{"id":299,"date":"2015-03-14T16:23:46","date_gmt":"2015-03-14T16:23:46","guid":{"rendered":"http:\/\/ultimato.com.br\/sites\/dignidade\/?p=299"},"modified":"2015-03-14T16:23:46","modified_gmt":"2015-03-14T16:23:46","slug":"o-oriente-visto-por-nos","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/ultimato.com.br\/sites\/dignidade\/2015\/03\/14\/o-oriente-visto-por-nos\/","title":{"rendered":"O Oriente visto por \u201cn\u00f3s\u201d"},"content":{"rendered":"<p><em>Resenha do livro Orientalismo: o Oriente como inven\u00e7\u00e3o do Ocidente*, de Edward Said<\/em><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p style=\"text-align: right;\">&#8220;Ela nunca falou de si mesma, ela nunca representou suas emo\u00e7\u00f5es, sua presen\u00e7a, ou a sua hist\u00f3ria. Ele falou por e representou ela. Ele era estrangeiro, comparativamente rico, do sexo masculino, e estes foram os fatos hist\u00f3ricos de domina\u00e7\u00e3o que permitiram a ele n\u00e3o s\u00f3 possuir fisicamente Kuchuk Haman, mas de falar por ela e dizer aos seus leitores de que formas ela era &#8220;tipicamente Oriental&#8221;.<\/p>\n<p style=\"text-align: right;\">&#8211; Edward Said<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<div style=\"width: 639px\" class=\"wp-caption aligncenter\"><a href=\"http:\/\/upload.wikimedia.org\/wikipedia\/commons\/7\/76\/Anonymous_Venetian_orientalist_painting%2C_The_Reception_of_the_Ambassadors_in_Damascus%27%2C_1511%2C_the_Louvre.jpg\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"\" src=\"http:\/\/upload.wikimedia.org\/wikipedia\/commons\/7\/76\/Anonymous_Venetian_orientalist_painting%2C_The_Reception_of_the_Ambassadors_in_Damascus%27%2C_1511%2C_the_Louvre.jpg\" alt=\"\" width=\"629\" height=\"360\" \/><\/a><p class=\"wp-caption-text\">Pintura orientalista, anonima, Venesiana: A recep\u00e7\u00e3o dos embaixadores em Damasco, de 1511, no Museu do Louvre. (Detalhe da imagem: Os cervos com chifres no fundo da pintura nunca existiram na Fauna silvestre da S\u00edria.)<\/p><\/div>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>Como entendemos e nos relacionamos com o Oriente, em particular aqueles que vivem e s\u00e3o provenientes das \u201cTerras da B\u00edblia\u201d? Quem decide quais s\u00e3o os &#8216;valores&#8217; do Leste, no que ele acredita, o que ele deseja? Por que &#8220;eles&#8221; s\u00e3o considerados t\u00e3o diferentes de &#8220;n\u00f3s&#8221;?<\/p>\n<p>Em &#8220;Orientalismo&#8221;, um texto fundamental para os estudos p\u00f3s-coloniais, Edward Said argumenta que a hegemonia hist\u00f3rica e cultural do Ocidente sobre o Oriente, como um colonizador, um ocupante, e um opressor ao longo dos \u00faltimos tr\u00eas s\u00e9culos, resultou na \u201ccria\u00e7\u00e3o\u201d do &#8216;Oriente&#8217; ou, como denomina o autor, na \u201corientaliza\u00e7\u00e3o\u201d, pelo Ocidente. Ou seja, o Ocidente, em primeiro lugar a Europa e, em seguida, a Am\u00e9rica (ap\u00f3s a Segunda Guerra Mundial), foi capaz de decidir &#8211; e continua decidindo &#8211; o que \u00e9 o Oriente, uma vez que &#8220;a rela\u00e7\u00e3o entre o Ocidente e o Oriente \u00e9 uma rela\u00e7\u00e3o de poder, de domina\u00e7\u00e3o, de v\u00e1rios graus de uma hegemonia complexa&#8221;. O que \u00e9 preeminente sobre o Oriente n\u00e3o \u00e9 a sua exist\u00eancia, mas o que \u00e9 dito sobre ele.<\/p>\n<p>Uma forma de entender o &#8220;Orientalismo&#8221; \u00e9 v\u00ea-lo como um &#8220;estilo de pensamento&#8221; que insiste afirmar que h\u00e1 um &#8220;n\u00f3s&#8221; e um &#8220;eles&#8221;, e que &#8220;eles&#8221; s\u00e3o muito diferentes, ontol\u00f3gica e epistemologicamente, de &#8220;n\u00f3s&#8221;. Esta &#8220;distin\u00e7\u00e3o b\u00e1sica&#8221; foi aceita por todos, desde poetas e romancistas ate cientistas pol\u00edticos e economistas. Ela tem sido usado como uma plataforma para lan\u00e7amento de &#8220;teorias elaboradas, \u00e9picos, novelas, descri\u00e7\u00f5es sociais e narrativas pol\u00edticas a respeito do Oriente, o seu povo, sua conduta, sua &#8220;mente&#8221;, seu destino, e assim por diante. \u201cEles\u201d t\u00eam sido inferior ao \u201cn\u00f3s\u201d europeu e americano. &#8220;Eles&#8221; s\u00e3o atrasados, &#8220;eles&#8221; n\u00e3o compartilham &#8220;nossos&#8221; valores. \u201cEles&#8221; s\u00e3o &#8230; diferentes, inferiores.<\/p>\n<p>Outro significado de &#8220;Orientalismo&#8221; \u00e9 o de uma &#8220;institui\u00e7\u00e3o corporativa para lidar com o Oriente &#8211; lidar com ele pela via de fazer declara\u00e7\u00f5es sobre ele, autorizandovis\u00f5es sobre ele, descrevendo-o, ensinando-o, ocupando-o, governando-o: em suma, Orientalismo como um estilo ocidental para dominar, reestruturar e ter autoridade sobre o Oriente\u201d. Longe de ser uma \u201cfantasia Europeia fr\u00edvola&#8221;, que pode ser facilmente descartada, o orientalismo \u00e9 um &#8220;\u00f3rg\u00e3o criado entre teoria e pr\u00e1tica&#8221;, em que foi investido fortemente e ao que se foi adicionando elementos ao longo de muitas gera\u00e7\u00f5es. Said argumenta que o &#8220;Orientalismo&#8221; deve ser estudado como um discurso a fim de compreender a dimens\u00e3o dessa disciplina sistem\u00e1tica, atrav\u00e9s do qual o Ocidente gerenciou e produziu o Oriente em todas as formas poss\u00edveis &#8211; politicamente, sociologicamente, militarmente, ideologicamente, cientificamente, e imaginativamente .<\/p>\n<p>O discurso do Orientalismo \u00e9 t\u00e3o autorit\u00e1rio que &#8220;ningu\u00e9m que escrevesse, pensasse ou agisse sobre o Oriente poderia [ou pode] faz\u00ea-lo sem ter em conta as limita\u00e7\u00f5es em pensamento e a\u00e7\u00e3o imposta pelo orientalismo&#8230;Em suma, por causa do Orientalismo o Oriente n\u00e3o foi (e n\u00e3o \u00e9) um sujeito livre para pensar ou agir\u201d.<\/p>\n<p>Enquanto oramos pela paz no Oriente M\u00e9dio e no Norte da \u00c1frica, enquanto lamentamos a morte de seres humanos, devemos ter cuidado com quais conclus\u00f5es fazemos sobre o Oriente. Devemos questionar a lente atrav\u00e9s da qual vemos aqueles que s\u00e3o supostamente t\u00e3o diferentes de n\u00f3s. Devemos ser pr\u00f3-ativos na busca de ouvir as vozes daqueles que s\u00e3o oriundos e\/ou vivem dentro das \u2018terras da B\u00edblia\u2019. E devemos questionar o uso dessa proclamada diferen\u00e7a para justificar a guerra, a islamofobia, a ocupa\u00e7\u00e3o e a viol\u00eancia.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>Sharone Birapaka**<\/p>\n<p>&#8212;&#8212;&#8212;&#8212;&#8212;&#8212;&#8212;&#8212;&#8212;&#8212;&#8212;<\/p>\n<p>**Formada em Rela\u00e7\u00f5es Humanas e Religi\u00e3o (Concordia University, Canad\u00e1), e mestranda em\u00a0Estudos\u00a0Interdisciplinares\u00a0(Athabasca University, Canad\u00e1)<\/p>\n<p>* Said, Edward W. <em>Orientalism<\/em>. New York: Vintage, 1979. Print.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Resenha do livro Orientalismo: o Oriente como inven\u00e7\u00e3o do Ocidente*, de Edward Said &nbsp; &nbsp; &#8220;Ela nunca falou de si mesma, ela nunca representou suas emo\u00e7\u00f5es, sua presen\u00e7a, ou a sua hist\u00f3ria. Ele falou por e representou ela. 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