{"id":285,"date":"2015-03-08T23:10:54","date_gmt":"2015-03-08T23:10:54","guid":{"rendered":"http:\/\/ultimato.com.br\/sites\/dignidade\/?p=285"},"modified":"2015-03-11T11:44:30","modified_gmt":"2015-03-11T11:44:30","slug":"duas-historias-de-luta-e-esperanca-no-dia-internacional-da-mulher","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/ultimato.com.br\/sites\/dignidade\/2015\/03\/08\/duas-historias-de-luta-e-esperanca-no-dia-internacional-da-mulher\/","title":{"rendered":"Duas hist\u00f3rias de luta e esperan\u00e7a no Dia Internacional da Mulher"},"content":{"rendered":"<div class=\"entry-header\">\n<h3 class=\"secondary-title\"><em>Publicado originalmente em<\/em>:<\/h3>\n<p>http:\/\/www.forumrio.org\/noticias\/artigo-um-dia-internacional-e-as-mortes-que-nao-queremos-rememorar\/<\/p>\n<h2 class=\"entry-title\"><\/h2>\n<h4 class=\"page-subtitle\"><\/h4>\n<figure class=\"entry-image\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"attachment-post_single wp-post-image aligncenter\" src=\"http:\/\/www.forumrio.org\/wp-content\/uploads\/2015\/03\/Lilian-e-L%C3%ADvia-678x432.jpg\" alt=\"\" width=\"585\" height=\"397\" \/><\/figure>\n<\/div>\n<div class=\"entry-text\">\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>Poucos se lembram que, em uma semana, completa um ano que uma favelada foi brutalmente assassinada durante (mais) uma opera\u00e7\u00e3o da Pol\u00edcia Militar em favelas cariocas. Daquela vez, no Morro da Congonha, em Madureira. Daquela vez, era Cl\u00e1udia dos Santos Ferreira. Foi arrastada no asfalto por cerca de 300 metros por um carro da PM, depois de ter levado um tiro quando saiu de sua casa para comprar p\u00e3o. Ela daria caf\u00e9 aos filhos naquela tarde.<\/p>\n<p>Hoje, Dia Internacional da Mulher, lembremos de Cl\u00e1udia. Mas tamb\u00e9m das mortes que n\u00e3o queremos, futuramente, rememorar. Pensemos nas faveladas que, ao contr\u00e1rio dela, seguem sobrevivendo em meio \u00e0 luta e ao sonho, tentando construir um espa\u00e7o habit\u00e1vel para si, para seus filhos ou seus pares. As mulheres cujas dificuldades banalizamos por serem t\u00e3o \u201ccomuns\u201d, t\u00e3o recorrentes, t\u00e3o obviamente absurdas.<\/p>\n<p>Gizele Martins, 29 anos, \u00e9 moradora do conjunto de favelas da Mar\u00e9 desde que nasceu. Foi criada por sua av\u00f3 na Baixa do Sapateiro, em uma rua-fronteira entre duas fac\u00e7\u00f5es rivais de traficantes: \u201cAcontecia e ainda acontece tiroteio todos os dias. Vi in\u00fameros mortos, casas invadidas, pol\u00edcia atirando, caveir\u00e3o. Vi muita gente morrendo ali\u201d.<\/p>\n<p>Gizele sobreviveu. Formada em jornalismo, construiu por 10 anos um dos maiores jornais comunit\u00e1rios da cidade, o jornal O Cidad\u00e3o. Hoje, \u00e9 diretora do Sindicato dos Jornalistas e militante pela democratiza\u00e7\u00e3o da comunica\u00e7\u00e3o, entre outras tantas atividades.<\/p>\n<p>Ela ainda vive na Mar\u00e9 com sua av\u00f3, em outra casa, que comprou na esperan\u00e7a de ter dias mais tranquilos. Infelizmente, n\u00e3o \u00e9 o que vem acontecendo. Gizele testemunha atualmente um dos per\u00edodos mais ca\u00f3ticos j\u00e1 vividos ali. H\u00e1 quase um ano, tropas das For\u00e7as Armadas invadiram o conjunto de favelas, ocupando as ruas com seus tanques de guerra, vestindo fardas camufladas, armados at\u00e9 os dentes. \u00c9 com estas figuras que Gizele se depara todos os dias na porta de sua casa: \u201cMoro numa favela em que quase n\u00e3o \u00e9 mais poss\u00edvel militar, lutar. Cada tanque daquele tira as nossas for\u00e7as. Eles parecem ser bem maiores que n\u00f3s\u201d.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"aligncenter wp-image-2796\" src=\"http:\/\/www.forumrio.org\/wp-content\/uploads\/2015\/03\/Gizele-Martins.jpg\" alt=\"Gizele Martins: a luta das mulheres do Complexo da Mar\u00e9\" width=\"263\" height=\"263\" \/><\/p>\n<p style=\"text-align: center;\">(Imagem:\u00a0Gizele Martins: a luta das mulheres do Complexo da Mar\u00e9)<\/p>\n<p><strong>A homenagem que queremos<\/strong><\/p>\n<p>Lilian Barbosa, nascida e criada em Japeri, Baixada Fluminense, deu \u00e0 luz L\u00edvia h\u00e1 sete anos. O parto quase levou as duas \u00e0 morte. Com complica\u00e7\u00f5es f\u00edsicas e psicol\u00f3gicas, a m\u00e3e teve de interromper o curso de matem\u00e1tica na Universidade Federal Fluminense (UFF). Foram dois meses at\u00e9 voltar a andar, al\u00e9m da depress\u00e3o. \u201cA sa\u00fade da mulher, e da mulher negra, ainda \u00e9 uma grande quest\u00e3o\u201d, diz.<\/p>\n<p>Hoje, m\u00e3e e filha vivem no morro Chap\u00e9u Mangueira, que Lilian considera uma \u201cfavela militarizada pela UPP\u201d. A menina j\u00e1 teve um arma apontada em sua dire\u00e7\u00e3o por um policial. Com a bolsa que recebe da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), onde cursa atualmente Servi\u00e7o Social, Lilian tenta se manter, criar sua filha e pagar o aluguel. Quando a menina pede alguma coisa que n\u00e3o \u00e9 poss\u00edvel comprar, a m\u00e3e brinca que \u201cn\u00e3o \u00e9 mulher do Eike\u201d.<\/p>\n<p>Lilian se aproximou da milit\u00e2ncia pol\u00edtica na Igreja Cat\u00f3lica, quando adolescente, e foi amea\u00e7ada de morte in\u00fameras vezes pelos \u201cgrupos de exterm\u00ednio da Baixada\u201d. Jovem, negra, comunista, m\u00e3e solteira, favelada (ou \u201cperiferada\u201d), ela se diz \u201cmilitante contra o machismo, o racismo, a homofobia e todas as formas de opress\u00e3o das quais o capitalismo se apropriou\u201d. Soma a estes sonhos a vontade de dar \u00e0 filha mais espa\u00e7o para a inf\u00e2ncia: \u201cColoc\u00e1-la no bal\u00e9\u201d.<\/p>\n<p>Viver num mundo menos opressor \u00e9 o sonho dessas mulheres. Um sonho que elas constroem todos os dias. Este \u00e9 um texto sobre a homenagem que queremos hoje. Eu te proponho que dispense as flores e se junte \u00e0 luta dessas mulheres. Que se lembre de Cl\u00e1udia e da necessidade t\u00e3o urgente de garantir \u00e0s mulheres negras, faveladas, pobres, o direito mais b\u00e1sico: o direito \u00e0 vida. Homenageie uma mulher hoje: fa\u00e7a algo para que, um dia, possamos comemorar de fato o Dia Internacional da Mulher, quando nossas vidas n\u00e3o estiverem t\u00e3o fragilmente equilibradas sobre a linha que nos separa da morte.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><span class=\"entry-author-name\">Mar\u00edlia Gon\u00e7alves,\u00a0<\/span><span class=\"entry-date\">8 de mar\u00e7o de 2015<\/span><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"grid_2 alpha author-profile-img\" src=\"http:\/\/www.forumrio.org\/wp-content\/Cimy_User_Extra_Fields\/mariliagoncalves\/avatar\/marilia-goncalves.jpg\" alt=\"Foto\" width=\"168\" height=\"125\" \/><\/p>\n<div class=\"grid_5 omega author-profile-info\"><strong>Mar\u00edlia Gon\u00e7alves<\/strong>\u00a0\u00e9 jornalista com especializa\u00e7\u00e3o em Sociologia Urbana, mestranda em Ci\u00eancias Sociais na UERJ e feminista em forma\u00e7\u00e3o. Atua no campo da Comunica\u00e7\u00e3o Comunit\u00e1ria, fazendo pesquisa, extens\u00e3o e milit\u00e2ncia.<\/div>\n<\/div>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Publicado originalmente em: http:\/\/www.forumrio.org\/noticias\/artigo-um-dia-internacional-e-as-mortes-que-nao-queremos-rememorar\/ &nbsp; Poucos se lembram que, em uma semana, completa um ano que uma favelada foi brutalmente assassinada durante (mais) uma opera\u00e7\u00e3o da Pol\u00edcia Militar em favelas cariocas. Daquela vez, no Morro da Congonha, em Madureira. Daquela vez, era Cl\u00e1udia dos Santos Ferreira. Foi arrastada no asfalto por cerca de 300 metros [&hellip;]<\/p>\n","protected":false},"author":44,"featured_media":0,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"ngg_post_thumbnail":0,"footnotes":""},"categories":[9883],"tags":[24879,24880,24878,18319],"class_list":["post-285","post","type-post","status-publish","format-standard","hentry","category-dialogos","tag-8-de-marco","tag-comunicacao-comunitaria","tag-dia-da-mulher","tag-direitos-humanos"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/ultimato.com.br\/sites\/dignidade\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/285","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/ultimato.com.br\/sites\/dignidade\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/ultimato.com.br\/sites\/dignidade\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/ultimato.com.br\/sites\/dignidade\/wp-json\/wp\/v2\/users\/44"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/ultimato.com.br\/sites\/dignidade\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=285"}],"version-history":[{"count":7,"href":"https:\/\/ultimato.com.br\/sites\/dignidade\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/285\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":298,"href":"https:\/\/ultimato.com.br\/sites\/dignidade\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/285\/revisions\/298"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/ultimato.com.br\/sites\/dignidade\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=285"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/ultimato.com.br\/sites\/dignidade\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=285"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/ultimato.com.br\/sites\/dignidade\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=285"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}