{"id":519,"date":"2017-02-10T17:46:42","date_gmt":"2017-02-10T17:46:42","guid":{"rendered":"http:\/\/ultimato.com.br\/sites\/dignidade\/?p=519"},"modified":"2017-02-16T11:42:45","modified_gmt":"2017-02-16T11:42:45","slug":"a-lectio-divina-me-fez-encontrar-a-historia-da-igreja","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/ultimato.com.br\/sites\/dignidade\/2017\/02\/10\/a-lectio-divina-me-fez-encontrar-a-historia-da-igreja\/","title":{"rendered":"A Lectio divina me fez encontrar a hist\u00f3ria da igreja"},"content":{"rendered":"<p><em>De como a espiritualidade cl\u00e1ssica\u00a0me fez reencontrar os Santos que perdemos<\/em><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<div id=\"attachment_525\" style=\"width: 224px\" class=\"wp-caption alignright\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" aria-describedby=\"caption-attachment-525\" class=\"wp-image-525 size-medium\" src=\"http:\/\/ultimato.com.br\/sites\/dignidade\/files\/2017\/02\/427px-Giovanni_Battista_Tiepolo_-_Saint_Fidelis_of_Sigmaringen_and_Saint_Joseph_of_Leonessa_c._1747-1758_-_Google_Art_Project-214x300.jpg\" width=\"214\" height=\"300\" srcset=\"https:\/\/ultimato.com.br\/sites\/dignidade\/files\/2017\/02\/427px-Giovanni_Battista_Tiepolo_-_Saint_Fidelis_of_Sigmaringen_and_Saint_Joseph_of_Leonessa_c._1747-1758_-_Google_Art_Project-214x300.jpg 214w, https:\/\/ultimato.com.br\/sites\/dignidade\/files\/2017\/02\/427px-Giovanni_Battista_Tiepolo_-_Saint_Fidelis_of_Sigmaringen_and_Saint_Joseph_of_Leonessa_c._1747-1758_-_Google_Art_Project-107x150.jpg 107w, https:\/\/ultimato.com.br\/sites\/dignidade\/files\/2017\/02\/427px-Giovanni_Battista_Tiepolo_-_Saint_Fidelis_of_Sigmaringen_and_Saint_Joseph_of_Leonessa_c._1747-1758_-_Google_Art_Project.jpg 427w\" sizes=\"auto, (max-width: 214px) 100vw, 214px\" \/><p id=\"caption-attachment-525\" class=\"wp-caption-text\">Desenho. S\u00e3o Fidelis de Sigmarigen e S\u00e3o Jos\u00e9 da Leonessa. De: Giovanni Battista Tiepolo (1696\u20131770)<\/p><\/div>\n<p>H\u00e1 mais de uma forma de agradecer. Uma delas \u00e9 reconhecer. Podemos fazer isso reconhecendo a contribui\u00e7\u00e3o que pessoas espec\u00edficas tiveram em nossa trajet\u00f3ria. Nesse texto, quero reconhecer a contribui\u00e7\u00e3o de pessoas de quem fui disc\u00edpulo. De antem\u00e3o, \u00e9 preciso fazer aquele cl\u00e1ssico esclarecimento \u2013 que no meio acad\u00eamico \u00e9 t\u00edpico da rela\u00e7\u00e3o entre \u201corientador\u201d e \u201corientando,\u201d que reflete, na realidade, um tra\u00e7o secularizado da antiga rela\u00e7\u00e3o entre disc\u00edpulos e mestres na Igreja: se eles s\u00e3o respons\u00e1veis pelo meu sucesso, certamente n\u00e3o podem ser responsabilizados pelas minhas falhas&#8230;<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>Entrei no <em>Gr\u00e3o de Mostarda<\/em> indicado pela minha atua\u00e7\u00e3o na Rede FALE e na ABUB. Era uma caminhada de tr\u00eas anos de <em>discipulado<\/em>: durante aquele tempo, haveria encontros semestrais, retiros de sil\u00eancio e espiritualidade. Eu havia me tornado uma lideran\u00e7a na juventude evang\u00e9lica, circulava pelo universo do di\u00e1logo inter-religioso, e mantinha di\u00e1logos institucionais com a Igreja Cat\u00f3lica e outras denomina\u00e7\u00f5es Ortodoxas. No entanto, se eu compreendia a import\u00e2ncia do di\u00e1logo ecum\u00eanico para a articula\u00e7\u00e3o de pol\u00edticas p\u00fablicas e de mobiliza\u00e7\u00e3o popular, ele parava por a\u00ed. E o conflito era aberto: muitas das pr\u00e1ticas desses grupos se distanciavam bastante da espiritualidade batista, da \u00e9tica conservadora e individual, e da teologia reformada brasileira e norte-americana, na qual cresci desde a minha convers\u00e3o, aos 11 anos de idade.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>Frequentar mosteiros beneditinos? Participar de \u201cmedita\u00e7\u00e3o\u201d crist\u00e3? Ler livros escritos por andarilhos desempregados ou m\u00edsticos medievais? Isso tudo parecia, antes do discipulado, em conflito aberto com minha espiritualidade batista, reformada, e sua \u00e9tica protestante. Mas foi a\u00ed que conheci os quarto pastores que viriam a impactar minha vida nos pr\u00f3ximos anos: Osmar Ludovico, Valdir Steuernagel, Ricardo Barbosa e Ricardo Gondim. O que eles propunham era ir al\u00e9m de \u201cler a b\u00edblia\u201d como pr\u00e1tica de espiritualidade protestante: era necess\u00e1rio \u201cdeixar a B\u00edblia nos ler.\u201d Esse <em>salto de f\u00e9<\/em>, que s\u00f3 foi poss\u00edvel gra\u00e7as aos per\u00edodos intensos de contri\u00e7\u00e3o, medita\u00e7\u00e3o, acolhimento e amizade que recebi deles e de meus irm\u00e3os e irm\u00e3s naqueles dias, viria a marcar pra sempre a maneira como enxergo a hist\u00f3ria da igreja e a espiritualidade crist\u00e3.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>Passei a frequentar mosteiros beneditinos. Em alguns era muito bem recebido, convidado a participar dos of\u00edcios e ficar conversando depois, como um \u201cirm\u00e3o de outra denomina\u00e7\u00e3o\u201d. Questionava, ent\u00e3o, quando passava a frente de um dos raros templos protestantes de arquitetura crist\u00e3, e suas portas estavam fechadas: n\u00e3o havia lugar naquela casa para uma ora\u00e7\u00e3o silenciosa, ao meio dia, no centro da cidade. Onde foi que nos perdemos, onde foi que <em>desaprendemos<\/em> <em>a orar<\/em> sem necessariamente falar \u2013 ou mesmo gritar?<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>Eu estaria mentindo se dissesse que essa espiritualidade me fez abandonar minha a teologia reformada, ou minha f\u00e9 evang\u00e9lica. Ao contr\u00e1rio: ela preencheu um vazio de mais de dois mil anos de hist\u00f3ria que havia em mim. Se jamais abri m\u00e3o da cr\u00edtica reformada \u00e0queles movimentos que utilizaram da f\u00e9 para enriquecer, como muitos fazem ainda hoje; por outro lado, aprendi a aprender com os <em>Santos<\/em>, a hist\u00f3ria e as narrativas de f\u00e9 de muito tempo atr\u00e1s. Se j\u00e1 conhecia aquela velha piada atribu\u00edda a Lutero, de que \u201cdos doze ap\u00f3stolos, quatorze est\u00e3o enterrados na Espanha\u201d; aprendi tamb\u00e9m uma piada dos cat\u00f3licos sobre n\u00f3s, protestantes, para quem \u201co \u00fanico santo autorizado \u00e9 Santo Agostinho\u201d.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>J\u00e1 se v\u00e3o quase dez anos dessa experi\u00eancia de discipulado. Ela teve uma profunda influencia na minha espiritualidade, na minha vida pessoal \u2013 me casei durante esse per\u00edodo \u2013 e na minha profiss\u00e3o. Foi a partir de debates que tive ali sobre \u201cjusti\u00e7a\u201d, que retomei leituras que tinha feito de maneira fluida da faculdade de Direito, e redescobri o <em>Jusnaturalismo<\/em>\u00a0em Santo Agostinho e em Santo Tom\u00e1s de Aquino, com suas convic\u00e7\u00f5es e contradi\u00e7\u00f5es teol\u00f3gicas e jur\u00eddicas.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<div id=\"attachment_524\" style=\"width: 421px\" class=\"wp-caption aligncenter\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" aria-describedby=\"caption-attachment-524\" class=\"size-full wp-image-524\" src=\"http:\/\/ultimato.com.br\/sites\/dignidade\/files\/2017\/02\/Tiepolo-santi-fedele_Sigmaringen_-_Parma.jpg\" alt=\"\" width=\"411\" height=\"599\" srcset=\"https:\/\/ultimato.com.br\/sites\/dignidade\/files\/2017\/02\/Tiepolo-santi-fedele_Sigmaringen_-_Parma.jpg 411w, https:\/\/ultimato.com.br\/sites\/dignidade\/files\/2017\/02\/Tiepolo-santi-fedele_Sigmaringen_-_Parma-206x300.jpg 206w, https:\/\/ultimato.com.br\/sites\/dignidade\/files\/2017\/02\/Tiepolo-santi-fedele_Sigmaringen_-_Parma-103x150.jpg 103w\" sizes=\"auto, (max-width: 411px) 100vw, 411px\" \/><p id=\"caption-attachment-524\" class=\"wp-caption-text\">S\u00e3o Fidelis de Sigmarigen e S\u00e3o Jos\u00e9 da Leonessa. De: Giovanni Battista Tiepolo (1696\u20131770)<\/p><\/div>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>Na espiritualidade, al\u00e9m da <em>lectio divina<\/em>, procuro aprender diariamente com as tradi\u00e7\u00f5es perdidas pelos protestantes. Todo racha deixa cicatrizes, mas tamb\u00e9m \u00e9 preciso cur\u00e1-las. Para curar as minhas, eu fa\u00e7o uso de alguns devocion\u00e1rios cat\u00f3licos romanos, para esc\u00e2ndalo de muitos dos meus irm\u00e3os de f\u00e9 (um <em>aplicativo<\/em> da igreja cat\u00f3lica dos EUA para <em>tablet<\/em>). O que mais me chama aten\u00e7\u00e3o e edifica nele, \u00e9 a possibilidade de aprender com a vida, o exemplo e a hist\u00f3ria da igreja.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>O ex-Arcebispo da Cantu\u00e1ria, Rowan Williams, nos ensina que a atitude mais marcante dos crist\u00e3os \u00e9 a gratid\u00e3o: uma gratid\u00e3o que desafia a realidade que nos cerca, e nos faz cantar e louvar \u2013 \u201caleluia!\u201d. A gratid\u00e3o crist\u00e3 \u00e9 a que se expressa mesmo diante das maiores adversidades, que nos faz abandonar a ilus\u00e3o do olhar imediato para concentrar nossa Esperan\u00e7a no porvir. \u00c9, portanto, diante da aspereza dos tempos atuais, que expresso minha gratid\u00e3o pelos meus mestres citados, e pela descoberta que me ofereceram: a espiritualidade cl\u00e1ssica e medieval na hist\u00f3ria da igreja, para al\u00e9m dos meus arraias denominacionais. Segue um exemplo disso, e do caminho que essa jornada me fez percorrer at\u00e9 aqui.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>No \u00faltimo dia 4 de fevereiro, fiz minha devocional em cima da vida de S\u00e3o Jos\u00e9 de Leonessa (tamb\u00e9m chamado de Eufranio Dessiderio), que compartilho agora:<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p style=\"padding-left: 90px;\"><em>Desde crian\u00e7a, Eufranio se sentia vocacionado, chamado por Deus. Terceiro filho de fam\u00edlia de 8, havia sido prometido para casamento e ascens\u00e3o social. Quando adolescente, no entanto, viu um grupo de monges Capuchinhos e quis se juntar ao grupo, aos 18 anos. Conta-se que certa vez pregou para um grupo de 50 bandidos que assaltavam caravanas na estrada. Todos se converteram e passaram a frequentar seus serm\u00f5es. Foi mission\u00e1rio em Constantinopla, na Turquia, onde pastoreou mais de 4 mil escravos degredados em navios. Com frequ\u00eancia, os escravos desmaiavam de tanto remar, e ele se oferecia para substitu\u00ed-los no remo \u2013 o que nem sempre era permitido pelos senhores dos escravos. Ele trabalhou em pris\u00f5es, ministrando aos presidi\u00e1rios doentes durante uma epidemia. Certa vez se aproximou do Sult\u00e3o, pedindo aprova\u00e7\u00e3o de um decreto que garantisse liberdade religiosa; acabou preso e condenado a morte por invas\u00e3o de propriedade real. Foi pendurado por ganchos sobre uma fogueira por tr\u00eas dias, mas foi liberto (segundo a lenda, por anjos), e retornou a It\u00e1lia em 1589. Terminou sua vida pregando em pequenas vilas, para os pobres, presos e doentes. Fundou hospitais, abrigos, e distribu\u00eda comida. Com crucifixo em m\u00e3os, entrava em brigas de rua para\u00a0separ\u00e1-las, orando, rezando e ensinando a paz. <\/em><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>___________________________________________________________________________________________________________<br \/>\n<strong><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"alignleft wp-image-532\" src=\"http:\/\/ultimato.com.br\/sites\/dignidade\/files\/2017\/02\/Mv-2012b-150x150.jpg\" alt=\"\" width=\"125\" height=\"125\" srcset=\"https:\/\/ultimato.com.br\/sites\/dignidade\/files\/2017\/02\/Mv-2012b-150x150.jpg 150w, https:\/\/ultimato.com.br\/sites\/dignidade\/files\/2017\/02\/Mv-2012b-80x80.jpg 80w\" sizes=\"auto, (max-width: 125px) 100vw, 125px\" \/><\/strong><\/p>\n<p><strong>*Marcus Vinicius Matos\u00a0<\/strong>\u00e9 Doutorando em Direito no Birkbeck College (Universidade de Londres, Inglaterra), Professor de Direito Constitucional e Teoria de Direito. \u00c9 membro da coordena\u00e7\u00e3o nacional da Rede Fale e foi \u201cInternational Partner\u201d da igreja All Souls, em Londres, onde participou da lideran\u00e7a do minist\u00e9rio com estudantes internacionais. Est\u00e1 em per\u00edodo de mudan\u00e7a de volta para o Brasil, residindo em Maring\u00e1, no Paran\u00e1. \u00c9 casado com Priscila Vieira e pai de Aurora. Twitter: @mvdematos.<\/p>\n<p>____________________________________________________________________________________________________________<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>Leia tamb\u00e9m:<\/p>\n<p>+ <a href=\"http:\/\/ultimato.com.br\/sites\/dignidade\/2015\/03\/24\/a-idolatria-dode-mercado-o-homem-todo-para-o-dinheiro-todo\/\">A idolatria do(de) mercado: o homem todo para o dinheiro (todo)<\/a><\/p>\n<p>+\u00a0<a href=\"http:\/\/ultimato.com.br\/sites\/dignidade\/2014\/03\/22\/a-dignidade-o-instante-e-o-anonimo\/\">A dignidade, o instante e o an\u00f4nimo<\/a><\/p>\n<p>+\u00a0<a href=\"http:\/\/ultimato.com.br\/sites\/dignidade\/2014\/04\/13\/por-uma-etica-da-memoria\/\">Por uma \u00e9tica da mem\u00f3ria<\/a><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>De como a espiritualidade cl\u00e1ssica\u00a0me fez reencontrar os Santos que perdemos &nbsp; H\u00e1 mais de uma forma de agradecer. Uma delas \u00e9 reconhecer. 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