{"id":359,"date":"2016-03-29T11:38:31","date_gmt":"2016-03-29T11:38:31","guid":{"rendered":"http:\/\/ultimato.com.br\/sites\/dignidade\/?p=359"},"modified":"2016-04-16T16:44:44","modified_gmt":"2016-04-16T16:44:44","slug":"a-baba-na-manifestacao-e-o-filme-que-horas-ela-volta","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/ultimato.com.br\/sites\/dignidade\/2016\/03\/29\/a-baba-na-manifestacao-e-o-filme-que-horas-ela-volta\/","title":{"rendered":"A bab\u00e1 na manifesta\u00e7\u00e3o e o filme &#8220;Que horas ela volta?&#8221;"},"content":{"rendered":"<p>&nbsp;<\/p>\n<div id=\"attachment_364\" style=\"width: 224px\" class=\"wp-caption alignleft\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" aria-describedby=\"caption-attachment-364\" class=\"wp-image-364 size-medium\" src=\"http:\/\/ultimato.com.br\/sites\/dignidade\/files\/2016\/03\/Alberto_Henschel_-_Baba_com_crianca-214x300.jpg\" alt=\"Alberto_Henschel_-_Baba_com_crianca\" width=\"214\" height=\"300\" srcset=\"https:\/\/ultimato.com.br\/sites\/dignidade\/files\/2016\/03\/Alberto_Henschel_-_Baba_com_crianca-214x300.jpg 214w, https:\/\/ultimato.com.br\/sites\/dignidade\/files\/2016\/03\/Alberto_Henschel_-_Baba_com_crianca-768x1076.jpg 768w, https:\/\/ultimato.com.br\/sites\/dignidade\/files\/2016\/03\/Alberto_Henschel_-_Baba_com_crianca-731x1024.jpg 731w, https:\/\/ultimato.com.br\/sites\/dignidade\/files\/2016\/03\/Alberto_Henschel_-_Baba_com_crianca-107x150.jpg 107w, https:\/\/ultimato.com.br\/sites\/dignidade\/files\/2016\/03\/Alberto_Henschel_-_Baba_com_crianca.jpg 1234w\" sizes=\"auto, (max-width: 214px) 100vw, 214px\" \/><p id=\"caption-attachment-364\" class=\"wp-caption-text\">Bab\u00e1 com crian\u00e7a. Brasil. Fotografia de Albert Henschel (1827-1882)<\/p><\/div>\n<p>Come\u00e7o com um aviso aos navegantes: esse texto n\u00e3o tem interesse em discutir as manifesta\u00e7\u00f5es que tem acontecido no Brasil. N\u00e3o entenda nessas parcas linhas temos como objetivo um ataque ou defesa delas. Combinado?<\/p>\n<p>Causou balb\u00fardia na internet o retrato de uma bab\u00e1 carregando uma crian\u00e7a num carrinho de beb\u00ea enquanto os pais se deslocavam para uma manifesta\u00e7\u00e3o. Em primeiro lugar, devo confessar que achei lament\u00e1vel o uso da foto da bab\u00e1 na manifesta\u00e7\u00e3o nas redes sociais. Foi no m\u00ednimo falta de respeito o usar da imagem sem sua expressa autoriza\u00e7\u00e3o, tudo isso sem falar dos estere\u00f3tipos vomitados no debate.<\/p>\n<p>Em segundo lugar, possivelmente esse fato s\u00f3 tenha acontecido porque em ainda hoje no Brasil pobre e preto apenas importa quando \u00e9 para defender \u201cmeu ponto de vista&#8221;. E isso serve tanto para os \u201cdefensores da bab\u00e1\u201c, quanto para aqueles que acham o patr\u00e3o \u00e9 um \u201ccara joinha que at\u00e9 paga dobrado no fim de semana\u201c. Nesses momentos, parece que baixa um esp\u00edrito de Abdias Nascimento ou do Martin Luther King. Todos se tornam grandes militantes do movimento negro, embora saibamos que s\u00e3o silentes contra o exterm\u00ednio da juventude negra nas periferias de nossas cidades.<\/p>\n<p>A imagem traz a tona as rela\u00e7\u00f5es de poder em nossa sociedade. Lembrei do caso da disputa judicial entre uma s\u00f3cia de um um clube que obrigava as bab\u00e1s a se vestirem de branco como forma de distin\u00e7\u00e3o em rela\u00e7\u00e3o aos patr\u00f5es. Na \u00e9poca, Anna Muylaert, diretora do Filme \u201cQue horas ela volta?\u201c, manifestou sua opini\u00e3o:<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p style=\"padding-left: 60px;\">&#8220;<em>Quando eu vi essa not\u00edcia (das bab\u00e1s sendo obrigadas a usar brancos pelos clubes), fiquei sem palavras. \u00c9 uma regra extremamente autorit\u00e1ria, anacr\u00f4nica, para marcar a divis\u00e3o social. \u00c9 algo que mant\u00e9m o estigma da escravid\u00e3o<\/em>\u201c<a href=\"#_edn1\" name=\"_ednref1\">[1]<\/a>.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>Na mesma mat\u00e9ria, ela aponta a hipocrisia sobre o tema: &#8220;Aplaude Que horas ela volta? no Facebook, mas em casa reclama que a empregada n\u00e3o sabe fazer estrogonofe&#8221;.<\/p>\n<p>Para que n\u00e3o tem a sorte de assistir o filme de Muylaert, ele trata justamente do abismo social em que s\u00e3o colocados a \u201ccriadagem\u201d na pela elite brasileira. Revela o desconforto de como uma empregada \u00e9 objetificada ao ponto de ter como tarefa principal mimar os patr\u00f5es em situa\u00e7\u00f5es corriqueiras. Esses sequer levantam-se para pegar \u00e1gua, retirar o prato ou mesmo pegar a sobremesa. Na geografia do lar burgu\u00eas, o lugar a \u201cfuncion\u00e1ria do lar\u201c transita entre a cozinha e seu pequeno quartinho insalubre cheio de quinquilharias. Entrar na piscina? Nem imagina essa situa\u00e7\u00e3o sob hip\u00f3tese alguma.<\/p>\n<p>O filme nada mais \u00e9 que um retrato desconfort\u00e1vel da realidade do povo pobre e negro, que ainda hoje, como fruto de nossa secular estrutura classista e racista, gera essa tipo de distor\u00e7\u00e3o no campo do trabalho. No pa\u00eds onde persiste o famigerado \u201celevador social\u201c, vale a cr\u00edtica de Darcy Ribeiro(1996):<\/p>\n<p style=\"padding-left: 60px;\"><em>\u201cuma efetiva condi\u00e7\u00e3o de inferioridade, produzida pelo tratamento opressivo que o negro suportou por s\u00e9culos sem nenhuma satisfa\u00e7\u00e3o compensat\u00f3ria; a manuten\u00e7\u00e3o de crit\u00e9rios racialmente discriminat\u00f3rios que, obstaculizando sua ascens\u00e3o \u00e0 simples condi\u00e7\u00e3o de gente comum, igual a todos os demais, tornou mais dif\u00edcil para ele obter educa\u00e7\u00e3o e incorporar-se na for\u00e7a de trabalho dos setores modernizados. As taxas de analfabetismo, de criminalidade e de mortalidade dos negros s\u00e3o, por isso, as mais elevadas, refletindo o fracasso da sociedade brasileira em cumprir, na pr\u00e1tica, seu ideal professado de uma democracia racial que integrasse o negro na condi\u00e7\u00e3o de cidad\u00e3o indiferenciado dos demais.\u201d<\/em> (O povo brasileiro, pag. 120)<em> <a href=\"#_edn2\" name=\"_ednref2\"><strong>[2]<\/strong><\/a><\/em><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<div id=\"attachment_363\" style=\"width: 522px\" class=\"wp-caption aligncenter\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" aria-describedby=\"caption-attachment-363\" class=\"size-full wp-image-363\" src=\"http:\/\/ultimato.com.br\/sites\/dignidade\/files\/2016\/03\/Alberto_Henschel_-_Baba_com_o_menino_Eugen_Keller.jpg\" alt=\"Bab\u00e1 com o menino Eugen Keller, em Pernambuco, 1874. Fotografia de Albert Henschel (1827-1882)\" width=\"512\" height=\"823\" srcset=\"https:\/\/ultimato.com.br\/sites\/dignidade\/files\/2016\/03\/Alberto_Henschel_-_Baba_com_o_menino_Eugen_Keller.jpg 512w, https:\/\/ultimato.com.br\/sites\/dignidade\/files\/2016\/03\/Alberto_Henschel_-_Baba_com_o_menino_Eugen_Keller-187x300.jpg 187w, https:\/\/ultimato.com.br\/sites\/dignidade\/files\/2016\/03\/Alberto_Henschel_-_Baba_com_o_menino_Eugen_Keller-93x150.jpg 93w\" sizes=\"auto, (max-width: 512px) 100vw, 512px\" \/><p id=\"caption-attachment-363\" class=\"wp-caption-text\">Bab\u00e1 com o menino Eugen Keller, em Pernambuco, 1874. Fotografia de Albert Henschel (1827-1882)<\/p><\/div>\n<p>Se \u00e9 para lutar pela dignidade do povo negro e pobre, o fa\u00e7amos n\u00e3o quando nos conv\u00eam. Muitos querem instrumentalizar o negro e o pobre, mas na hora de levantar a voz contra o genoc\u00eddio da juventude negra se cala ou acha que isso \u00e9 coisa de quem \u201cdefende bandidinho\u201c. Pobreza e Negritude n\u00e3o devem ser usadas como mera justificativa para nossas \u201ccruzadas online\u201c, mas devem ser tem\u00e1ticas que precisam ser encaradas como pauta de promo\u00e7\u00e3o de cidadania e na defesa de direitos.<\/p>\n<p>Por fim, j\u00e1 passou do tempo de agir como se houvesse democracia racial no Brasil ou que mulheres pobres e negras \u201cescolheram\u201c ser bab\u00e1 ou empregada dom\u00e9stica. Nada contra esses trabalhos, mas sabemos que no Brasil eles s\u00e3o ocupados por gente que sequer teve a possibilidade de sonhar com outras possibilidades. E por favor, n\u00e3o pense que elas querem ser bab\u00e1s porque \u00e9 um sonho. Acredite, n\u00e3o \u00e9. Inclusive at\u00e9 hoje desconhe\u00e7o gente rica e abastada que tenha desejo incontrol\u00e1vel de ter como \u201cvoca\u00e7\u00e3o\u201c para vida toda ser bab\u00e1. Em que lugar, al\u00e9m dos debates fr\u00edvolos das redes sociais, est\u00e1 em nossa agenda de Miss\u00e3o essas pessoas invis\u00edveis? Nossas teologias evang\u00e9licas est\u00e3o dispostas a aprofundar a reflex\u00e3o sobre Trabalho, Etnia e G\u00eanero?<\/p>\n<p>Meu desejo \u00e9 que Deus no livre das de fazer do pobre apenas uma tese para nossos embates virtuais. Que esses sejam inclu\u00eddos em nossas a\u00e7\u00f5es por Justi\u00e7a e Equidade. Deus nos conduza para seus bra\u00e7os e para abra\u00e7ar os pobres e esquecidos desse Mundo. Am\u00e9m.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>Por\u00a0Caio Mar\u00e7al*<\/p>\n<p>&#8212;&#8212;&#8212;&#8212;&#8212;&#8212;&#8212;&#8211;<\/p>\n<p>*Caio Mar\u00e7al \u00e9 Cearense, casado com a Viviane e mora em Belo Horizonte. \u00c9 Formado em Teologia e graduando em Pedagogia pela Universidade do Estado de Minas Gerais. Atualmente \u00e9 secret\u00e1rio de Mobiliza\u00e7\u00e3o da Rede FALE e membro da Igreja Batista da Reden\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p><a href=\"#_ednref1\" name=\"_edn1\">[1]<\/a> Ver no link : <a href=\"http:\/\/www.bbc.com\/portuguese\/noticias\/2016\/02\/160128_clubes_babas_anna_muylaert_mdb\">http:\/\/www.bbc.com\/portuguese\/noticias\/2016\/02\/160128_clubes_babas_anna_muylaert_mdb<\/a><\/p>\n<p><a href=\"#_ednref2\" name=\"_edn2\">[2]<\/a> RIBEIRO, Darcy.. FrontLog, 1996.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>&nbsp; Come\u00e7o com um aviso aos navegantes: esse texto n\u00e3o tem interesse em discutir as manifesta\u00e7\u00f5es que tem acontecido no Brasil. N\u00e3o entenda nessas parcas linhas temos como objetivo um ataque ou defesa delas. Combinado? 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