{"id":236,"date":"2014-05-17T14:17:25","date_gmt":"2014-05-17T14:17:25","guid":{"rendered":"http:\/\/ultimato.com.br\/sites\/dignidade\/?p=236"},"modified":"2014-05-17T14:17:25","modified_gmt":"2014-05-17T14:17:25","slug":"a-ditadura-e-os-pobres","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/ultimato.com.br\/sites\/dignidade\/2014\/05\/17\/a-ditadura-e-os-pobres\/","title":{"rendered":"A ditadura e os pobres"},"content":{"rendered":"<p align=\"right\">&#8220;Denunciei a fome como flagelo fabricado\u00a0pelos homens, contra outros homens.\u201d<br \/>\nJosu\u00e9 de Castro<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>Tempos dif\u00edceis, diferentes \u00a0depoimentos e \u00a0narrativas s\u00e3o constru\u00eddas a partir de cada ator social, capazes de\u00a0 envolver e\u00a0 mobilizar a todos n\u00f3s em torno da recente hist\u00f3ria brasileira. \u00a0Qual o lugar do pobre na ditadura civil-militar brasileira?\u00a0A escolha por olhar a partir dos pobres tem em parte a ver especialmente com um olhar centrado para o campo da defesa de direitos e da participa\u00e7\u00e3o social.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><a href=\"http:\/\/ultimato.com.br\/sites\/dignidade\/files\/2014\/05\/gini.png\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"size-medium wp-image-237 alignleft\" alt=\"gini\" src=\"http:\/\/ultimato.com.br\/sites\/dignidade\/files\/2014\/05\/gini-300x198.png\" width=\"300\" height=\"198\" srcset=\"https:\/\/ultimato.com.br\/sites\/dignidade\/files\/2014\/05\/gini-300x198.png 300w, https:\/\/ultimato.com.br\/sites\/dignidade\/files\/2014\/05\/gini-150x99.png 150w, https:\/\/ultimato.com.br\/sites\/dignidade\/files\/2014\/05\/gini.png 601w\" sizes=\"auto, (max-width: 300px) 100vw, 300px\" \/><\/a>Como era o Brasil, antes de entrar no per\u00edodo da ditadura? Alguns historiadores afirmam que talvez fosse um pa\u00eds que enfrentaria fortemente as desigualdades e ao mesmo tempo vivenciaria maior crescimento econ\u00f4mico. Somente nos dias atuais \u00e9 que a desigualdade brasileira se configura de maneira semelhante ao que era na d\u00e9cada de 1960. Em 21 anos o governo ditatorial levou ao agravamento da pobreza e das desigualdades, ao lado da censura, torturas e nega\u00e7\u00e3o a participa\u00e7\u00e3o social. Somente agora, 50 anos ap\u00f3s o in\u00edcio da ditadura, \u00e9 que o pa\u00eds retornou a condi\u00e7\u00f5es similares de desigualdade daquela \u00e9poca, conforme \u00e9 poss\u00edvel verificar nos dados do Coeficiente de Gini (<a href=\"http:\/\/reflexoes-renatoruaspinto.blogspot.com.br\/2013\/03\/avancos-sociais-no-brasil-importancia.html\" target=\"_blank\">fonte<\/a>), tendo a diminui\u00e7\u00e3o dessa desigualdade come\u00e7ado a diminuir &#8211; n\u00e3o por acaso &#8211; com a retomada das elei\u00e7\u00f5es diretas no in\u00edcio dos anos de 1990.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>Os anos da ditadura se descortinaram em tempos em que pobres e famintos foram todos silenciados. \u00a0Algumas pessoas, na sua maioria sem mem\u00f3ria, chegaram a dizer nos dias atuais que n\u00e3o havia pobre no Brasil, que havia seguran\u00e7a p\u00fablica, ainda que as pessoas n\u00e3o passavam fome e que praticamente n\u00e3o havia problema social.\u00a0 Ao contr\u00e1rio havia fome e pobres e sim, os pobres e famintos permaneceram historicamente presente na \u00e9poca da ditadura.\u00a0 Por\u00e9m, foram apagados da mem\u00f3ria oral e escrita.\u00a0 Lamentavelmente, por exemplo, confiscaram os livros de Josu\u00e9 de Castro, autor de Geografia da Fome, m\u00e9dico, gestor e intelectual brasileiro, incans\u00e1vel na luta contra esse grave flagelo: a FOME. Com a ditadura seu pensamento e a\u00e7\u00e3o foram desconsiderados, colocados no vazio do esquecimento, com evidenciados esfor\u00e7os para apagar da mem\u00f3ria dos brasileiros o triste cen\u00e1rio denunciado pelo c\u00e9lebre intelectual.<\/p>\n<p>O acesso \u00e0 obra de Josu\u00e9 de Castro foi restringido, teve seus direitos pol\u00edticos cassados e foi destitu\u00eddo do cargo de embaixador que exercia em Genebra. Faleceu no exterior sem poder retornar ao seu pa\u00eds (<a href=\"http:\/\/novopernambucolismo.blogspot.com.br\/2012\/07\/josue-de-castro-um-homem-frente-do-seu.html)\" target=\"_blank\">veja aqui<\/a>).\u00a0 Os pobres daquela \u00e9poca faziam parte da hist\u00f3ria sem ser parte consciente ou reconhecida da hist\u00f3ria, em um ambiente onde a mem\u00f3ria da fome e da pobreza extrema, foram sequestradas do cen\u00e1rio pol\u00edtico nacional.<\/p>\n<p>A Fome, apesar de bem documentada por Josu\u00e9 de Castro, como fen\u00f4meno social e biol\u00f3gico, a ditadura civil-militar no Brasil impediu que os achados contidos nas suas obras, pudessem subsidiar as a\u00e7\u00f5es que poderiam ainda naqueles dias resolver a problem\u00e1tica da Fome no Brasil rural e urbano. Ao contr\u00e1rio a ditadura agravou agendas sist\u00eamicas, com a aus\u00eancia de Reforma Agr\u00e1ria e a as rela\u00e7\u00f5es injustas de trabalho no campo, agravou ainda as problem\u00e1ticas da monocultura e as rela\u00e7\u00f5es do Nordeste a\u00e7ucareiro, onde existia a fome end\u00eamica, seguida pela regi\u00e3o do Sert\u00e3o Nordestino aumentando a fome epid\u00eamica, como o autor denominava o fen\u00f4meno.<\/p>\n<p>Josu\u00e9 ainda denunciou a subnutri\u00e7\u00e3o nas regi\u00f5es que ele definiu como Centro Oeste e Extremo Sul. Lamento muito a perda dessa mem\u00f3ria nos anos de 1964 a 1985, se tiv\u00e9ssemos a continuidade do trabalho de Josu\u00e9 de Castro e de sua equipe ter\u00edamos avan\u00e7ado mais e at\u00e9 mesmo aplicado as potencialidades de sua an\u00e1lise compreensiva da Fome que h\u00e1 muito inovava ao usar as ci\u00eancias de maneira complexa e relacional, como hist\u00f3ria, economia, biologia, geografia e antropologia. Desenvolveu um marco-anal\u00edtico elegendo as popula\u00e7\u00f5es por suas vulnerabilidades e caracter\u00edsticas regionais como sendo elementos explorat\u00f3rios do maior agravo da Fome, a desnutri\u00e7\u00e3o grave e a mortalidade infantil.<\/p>\n<p>Dr\u00e1stica situa\u00e7\u00e3o hist\u00f3rica!\u00a0 O povo brasileiro deixou de enfrentar de forma magistral seu maior problema moral e \u00e9tico: a Fome.\u00a0 S\u00f3 no in\u00edcio da d\u00e9cada de noventa o grito do povo foi ouvido em forte apelo pelos dados do Mapa da Fome (IBGE, 1993): 32 milh\u00f5es de brasileiros passavam Fome.\u00a0 Quem deixou de ganhar com a ditadura? Obvio que foram os pobres famintos do Brasil.\u00a0\u00a0 A Seguran\u00e7a Alimentar e Nutricional perdeu com a ditadura! Quantas gera\u00e7\u00f5es morreram na ditadura civil-militar por conta de um mal social, pol\u00edtico e econ\u00f4mico?\u00a0 Quantos pobres e famintos foram mortos, desapareceram do mapa?<\/p>\n<p>Para os pobres e famintos, o Brasil daquela \u00e9poca era opressor, violento, matador, ausente, meritocr\u00e1tico e muito injusto. Os direitos sociais s\u00f3 para os com carteira de trabalho assinada, afinal pobre honesto tem carteira de trabalho assinada. O regime durou de 1964 a 1985 e nos anos setenta e oitenta houve enorme infla\u00e7\u00e3o, per\u00edodo de grande inseguran\u00e7a alimentar, sendo novamente os mais prejudicados os pobres e os mais pobres entre os pobres.\u00a0O Brasil era um pa\u00eds para muito poucos, para pessoas \u201ccom m\u00e9rito\u201d, situa\u00e7\u00e3o que para alguns nos centros urbanos elitizados poderia representar um &#8220;pa\u00eds que funcionava&#8221;, isso atrelado \u00e0 uma m\u00eddia completamente controlada em que n\u00e3o havia espa\u00e7o para questionamentos ou cr\u00edticas. Existia uma massa de pessoas invis\u00edveis, que somente nos \u00faltimos 25 anos, diante do regime democr\u00e1tico, passaram a experimentar uma melhor realidade, ainda muito longe de ser a ideal.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>Quem pode desejar o retorno de algo similar a Ditadura?<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>Certamente nenhum familiar dos cassados pol\u00edticos, boa parte oriundos das classes m\u00e9dia e alta. Para eles esse per\u00edodo foi igualmente perverso, foram silenciadas suas liberdades, foi vetada a participa\u00e7\u00e3o social, tendo sido um regime de exce\u00e7\u00e3o, de viol\u00eancia e dolorosa tortura. \u00a0Da mesma forma que para aqueles que foram perseguidos pelo regime civil-militar, os pobres tamb\u00e9m\u00a0n\u00e3o querem que ela volte.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>A partir dos anos noventa, mesmo com uma infantil democracia, foram realizadas iniciativas que levaram a conquistas sociais.\u00a0A democracia trouxe avan\u00e7os que beneficiaram e foram consequ\u00eancia das lutas de diversas organiza\u00e7\u00f5es e movimentos sociais. Aumentar o alcance de pol\u00edticas de sa\u00fade e educa\u00e7\u00e3o n\u00e3o s\u00e3o tarefas simples, ainda mais num Estado que foi formatado para atender a alguns e a excluir muitos. Alterar esta correla\u00e7\u00e3o de for\u00e7as exige uma vigilante postura de monitoramento e de participa\u00e7\u00e3o social. Em cada cidade, em cada \u00f3rg\u00e3o p\u00fablico; nas pol\u00edticas elaboradas, somos chamados\/as a participar de forma cr\u00edtica e propositiva, enfrentando os dilemas entre o institu\u00eddo e o instituinte.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>\u00c9 sintom\u00e1tico que ap\u00f3s 50 anos do golpe ainda tenhamos militares ocupando territ\u00f3rios empobrecidos de uma grande cidade brasileira. Os pobres n\u00e3o querem ocupa\u00e7\u00e3o militar. No entanto, eles ainda n\u00e3o foram reparados pelo Estado, ou mesmo reconhecidos em seus direitos civis, como o de ir e vir, em v\u00e1rias cidades e territ\u00f3rios do pa\u00eds.\u00a0 A exist\u00eancia de Pol\u00edcias Militares que ainda adotam em suas a\u00e7\u00f5es as mesmas pr\u00e1ticas de tortura, ao lado dos chamados \u201cautos de resist\u00eancias\u201d, e que enumeram diversos desaparecimentos, representam para a nossa sociedade uma bandeira de luta permanente contra a ditadura civil-militar do passado e do presente e que atinge fortemente aos mais pobres. Exigir o devido tratamento em rela\u00e7\u00e3o a hist\u00f3ria vivenciada no per\u00edodo da ditadura n\u00e3o \u00e9 negar a situa\u00e7\u00e3o de exce\u00e7\u00e3o que ainda muitos vivem, pelo contr\u00e1rio, essa luta representa a afirma\u00e7\u00e3o da necessidade de mudan\u00e7a que reconhe\u00e7a e atue no enfrentamento das mazelas que ainda permanecem e que tiveram in\u00edcio num espec\u00edfico contexto.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>A democracia precisa enfrentar os resqu\u00edcios da ditadura civil-militar! As urnas se colocam como um dos mecanismos de enfrentamento a essa realidade, sendo necess\u00e1rio exigir dos candidatos majorit\u00e1rios ou n\u00e3o, que incluam de forma corajosa esta tem\u00e1tica para que juntos seja poss\u00edvel virarmos definitivamente a p\u00e1gina desta heran\u00e7a que os governos do per\u00edodo ditatorial impuseram ao nosso pa\u00eds. A rua \u00e9 outro espa\u00e7o de ocupa\u00e7\u00e3o, manifesta\u00e7\u00f5es p\u00fablicas, participa\u00e7\u00e3o e controle social s\u00e3o alguns dos elementos previstos em nossa Constitui\u00e7\u00e3o e que como cidad\u00e3os e cidad\u00e3s devemos acionar no sentido do fortalecimento da democracia e para a constru\u00e7\u00e3o de uma sociedade melhor e mais justa.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>Daniela S Frozi<br \/>\nCom a colabora\u00e7\u00e3o de Juliana Peres e de Ronilso Pacheco<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>&#8220;Denunciei a fome como flagelo fabricado\u00a0pelos homens, contra outros homens.\u201d Josu\u00e9 de Castro &nbsp; Tempos dif\u00edceis, diferentes \u00a0depoimentos e \u00a0narrativas s\u00e3o constru\u00eddas a partir de cada ator social, capazes de\u00a0 envolver e\u00a0 mobilizar a todos n\u00f3s em torno da recente hist\u00f3ria brasileira. \u00a0Qual o lugar do pobre na ditadura civil-militar brasileira?\u00a0A escolha por olhar a [&hellip;]<\/p>\n","protected":false},"author":42,"featured_media":0,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"ngg_post_thumbnail":0,"footnotes":""},"categories":[116],"tags":[20898,5442,20881,123],"class_list":["post-236","post","type-post","status-publish","format-standard","hentry","category-blog","tag-daniela","tag-desigualdade","tag-ditadura","tag-pobreza"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/ultimato.com.br\/sites\/dignidade\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/236","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/ultimato.com.br\/sites\/dignidade\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/ultimato.com.br\/sites\/dignidade\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/ultimato.com.br\/sites\/dignidade\/wp-json\/wp\/v2\/users\/42"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/ultimato.com.br\/sites\/dignidade\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=236"}],"version-history":[{"count":8,"href":"https:\/\/ultimato.com.br\/sites\/dignidade\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/236\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":247,"href":"https:\/\/ultimato.com.br\/sites\/dignidade\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/236\/revisions\/247"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/ultimato.com.br\/sites\/dignidade\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=236"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/ultimato.com.br\/sites\/dignidade\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=236"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/ultimato.com.br\/sites\/dignidade\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=236"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}