00ednculo, al\u00e9m de produzir grande desgaste emocional. No meu caso, por exemplo, houve seis v\u00ednculos, digamos seis \u201cmaridos\u201d. Acabei descobrindo que o interc\u00e2mbio existente nas rela\u00e7\u00f5es torna os parceiros uma s\u00f3 carne, de maneira que, havendo ou n\u00e3o uma cerim\u00f4nia oficial de compromissos m\u00fatuos, efetiva-se uma uni\u00e3o no m\u00ednimo apenas carnal. Nesse caso, n\u00e3o h\u00e1 como negar que o relacionamento seguinte, com outro homem, constitui uma forma de adult\u00e9rio.<\/p>\n<p>Meu problema maior, por\u00e9m, n\u00e3o era de ordem especulativa, e sim de ordem \u00e9tica. Mudar de vida \u00e9 mais dif\u00edcil do que mudar de pensamento. No entanto, mudei de pensamento e de vida, gra\u00e7as a uma admir\u00e1vel conversa com um estranho que encontrei junto \u00e0 fonte de Jac\u00f3.<\/p>\n<h5><strong>O estranho<\/strong><\/h5>\n<p>Nasci e me criei aqui em Sicar, numa regi\u00e3o montanhosa, entre o mar e o rio Jord\u00e3o, mais pr\u00f3xima deste. A cidadezinha fica entre duas eleva\u00e7\u00f5es muito ligadas \u00e0 hist\u00f3ria de Israel: do lado norte, o monte Ebal, com cerca de mil e duzentos metros de altura; do lado oposto, o monte Gerizin, mais baixo uns trezentos metros. Antes mesmo da ocupa\u00e7\u00e3o de Cana\u00e3, Mois\u00e9s determinou que do alto do Ebal fossem lidas as maldi\u00e7\u00f5es para quem n\u00e3o cumprisse a Lei de Deus e do Gerizin, as b\u00ean\u00e7\u00e3os decorrentes da obedi\u00eancia. Neles Josu\u00e9 renovou a alian\u00e7a de Israel com o Senhor, logo ap\u00f3s a derrota de Ai, mais ao sul.<\/p>\n<p>Perto da cidade, \u00e0 margem da estrada que liga a Judeia \u00e0 Galileia, h\u00e1 um peda\u00e7o de terra comprado por Jac\u00f3 e oferecido a Jos\u00e9. Nesse s\u00edtio os judeus enterraram os ossos de Jos\u00e9, trazidos do Egito. L\u00e1 estava tamb\u00e9m a fonte de Jac\u00f3. Constantemente, eu fazia o trajeto de Sicar \u00e0 fonte para apanhar \u00e1gua.<\/p>\n<p>Lembro-me, como se fosse hoje, de que numa dessas idas \u00e0 fonte encontrei um homem cansado, suado e sujo de poeira assentado junto ao po\u00e7o. N\u00e3o o cumprimentei porque ele era judeu e eu, samaritana. Havia uma velha rixa entre n\u00f3s, desde que Zorobabel nos excluiu da reconstru\u00e7\u00e3o do templo de Jerusal\u00e9m h\u00e1 mais de 500 anos. Por causa disso, acabamos construindo nosso pr\u00f3prio templo no monte Gerizin, destru\u00eddo no ano 129 a.C. por Jo\u00e3o Hircano, sumo sacerdote e pr\u00edncipe dos judeus, filho e sucessor de Sim\u00e3o Macabeu.<\/p>\n<p>Fiquei surpresa quando aquele desconhecido quebrou o sil\u00eancio e me pediu \u00e1gua para beber. Minha rea\u00e7\u00e3o foi de indelicadeza: n\u00e3o lhe dei \u00e1gua e ainda o repreendi por dirigir-se a mim. Mas ele insistiu na conversa com tanta habilidade, que eu me vi, de repente, muito \u00e0 vontade e interessada no di\u00e1logo que se seguiu.<\/p>\n<p>Em quest\u00e3o de segundos, aquele judeu em tr\u00e2nsito por Samaria inverteu as coisas e me fez dependente dele, de uma certa \u00e1gua viva, que mata a sede para sempre. Ele falava com calma, com precis\u00e3o, com seguran\u00e7a, com uma espantosa autoridade e com ternura. Esquecendo-me da tradicional separa\u00e7\u00e3o entre judeus e samaritanos, acabei por fazer a coisa mais acertada de minha vida: \u201cSenhor, d\u00e1-me dessa \u00e1gua\u201d.<\/p>\n<h5><strong>O profeta<\/strong><\/h5>\n<p>Quando lhe pedi a \u00e1gua viva, ainda estava confusa. Pensei que se tratasse de um l\u00edquido, do qual talvez enchesse o meu c\u00e2ntaro ou um vidrinho qualquer. Pensei que a sede a que Ele se referia fosse a sede f\u00edsica, a manifesta\u00e7\u00e3o da aus\u00eancia de \u00e1gua no organismo. O estranho n\u00e3o deu muita import\u00e2ncia a essa est\u00fapida. Ele sabia \u2014 e j\u00e1 estava acontecendo \u2014 que o efeito dessa \u00e1gua n\u00e3o pot\u00e1vel, mas m\u00edstica, faria por si a necess\u00e1ria corre\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>A resposta que o andarilho me deu quando lhe pedi \u00e1gua viva pareceu-me sem p\u00e9 e sem cabe\u00e7a: \u201cVai, chama teu marido e vem c\u00e1\u201d. Vim a entender logo a rela\u00e7\u00e3o de uma coisa com a outra. Ele estava me dando a chance de eu mesma trazer \u00e0 tona o meu problema. Achei melhor n\u00e3o mentir nem me estender muito sobre o assunto. Disse-lhe simplesmente: \u201cN\u00e3o tenho marido\u201d. Ao que Ele respondeu, deixando-me surpresa e implicada: \u201cBem disseste, n\u00e3o tenho marido; porque cinco maridos j\u00e1 tiveste, e esse que agora tens n\u00e3o \u00e9 teu marido; isto disseste com verdade\u201d.<\/p>\n<p>Envergonhada de mim mesma, mas ainda \u00e0 vontade na presen\u00e7a dele, fiquei sem saber como reagir. Negar a acusa\u00e7\u00e3o seria bobagem, pois Ele estava por dentro de tudo quanto eu havia feito at\u00e9 ent\u00e3o. Tamb\u00e9m n\u00e3o lhe diria que n\u00e3o se metesse na minha vida, pois a sua interfer\u00eancia j\u00e1 estava dando bons resultados. Aceitei a acusa\u00e7\u00e3o. Disse-lhe, meio espantada: \u201cVejo que tu \u00e9s profeta\u201d.<\/p>\n<h5><strong>O Messias<\/strong><\/h5>\n<p>H\u00e1 cerca de sete s\u00e9culos e meio, Sarg\u00e3o II, rei da Ass\u00edria, destruiu o reino de Israel, deportou as dez tribos para outras regi\u00f5es e trouxe outros povos para habitar nas cidades de Samaria. Porque estes novos moradores da terra nada sabiam sobre o Deus de Israel, o pr\u00f3prio rei da Ass\u00edria mandou de volta um dos sacerdotes para instruir nos caminhos do Senhor o povo rec\u00e9m-chegado. N\u00f3s, os samaritanos, somos descendentes desse sincretismo cultural e religioso. Somos monote\u00edstas, temos o temor do Senhor, reconhecemos Mois\u00e9s, guardamos a Lei (inclusive o s\u00e1bado e a circuncis\u00e3o) e esperamos o tal profeta de que falava Mois\u00e9s.<\/p>\n<p>Talvez para desviar o assunto dos meus seis \u201cmaridos\u201d, trouxe \u00e0 baila a quest\u00e3o do lugar do culto. Nossos pais adoravam a Deus aqui no Gerizin e os judeus insistiam na centraliza\u00e7\u00e3o do culto no templo em Jerusal\u00e9m.<\/p>\n<p>A explica\u00e7\u00e3o que ele me deu foi t\u00e3o simples quanto coerente: \u201cDeus \u00e9 esp\u00edrito; e importa que os seus adoradores o adorem em esp\u00edrito e em verdade\u201d.<\/p>\n<p>Entusiasmada com esses assuntos religiosos, falei da minha esperan\u00e7a e convic\u00e7\u00e3o da vinda do Messias, chamado Cristo, o qual nos anunciaria todas as coisas. O estranho simplesmente respondeu: \u201cEu o sou, eu que falo contigo\u201d.<\/p>\n<p>Nesse momento, chegaram os homens com os quais eu havia me encontrado no caminho da fonte. Eles traziam comida para aquele personagem cada vez mais surpreendente. Fiquei sabendo que eram seus disc\u00edpulos.<\/p>\n<p>Mal podendo conter minha surpresa e espanto, mas vendo l\u00f3gica e indescrit\u00edvel beleza naquele quadro, deixei o c\u00e2ntaro vazio ali mesmo e corri \u00e0 cidade. Com a respira\u00e7\u00e3o ofegante, espalhei rapidamente a not\u00edcia de que a profecia havia se cumprido e o ungido de Deus ali estava, em carne e osso. Contei todas as coisas que aconteceram no in\u00edcio daquela tarde e levei as pessoas ao encontro do Messias. O reboli\u00e7o foi enorme.<\/p>\n<p>Pedimos que Jesus permanecesse conosco. Embora estivessem a caminho da Galileia, Ele e seus disc\u00edpulos ficaram em Sicar por dois dias. Muitos creram em Jesus por causa da sua palavra e me disseram: \u201cJ\u00e1 agora n\u00e3o \u00e9 pelo que disseste que n\u00f3s cremos; mas porque n\u00f3s mesmos temos ouvido e sabemos que este \u00e9 verdadeiramente o Salvador do mundo\u201d.<\/p>\n<p>A essa altura, lembrei-me deste salmo: \u201cComo suspira a cor\u00e7a pelas correntes das \u00e1guas, assim por ti, \u00f3 Deus, suspira a minha alma\u201d. E acabei por entender o que \u00e9 a \u00e1gua viva. Pela primeira vez, em muitos anos, eu me sentia dessedentada interiormente!<\/p>\n<p>Meu nome? N\u00e3o importa muito, pois represento um grupo de mulheres, com as mesmas dificuldades e com as mesmas possibilidades. Todavia, sou conhecida no mundo inteiro como A Mulher Samaritana.<\/p>\n<pre>Texto extra\u00eddo do livro <a href=\"http:\/\/www.ultimato.com.br\/loja\/produtos\/deixem-que-elas-mesmas-falem\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\"><em>Deixem Que Elas Mesmas Falem<\/em><\/a>. Ultimato, 1995.<\/pre>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>O drama de uma mulher que chegou a ter seis maridos Embora religiosa e criada numa sociedade que n\u00e3o tolerava o sexo fora do casamento, muito cedo me enveredei por caminhos diferentes. Talvez tenha havido problema de educa\u00e7\u00e3o, eu mesma n\u00e3o sei explicar. Na verdade, eu tinha dificuldade na \u00e1rea sexual. 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