{"id":369,"date":"2016-06-12T19:09:37","date_gmt":"2016-06-12T19:09:37","guid":{"rendered":"http:\/\/ultimato.com.br\/sites\/dignidade\/?p=369"},"modified":"2016-06-16T19:37:18","modified_gmt":"2016-06-16T19:37:18","slug":"dormi-gravida-acordei-mae-ou-quase-relato-de-um-parto-um-pouco-atipico-um-tanto-onirico","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/ultimato.com.br\/sites\/dignidade\/2016\/06\/12\/dormi-gravida-acordei-mae-ou-quase-relato-de-um-parto-um-pouco-atipico-um-tanto-onirico\/","title":{"rendered":"Dormi gr\u00e1vida, acordei m\u00e3e (ou quase): relato de um parto um pouco at\u00edpico, um tanto on\u00edrico"},"content":{"rendered":"<p><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"alignleft wp-image-374 size-medium\" src=\"http:\/\/ultimato.com.br\/sites\/dignidade\/files\/2016\/03\/IMG_0821_2-225x300.jpg\" alt=\"IMG_0821_2\" width=\"225\" height=\"300\" srcset=\"https:\/\/ultimato.com.br\/sites\/dignidade\/files\/2016\/03\/IMG_0821_2-225x300.jpg 225w, https:\/\/ultimato.com.br\/sites\/dignidade\/files\/2016\/03\/IMG_0821_2-768x1024.jpg 768w, https:\/\/ultimato.com.br\/sites\/dignidade\/files\/2016\/03\/IMG_0821_2-113x150.jpg 113w\" sizes=\"auto, (max-width: 225px) 100vw, 225px\" \/><\/p>\n<p>A gravidez causou em mim um impacto reflexivo inesperado. Iniciei uma jornada sem volta em reflex\u00f5es profundas sobre a condi\u00e7\u00e3o de mulher. At\u00e9 aquele momento era atenta \u00e0s quest\u00f5es de g\u00eanero, mas afinal n\u00e3o me sentia assim t\u00e3o diferente dos homens, especialmente nas metas profissionais. A emin\u00eancia da maternidade levou-me a pesquisar sobre \u2018m\u00e3es na academia\u2019. A pergunta: \u201cPor que voc\u00ea est\u00e1 chorando?\u201d, durante a gravidez, era respondida mais ou menos assim: \u201cLeio uma pesquisa (ou estat\u00edsticas) sobre mulheres na academia&#8230;\u201d.<\/p>\n<p>A f\u00e9 est\u00e1 presente, ativa na perspectiva adotada nessa reflex\u00e3o. O n\u00f3, ent\u00e3o, torna-se h\u00edbrido, complexo: mulher, evang\u00e9lica, m\u00e3e, pesquisadora&#8230; Na alma ressoa: \u201ce o que ser\u00e1 de mim?\u201d.<\/p>\n<p>\u00c9 minha jornada (para dentro e adiante) neste n\u00f3 de f\u00e9, maternidade, mulher e profissional (entre outras linhas) que pretendo compartilhar. Come\u00e7o por aderir a uma pr\u00e1tica atual nos movimentos pr\u00f3 parto humanizado: um relato de parto. Minha filha Aurora far\u00e1 um ano esse m\u00eas. E vez ou outra me pego emocionada em mais uma narrativa do parto. O registro que segue \u00e9 uma vers\u00e3o de um primeiro texto escrito em maio de 2015, quando ela tinha dois meses.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>Escrevo sentada no ch\u00e3o da sala de casa, onde minha filha nasceu. N\u00e3o, n\u00e3o foi um parto planejado para ser em casa. Moro em um flat no centro de Londres, em um pr\u00e9dio de estudantes, e n\u00e3o julgava que tivesse v\u00ednculos t\u00e3o fortes com o lugar para desejar um parto domiciliar \u2013 embora esta seja uma op\u00e7\u00e3o dada a mulheres com gravidez de baixo risco pela sa\u00fade p\u00fablica da Inglaterra (o NHS \u2013 National Health Service). Minha inten\u00e7\u00e3o era fazer o parto no centro de nascimento (Birth Centre) do hospital. Com apoio de uma parteira, minha m\u00e3e e meu marido como acompanhantes; com uma estrutura que envolvia uma pequena piscina, cadeira, colchonete, bola de pilates e outras possibilidades. Mas entre inten\u00e7\u00e3o e acontecimento \u00e9 comum haver um lapso. E nesse lapso mergulhamos, os quatro: eu, a beb\u00ea, meu marido, minha m\u00e3e.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><strong>Pr\u00e9- parto<\/strong><\/p>\n<p>Tive uma gravidez plenamente feliz, relativamente tranquila (apesar dos prantos descritos acima). A partir do quinto m\u00eas sentia muitas dores. Fruto da Disfun\u00e7\u00e3o da S\u00ednfise P\u00fabica, conhecida como dor p\u00e9lvica. As dores e a dificuldade de mobilidade aumentavam junto com o tamanho da barriga. A beb\u00ea encaixou com 36 semanas e havia, at\u00e9 pelas dores do final da gravidez, uma expectativa minha e da fam\u00edlia de que o parto adiantasse. Assim, quando completei 41 semanas (dia 24 de mar\u00e7o), a expectativa e ansiedade me tomaram. Como sei que essa condi\u00e7\u00e3o, 41 semanas, \u00e9 rara no Brasil, desconfiei que a fam\u00edlia estaria preocupada. Simplesmente cortei a comunica\u00e7\u00e3o. E elegi meu marido como o canal entre mim e o mundo exterior. Ele foi meu filtro e adivinhou perfeitamente as palavras de que eu precisava naquele momento.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>De 41 +1, uma quarta-feira (25), notei, pela manh\u00e3, um pequeno sangramento rosado e muito corrimento: eu perdia o muco. Comecei a sentir leves c\u00f3licas. No mesmo dia fomos ao hospital para uma ultrassonagrafia (eu, meu marido e minha m\u00e3e, que ap\u00f3s muita luta para conseguir uma licen\u00e7a, esteve ao meu lado desde a 38\u00aa semana at\u00e9 nossa pequena completar 20 dias). O m\u00e9dico, brasileiro, disse que tudo estava bem, a placenta em pleno funcionamento, embora com sinais de envelhecimento. Seguimos para a consulta com a parteira. Eu estava muito nervosa. Sabia que o procedimento padr\u00e3o seria marcar uma indu\u00e7\u00e3o. Eu n\u00e3o queria parto induzido porque lera que h\u00e1 maiores chances de terminar em epidural, ces\u00e1rea ou com a utiliza\u00e7\u00e3o de instrumentos \u2013 ventosa e\/ou forcepes. Claro, nada disso era minha vontade. Voltei para casa com a indu\u00e7\u00e3o marcada para a segunda pela manh\u00e3, dia 30 de mar\u00e7o. Na consulta, a parteira tamb\u00e9m me ofereceu fazer um deslocamento de membrana, mas eu preferi n\u00e3o realizar o procedimento naquele dia. A ideia da indu\u00e7\u00e3o me perturbava. Travei uma nervosa batalha interna.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><strong>Minha longa fase latente<\/strong><\/p>\n<p>Na tarde daquele dia, fomos caminhar no parque (Regent\u2019s Park). Desde que minha m\u00e3e chegara, sa\u00edamos as duas, diariamente. Naquele dia, meu marido nos acompanhava. O parque estava lindo e apresentava os sinais da primeira semana de primavera. No caminho de retorno para casa, eu apoiada no bra\u00e7o do meu marido, parei de repente. Senti a primeira contra\u00e7\u00e3o. Ele percebeu e sorriu. Eu o reprimi \u2013 porque todos estavam muito ansiosos e aquele clima de expectativa alimentava minha pr\u00f3pria ansiedade. Lembrei de perguntar que horas eram: por volta de 5 da tarde. Mas al\u00e9m de contra\u00e7\u00f5es fracas e espor\u00e1dicas, que eu evitava comentar, e a leve c\u00f3lica (que aumentava, no meu sil\u00eancio), nada mais aconteceu.<\/p>\n<p>Durante a quinta-feira, tive contra\u00e7\u00f5es espa\u00e7adas, sentia que a intensidade aumentava, lentamente. Como as coisas n\u00e3o evolu\u00edam, ligamos no hospital e marcamos o deslocamento de membrana. N\u00e3o era poss\u00edvel ser no mesmo dia e o agendamento foi feito para a sexta-feira, \u00e0s 17 horas. Tentei levantar meu \u00e2nimo, cozinhei, comi, caminhei.<\/p>\n<p>As contra\u00e7\u00f5es ficaram imposs\u00edveis de disfar\u00e7ar, e mais frequentes, a partir da quinta-feira (26). Chegaram a ser de 20 em 20 minutos durante o dia. Apertaram ao entardecer. A noite foi terr\u00edvel. Contra\u00e7\u00f5es mais ou menos de 10 em 10 minutos. No hospital em que fiz o pr\u00e9-natal, o procedimento \u00e9 receber a parturiente apenas quando as contra\u00e7\u00f5es est\u00e3o regulares de 5 em 5 minutos h\u00e1 cerca de uma hora, e duram cerca de 40 segundos. A medicina na Inglaterra \u00e9 muito estat\u00edstica, ent\u00e3o esse procedimento \u00e9 justificado por pesquisas que indicam que a maioria das mulheres sofre \u2018atraso\u2019 e at\u00e9 interrup\u00e7\u00e3o do trabalho de parto no momento de entrada no hospital. Se ficam em casa, a evolu\u00e7\u00e3o \u00e9 mais r\u00e1pida. Ou seja: n\u00e3o havia raz\u00e3o para irmos para o hospital. Minha ansiedade cresceu muito. Mas quando o dia amanheceu (j\u00e1 era sexta, dia 27), as contra\u00e7\u00f5es foram reduzindo de frequ\u00eancia e intensidade. O parto n\u00e3o evolu\u00eda. Eu, na luta contra a ideia da indu\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>Quando cheguei ao hospital para o deslocamento de membrana, na sexta, por volta das 17 horas, j\u00e1 completava 48 horas desde a primeira contra\u00e7\u00e3o. Demorou para sermos atendidos. A parteira que realizou o procedimento disse que meu c\u00e9rvix estava macio, o que era um \u00f3timo sinal. O deslocamento foi bastante inc\u00f4modo, dolorido, como uma c\u00f3lica aguda, por\u00e9m r\u00e1pida. Voltamos para casa.<\/p>\n<p>E ent\u00e3o as contra\u00e7\u00f5es voltaram a ter frequ\u00eancia e aumentaram de intensidade. Eu continuava tensa, ansiosa e descrente da evolu\u00e7\u00e3o do parto. Passei multo mal a noite toda. Nada mais parava no est\u00f4mago, nem \u00e1gua. Al\u00e9m do desconforto \u00f3bvio das contra\u00e7\u00f5es, a dor p\u00e9lvica me impedia de me acomodar na cama. A maioria das posi\u00e7\u00f5es indicadas para aliviar as dores da fase latente do parto n\u00e3o eram poss\u00edveis para mim. Passei a maior parte da noite sentada, com a cabe\u00e7a apoiada em uma pilha de travesseiros. Usei a Tens Machine que t\u00ednhamos alugado e contava com massagens nas costas, que meu marido fazia durante o pico das dores.<\/p>\n<p>A bolsa rompeu por volta das 4 horas da madrugada (s\u00e1bado, j\u00e1 era dia 28 \u2013 eu entrava no terceiro dia de contra\u00e7\u00f5es). Quando amanheceu, o l\u00edquido continuava escorrendo, aos poucos e constante. Eu n\u00e3o dormira durante a noite. Estava exausta e desanimada. A frequ\u00eancia das contra\u00e7\u00f5es caiu novamente, o ritmo indefinido, chegando a espa\u00e7ar meia hora.<\/p>\n<p>Chegamos ao hospital \u2018de mala e cuia\u2019 no s\u00e1bado (28), por volta das 7 da manh\u00e3. Quer\u00edamos ficar por l\u00e1. Eu estava abatida, completamente exausta e segurava (mal) a ansiedade com a indu\u00e7\u00e3o. O trabalho de parto parecia n\u00e3o evoluir. O hospital estava vazio e a parteira nos atendeu na recep\u00e7\u00e3o e nos encaminhou para a sala de consulta. Ela fez um exame de toque: 2 cent\u00edmetros de dilata\u00e7\u00e3o. Sorriu e disse que estava tudo indo muito bem, que o c\u00e9rvix estava macio e isso indicava que a dilata\u00e7\u00e3o prosseguiria. Mas nada disso me animou. Eu imediatamente calculei que foram 3 dias de contra\u00e7\u00f5es para 2 cent\u00edmetros e me perguntava quanto tempo aquilo tudo ainda poderia durar. Naquele momento, eu pensava em topar qualquer coisa para que minha filha nascesse.<\/p>\n<p>Essa parteira olhou bem em meu rosto e disse que eu parecia cansada, que o corpo n\u00e3o \u00e9 tolo e que o trabalho de parto n\u00e3o poderia evoluir comigo naquele estado. Foi enf\u00e1tica em afirmar para eu retornar para casa e descansar. Dizia que eu precisava dormir. E era para ligar para o hospital dali 4 horas. Eu tive uma ou duas contra\u00e7\u00f5es durante a consulta. Em uma delas eu estava na cama, para o exame. Ela percebeu minha tens\u00e3o, tocou meu bra\u00e7o e disse \u201crelaxe seu corpo\u201d e \u201crespire fundo\u201d. As palavras dela acionaram em minha cabe\u00e7a todas as leituras que eu tinha feito sobre parto. \u201cSeu corpo n\u00e3o \u00e9 tolo\u201d, \u201crelaxe seu corpo\u201d&#8230; eu lembrei que o parto \u00e9 mais sobre permitir o corpo atuar do que tentar intervir. Percebi que minha ansiedade e tentativas de controle estavam atrapalhando. No final da consulta, ela disse \u201cat\u00e9 daqui a pouco\u201d. E n\u00f3s voltamos para casa, um pouco frustrados. Eu, com uma miss\u00e3o: relaxar, descansar.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><strong>Minha milagrosa fase \u201cativa\u201d \u2013 ou fase on\u00edrica<\/strong><\/p>\n<p>Para sair\/ entrar no meu flat h\u00e1 uma escada. Ela estava me matando nessas idas e vindas do hospital. No caminho de volta para casa, as contra\u00e7\u00f5es no taxi tamb\u00e9m me deixaram muito desconfort\u00e1vel, al\u00e9m dos quebra-molas. Eu entrei em casa confusa. Em minha cabe\u00e7a passavam todas aquelas informa\u00e7\u00f5es das leituras e ao mesmo tempo uma ideia obtusa, muito forte, que eu n\u00e3o conseguia evitar, de que \u201ceu n\u00e3o quero voltar ao hospital\u201d; \u201ceu n\u00e3o quero subir essas escadas novamente com esse barrig\u00e3o\u201d. Junto a tudo isso, eu estava t\u00e3o exausta que pensava \u201cquero que ela nas\u00e7a de qualquer forma, quero uma ces\u00e1rea ou seja o que for\u201d.<\/p>\n<p>Segui o conselho daquela parteira ao p\u00e9 da letra. Entrei em casa e me joguei na cama. Peguei meu travesseiro de gr\u00e1vida, me ajeitei o melhor que pude com aquele barrig\u00e3o, a dor p\u00e9lvica, as dores nas costas e as contra\u00e7\u00f5es. E fiquei l\u00e1, im\u00f3vel.<\/p>\n<p>N\u00e3o sei quando eu dormi. Minha mente trabalhava, confusa. Aquelas ideias contradit\u00f3rias, \u201cquero que ela nas\u00e7a de qualquer jeito, vou voltar ao hospital e pedir para adiantar a indu\u00e7\u00e3o, implorar uma ces\u00e1rea\u201d. Ao mesmo tempo, a forte sensa\u00e7\u00e3o de \u201ceu n\u00e3o quero voltar ao hospital, eu n\u00e3o quero mais subir as escadas&#8230;\u201d<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>Ent\u00e3o, eu orei. Orei meu salmo predileto, adaptado \u00e0 situa\u00e7\u00e3o: \u201cGra\u00e7as te dou, \u00f3 Deus, visto que de modo assombrosamente maravilhoso formaste meu corpo de mulher, totalmente preparado e capaz de dar \u00e0 luz\u201d; \u201cGra\u00e7as te dou, \u00f3 Deus, visto que de modo assombrosamente maravilhoso formaste a Aurora, minha beb\u00ea completamente saud\u00e1vel e capaz de trabalhar comigo para vir \u00e0 luz\u201d; \u201cAs suas obras s\u00e3o admir\u00e1veis e a minha alma o sabe muito bem\u201d. Eu repetia mentalmente essas palavras. Elas foram me tomando&#8230; a mente, a alma, o corpo, tomavam, envolviam tudo. E eu adormecia cada vez mais profundamente.<\/p>\n<p>Ap\u00f3s umas 4 ou 5 horas de sono, acordei. Meu marido e minha m\u00e3e disfar\u00e7avam (mal) suas preocupa\u00e7\u00f5es e inc\u00f4modos. Eles tentaram me acordar muitas vezes, sem sucesso. Meu marido conta que quando ele tentava conversar comigo, eu dizia para ele coisas como: \u201cfica aqui, me abra\u00e7a\u201d; \u201ceu preciso de voc\u00ea\u201d. Mas finalmente eu disse: \u201cvamos ao hospital, apenas me ajudem a ir ao banheiro e me vestir\u201d. Quando levantei, senti muita dificuldade em andar \u2013 responsabilizei as muitas horas inerte na cama, mais um efeito da dor p\u00e9lvica. Percebi uma troca de olhares entre meu marido e minha m\u00e3e. Decidiam, naquele momento, cancelar o taxi, chamar a ambul\u00e2ncia. No banheiro percebi que o que sentia era minha filha nascendo! Joguei meus 80 quilos encima da minha m\u00e3e, disse que minha bebe estava nascendo e pensava: \u201cn\u00e3o quero que minha filha nas\u00e7a no banheiro!\u201d.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><strong>Pausa<\/strong><\/p>\n<p>Esse sono merece uma pausa. N\u00e3o foi comum. Depois de uns dias, comecei a ter mem\u00f3ria dele. Enquanto dormia, leituras* que havia feito sobre parto normal me vinham \u00e0 mente. Dentro de mim, naquele momento, estavam parturiente, beb\u00ea e parteira! Todas ainda eu mesma, trabalhando duro. Em especial a ideia linda da dor de parto menos como dor e mais como um inc\u00f4modo, um alerta para abrirmos m\u00e3o do controle e permitir o corpo assumir o trabalho. Hoje analiso (veja como sou!) que, acordada, eu seria incapaz de abrir m\u00e3o de minha racionalidade e consci\u00eancia. E at\u00e9 disso meu corpo estava \u2018ciente\u2019! Cheguei a descrever o parto como irracional. Hoje discordo disso. Certamente n\u00e3o \u00e9 da ordem da racionalidade objetiva em vigor na nossa cultura (e que, n\u00e3o surpreende, foi forjada assim por homens&#8230;). O parto \u00e9 pleno. Poucas experi\u00eancias na vida s\u00e3o t\u00e3o plenas. \u00c9 tudo integrado (todos os nomes que j\u00e1 foram dados: raz\u00e3o, emo\u00e7\u00e3o, alma, esp\u00edrito, corpo, natureza, <em>self, <\/em>desejo, vontade, consciente, inconsciente&#8230; cria\u00e7\u00e3o). Uma atividade total&#8230; Na, pela e para a <em>Vida<\/em>!<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><strong>Est\u00e1gio expulsivo (ou de como acordei m\u00e3e)<\/strong><\/p>\n<p>Retomamos a cena: eu inclinada sobre minha m\u00e3e, para evitar que a \u201cajuda\u201d da gravidade acabasse por fazer minha filha nascer no banheiro. Era muito dif\u00edcil segurar as contra\u00e7\u00f5es. Meu marido no telefone com a emerg\u00eancia, j\u00e1 agachado, toalhas limpas em punhos (esse relato merecia um ap\u00eandice da vers\u00e3o dele).<\/p>\n<p><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"alignright wp-image-376 size-medium\" src=\"http:\/\/ultimato.com.br\/sites\/dignidade\/files\/2016\/03\/IMG_0827-225x300.jpg\" alt=\"IMG_0827\" width=\"225\" height=\"300\" srcset=\"https:\/\/ultimato.com.br\/sites\/dignidade\/files\/2016\/03\/IMG_0827-225x300.jpg 225w, https:\/\/ultimato.com.br\/sites\/dignidade\/files\/2016\/03\/IMG_0827-768x1024.jpg 768w, https:\/\/ultimato.com.br\/sites\/dignidade\/files\/2016\/03\/IMG_0827-113x150.jpg 113w\" sizes=\"auto, (max-width: 225px) 100vw, 225px\" \/>A equipe de param\u00e9dicos chegou, em seis minutos ap\u00f3s o chamado. Minha m\u00e3e colocou meus bra\u00e7os encima do meu marido e abriu a porta. Lembro apenas que a param\u00e9dica era uma mulher alta e quando ela se aproximou e se apresentou, eu me joguei encima dela. A equipe montou um \u2018ninho\u2019 no ch\u00e3o da minha sala, com nossa roupa de cama, e ligou para o hospital mais pr\u00f3ximo enviar uma parteira. A param\u00e9dica me conduziu at\u00e9 a sala. Eu olhei o \u2018esquema\u2019, meu marido sentado no sof\u00e1, e vi que eu n\u00e3o tinha condi\u00e7\u00f5es de ir para o ch\u00e3o, por causa da dor p\u00e9lvica. Lancei meus joelhos ao ch\u00e3o, o dorso apoiado no sof\u00e1. \u00c9 prov\u00e1vel que ainda estivesse orando. Com a\u00e7\u00f5es. Uma das m\u00e3os, segurando meu marido, companheiro das maiores emo\u00e7\u00f5es da minha vida at\u00e9 aqui. Um dos param\u00e9dicos trouxe a m\u00e1scara com g\u00e1s \u2013 outro procedimento padr\u00e3o de al\u00edvio de dor do parto na Inglaterra (claro, a mulher pode recusar). Eu relutei, mas lembrei da minha prima dizendo que essa fase era a mais dolorida. Inalei algumas vezes, mas aquilo tamb\u00e9m me incomodava. Lembrei mais uma vez das leituras. Uma delas dizia que n\u00e3o era necess\u00e1rio assim tanta for\u00e7a nesse \u2018empurrar\u2019. Que idealmente o beb\u00ea nasce em duas contra\u00e7\u00f5es, para evitar lacera\u00e7\u00f5es. Lembrei disso assim que ouvi os gritos entusiasmados, especialmente da minha m\u00e3e, dizendo: \u201cestou vendo ela, filha, estou vendo o rostinho!\u201d.<\/p>\n<p>Meus ouvidos atentavam, em meio a tantos \u2018push\u2019 e \u2018empurre\u2019, \u00e0 voz querida, suave e doce da minha pr\u00f3pria m\u00e3e. Naquele momento os sons da voz dela me incentivando; dos meus gritos guturais para exalar for\u00e7a; e do j\u00e1-t\u00e3o-pr\u00f3ximo choro da Aurora uniam tr\u00eas gera\u00e7\u00f5es de mulheres. \u00c9ramos uma s\u00f3. Uma \u00fanica-plena-forte mulher, cheia de f\u00e9, pura alegria. Esperei a pr\u00f3xima contra\u00e7\u00e3o. Respirei, exalei com for\u00e7a. Senti a cabecinha passar e, depois, o corpinho escorregar. E assim nossa Aurora raiou. Era 4h12, 28 de mar\u00e7o de 2015.<\/p>\n<p><strong>\u00a0<\/strong><\/p>\n<p><strong>P\u00f3s parto<\/strong><\/p>\n<p><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"alignleft wp-image-377 size-medium\" src=\"http:\/\/ultimato.com.br\/sites\/dignidade\/files\/2016\/03\/IMG_0832-225x300.jpg\" alt=\"IMG_0832\" width=\"225\" height=\"300\" srcset=\"https:\/\/ultimato.com.br\/sites\/dignidade\/files\/2016\/03\/IMG_0832-225x300.jpg 225w, https:\/\/ultimato.com.br\/sites\/dignidade\/files\/2016\/03\/IMG_0832-768x1024.jpg 768w, https:\/\/ultimato.com.br\/sites\/dignidade\/files\/2016\/03\/IMG_0832-113x150.jpg 113w\" sizes=\"auto, (max-width: 225px) 100vw, 225px\" \/>Deitei, recostada no edredom no ch\u00e3o. A Aurora me foi entregue e ali mesmo ela mamou pela primeira vez. Meu marido cortou o cord\u00e3o umbilical. (E ainda conseguiu fotografar!!) A parteira ent\u00e3o falou sobre a placenta, me deu a inje\u00e7\u00e3o \u2013 mais um procedimento t\u00edpico dos partos no NHS \u2013 e eu n\u00e3o senti nada, apenas vi ela com a placenta na m\u00e3o. Dei uma olhadinha e voltei a contemplar meu bebezinho.<\/p>\n<p>&nbsp;<br \/>\nAurora ganhou um segundo nome, Sophie, em homenagem \u00e0 parteira que conduziu os primeiros cuidados com ela e comigo. Meu parto n\u00e3o teve um \u00fanico ponto: sutura zero! Quando ouviu a hist\u00f3ria do \u2018sono\u2019, a parteira sorria: \u201cvoc\u00ea tem que nos ensinar como fazer isso, precisamos ensinar as mulheres\u201d! Ap\u00f3s uma r\u00e1pida ducha, fomos todos para o hospital, onde descansei at\u00e9 o outro dia. Eu estava t\u00e3o feliz! Lembro que uma chuva fina, tipicamente londrina, ca\u00eda l\u00e1 fora. Minha m\u00e3e escondeu a Aurora embaixo de sua blusa e a levou at\u00e9 a ambul\u00e2ncia. Como \u00e9 normal, por causa da descarga de horm\u00f4nios, eu estava um pouco tr\u00eamula. Mas subi as escadas para a rua, sozinha (rejeitei ajuda). J\u00e1 n\u00e3o estava gr\u00e1vida&#8230;<\/p>\n<p><strong>\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0 <\/strong><\/p>\n<p>Meu parto teve um sono profundo; tamb\u00e9m teve ora\u00e7\u00e3o, teve trabalho. Toda vida que nasce \u00e9 um milagre. Agora, m\u00e3e, oro e trabalho por outros milagres. O milagre de um mundo inclusivo, mais alegre, mais suave para n\u00f3s. Para as crian\u00e7as, para as mulheres. (Essa hist\u00f3ria continua&#8230;)<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>Priscila Vieira e Souza*<\/p>\n<p>&#8212;&#8212;&#8212;&#8212;&#8212;&#8212;&#8212;&#8212;&#8212;&#8211;<\/p>\n<p>*Priscila \u00e9 doutora em Comunica\u00e7\u00e3o e Cultura pela ECO\/UFRJ, e P\u00f3s-doutoranda na School of Arts do Birkbeck College, na Universidade de Londres.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><strong>Refer\u00eancias<\/strong><\/p>\n<p>(Nota sobre a \u2018bibliografia\u2019: os livros me chegaram atrav\u00e9s da rede de afetos: mulheres m\u00e3es me emprestaram. E eu j\u00e1 devolvi ou repassei.)<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>GUTMAN, Laura. <strong>A maternidade e o encontro com a pr\u00f3pria sombra.<\/strong> Rio de Janeiro: Best Seller, 2010.<\/p>\n<p>BRUNG, Paule; BERTHERAT, Therese; Bertherat, Marie. <strong>Quando o corpo consente.<\/strong> S\u00e3o Paulo: Martins Fontes, 2013.<\/p>\n<p>GASKIN, Ina May. <strong>Guide to Childbirth. <\/strong>New York: Bantam Dell, 2003.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>A gravidez causou em mim um impacto reflexivo inesperado. Iniciei uma jornada sem volta em reflex\u00f5es profundas sobre a condi\u00e7\u00e3o de mulher. At\u00e9 aquele momento era atenta \u00e0s quest\u00f5es de g\u00eanero, mas afinal n\u00e3o me sentia assim t\u00e3o diferente dos homens, especialmente nas metas profissionais. A emin\u00eancia da maternidade levou-me a pesquisar sobre \u2018m\u00e3es na [&hellip;]<\/p>\n","protected":false},"author":42,"featured_media":0,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"ngg_post_thumbnail":0,"footnotes":""},"categories":[116],"tags":[5779,24890,199],"class_list":["post-369","post","type-post","status-publish","format-standard","hentry","category-blog","tag-mulher","tag-parto","tag-priscila"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/ultimato.com.br\/sites\/dignidade\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/369","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/ultimato.com.br\/sites\/dignidade\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/ultimato.com.br\/sites\/dignidade\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/ultimato.com.br\/sites\/dignidade\/wp-json\/wp\/v2\/users\/42"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/ultimato.com.br\/sites\/dignidade\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=369"}],"version-history":[{"count":3,"href":"https:\/\/ultimato.com.br\/sites\/dignidade\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/369\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":379,"href":"https:\/\/ultimato.com.br\/sites\/dignidade\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/369\/revisions\/379"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/ultimato.com.br\/sites\/dignidade\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=369"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/ultimato.com.br\/sites\/dignidade\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=369"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/ultimato.com.br\/sites\/dignidade\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=369"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}