{"id":308,"date":"2015-03-24T17:25:43","date_gmt":"2015-03-24T17:25:43","guid":{"rendered":"http:\/\/ultimato.com.br\/sites\/dignidade\/?p=308"},"modified":"2015-03-26T23:11:21","modified_gmt":"2015-03-26T23:11:21","slug":"a-idolatria-dode-mercado-o-homem-todo-para-o-dinheiro-todo","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/ultimato.com.br\/sites\/dignidade\/2015\/03\/24\/a-idolatria-dode-mercado-o-homem-todo-para-o-dinheiro-todo\/","title":{"rendered":"A idolatria do(de) Mercado: o homem todo para o dinheiro (todo)"},"content":{"rendered":"<p>&nbsp;<\/p>\n<p><em>Em resposta a cinco teses pol\u00edticas do te\u00f3logo reformado Franklin Ferreira<\/em><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><a href=\"http:\/\/ultimato.com.br\/sites\/dignidade\/files\/2015\/03\/005_Tiberius.jpg\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"alignleft wp-image-314 size-thumbnail\" src=\"http:\/\/ultimato.com.br\/sites\/dignidade\/files\/2015\/03\/005_Tiberius-150x150.jpg\" alt=\"005_Tiberius\" width=\"150\" height=\"150\" srcset=\"https:\/\/ultimato.com.br\/sites\/dignidade\/files\/2015\/03\/005_Tiberius-150x150.jpg 150w, https:\/\/ultimato.com.br\/sites\/dignidade\/files\/2015\/03\/005_Tiberius-300x300.jpg 300w, https:\/\/ultimato.com.br\/sites\/dignidade\/files\/2015\/03\/005_Tiberius-80x80.jpg 80w, https:\/\/ultimato.com.br\/sites\/dignidade\/files\/2015\/03\/005_Tiberius.jpg 310w\" sizes=\"auto, (max-width: 150px) 100vw, 150px\" \/><\/a>Este texto faz parte de uma s\u00e9rie que se iniciou, aqui no <em>Blog Dignidade!<\/em>, rebatendo algumas teses teol\u00f3gico-pol\u00edticas que, em linhas gerais, sustentam a ideia de que <em>Socialismo<\/em> e <em>Cristianismo<\/em> s\u00e3o concep\u00e7\u00f5es de mundos necessariamente concorrentes e <em>ideologicamente incompat\u00edveis<\/em>. O primeiro post da s\u00e9rie, <a href=\"http:\/\/ultimato.com.br\/sites\/dignidade\/2015\/03\/04\/a-idolatria-dode-mercado-contra-a-teologia-politica-neoliberal\/\">A idolatria do(de) Mercado: contra a teologia pol\u00edtica neoliberal<\/a>, est\u00e1 dispon\u00edvel <a href=\"http:\/\/ultimato.com.br\/sites\/dignidade\/2015\/03\/04\/a-idolatria-dode-mercado-contra-a-teologia-politica-neoliberal\/\">aqui<\/a>. Na sequencia, quero continuar demonstrando os problemas da posi\u00e7\u00e3o ideol\u00f3gica do te\u00f3logo crist\u00e3o reformado Franklin Ferreira, a partir daquilo que aponto como sendo sua <em>segunda tese<\/em>. Talvez o epicentro do problema fique mais claro quando analisarmos aqui o que podemos identificar como sendo a <em>tese principal<\/em> para os dois textos<a href=\"#_edn1\" name=\"_ednref1\">[1]<\/a> do autor. Podemos resumi-la da seguinte maneira:<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><strong>2) <em>O socialismo, o fascismo e o nazismo s\u00e3o incompat\u00edveis com o Cristianismo porque requerem \u201cfidelidade religiosa\u201d ao Estado, e isso \u00e9 idolatria; enquanto o capitalismo e o liberalismo econ\u00f4mico n\u00e3o o requerem.<\/em><\/strong><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>H\u00e1 quatro problemas distintos nessa tese para os quais gostaria de chamar aten\u00e7\u00e3o. O primeiro est\u00e1 no fato de que ela inverte o argumento da <em>idolatria<\/em> <em>moderna<\/em>, capitalista e liberal \u2013 o chamado \u201cfetichismo da mercadoria\u201d \u2013, ao omitir outra entidade que requer <em>fidelidade religiosa<\/em>, para al\u00e9m do Estado: o <em>dinheiro<\/em>. O segundo, decorrente do primeiro, est\u00e1 no uso que o autor faz da no\u00e7\u00e3o de <em>ideologia<\/em><a href=\"#_edn2\" name=\"_ednref2\">[2]<\/a>, sem explicar o que isso significa, e se colocando fora do alcance do termo \u2013 como se ele servisse apenas para denunciar ideologias opostas aquela do <em>liberalismo econ\u00f4mico<\/em>. \u00c9 a partir desse posicionamento fora da hist\u00f3ria que Franklin prop\u00f5e associar e equivaler ideologias pol\u00edticas muito diferentes (socialismo, fascismo e comunismo), como se fossem semelhantes entre si. O terceiro problema est\u00e1 no uso que o autor faz da teologia de Karl Barth, como que corroborando sua tese. J\u00e1 o quarto e \u00faltimo que vou discutir, se refere ao o argumento de que o uso da no\u00e7\u00e3o de \u201cprogresso\u201d por correntes pol\u00edticas diferentes, inclusive entre crist\u00e3os no Brasil, prova a equival\u00eancia ideol\u00f3gica entre elas.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>Os outros dois problemas que posso apontar como impl\u00edcitos nesta tese de Franklin se referem a maneira como pressup\u00f5e, sem dizer, uma <em>teoria do estado<\/em><a href=\"#_edn3\" name=\"_ednref3\">[3]<\/a> sem uma <em>teoria do direito<a href=\"#_edn4\" name=\"_ednref4\"><strong>[4]<\/strong><\/a><\/em> \u2013 problema t\u00edpico de quem parte de uma teologia calvinista e adere ao liberalismo econ\u00f4mico sem reservas. No entanto, para n\u00e3o estender demais este texto, vou me deter aos quatro primeiros problemas, que considero mais importantes. Vale destacar, ainda, que h\u00e1 pontos nos dois textos de Franklin com os quais tenho plena concord\u00e2ncia. Dentre eles, subscrevo as palavras do autor de que \u201co autoritarismo e o totalitarismo precisam ser resistidos pelos crist\u00e3os, por todos os meios leg\u00edtimos\u201d. Tamb\u00e9m concordo que \u00e9 \u201cincompat\u00edvel algu\u00e9m declarar que adora a Deus como o Senhor (&#8230;) e tornar-se servil a um Estado in\u00edquo\u201d, o que implica tornar-se \u201co lacaio sagrado do governo\u201d. A \u00fanica quest\u00e3o que levanto aqui \u00e9, obviamente, o que torna um (ou todo) <em>Estado <\/em>in\u00edquo. Ao abra\u00e7ar o modelo de estado sacralizado pelo liberalismo econ\u00f4mico, o autor pode estar cometendo o mesmo erro que v\u00e1rios marxistas cometeram ao longo da hist\u00f3ria: perder a capacidade de identificar o <em>mal<\/em><a href=\"#_edn5\" name=\"_ednref5\">[5]<\/a>.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>\u00c9 curioso o uso que o autor<a href=\"#_edn6\" name=\"_ednref6\">[6]<\/a> faz aqui da rela\u00e7\u00e3o entre a \u201cfidelidade religiosa\u201d ao Estado e o pecado da <em>idolatria<\/em>, como sendo caracter\u00edstica exclusiva de regimes totalit\u00e1rios. Digo isso porque a acusa\u00e7\u00e3o de <em>idolatria<\/em>, no contexto moderno, me parece ter ficado mais conhecida quando disposta no sentido contr\u00e1rio: \u00e9 justamente o pensamento marxista<a href=\"#_edn7\" name=\"_ednref7\">[7]<\/a> que levanta a acusa\u00e7\u00e3o de <em>idolatria<\/em> contra as explica\u00e7\u00f5es (i)l\u00f3gicas (ou <em>ideol\u00f3gicas<\/em>) do livre mercado, baseadas no <em>valor m\u00e1gico<\/em> que toda mercadoria adquire, ao se apropriar do valor do trabalho que \u00e9 nela embutido. No entanto, me parece que tanto Franklin, quanto o pensamento marxista ortodoxo, se afastam deste conceito \u2013 da mercadoria como \u00eddolo \u2013 e localizam o problema n\u00e3o na <em>realidade<\/em> da idolatria mas, sim, no plano <em>ideol\u00f3gico<\/em><a href=\"#_edn8\" name=\"_ednref8\">[8]<\/a> que derivaria dela.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>Partindo dessa leitura, o autor acaba inevitavelmente incorrendo em outros erros. Um deles \u00e9 sustentar a ideia de que apenas os regimes totalit\u00e1rios requerem \u201co homem inteiro\u201d<a href=\"#_edn9\" name=\"_ednref9\">[9]<\/a> para si e, portanto, seriam incompat\u00edveis com a f\u00e9 crist\u00e3. Ao tomar esse rumo, Franklin esquece que o capitalismo e o liberalismo econ\u00f4mico tamb\u00e9m imp\u00f5em seus <em>mitos<\/em> ao ser humano e, em troca, requerem sua <em>f\u00e9<\/em> \u2013 ou sua alma: o principal destes \u00eddolos \u00e9 o dinheiro; no amor a ele, est\u00e1 a \u201ca raiz de todos os males\u201d (I Tim\u00f3teo 6:8-10). No dinheiro, e no seu simb\u00f3lico lastro, estaria embutido, personificado, n\u00e3o apenas o valor de troca imagin\u00e1rio da mercadoria, mas tamb\u00e9m a encarna\u00e7\u00e3o direta do trabalho humano, um <em>valor encarnado<\/em><a href=\"#_edn10\" name=\"_ednref10\">[10]<\/a>.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>O fetichismo da mercadoria, ent\u00e3o, \u00e9 um tipo de \u201cesquecimento duplo\u201d: primeiro, \u201co capitalista esquece que foi ele, e sua tribo, quem transformou a vida e o valor em mercadoria, em um ritual de troca\u201d. Depois, para que esse tipo de feiti\u00e7aria funcione, \u00e9 necess\u00e1rio que sua exist\u00eancia seja negada, e depois de esquecida: a m\u00e1gica mais profunda da <em>idolatria da mercadoria<\/em> \u00e9 a nega\u00e7\u00e3o de que ela funciona por feiti\u00e7o.<a href=\"#_edn11\" name=\"_ednref11\">[11]<\/a> Segundo a cr\u00edtica da cr\u00edtica marxista, expressa por exemplo na obra de W.J.T. Mitchell, o moderno crist\u00e3o iconoclasta, entregue ao liberalismo econ\u00f4mico, \u00e9 exatamente um <em>id\u00f3latra<\/em>: Adam Smith n\u00e3o \u00e9 apenas seu Mois\u00e9s, mas tamb\u00e9m seu Lutero; e a idolatria da mercadoria a qual est\u00e1 entregue \u00e9 um \u201cmonote\u00edsmo iconoclasta capaz de destruir todos os outros deuses\u201d<a href=\"#_edn12\" name=\"_ednref12\">[12]<\/a>, menos um: <em>Mamon<\/em>, seu \u00eddolo, para quem \u201cele reza n\u00e3o apenas com seus l\u00e1bios, mas com toda a for\u00e7a do seu corpo e de sua alma\u201d<a href=\"#_edn13\" name=\"_ednref13\">[13]<\/a>.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>Por\u00e9m,\u00a0a <em>idolatria da mercadoria<\/em> n\u00e3o \u00e9 o \u00fanico mito que o liberalismo econ\u00f4mico propaga. Para quem j\u00e1 estudou as teorias liberais cl\u00e1ssicas, \u00e9 comum encontrar nelas o que se denomina \u201cexplica\u00e7\u00f5es do tipo <em>m\u00e3o-invis\u00edvel<\/em>\u201d<a href=\"#_edn14\" name=\"_ednref14\">[14]<\/a>: ideias as quais os autores atribuem uma capacidade fundante, mas que n\u00e3o podem ser, de fato, provadas ou mesmo explicadas convincentemente, precisando ser aceitas como premissas. Sem <em>f\u00e9<\/em> nesses mitos liberais; sem o duplo esquecimento m\u00e1gico da idolatria da mercadoria; sem dobrar o joelho diante de <em>Mamon<\/em>, o liberalismo econ\u00f4mico \u00e9 incapaz de funcionar \u2013 basta observar, na pr\u00e1tica, seus resultados econ\u00f4micos nos pa\u00edses para os quais o liberalismo econ\u00f4mico foi exportado \u00e0 for\u00e7a, sob dom\u00ednio colonial.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>J\u00e1 o segundo problema com esta tese de Franklin Ferreira, \u00e9 resultado da empreitada hist\u00f3rica for\u00e7osa do autor, para redefinir os conceitos de <em>esquerda e direita<\/em>, igualando todos os seus opositores no primeiro lado do embate pol\u00edtico \u2013 para compreender esta estrat\u00e9gia, veja o primeiro post nesta s\u00e9rie, dispon\u00edvel <a href=\"http:\/\/ultimato.com.br\/sites\/dignidade\/2015\/03\/04\/a-idolatria-dode-mercado-contra-a-teologia-politica-neoliberal\/\">aqui<\/a>. Franklin tenta demonstrar que haveria uma identidade <em>ideol\u00f3gica<\/em> entre os ide\u00e1rios socialistas, comunistas, fascistas e nazistas. Este argumento, reproduzido em v\u00e1rios espa\u00e7os na internet, tem sido amplamente divulgado pela <em>direita (neo)conservadora<\/em> e <em>neoliberal<\/em> brasileira, provavelmente para se livrar da pecha de totalit\u00e1ria. O grave equ\u00edvoco dessa posi\u00e7\u00e3o \u00e9 que ela n\u00e3o resiste e uma m\u00ednima visita a fontes prim\u00e1rias \u2013 como demostrarei a seguir.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>Antes, uma ressalva: o fato de que as diferen\u00e7as entre as posi\u00e7\u00f5es pol\u00edticas acima citadas seja significativa, n\u00e3o quer dizer que durante o s\u00e9culo XX n\u00e3o tenham existido pessoas que circularam entre uma posi\u00e7\u00e3o e outra: h\u00e1 v\u00e1rios casos de pessoas que trocaram de lado no espectro pol\u00edtico, deixando o <em>liberalismo<\/em> e o <em>conservadorismo crist\u00e3o<\/em> pelo <em>nazismo<\/em> (caso de Carl Schmidt<a href=\"#_edn15\" name=\"_ednref15\">[15]<\/a>); ou <em>integralistas<\/em> e <em>fascistas<\/em> que viraram <em>comunistas<\/em> ou <em>socialistas<\/em> (casos de D. Helder C\u00e2mara<a href=\"#_edn16\" name=\"_ednref16\">[16]<\/a> e Abdias do Nascimento<a href=\"#_edn17\" name=\"_ednref17\">[17]<\/a>); e mesmo <em>comunistas<\/em> que viraram fascistas ou liberais (como \u00e9 o caso no Brasil do General Golbery do Couto Silva<a href=\"#_edn18\" name=\"_ednref18\">[18]<\/a>), exemplarmente, o pr\u00f3prio Benito Mussolini. Esse \u00faltimo, no entanto, \u00e9 paradigm\u00e1tico para a diferencia\u00e7\u00e3o da posi\u00e7\u00e3o <em>socialista<\/em> daquilo que se denominou posteriormente de <em>Doutrina do fascismo<\/em>. Nas palavras do seu fundador:<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p style=\"padding-left: 60px;\">\u201c<em>Quando, no agora distante Mar\u00e7o de 1919, eu convoquei uma reuni\u00e3o em Mil\u00e3o (&#8230;), eu n\u00e3o tinha nenhuma posi\u00e7\u00e3o doutrinaria em minha mente. Eu tinha vivido a experi\u00eancia de apenas uma doutrina \u2013 aquela do socialismo, desde 1903 at\u00e9 o inverno de 1914, ou seja, por uma d\u00e9cada. Mas mesmo tendo tomado partido no movimento, primeiro nas bases e fileiras, depois como l\u00edder, <span style=\"text-decoration: underline;\">eu n\u00e3o tinha nenhuma experi\u00eancia da doutrina Socialista na pr\u00e1tica. Minha pr\u00f3pria doutrina, mesmo neste per\u00edodo, sempre foi uma doutrina da a\u00e7\u00e3o. (&#8230;) Depois da Guerra, em 1919, o Socialismo j\u00e1 era uma doutrina morta. (&#8230;) O Fascismo n\u00e3o era o cultivo de uma doutrina trabalhada previamente com elabora\u00e7\u00e3o detalhada; ele nascia da necessidade de a\u00e7\u00e3o e foi desde o princ\u00edpio muito mais pr\u00e1tico do que te\u00f3rico<\/span>; n\u00e3o era meramente outro partido pol\u00edtico mas, mesmo nos seus dois primeiros anos, se opunha a todos os partidos pol\u00edticos como tais e era em si um movimento vivo. (&#8230;) Agora, n\u00e3o \u00e9 algo singular que mesmo naquele dia na Piazza San Sepolcro a palavra \u201ccorporativismo\u201d tenha surgido e que, depois, no curso da Revolu\u00e7\u00e3o, tenha se tornado a express\u00e3o criativa da legisla\u00e7\u00e3o social e funda\u00e7\u00e3o do pr\u00f3prio regime<\/em>?\u201d<a href=\"#_edn19\" name=\"_ednref19\">[19]<\/a> (<em>grifo do autor<\/em>)<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>Uma vez que a maior express\u00e3o doutrin\u00e1ria do Fascismo, o <em>fascismo italiano<\/em>, nega sua rela\u00e7\u00e3o com o socialismo, nos resta, apenas para dar seguimento a argumenta\u00e7\u00e3o, observar se pode haver alguma rela\u00e7\u00e3o te\u00f3rica entre o socialismo e o Nacional Socialismo \u2013 ou <em>nazismo<\/em>. Hoje h\u00e1 dentre os historiadores quem diga, baseado em declara\u00e7\u00f5es supostamente privadas de Hitler a testemunhas de sua confian\u00e7a, que este acreditava que o <em>Nacional Socialismo<\/em> era uma forma superior de socialismo \u2013 diferente, por exemplo, do que ele chamava de \u201cSocialismo Judeu Bolchevique\u201d<a href=\"#_edn20\" name=\"_ednref20\">[20]<\/a>. Essa vis\u00e3o, no entanto, \u00e9 fortemente desacreditada pela maioria dos historiadores do per\u00edodo<a href=\"#_edn21\" name=\"_ednref21\">[21]<\/a>. Entretanto, ainda que assum\u00edssemos a primeira posi\u00e7\u00e3o, revisionista, isso n\u00e3o prova, por si s\u00f3, que h\u00e1 uma converg\u00eancia te\u00f3rica entre as duas coisas.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>Afinal, no contexto em que os nazistas se afirmavam detentores dos ideais <em>socialistas<\/em> (e, pasme, por vezes tamb\u00e9m dos valores <em>crist\u00e3os<\/em>!), outros grupos tamb\u00e9m reivindicavam o mesmo direito. Neste sentido, \u00e9 muito interessante observar a posi\u00e7\u00e3o do l\u00edder <em>social democrata<\/em> Otto Wels, quando se posiciona contr\u00e1rio a aprova\u00e7\u00e3o, pelo parlamento Alem\u00e3o, da legisla\u00e7\u00e3o de exce\u00e7\u00e3o que, finalmente, entregaria aquele pa\u00eds aos nazistas. Segundo Wels, a \u00fanica rela\u00e7\u00e3o entre a revolu\u00e7\u00e3o promovida pelo partido Nacional Socialista e o <em>socialismo<\/em>, \u00e9 que \u201cambos tentaram destruir o movimento social democrata que, por mais de duas gera\u00e7\u00f5es, tem sido o verdadeiro guardi\u00e3o das ideias socialistas, e assim permanecer\u00e1\u201d.<a href=\"#_edn22\" name=\"_ednref22\">[22]<\/a> E nada mais.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>Al\u00e9m de insistir no uso inadequado, portanto, dos termos <em>socialismo<\/em> e <em>fascismo<\/em> como sin\u00f4nimos, Franklin comete tamb\u00e9m outro equivoco curioso nesta tese: utiliza Karl Barth, o famoso te\u00f3logo su\u00ed\u00e7o que se op\u00f4s ao nazismo, e foi redator da Declara\u00e7\u00e3o Teol\u00f3gica de Barmen<a href=\"#_edn23\" name=\"_ednref23\">[23]<\/a> \u2013 um texto absolutamente cr\u00edtico aos crist\u00e3os que aderiram ao regime nazista (ou <em>nacional-socialista<\/em>) \u2013, como opositor de qualquer doutrina socialista. Ao contr\u00e1rio disso, Barth pode ser descrito, desde sua juventude, como algu\u00e9m que \u201cj\u00e1 criticava o militarismo alem\u00e3o, e fazia isso de dentro da tradi\u00e7\u00e3o <em>socialista e democr\u00e1tica<\/em> Su\u00ed\u00e7a, citando os reformadores Su\u00ed\u00e7os como precursores deste tipo de entendimento [pol\u00edtico-teol\u00f3gico]\u201d<a href=\"#_edn24\" name=\"_ednref24\">[24]<\/a>. E, tamb\u00e9m na contram\u00e3o do retrato que Franklin tenta tra\u00e7ar de Barth, sua teologia protestante demonstra, desde seus primeiros escritos, uma \u201cestreita conex\u00e3o com o tema do socialismo\u201d, onde se encontra tamb\u00e9m a \u201cfunda\u00e7\u00e3o da pr\u00f3pria cr\u00edtica de Barth a identidade nacional\u201d<a href=\"#_edn25\" name=\"_ednref25\">[25]<\/a>, e \u00e0 subservi\u00eancia da Igreja ao Estado.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>Diferente da barulhenta oposi\u00e7\u00e3o de Franklin ao <em>socialismo<\/em>, que acompanha sua clara e inequ\u00edvoca ades\u00e3o a <em>ideologia do liberalismo econ\u00f4mico<\/em>, Barth mantinha sua oposi\u00e7\u00e3o aos dois sistemas pol\u00edticos econ\u00f4micos vigentes ap\u00f3s a Segunda Guerra Mundial e, especialmente, a pol\u00edtica internacional dos Estados Unidos da Am\u00e9rica (EUA) que incendiava a Guerra Fria, e que ele classificava de irrespons\u00e1vel. Em sua correspond\u00eancia sincera sobre o tema, endere\u00e7ada a um pastor na Alemanha Oriental, e publicada anos depois, ele dispara:<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p style=\"padding-left: 60px;\">\u201c<em>Como eu poderia escrever [esta carta] a voc\u00ea, sem revelar que eu desaprovo da mesma maneira o esp\u00edrito, as palavras, os m\u00e9todos, e as pr\u00e1ticas tanto do sistema no qual voc\u00ea vive; quanto os poderes e dom\u00ednios que nos governam aqui, no Ocidente<\/em>?\u201d<a href=\"#_edn26\" name=\"_ednref26\">[26]<\/a><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<div id=\"attachment_311\" style=\"width: 211px\" class=\"wp-caption aligncenter\"><a href=\"http:\/\/ultimato.com.br\/sites\/dignidade\/files\/2015\/03\/Thorvaldsen_Christus.jpg\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" aria-describedby=\"caption-attachment-311\" class=\"wp-image-311 size-medium\" src=\"http:\/\/ultimato.com.br\/sites\/dignidade\/files\/2015\/03\/Thorvaldsen_Christus-201x300.jpg\" alt=\"O Cristo de Thorvaldsen\" width=\"201\" height=\"300\" srcset=\"https:\/\/ultimato.com.br\/sites\/dignidade\/files\/2015\/03\/Thorvaldsen_Christus-201x300.jpg 201w, https:\/\/ultimato.com.br\/sites\/dignidade\/files\/2015\/03\/Thorvaldsen_Christus-100x150.jpg 100w, https:\/\/ultimato.com.br\/sites\/dignidade\/files\/2015\/03\/Thorvaldsen_Christus.jpg 649w\" sizes=\"auto, (max-width: 201px) 100vw, 201px\" \/><\/a><p id=\"caption-attachment-311\" class=\"wp-caption-text\">O Cristo de Thorvaldsen<\/p><\/div>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>No mesmo sentido, Barth prossegue demonstrando ao seu interlocutor na Alemanha Oriental \u2013 portanto, sob um regime <em>comunista<\/em> e <em>totalit\u00e1rio<\/em>, ligado diretamente a extinta Uni\u00e3o das Republicas Socialistas Sovi\u00e9ticas (URSS) \u2013 que seria um erro considerar que apenas ao lado leste da Cortina de Ferro haveria uma \u201crepresenta\u00e7\u00e3o \u00fanica e encarnada\u201d<a href=\"#_edn27\" name=\"_ednref27\">[27]<\/a> do <em>Anticristo<\/em>. Este argumento me parece um dos mais interessantes do autor. Para Barth, \u00e9 um erro dos crist\u00e3os acreditar que o opositor de Cristo se manifestaria como um regime pol\u00edtico ou Estado opressor, totalit\u00e1rio \u2013 um erro por demais comum na hist\u00f3ria da Igreja. Para ele, o Anticristo se revelaria como algo muito mais sedutor para a igreja; algo t\u00e3o sedutor e protetor dela, que poderia ser confundido com a mais bem elaborada representa\u00e7\u00e3o do pr\u00f3prio Cristo<a href=\"#_edn28\" name=\"_ednref28\">[28]<\/a>. Nesse sentido, tanto as ideologias marxistas, quanto o <em>liberalismo econ\u00f4mico<\/em>, poderiam cumprir o mesmo papel. No texto, Barth faz men\u00e7\u00e3o aos \u201cpoderes do ocidente\u201d, ou do \u201cOeste\u201d, para se referir aos EUA; e aos poderes do \u201cOriente\u201d, ou do \u201cLeste\u201d, para se referir a URSS. Barth termina, inclusive, sugerindo que o totalitarismo declarado da URSS teria paralelos no <em>totalitarismo silencioso<\/em> dos EUA<a href=\"#_edn29\" name=\"_ednref29\">[29]<\/a>. Transcrevo na \u00edntegra este trecho de Karl Barth:<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p style=\"padding-left: 60px;\">&#8220;<em>Voc\u00ea provavelmente sabe que as pessoas no s\u00e9culo XVI falavam dos Turcos e do Papa como um Anticristo oriental e um ocidental. Eu prefiro n\u00e3o utilizar esse termo, nem para me referir aos poderes do Leste, nem aos poderes do Oeste. Nem a Hitler, no seu tempo, eu me referi dessa maneira. Eu entendo que o \u201canticristo\u201d ser\u00e1 mais inspirador e mais convidativo, porque mais amig\u00e1vel e mais convincente no seu car\u00e1ter do que o Papa ou os Turcos do s\u00e9culo XVI, ou o maldito Hitler, ou os dois antagonistas contempor\u00e2neos. <span style=\"text-decoration: underline;\">O verdadeiro anticristo ser\u00e1 muito mais dif\u00edcil de se distinguir de Cristo do que qualquer um desses; de fato, ele ser\u00e1 um tipo de figura de Cristo. Quem sabe, talvez de alguma maneira nos lembre uma humilde e gentil representa\u00e7\u00e3o de Cristo como aquela do Thorwaldsen<\/span>. (&#8230;) Eu trago a mem\u00f3ria esses antigos antagonistas porque uma coisa \u00e9 certa: n\u00e3o \u00e9 poss\u00edvel interpretar o comportamento particular e as atividades dos poderes contempor\u00e2neos do Leste no pa\u00eds onde voc\u00ea vive como representando a \u00fanica e certa personifica\u00e7\u00e3o do incans\u00e1vel advers\u00e1rio da Cristandade. Os poderes atuais do Oeste tem pelo menos um ponto em comum com os do Leste, porque eles tamb\u00e9m, da sua maneira, tentam dissuadir a Igreja Crist\u00e3 de ser a Igreja. Fazem isso quando tentam silenciar a corajosa e ressonante proclama\u00e7\u00e3o [do evangelho], t\u00e3o estranha e perturbadora ao mundo, de que o Reino de Deus est\u00e1 pr\u00f3ximo de n\u00f3s e que ser\u00e1 finalmente revelado a todo o mundo, e que Seu Reino ser\u00e1 supremo e vitorioso sobre todas as formas de vida econ\u00f4micas, pol\u00edticas, ideol\u00f3gicas, culturais e mesmo religiosas. (&#8230;) <span style=\"text-decoration: underline;\">Um esp\u00edrito antagonista, e seu poder, trabalham poderosamente contra este testemunho n\u00e3o apenas no Leste, mas tamb\u00e9m no Oeste; n\u00e3o apenas no declarado totalitarismo no qual voc\u00ea vive, mas tamb\u00e9m no totalitarismo silencioso no qual n\u00f3s vivemos<\/span><\/em>&#8220;.<a href=\"#_edn30\" name=\"_ednref30\">[30]<\/a> (<em>grifo do autor<\/em>)<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>A leitura (ideologicamente) enviesada de Karl Barth, ent\u00e3o, consiste no terceiro problema que apontamos aqui com a <em>segunda tese<\/em> teol\u00f3gico-pol\u00edtica de Franklin Ferreira. Para Barth, apesar das semelhan\u00e7as entre os totalitarismos do Leste e do Oeste; e das pr\u00e1ticas imperialistas dos dois antagonistas da \u00e9poca em que escreve esta carta \u2013 os EUA e a URSS; haveria, ainda assim, do ponto de vista ideol\u00f3gico, uma diferen\u00e7a qualitativa consider\u00e1vel entre os ideais daquilo que poder\u00edamos dividir como <em>direita<\/em> e <em>esquerda<\/em>, liberalismo econ\u00f4mico e fascismo de um lado; e socialismo e comunismo, do outro. O te\u00f3logo declara, nesse sentido, que \u201cat\u00e9 certo ponto o estado comunista pode ser interpretado ou compreendido como uma imagem da gra\u00e7a\u201d \u2013 certamente, uma imagem \u201cgrosseiramente distorcida e obscurecida\u201d, ele completa. Isso porque \u201ca gra\u00e7a \u00e9 completa, totalit\u00e1ria\u201d, por\u00e9m, \u201c\u00e9 gra\u00e7a totalit\u00e1ria como uma a\u00e7\u00e3o livre e libertadora, e n\u00e3o como direito[ou lei]\u201d<a href=\"#_edn31\" name=\"_ednref31\">[31]<\/a>.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>Contudo, o argumento de Franklin \u00e9 mais elaborado do que isso e, para sobreviver a contradi\u00e7\u00e3o doutrin\u00e1ria entre socialismo e fascismo; e a sua leitura equivocada da teologia de Karl Barth; passa, tamb\u00e9m, pelo uso do termo \u201cprogressista\u201d pelos <em>crist\u00e3os de esquerda no Brasil<\/em>. Segundo Franklin, o termo teria sido utilizado da mesma maneira tanto por socialistas e comunistas, como tamb\u00e9m por nazistas e fascistas, o que provaria, historicamente, a afinidade entre estes grupos. E aqui est\u00e1 o quarto problema da <em>segunda tese<\/em> pol\u00edtica de Franklin. A confus\u00e3o que Franklin faz, no entanto, \u00e9 novamente compreens\u00edvel nesse caso: assim como os termos <em>liberal<\/em> e <em>liberalismo econ\u00f4mico<\/em>, em ingl\u00eas, s\u00e3o frequentemente associados a sentidos pol\u00edticos divergentes \u2013 como ocorrem nas disputas pol\u00edticas internas dos partidos Republicano e Democrata nos EUA, onde \u201cliberal democracy\u201d (<em>posi\u00e7\u00e3o de esquerda<\/em>) e \u201ceconomic liberalism\u201d (<em>posi\u00e7\u00e3o de direita<\/em>), figuram em polos opostos, por exemplo \u2013 o mesmo acontece com a ideia de <em>progresso<\/em>.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>Cunhada com este sentido durante e ao final do Iluminismo e da Revolu\u00e7\u00e3o Industrial, a ideia de <em>Progresso<\/em> percorre boa parte do pensamento pol\u00edtico do s\u00e9culo XIX, e se cristaliza nos movimentos <em>Positivistas<\/em> do in\u00edcio do s\u00e9culo XX. Assim, os ideais positivistas, e a ideia de progresso \u2013 frequentemente concebida dentro de uma l\u00f3gica de <em>evolu\u00e7\u00e3o social<\/em>, mas tamb\u00e9m associada a no\u00e7\u00f5es de <em>desenvolvimento<\/em>, <em>civiliza\u00e7\u00e3o<\/em> e <em>colonialismo<\/em> \u2013, influenciam quase todas as posi\u00e7\u00f5es pol\u00edticas dispon\u00edveis no per\u00edodo mencionado. De maneira alguma pode se dizer que o termo \u201cprogressista\u201d tenha sido utilizado apenas pelos sujeitos hist\u00f3ricos descritos por Franklin: socialistas, nazistas, comunistas e fascistas. A ideia de progresso tem muito mais capilaridade do que isso e foi utilizada tamb\u00e9m no contexto dos EUA \u2013 onde, de certa maneira, \u201c<em>progressist<\/em>\u201d<a href=\"#_edn32\" name=\"_ednref32\">[32]<\/a> se opunha a \u201c<em>liberal<\/em>\u201d \u2013 mas tamb\u00e9m no Brasil, onde unia no mesmo escopo tanto pol\u00edticos <em>liberais<\/em> quanto <em>positivistas<\/em> \u2013 excluindo dessa equa\u00e7\u00e3o, talvez, apenas os conservadores, monarquistas e escravocratas<a href=\"#_edn33\" name=\"_ednref33\">[33]<\/a> do per\u00edodo.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<div id=\"attachment_312\" style=\"width: 620px\" class=\"wp-caption aligncenter\"><a href=\"http:\/\/ultimato.com.br\/sites\/dignidade\/files\/2015\/03\/The_Bosses_of_the_Senate_by_Joseph_Keppler1.jpg\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" aria-describedby=\"caption-attachment-312\" class=\"wp-image-312 size-full\" src=\"http:\/\/ultimato.com.br\/sites\/dignidade\/files\/2015\/03\/The_Bosses_of_the_Senate_by_Joseph_Keppler1.jpg\" alt=\"&quot;The Bosses of the Senate&quot; (Os donos do Senado), charge de Joseph Keppler, publicada em 1889.\" width=\"610\" height=\"397\" srcset=\"https:\/\/ultimato.com.br\/sites\/dignidade\/files\/2015\/03\/The_Bosses_of_the_Senate_by_Joseph_Keppler1.jpg 610w, https:\/\/ultimato.com.br\/sites\/dignidade\/files\/2015\/03\/The_Bosses_of_the_Senate_by_Joseph_Keppler1-300x195.jpg 300w, https:\/\/ultimato.com.br\/sites\/dignidade\/files\/2015\/03\/The_Bosses_of_the_Senate_by_Joseph_Keppler1-150x97.jpg 150w\" sizes=\"auto, (max-width: 610px) 100vw, 610px\" \/><\/a><p id=\"caption-attachment-312\" class=\"wp-caption-text\">&#8220;The Bosses of the Senate&#8221; (Os donos do Senado), charge de Joseph Keppler, publicada em 1889, representando o lobby &#8220;progressista&#8221; industrial nos EUA. As galerias, ao fundo, estavam fechadas para o povo.<\/p><\/div>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>Entretanto, \u00e9 preciso deixar claro que, de minha parte, concordo parcialmente com a cr\u00edtica de Franklin ao uso do termo <em>progressista<\/em> \u2013 ressalvada sua atribui\u00e7\u00e3o hist\u00f3rica equivocada aos grupos que o utilizaram \u2013 pelos problemas que tr\u00e1s. Mas \u00e9 exatamente nesse ponto que Franklin erra o alvo: enquanto o autor se preocupa em destituir de um lugar ao sol as ideologias \u201cid\u00f3latras\u201d e \u201ctotalit\u00e1rias\u201d do <em>socialismo<\/em> que poderiam adentrar as portas da igreja crist\u00e3; enquanto volta sua <em>teologia pol\u00edtica<\/em> para combater quem acredita serem os grandes inimigo da f\u00e9 crist\u00e3 \u2013 os Estados comunistas de Cuba, Cor\u00e9ia do Norte, etc<a href=\"#_edn34\" name=\"_ednref34\">[34]<\/a>; erra o alvo e perde o foco daquilo que talvez seja a mais tenebrosa consequ\u00eancia do <em>liberalismo econ\u00f4mico<\/em> na atualidade: o modo de produ\u00e7\u00e3o <em>capitalista-cognitivo<\/em><a href=\"#_edn35\" name=\"_ednref35\">[35]<\/a> e a f\u00e9 consumista no progresso t\u00e9cnico-econ\u00f4mico que se associa a ele \u2013 a <em>T\u00e9cnica<\/em> (ou a tecnologia)<a href=\"#_edn36\" name=\"_ednref36\">[36]<\/a>.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>A formula\u00e7\u00e3o que considero mais impressionante e convincente do fen\u00f4meno \u00e9 aquela desenvolvida na obra do soci\u00f3logo e te\u00f3logo neo-ortodoxo <em>Jacques Ellul<\/em><a href=\"#_edn37\" name=\"_ednref37\">[37]<\/a>. Segundo ele, a no\u00e7\u00e3o de <em>t\u00e9cnica<\/em> no s\u00e9culo XX, equivaleria ao que Marx denominou de <em>capital<\/em>, para o s\u00e9culo XIX; se em Marx o capital \u00e9 \u201cpoder social\u201d, atrav\u00e9s do qual os detentores dos meios de produ\u00e7\u00e3o (a burguesia liberal) organizam o estado, escravizam os trabalhadores<a href=\"#_edn38\" name=\"_ednref38\">[38]<\/a> e se tornam a elite da sociedade; a <em>t\u00e9cnica<\/em>, para Ellul, \u00e9 o fator organizador de toda a exist\u00eancia humana, capaz de determinar as pr\u00f3prias prerrogativas e valores<a href=\"#_edn39\" name=\"_ednref39\">[39]<\/a> com os quais a ci\u00eancia, o estado, e a sociedade explicar\u00e3o a realidade e ser\u00e3o, por sua vez, explicados; \u00e9 no dom\u00ednio da t\u00e9cnica que a <em>utilidade<\/em> e o <em>princ\u00edpio do utilitarismo<\/em> liberal ter\u00e3o sua express\u00e3o maior, onde racionalidade e racionalismo substituir\u00e3o, por fim, a pr\u00f3pria ideia de Raz\u00e3o; a <em>t\u00e9cnica<\/em> e sua filha, a tecnologia, seriam, em resumo, a <em>express\u00e3o m\u00e1xima da adora\u00e7\u00e3o do homem pela obra de suas m\u00e3os<\/em>.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>Curiosamente, o <em>socialismo <\/em>\u00e9 o \u00fanico dos termos discutidos acima por Franklin, e tamb\u00e9m por mim, cujas origens n\u00e3o est\u00e3o no s\u00e9culo XIX \u2013 se descartadas as leituras doutrin\u00e1rias e positivistas de sua formula\u00e7\u00e3o na \u00e9poca, tanto crist\u00e3s quanto cient\u00edfica. <em>Socialismo<\/em> talvez seja a \u00fanica dessas concep\u00e7\u00f5es que remonta a ideias mais antigas do que o progresso t\u00e9cnico, cujas origens est\u00e3o no pr\u00f3prio <em>Cristianismo<\/em><a href=\"#_edn40\" name=\"_ednref40\">[40]<\/a>. A esquerda crist\u00e3 que Franklin rejeita \u00e9 radicalmente democr\u00e1tica, socialista e\/ou anarquista e, \u00e9 bom lembrar tamb\u00e9m, esteve entre aqueles que primeiro denunciaram o totalitarismo em sua formula\u00e7\u00f5es nazista, fascista e estalinista<a href=\"#_edn41\" name=\"_ednref41\">[41]<\/a>.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>A idolatria do dinheiro, ou o fetichismo da mercadoria, est\u00e1 em depositar nossa f\u00e9 no dinheiro, no <em>vil metal<\/em>, na moeda. Em decorr\u00eancia dessa f\u00e9 nos mitos do liberalismo econ\u00f4mico, o dinheiro faz conosco aquilo que os \u00eddolos fazem com os que se ajoelham diante deles: roubam-lhes a vida. Ao curvar nosso joelho diante dos mitos e deuses do liberalismo econ\u00f4mico, sofremos um <em>efeito meduza<\/em>, e trocamos de lugar com eles; n\u00f3s nos tornamos a imagem, o \u00eddolo, a est\u00e1tua; e os \u00eddolos e imagens, ao roubar nossa alma, adquirem vida. O dinheiro faz isso, rouba a vida de quem nele cr\u00ea e deposita nele suas esperan\u00e7as. Mas h\u00e1 quem negue esse princ\u00edpio b\u00e1sico da f\u00e9 crist\u00e3, incentivando o ego\u00edsmo, o individualismo e o ac\u00famulo de riquezas.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<div id=\"attachment_325\" style=\"width: 322px\" class=\"wp-caption alignleft\"><a href=\"http:\/\/ultimato.com.br\/sites\/dignidade\/files\/2015\/03\/Joachim_Wtewael_-_The_Tribute_Money_-_WGA25913.jpg\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" aria-describedby=\"caption-attachment-325\" class=\"wp-image-325 \" src=\"http:\/\/ultimato.com.br\/sites\/dignidade\/files\/2015\/03\/Joachim_Wtewael_-_The_Tribute_Money_-_WGA25913-300x195.jpg\" alt=\"Joachim_Wtewael_-_The_Tribute_Money_-_WGA25913\" width=\"312\" height=\"203\" srcset=\"https:\/\/ultimato.com.br\/sites\/dignidade\/files\/2015\/03\/Joachim_Wtewael_-_The_Tribute_Money_-_WGA25913-300x195.jpg 300w, https:\/\/ultimato.com.br\/sites\/dignidade\/files\/2015\/03\/Joachim_Wtewael_-_The_Tribute_Money_-_WGA25913-150x97.jpg 150w, https:\/\/ultimato.com.br\/sites\/dignidade\/files\/2015\/03\/Joachim_Wtewael_-_The_Tribute_Money_-_WGA25913.jpg 920w\" sizes=\"auto, (max-width: 312px) 100vw, 312px\" \/><\/a><p id=\"caption-attachment-325\" class=\"wp-caption-text\">O dinheiro do Tributo (&#8220;The tribute money&#8221;), de Joachim Wttewaal, 1616<\/p><\/div>\n<p>Talvez a grande li\u00e7\u00e3o que devemos aprender com Jesus Cristo, neste tema, esteja em interpretar o texto b\u00edblico de <a href=\"https:\/\/www.bibliaonline.com.br\/acf\/mt\/22\"><em>Mateus 22:16-22<\/em><\/a> \u00e0 luz de outros textos que tratam da rela\u00e7\u00e3o com o dinheiro e as riquezas, como <em>Mateus <a href=\"https:\/\/www.bibliaonline.com.br\/acf\/mt\/6\">6: 19-34<\/a><\/em> e <a href=\"https:\/\/www.bibliaonline.com.br\/acf\/mt\/19\"><em>Mateus 19:16-30<\/em><\/a>. Quando Jesus responde aos disc\u00edpulos dos fariseus e aos herodianos com a famosa frase \u201cdai pois a C\u00e9sar o que \u00e9 de C\u00e9sar, e a Deus o que \u00e9 de Deus\u201d, talvez esteja ali a li\u00e7\u00e3o maior de que carece a <em>teologia pol\u00edtica<\/em> e a economia liberal moderna. Frequentemente este texto \u00e9 utilizado para falar da licitude (ou da obriga\u00e7\u00e3o) em pagar impostos \u00e0s autoridades; mas talvez nos ensine algo tamb\u00e9m sobre este debate. Jesus manda entregar o dinheiro a quem nele cr\u00ea, a quem o produz, a quem est\u00e1 estampado nele, e a quem ele pertence: os poderes deste mundo. Diz isso porque mais importante do que a lealdade <em>ideol\u00f3gica<\/em> a C\u00e9sar, que assumia uma forma divina, na \u00e9poca, \u00e9 a materialidade da ideologia, a realidade a qual ela corresponde \u2013 no nosso caso, a <em>idolatria (do)de mercado<\/em>. A ideologia \u00e9 menos importante do que a realidade que a criou, onde est\u00e1 o objeto concreto da idolatria. Por isso, Jesus nos ensina, antes: \u201cN\u00e3o ajunteis tesouros na terra, onde a tra\u00e7a e a ferrugem tudo consomem, e onde os ladr\u00f5es minam e roubam; Mas ajuntai tesouros no c\u00e9u\u201d.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>Por: Marcus Vinicius Matos*<\/p>\n<p>&#8212;&#8212;&#8212;&#8212;&#8212;&#8212;&#8212;&#8212;&#8212;&#8212;&#8212;&#8212;&#8212;<\/p>\n<p>*Marcus Vinicius Matos \u00e9 doutorando em Direito pelo\u00a0<em>Birkbeck College<\/em>, na Universidade de Londres, onde leciona Teoria do Direito (<em>Legal Theory II and II<\/em>) e Direito de Propriedade \u00a0(<em>Property Law I \u2013 Land law<\/em>). \u00c9 tamb\u00e9m l\u00edder do minist\u00e9rio estudantil na igreja\u00a0<em>All Souls<\/em>, em Londres.<\/p>\n<p><a href=\"#_ednref1\" name=\"_edn1\">[1]<\/a> Nessa s\u00e9rie de posts no blog <em>Dignidade!<\/em>, responderei a diversos argumentos de Franklin Ferreira que se encontram em 3 posts diferentes. A maioria dos argumentos, no entanto, se encontram nos seguintes posts: <em>\u201cEspectro pol\u00edtico, mentes cativas e idolatria\u201d, <\/em>dispon\u00edvel em: http:\/\/www.teologiabrasileira.com.br\/teologiadet.asp?codigo=381 ; E, com especial aten\u00e7\u00e3o tamb\u00e9m ao post \u201c<em>Totalitarismo, o culto do Estado e a liberdade do evangelho\u201d, <\/em>dispon\u00edvel em: http:\/\/www.teologiabrasileira.com.br\/teologiadet.asp?codigo=392<\/p>\n<p><a href=\"#_ednref2\" name=\"_edn2\">[2]<\/a> <em>Ideologia<\/em> \u00e9 uma das no\u00e7\u00f5es mais complexas utilizadas nas ci\u00eancias humanas e sociais para explicar a rela\u00e7\u00e3o entre ideias, compreens\u00f5es de mundo e posicionamentos pol\u00edticos. A raiz da palavra, no entanto, remonta aos debates sobre <em>idolatria<\/em>, como desenvolverei a seguir. Isso ocorre porque \u201ca no\u00e7\u00e3o de idolatria \u00e9 profundamente enraizada no conceito de imagem, e reabilita as disputas ancestrais da iconoclastia, da idolatria, e do fetichismo\u201d. Cf: W. J. T. Mitchell, <em>Iconology: image, text, ideology<\/em>. University of Chicago Press, 1987, p.11. Tradu\u00e7\u00e3o livre do autor. O termo \u00e9 geralmente utilizado exatamente para discutir marxismo e capitalismo como sistemas, mas sua origem \u00e9 muito anterior a esse debate, remontando as pr\u00f3prias no\u00e7\u00f5es de \u201cperspectiva\u201d, e \u201cparadigma\u201d: \u201c<em>It is therefore first necessary to state that although Marxism contributed a great deal to the original statement of the problem, both the word and its meaning go farther back in history than Marxism, and ever since its time new meanings of the word have emerged, which have taken shape independently of it<\/em>.\u201d &#8211; Karl Menheim, Ideology and Utopia, pp.49. No contexto crist\u00e3o reformado brasileiro, o conceito mais pr\u00f3ximo da no\u00e7\u00e3o de ideologia discutida aqui me parece ser a concep\u00e7\u00e3o de \u201ccosmovis\u00e3o\u201d. Um exemplo interessante de como imagem e palavras podem ser associadas a cosmovis\u00e3o (e tamb\u00e9m ideologia) me parece ser o trabalho do jornalista e blogueiro Allen Porto &#8211; <a href=\"https:\/\/allenporto.wordpress.com\/cosmovisao-arteimagem\/\">https:\/\/allenporto.wordpress.com\/cosmovisao-arteimagem\/<\/a><\/p>\n<p><a href=\"#_ednref3\" name=\"_edn3\">[3]<\/a> O problema com ideia de um <em>estado liberal<\/em> como delineada pelo autor \u00e9 que ela pressup\u00f5e, do ponto de vista crist\u00e3o, a cren\u00e7a num <em>direito natural<\/em> tamb\u00e9m \u201ccrist\u00e3o\u201d: \u201c<em>If we remain determinedly \u2018theocentric\u2019 in our interpretation of law, we must admit that we have to first know the meaning of human institutions, human justice, etc., with reference to God, and what place according to his revelation they occupy in God\u2019s design. Only then may we probe their value for man and his conduct with respect to them. The latter can only be a consequence of the former. The relationship between God and worldly institutions must have precedence over the possible relationship between\u00a0<\/em><em>these institutions and man (&#8230;) Accordingly, it proceeds on a radically different basis from the one generally adopted by the Christians eager to work out a foundation of natural law<\/em>\u201d. A consequ\u00eancia disso, segundo Ellul, seria que: \u201c<em>This theocentric idea is essentially different from what may be called theocratic systems. The latter are relatively simple: human law is the direct expression of the will of God. \u201cIt has the gods as authors\u201d, as Plato says. This idea is diametrically opposed to what God reveals to us. <\/em>Cf: Jacques Ellul, <em>The Theological Foundation of Law<\/em>, Seabury, 1969, pp. 10.<\/p>\n<p><a href=\"#_ednref4\" name=\"_edn4\">[4]<\/a> Ellul observa que a inexist\u00eancia \u2013 ou o fracasso \u2013 de uma teoria do direito calvinista devido ao problema do direito natural n\u00e3o ser resolvido por Calvino: \u201c<em>The same holds true for Calvin\u2019s theory of natural law. Influential as was his theory of the state, his theory of natural law remained a dead letter. The reason again is that this is a philosophical theory which has nothing to do with law. It is neither an explanation nor an interpretation of law, but an intellectual creation<\/em>\u201d. Cf: Jacques Ellul, <em>The Theological Foundation of Law<\/em>, 1969, pp. 19. A respeito de outros problemas contempor\u00e2neos do ensino de teoria do estado nos cursos de direito, ver: De Matos; Souza. <em>Teoria do Estado e Globaliza\u00e7\u00e3o: Pesquisa em movimento para a cr\u00edtica da dogm\u00e1tica<\/em>. Revista da Faculade de Direito da Universidade Federal de Uberl\u00e2ndia, v. 41, n. 1 (2013). Dispon\u00edvel em: <a href=\"http:\/\/www.seer.ufu.br\/index.php\/revistafadir\/article\/view\/18597\">http:\/\/www.seer.ufu.br\/index.php\/revistafadir\/article\/view\/18597<\/a><\/p>\n<p><a href=\"#_ednref5\" name=\"_edn5\">[5]<\/a> Esta id\u00e9ia \u00e9 de Terry Eagleton, para quem a teoria marxista em si, n\u00e3o possui uma \u00e9tica pr\u00f3pria, dissociada da \u00e9tica desenvolvida na sociedade Ocidental, sob influencia do pensamento crist\u00e3o. Ao perder contato com essa tradi\u00e7\u00e3o crist\u00e3 e sua \u00e9tica, o marxismo pode permitir as maiores atrocidades. O mesmo, no entanto, ocorre quando \u201chumanistas\u201d e \u201cliberais\u201d deixam de admitir a exist\u00eancia do mal, e sua estreita rela\u00e7\u00e3o com a independ\u00eancia humana de Deus e dessa \u00e9tica \u2013 a express\u00e3o maior disso seria o apego a no\u00e7\u00e3o de \u201cindiv\u00edduo\u201d. O perigo, segundo ele, \u00e9 que \u201cpodemos deixar escapar o Khmer Vermelho do mesmo gancho onde adolescentes deliquentes foram impalados\u201d. Cf. Eagleton, <em>On Evil<\/em>, 2007. Texto parcialmente dispon\u00edvel em: <a href=\"http:\/\/www.newstatesman.com\/ideas\/2010\/04\/evil-social-essay-human-case\">http:\/\/www.newstatesman.com\/ideas\/2010\/04\/evil-social-essay-human-case<\/a><\/p>\n<p><a href=\"#_ednref6\" name=\"_edn6\">[6]<\/a> Nas palavras exatas de Franklin, os \u201ccrist\u00e3os n\u00e3o dividem sua lealdade com um Estado\/partido\/governo que requer fidelidade religiosa, pois os crist\u00e3os sabem que tal lealdade \u00e9 idolatria\u201d.<\/p>\n<p><a href=\"#_ednref7\" name=\"_edn7\">[7]<\/a> Karl Marx, em sua obra <em>O Capital<\/em>, \u00e9 possivelmente o autor que formula esse argumento da idolatria a mercadoria, acusando exatamente o sistema capitalista de provoca-la. O autor usa o termo \u201cfetichismo da mercadoria\u201d, que equivaleria a formas mais primitivas do fen\u00f4meno, e menos as religi\u00f5es pag\u00e3s helen\u00edsticas que tamb\u00e9m foram classificadas pelos Crist\u00e3os como id\u00f3latras. No entanto, vou usar os dois temos, nesse texto, como sin\u00f4nimos. Cf: \u201c<em>A commodity is therefore a mysterious thing (&#8230;).There is a physical relation between physical things. But it is different with commodities. There, the existence of the things qua commodities, and the value-relation between the products of labour which stamps them as commodities, have absolutely no connexion with their physical properties and with the material relations arising therefrom. There it is a definite social relation between men, that assumes, in their eyes, the fantastic form of a relation between things. In order, therefore, to find an analogy, we must have recourse to the mist-enveloped regions of the religious world. In that world the productions of the human brain appear as independent beings endowed with life, and entering into relation both with one another and the human race. So it is in the world of commodities with the products of men&#8217;s hands. This I call the Fetishism which attaches itself to the products of labour, so soon as they are produced as commodities, and which is therefore inseparable from the production of commodities<\/em>.\u201d (Karl Marx, <em>Capital<\/em>, Volume 1, 1995, pp.35 &#8211; ebook)<\/p>\n<p><a href=\"#_ednref8\" name=\"_edn8\">[8]<\/a> Segundo Mitchell, a no\u00e7\u00e3o de \u201cideologia, ent\u00e3o, que historicamente surge como uma \u2018ci\u00eancia das id\u00e9ias\u2019 iconoclasta destinada a derrubar os \u2018idolos da mente\u2019, termina sendo caracterizada, ela pr\u00f3pria, como uma nova forma de idolatria \u2013 a ideolatria\u201d. O autor continua, explicando a origem do problema: \u201c<em>This characterization comes not only from English reactionaries like Burke and Coleridge, but from within the heart of the Revolution. Napoleon&#8217;s expulsion of the ideologues from the leadership of the Revolution is well known; but perhaps less familiar is the psychological theory on which it was based: \u2018there are some,\u2019 Napoleon is reported to have said, \u2018who, from some physical or moral peculiarity of character, form a picture (tableau) of everything. No matter what knowledge, intellect, courage, or good qualities they may have, these men are unfit to command<\/em>.\u2019 Mitchell, Iconology, pp.167. Tradu\u00e7\u00e3o livre do autor.<\/p>\n<p><a href=\"#_ednref9\" name=\"_edn9\">[9]<\/a> Franklin atribui ao te\u00f3logo <em>Emil Brunner <\/em>a seguinte formula\u00e7\u00e3o (n\u00e3o chequei essa fonte): \u201cO Estado totalit\u00e1rio \u00e9, pois, ateu e antidivino <em>per definitionem,<\/em> pois reivindica para si a totalidade do homem\u201d. A frase ecoa na minha mem\u00f3ria no depoimento que ouvi a respeito de crist\u00e3os luteranos do sul do Brasil que foram coagidos por mil\u00edcias nazistas brasileiras a optar por sua fidelidade a p\u00e1tria m\u00e3e (alem\u00e3) ou sua adora\u00e7\u00e3o \u201caquele menino Judeu\u201d \u2013 no caso, Jesus Cristo. Os crist\u00e3os das narrativas que ouvi, no Brasil, abandonaram as mil\u00edcias depois disso.<\/p>\n<p><a href=\"#_ednref10\" name=\"_edn10\">[10]<\/a> Esta ideia de Marx \u00e9 tamb\u00e9m desenvolvida por Mitchell, para quem a mercadoria n\u00e3o seria apenas um s\u00edmbolo \u2018imagin\u00e1rio\u2019 de troca de valores, mas sim \u2018a encarna\u00e7\u00e3o direta de todo trabalho humano\u2019, a \u2018personifica\u00e7\u00e3o\u2019 do valor\u201d. Cf: Mitchell, Iconology, 191. Tradu\u00e7\u00e3o livre do autor.<\/p>\n<p><a href=\"#_ednref11\" name=\"_edn11\">[11]<\/a> Idem, 193<\/p>\n<p><a href=\"#_ednref12\" name=\"_edn12\">[12]<\/a> Idem, 200<\/p>\n<p><a href=\"#_ednref13\" name=\"_edn13\">[13]<\/a> Idem, 244.<\/p>\n<p><a href=\"#_ednref14\" name=\"_edn14\">[14]<\/a> A express\u00e3o <em>m\u00e3o invis\u00edvel<\/em> \u00e9 atribu\u00edda a Adam Smith, cf: The Wealth of Nations, ElecBook classics, p.593. Mas a cita\u00e7\u00e3o aqui vem do autor libert\u00e1rio (e de direita) Estadunidense, Robert Nozik: cf. R. Nozik, <em>Anarchy, State and Utopia<\/em>, 1974, p.18. Nozik ataca aqui tanto autores cl\u00e1ssicos como Locke, com seu \u201cestado de natureza,\u201d quanto autores liberais como Friedrich Hayek. Me pergunto se a explica\u00e7\u00e3o do \u201cv\u00e9u da ignor\u00e2ncia\u201d, na filosofia liberal contempor\u00e2nea de John Rawls, tamb\u00e9m n\u00e3o poderia tamb\u00e9m entrar na mesma categoria.<\/p>\n<p><a href=\"#_ednref15\" name=\"_edn15\">[15]<\/a> Ver: <a href=\"http:\/\/pt.wikipedia.org\/wiki\/Carl_Schmitt\">http:\/\/pt.wikipedia.org\/wiki\/Carl_Schmitt<\/a><\/p>\n<p><a href=\"#_ednref16\" name=\"_edn16\">[16]<\/a> Dom Helder C\u00e2mara foi um famoso bispo cat\u00f3lico que se op\u00f4s ao regime militar no Brasil, tendo sido indicado ao Pr\u00eamio Nobel da Paz, por sua defesa intransigente dos direitos humanos na \u00e9poca da ditadura. O regime, no entanto, conseguiu que ele n\u00e3o fosse premiado atrav\u00e9s de uma campanha difamat\u00f3ria onde o associavam, em sua mocidade, ao <em>Integralismo<\/em>, forma brasileira de fascismo. Essa informa\u00e7\u00e3o est\u00e1 em: Elio Gaspari, <em>A ditadura escancarada<\/em>, 2014. Para maiores detalhes da vida de C\u00e2mara, ver: <a href=\"http:\/\/pt.wikipedia.org\/wiki\/H%8Elder_C%89mara#cite_note-Avila-2\">http:\/\/pt.wikipedia.org\/wiki\/H\u00e9lder_C\u00e2mara#cite_note-Avila-2<\/a><\/p>\n<p><a href=\"#_ednref17\" name=\"_edn17\">[17]<\/a> Abdias do Nascimento foi o primeiro senador negro do Brasil, eleito como suplente pelo PDT em 1997. Tive a oportunidade de conviver com ele por ocasi\u00e3o da funda\u00e7\u00e3o do N\u00facleo Educafro Abdias do Nascimento, em Jacarepagu\u00e1, no Rio de Janeiro. Abdias abandonou a posi\u00e7\u00e3o integralista em prol da sua milit\u00e2ncia pela causa da igualdade racial, que perpassa sua obra art\u00edstica desde o ex\u00edlio. Passou pelo comunismo, ainda no Brasil, quando foi preso, e finalmente entrou na pol\u00edtica pelo PDT, na \u00e9poca encarado como um partido socialista e democrata. Ver: <a href=\"http:\/\/pt.wikipedia.org\/wiki\/H%8Elder_C%89mara#cite_note-Avila-2\">http:\/\/pt.wikipedia.org\/wiki\/H\u00e9lder_C\u00e2mara#cite_note-Avila-2<\/a><\/p>\n<p><a href=\"#_ednref18\" name=\"_edn18\">[18]<\/a> A informa\u00e7\u00e3o de que Golberi foi comunista na juventude est\u00e1 em: Elio Gaspari, A <em>Ditadura Derrotada<\/em>, v.3, 2014. A atribui\u00e7\u00e3o de que tenha sido <em>fascista<\/em> n\u00e3o \u00e9 justa, uma vez que o general talvez tenha sido o mais duro combatente dos fascistas que integravam o Ex\u00e9rcito Brasileiro durante a ditadura militar, enquanto integrava um governo que dependia justamente de uma coaliz\u00e3o entre for\u00e7as pol\u00edticas <em>liberais<\/em> e <em>fascistas<\/em>. Era, na verdade, um pol\u00edtico extremamente pragm\u00e1tico. No entanto, \u00e9 importante lembrar que a virada contra o fascismo nas For\u00e7as Armadas Brasileiras se d\u00e1 muito em torno do fato de que o Estado Novo recusa ades\u00e3o a doutrina fascista, j\u00e1 que Get\u00falio foi obrigado a se opor ao Eixo, afinal. Desenvolverei melhor essa ideia no pr\u00f3ximo texto. Para maiores detalhes, ver: <a href=\"http:\/\/pt.wikipedia.org\/wiki\/Golbery_do_Couto_e_Silva\">http:\/\/pt.wikipedia.org\/wiki\/Golbery_do_Couto_e_Silva<\/a><\/p>\n<p><a href=\"#_ednref19\" name=\"_edn19\">[19]<\/a> Benito Mussolini, <em>The Doctrine of Fascism<\/em>, in: The Living Age, 1933, published by Political Quarterly, London, p.235-236. Tradu\u00e7\u00e3o livre do autor.<\/p>\n<p><a href=\"#_ednref20\" name=\"_edn20\">[20]<\/a> Essa vis\u00e3o minorit\u00e1ria da historiografia est\u00e1 percept\u00edvel aqui: <em>Hitler e o sonho socialista<\/em>. Cf. <a href=\"http:\/\/www.independent.co.uk\/arts-entertainment\/hitler-and-the-socialist-dream-1186455.html\">http:\/\/www.independent.co.uk\/arts-entertainment\/hitler-and-the-socialist-dream-1186455.html<\/a> (em ingl\u00eas).<\/p>\n<p><a href=\"#_ednref21\" name=\"_edn21\">[21]<\/a> Um dos mais respeitados historiadores do per\u00edodo, discorda absolutamente dessa formula\u00e7\u00e3o: \u201c<em>Despite the change of name, however, it would be wrong to see Nazism as a form of, or an outgrowth from, socialism. True, as some have pointed out, its rhetoric was frequently egalitarian, it stressed the need to put common needs above the needs of the individual, and it often declared itself opposed to big business and international finance capital. Famously, too, antisemitism was once declared to be \u2018the socialism of fools\u2019. But from the very beginning, Hitler declared himself implacably opposed to Social Democracy and, initially to a much smaller extent, Communism: after all, the \u2018November traitors\u2019 who had signed the Armistice and later the Treaty of Versailles were not Communists at all, but the Social Democrats and their allies<\/em>\u201d, Richard J. Evans.<em> The Coming of the Third Reich<\/em>. iBooks. (p.548). Dispon\u00edvel em: <a href=\"https:\/\/itunes.apple.com\/WebObjects\/MZStore.woa\/wa\/viewBook?id=7634CFBAAF536E85EB696B89CF116CAA\">https:\/\/itunes.apple.com\/WebObjects\/MZStore.woa\/wa\/viewBook?id=7634CFBAAF536E85EB696B89CF116CAA<\/a><\/p>\n<p><a href=\"#_ednref22\" name=\"_edn22\">[22]<\/a> \u201c<em>The gentlemen of the National Socialist party call the movement they have unleashed a national revolution, not a National Socialist one. So far, the relationship of their revolution to socialism has been limited to the attempt to destroy the social democratic movement, which for more than two generations has been the bearer of socialist ideas and will remain so. If the gentlemen of the National Socialist Party wanted to perform socialist acts, they would not need an Enabling Law. They would be assured of an overwhelming majority in this house. Every motion submitted by them in the interest of workers, farmers, white-collar employees, civil servants, or the middle class could expect to be approved, if not unanimously, then certainly with an enormous majority<\/em>.\u201d Volume 7. Nazi Germany, 1933-1945. Speech by the Social Democrat Otto Wels against the Passage of the \u201cEnabling Act\u201d (March 23, 1933). <a href=\"http:\/\/germanhistorydocs.ghi-dc.org\/pdf\/eng\/English_6.pdf\">http:\/\/germanhistorydocs.ghi-dc.org\/pdf\/eng\/English_6.pdf<\/a><\/p>\n<p><a href=\"#_ednref23\" name=\"_edn23\">[23]<\/a> O texto original completo da declara\u00e7\u00e3o est\u00e1 dispon\u00edvel aqui: <a href=\"http:\/\/www.luteranos.com.br\/textos\/a-declaracao-teologica-de-barmen\">http:\/\/www.luteranos.com.br\/textos\/a-declaracao-teologica-de-barmen<\/a> Para maiores informa\u00e7\u00f5es sobre o contexto, \u00e9 interessante a p\u00e1gina da Wikipedia de mesmo t\u00edtulo: <a href=\"http:\/\/pt.wikipedia.org\/wiki\/Declara%8D%8Bo_Teol%97gica_de_Barmen\">http:\/\/pt.wikipedia.org\/wiki\/Declara\u00e7\u00e3o_Teol\u00f3gica_de_Barmen<\/a><\/p>\n<p><a href=\"#_ednref24\" name=\"_edn24\">[24]<\/a> Carys Moseley. <em>Nations and Nationalism in the Theology of Karl Barth.<\/em> Oxford University Press (2013), p.35. Tradu\u00e7\u00e3o livre do autor. Grifo do autor.<\/p>\n<p><a href=\"#_ednref25\" name=\"_edn25\">[25]<\/a> <em>Idem<\/em>, p.37. Segundo o autor, Barth entendia que o socialismo decorria do pr\u00f3prio desenvolvimento da doutrina calvinista aplicada em Genebra.<\/p>\n<p><a href=\"#_ednref26\" name=\"_edn26\">[26]<\/a> Karl Barth, <em>Letter to a Pastor in the German Democratic Republic<\/em>. In: Karl Barth and Johannes Hamel, How to serve God in a communist land, Associated Press, New York, 1959., p.48<\/p>\n<p><a href=\"#_ednref27\" name=\"_edn27\">[27]<\/a> <em>Idem<\/em>, p. 51<\/p>\n<p><a href=\"#_ednref28\" name=\"_edn28\">[28]<\/a> A imagem conhecida como o <em>Cristo de Thorwaldsen<\/em>, citada por Karl Barth como exemplo dessa representa\u00e7\u00e3o perfeita, \u00e9 considerada como uma das mais impressionantes e bem elaboradas representa\u00e7\u00f5es de Jesus Cristo. A imagem original est\u00e1 na Igreja de Nossa Senhora, em Copenhagen, na Dinamarca. Cf. <a href=\"http:\/\/en.wikipedia.org\/wiki\/Christus_(statue\">http:\/\/en.wikipedia.org\/wiki\/Christus_(statue<\/a>)<\/p>\n<p><a href=\"#_ednref29\" name=\"_edn29\">[29]<\/a> Talvez aqui a met\u00e1fora nos leve a algo semelhante ao termo \u201cfascismo-gente-boa\u201d, de Brentam Gross, que utilizei no primeiro post dessa s\u00e9rie. Ver: <a href=\"http:\/\/ultimato.com.br\/sites\/dignidade\/2015\/03\/04\/a-idolatria-dode-mercado-contra-a-teologia-politica-neoliberal\/\">http:\/\/ultimato.com.br\/sites\/dignidade\/2015\/03\/04\/a-idolatria-dode-mercado-contra-a-teologia-politica-neoliberal\/<\/a><\/p>\n<p><a href=\"#_ednref30\" name=\"_edn30\">[30]<\/a> Karl Barth, <em>Letter to a Pastor in the German Democratic Republic<\/em>. In: Karl Barth and Johannes Hamel, How to serve God in a communist land, Associated Press, New York, 1959., p.51-52. Tradu\u00e7\u00e3o livre do autor. Grifos do autor. Tamb\u00e9m aqui podemos ver o aspecto \u201cconvidativo\u201d, \u201camig\u00e1vel\u201d e perigoso do anticristo, talvez pr\u00f3ximo do \u201cfascismo-boa-pra\u00e7a\u201d que decorre do neoliberalismo atual. Ver nota 25 acima.<\/p>\n<p><a href=\"#_ednref31\" name=\"_edn31\">[31]<\/a> Karl Barth, 1959, p.58. Tradu\u00e7\u00e3o livre do autor.<\/p>\n<p><a href=\"#_ednref32\" name=\"_edn32\">[32]<\/a> Para o uso do termo \u201cprogressista\u201d nos EUA, Ver: <a href=\"http:\/\/www.alternet.org\/story\/23706\/what_is_progressive\">http:\/\/www.alternet.org\/story\/23706\/what_is_progressive<\/a><\/p>\n<p>e tamb\u00e9m: <a href=\"http:\/\/prorev.com\/proglib.htm\">http:\/\/prorev.com\/proglib.htm<\/a> , Finalmente, a p\u00e1gina da Wikipedia, em ingl\u00eas, tamb\u00e9m \u00e9 \u00fatil: <a href=\"http:\/\/en.wikipedia.org\/wiki\/Progressivism_in_the_United_States\">http:\/\/en.wikipedia.org\/wiki\/Progressivism_in_the_United_States<\/a><\/p>\n<p><a href=\"#_ednref33\" name=\"_edn33\">[33]<\/a> Vou desenvolver esse racioc\u00ednio com maiores detalhes na pr\u00f3xima postagem desta s\u00e9rie. Basicamente, as fontes hist\u00f3ricas que demonstram a aproxima\u00e7\u00e3o entre <em>liberais<\/em> e <em>positivistas<\/em> na Primeira Rep\u00fablica do, ent\u00e3o chamado, Estados Unidos do Brasil, s\u00e3o acess\u00edveis atrav\u00e9s dos seguintes textos: Gisele Silva Ara\u00fajo, <em>Tradi\u00e7\u00e3o Liberal, Positivismo e Pedagogia: a s\u00edntese derrotada de Ruy Barbosa<\/em>. Perspectivas, S\u00e3o Paulo, v. 37, p. 113-144, jan.\/jun. 2010; e tamb\u00e9m em: Paulo Bonavides, <em>Ciencia Pol\u00edtica<\/em>, 10a edi\u00e7\u00e3o. S\u00e3o Paulo, Malheiros editores, 2000.<\/p>\n<p><a href=\"#_ednref34\" name=\"_edn34\">[34]<\/a> Me refiro aqui a ret\u00f3rica muito comum hoje em dia nos movimentos sociais de Direita no Brasil: \u201cgosta de Cuba, mas quer ter um iPhone!\u201d; \u201cquer ser comunista, mas usa t\u00eanis Nike!\u201d etc. Esse tipo de atitude acaba sendo muito revelador: de fato, como os <em>comunistas<\/em>, por assim dizer nas palavras dos seus detratores, v\u00e3o resistir ao consumo e a tenta\u00e7\u00e3o promovida pela sedutora tecnologia e seus benef\u00edcios? \u00c9 poss\u00edvel estar nessa <em>sociedade t\u00e9cnica<\/em> e de <em>consumo<\/em> sem fazer parte ou tomar parte nela? Apenas como contraponto, vale dizer que h\u00e1 grupos de \u201ccausa \u00fanica\u201d que, por vezes, se organizam fora da sociedade, promovendo o n\u00e3o-consumo, ou um consumo consciente e ecologicamente comprometido \u2013 com todas as contradi\u00e7\u00f5es que decorrem disso. Muitos desses grupos, partem de um escopo socialista e crist\u00e3o, por vezes soam aos seus detratores como \u201chippies\u201d. Ver, por exemplo: <a href=\"http:\/\/www.speak.org.uk\">http:\/\/www.speak.org.uk<\/a><\/p>\n<p><a href=\"#_ednref35\" name=\"_edn35\">[35]<\/a> Chamo aten\u00e7\u00e3o aqui para o fato de que a semelhan\u00e7a do atual est\u00e1gio do <em>capitalismo t\u00e9cnico cognitivo<\/em> com o modelo libertador, e convidativo do \u201cAnticristo\u201d proposto por Karl Barth, que \u00e9 hoje bem maior e mais universal do que as sedu\u00e7\u00f5es dos dois \u201copositores\u201d em conflito na \u00e9poca do autor \u2013 contando com os t\u00eanis <em>Nike<\/em> e os <em>iPhones <\/em>citados acima. Ver tamb\u00e9m: <a href=\"http:\/\/pt.wikipedia.org\/wiki\/Capitalismo_cognitivo\">http:\/\/pt.wikipedia.org\/wiki\/Capitalismo_cognitivo<\/a><\/p>\n<p><a href=\"#_ednref36\" name=\"_edn36\">[36]<\/a> Utilizarei aqui os termos \u201ct\u00e9cnica\u201d ou \u201ctecnologia\u201d como sin\u00f4nimos, equivalendo a tradu\u00e7\u00e3o de \u201ctechnique\u201d do franc\u00eas, conforme as divergentes tradu\u00e7\u00f5es dispon\u00edveis do original para o ingl\u00eas ou o portugu\u00eas. Cf. Jacques Ellul, <em>A T\u00e9cnica e o desafio do S\u00e9culo<\/em>, 1968<\/p>\n<p><a href=\"#_ednref37\" name=\"_edn37\">[37]<\/a> Ellul \u00e9 um autor complexo, cuja obra transcende barreiras disciplinares, e \u00e9 ainda pouco conhecida no Brasil. Um primeiro esfor\u00e7o de discuss\u00e3o da obra do autor foi empreendido pelo <em>Grupo de Estudos sobre Jacques Ellul<\/em>, da UNESP: <a href=\"https:\/\/jacquesellulbrasil.wordpress.com\">https:\/\/jacquesellulbrasil.wordpress.com<\/a> ; Um dos resultados desse primeiro esfor\u00e7o acad\u00eamico foi a publica\u00e7\u00e3o \u201cDireito, T\u00e9cnica, Imagem: os limites e os fundamentos do humano\u201d, dispon\u00edvel aqui: <a href=\"http:\/\/culturaacademica.com.br\/catalogo-detalhe.asp?ctl_id=382\">http:\/\/culturaacademica.com.br\/catalogo-detalhe.asp?ctl_id=382<\/a><\/p>\n<p><a href=\"#_ednref38\" name=\"_edn38\">[38]<\/a> Marx desenvolve a no\u00e7\u00e3o de capital tanto no texto do famoso <em>Manifesto do Partido Comunista<\/em>, quanto na sua obra \u2013 talvez, principal \u2013, <em>O Capital<\/em>. Chamo aten\u00e7\u00e3o aqui para a realidade nua e crua do liberalismo do s\u00e9culo XIX, a partir de onde Marx responde a assertiva liberal, de John Locke, de que \u00e9 o trabalho que gera propriedade privada, contrastando a premissa com a situa\u00e7\u00e3o dram\u00e1tica dos trabalhadores de sua \u00e9poca. Cf. Marx &amp; Engels, <em>The Communist Manifesto<\/em>, 1874, pp. 14. Marx tra\u00e7a uma descri\u00e7\u00e3o detalhada do processo atrav\u00e9s do qual os trabalhadores do s\u00e9culo XIX perdiam sua liberdade, a partir da compara\u00e7\u00e3o do extasiante n\u00famero de horas trabalhados por eles e o sal\u00e1rio pago; e aponta para a assertiva de que, no liberalismo econ\u00f4mico, n\u00e3o h\u00e1 direito, sendo o sistema regido por \u201capenas uma lei\u201d: \u201ca troca de mercadorias\u201d. Cf. Karl Marx, <em>Das Capital<\/em>, v.1, 1867, pp.224. Tradu\u00e7\u00e3o livre do autor.<\/p>\n<p><a href=\"#_ednref39\" name=\"_edn39\">[39]<\/a> Hannah Arendt, em um de seus textos mais famosos, faz questionamentos muito semelhantes ao e-maravilhamento da humanidade com os desenvolvimentos t\u00e9cnicos e tecnol\u00f3gicos do s\u00e9culo XX. Sob o dom\u00ednio t\u00e9cnico, \u201cpassaremos, sem d\u00favida \u00e0 condi\u00e7\u00e3o de escravos indefesos, n\u00e3o tanto de nossas m\u00e1quinas quanto de nosso <em>Know-how<\/em>, criaturas desprovidas de racioc\u00ednio, \u00e0 merc\u00ea de qualquer engenhoca tecnicamente poss\u00edvel, por mais mort\u00edfera que seja.\u201d Cf. Arendt, <em>A condi\u00e7\u00e3o humana<\/em>, 2007, p.11.<\/p>\n<p><a href=\"#_ednref40\" name=\"_edn40\">[40]<\/a> Nos pr\u00f3ximos post desta s\u00e9rie desenvolverei essa no\u00e7\u00e3o tentando resgatar, inclusive, a hist\u00f3rica controv\u00e9rsia entre os Franciscanos e o Papa sobre se Cristo tinha ou n\u00e3o direito de <em>propriedade<\/em> sobre suas roupas.<\/p>\n<p><a href=\"#_ednref41\" name=\"_edn41\">[41]<\/a> Novamente, a narrativa da vida de Jacques Ellul nos ajuda, com o exemplo algu\u00e9m que viveu o que pregou, e pode ser tomada no pr\u00f3prio sentido crist\u00e3o da palavra <em>testemunho<\/em>. Ellul lutou na resist\u00eancia francesa contra o Nazismo e seus aliados na Fran\u00e7a, o governo Vichy. Ap\u00f3s a den\u00fancia do totalitarismo sovi\u00e9tico nas d\u00e9cadas de 1960-1970, Ellul teria sido questionado como marxista e crist\u00e3o, a respeito de sua posi\u00e7\u00e3o a respeito do estalinismo sovi\u00e9tico e, supostamente teria respondido que aqueles que foram os primeiros a rejeitar o estalinismo, n\u00e3o precisam sequer ter d\u00favidas em rever sua posi\u00e7\u00e3o. Parte dessa narrativa est\u00e1 dispon\u00edvel aqui: <a href=\"https:\/\/curlewriver.wordpress.com\/2012\/10\/19\/ellul-what-i-learned-from-marx\/\">https:\/\/curlewriver.wordpress.com\/2012\/10\/19\/ellul-what-i-learned-from-marx\/<\/a><\/p>\n<p>A p\u00e1gina da Wikipedia tamb\u00e9m em ingl\u00eas tamb\u00e9m tr\u00e1s informa\u00e7\u00f5es interessantes sobre a vida do autor: <a href=\"http:\/\/en.wikipedia.org\/wiki\/Jacques_Ellul\">http:\/\/en.wikipedia.org\/wiki\/Jacques_Ellul<\/a><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>&nbsp; Em resposta a cinco teses pol\u00edticas do te\u00f3logo reformado Franklin Ferreira &nbsp; Este texto faz parte de uma s\u00e9rie que se iniciou, aqui no Blog Dignidade!, rebatendo algumas teses teol\u00f3gico-pol\u00edticas que, em linhas gerais, sustentam a ideia de que Socialismo e Cristianismo s\u00e3o concep\u00e7\u00f5es de mundos necessariamente concorrentes e ideologicamente incompat\u00edveis. 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