{"id":231,"date":"2014-05-03T12:21:55","date_gmt":"2014-05-03T12:21:55","guid":{"rendered":"http:\/\/ultimato.com.br\/sites\/dignidade\/?p=231"},"modified":"2014-05-04T12:54:10","modified_gmt":"2014-05-04T12:54:10","slug":"envelhecimento-vida-e-tempo","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/ultimato.com.br\/sites\/dignidade\/2014\/05\/03\/envelhecimento-vida-e-tempo\/","title":{"rendered":"Envelhecimento, vida e tempo"},"content":{"rendered":"<p align=\"center\"><a href=\"http:\/\/ultimato.com.br\/sites\/dignidade\/files\/2014\/03\/roda.jpg\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"alignnone size-medium wp-image-156\" alt=\"roda\" src=\"http:\/\/ultimato.com.br\/sites\/dignidade\/files\/2014\/03\/roda-300x220.jpg\" width=\"300\" height=\"220\" srcset=\"https:\/\/ultimato.com.br\/sites\/dignidade\/files\/2014\/03\/roda-300x220.jpg 300w, https:\/\/ultimato.com.br\/sites\/dignidade\/files\/2014\/03\/roda-1024x752.jpg 1024w, https:\/\/ultimato.com.br\/sites\/dignidade\/files\/2014\/03\/roda-150x110.jpg 150w, https:\/\/ultimato.com.br\/sites\/dignidade\/files\/2014\/03\/roda.jpg 1936w\" sizes=\"auto, (max-width: 300px) 100vw, 300px\" \/><\/a><\/p>\n<p style=\"text-align: right;\" align=\"center\">&#8220;Educa a crian\u00e7a no caminho em que deve andar; e at\u00e9 quando envelhecer n\u00e3o se desviar\u00e1 dele&#8221;\u00a0(Prov\u00e9rbios 22:6)<\/p>\n<p>Refletir sobre o processo r\u00e1pido de envelhecimento da popula\u00e7\u00e3o brasileira sob uma perspectiva b\u00edblica \u00e9 convite instigante no Brasil do s\u00e9culo XXI. O envelhecimento envolve muito mais de que mudar o que pensamos sobre a velhice e os scripts culturais constru\u00eddos acerca dessa etapa no curso da vida, mas especialmente pensar as mudan\u00e7as necess\u00e1rias nos arranjos familiares, nas igrejas e institui\u00e7\u00f5es societ\u00e1rias que prestam servi\u00e7os relacionados ao bem comum e ao cuidado humano, bem como nas cidades e nos espa\u00e7os agr\u00edcolas em decorr\u00eancia do aumento da longevidade. \u00a0A estimativa da Organiza\u00e7\u00e3o Mundial de Sa\u00fade para o ano 2050 \u00e9 de teremos dois bilh\u00f5es de pessoas idosas compondo a popula\u00e7\u00e3o mundial, uma em cada quarto pessoas ser\u00e3o idosas. No Brasil, a cada ano, um milh\u00e3o de pessoas completam sessenta anos.<\/p>\n<p>Costumamos pensar teologicamente sobre esse vers\u00edculo de prov\u00e9rbios e aplic\u00e1-lo na dimens\u00e3o de um caminho que conduz a uma plenitude de vida que se concretiza no c\u00e9u. N\u00e3o negamos essa dimens\u00e3o, por\u00e9m gostar\u00edamos de propor uma hermen\u00eautica de profundidade (Thompson) para descrever uma perspectiva s\u00f3cio-hist\u00f3rica do desenvolvimento humano ao longo da vida, utilizando uma abordagem intergeracional na interpreta\u00e7\u00e3o do vers\u00edculo.<\/p>\n<p>Evid\u00eancias explicam que os processos de envelhecimento nas sociedades contempor\u00e2neas refletem as trajet\u00f3rias de vidas marcadas pelas iniquidades sociais, pelo estresse laboral e a precariedade das ocupa\u00e7\u00f5es, pela inseguran\u00e7a alimentar &#8211; seja pela escassez de alimentos ou pelo excesso de consumo de alimentos inadequados -, pelos n\u00edveis de escolaridade, pelas doen\u00e7as cr\u00f4nicas n\u00e3o transmiss\u00edveis e os determinantes sociais da sa\u00fade, pelas rela\u00e7\u00f5es etnico-raciais e assimetrias de g\u00eanero, pelas ocupa\u00e7\u00f5es s\u00f3cio-espaciais nos territ\u00f3rios de alta e baixa renda, pela aus\u00eancia ou presen\u00e7a do lazer e do prazer, pela espiritualidade desfrutada ou recusada e pelas viv\u00eancias de relacionamentos baseados na dignidade humana ou nas viol\u00eancias nos diversos ciclos da fam\u00edlia.<\/p>\n<p>A pergunta que precisamos fazer \u00e9: Considerando que vamos viver mais anos, o que seria educar para conseguir mais qualidade de vida nesses anos? A longevidade vai produzir ou apenas ir\u00e1 refletir a intelig\u00eancia emocional acumulada na trajet\u00f3ria de vida de mulheres e homens? Qual o legado para as gera\u00e7\u00f5es do presente e do futuro? N\u00e3o pretendemos apresentar respostas, mas desenhar tem\u00e1ticas que devem ser cogitadas pelas pessoas, fam\u00edlias e grupos societ\u00e1rios.<\/p>\n<p>Utilizando o texto b\u00edblico proposto passamos a algumas dessas categorias \u00a0tem\u00e1ticas organizadas segundo as palavras chaves do vers\u00edculo:<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><b><i>Educar<\/i><\/b> a crian\u00e7a equivale a estabelecer pactos e responsabilidades individuais, parentais e familiares, comunit\u00e1rias, institucionais e societ\u00e1rias com a qualidade de vida dessa crian\u00e7a que se refletir\u00e1 no corpo senescente do porvir na velhice. Educar transcende a ensinar, requer evocar um modo de vida baseado num processo cont\u00ednuo de emancipa\u00e7\u00e3o e responsabiliza\u00e7\u00e3o humana, mas na perspectiva do l\u00fadico e da dignidade. Educar \u00e9 matriz curricular para a vida, na vida e ao longo da vida. Em rela\u00e7\u00e3o, em comunh\u00e3o, em conviv\u00eancia somos educados. Mesmo diante do intenso processo de redu\u00e7\u00e3o dos n\u00edveis de fecundidade,\u00a0com diminui\u00e7\u00e3o do crescimento da popula\u00e7\u00e3o infantil brasileira ainda teremos muitas crian\u00e7as nascendo e precisamos <i>educa-las educando-nos<\/i>.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>C<b><i>aminho<\/i><\/b> aborda a multidimensionalidade da dupla cidadania crist\u00e3. O caminho da f\u00e9, o caminho da integridade, o caminho do dom e da gratuidade, o caminho do amor, mas tamb\u00e9m o caminho do Tratado do Decrescimento Sereno (Latouche), da N\u00e3o-Viol\u00eancia, da Pedagogia da Esperan\u00e7a (Freire) e do prazer (Alves). Enfim, a combina\u00e7\u00e3o de caminho, verdade e vida que o evangelho oferece e a ci\u00eancia quase sempre esquece. Caminho que se constr\u00f3i na caminhada, mas que j\u00e1 foi demarcado e delimitado pelo nazareno que caminhava de cidade em cidade, com comida-comunh\u00e3o-ora\u00e7\u00e3o temperada com compaix\u00e3o.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><b><i>Que deve andar<\/i><\/b><i>. <\/i>Andar<i> <\/i>d\u00e1 ideia de mobilidade. Temos enfrentado s\u00e9rios problemas com a mobilidade urbana, intra e inter&#8211;urbana, com as mobilidades migrat\u00f3rias nacionais e internacionais, com os desafios da mobilidade acad\u00eamica, mas acima de tudo com os avan\u00e7os e retrocessos da mobilidade na posi\u00e7\u00e3o social.\u00a0 Andar \u00e9 uma a\u00e7\u00e3o dialeticamente oposta \u00e0 possibilidade de estagnar. \u00a0O direito \u00e0 mobilidade deve ser exercitado em todas as suas dimens\u00f5es pela crian\u00e7a ao longo do curso da vida. Andar \u00e9 construir capacidades e desfrutar de estruturas de oportunidades geradas pelo Estado, pelo mercado vigiado pela fun\u00e7\u00e3o social da propriedade e pelo controle social da comunidade. Andar \u00e9 construir renova\u00e7\u00e3o do pensamento, n\u00e3o conforma\u00e7\u00e3o com a imobilidade intelectual, indigna\u00e7\u00e3o pela imobilidade afetiva, clamor por uma teologia caminhante que procura andar em caminhos que Jesus andou.<\/p>\n<p>Vale ressaltar outra dimens\u00e3o do andar. Recordo-me de uma frase do meu pai &#8211; um idoso parapl\u00e9gico de 82 anos que luta para <i>andar<\/i> nos espa\u00e7os urbanos onde os projetos arquitet\u00f4nicos n\u00e3o foram planejados para incluir \u2013: \u201cMais do que as aus\u00eancia das rampas nos edif\u00edcios n\u00f3s enfrentamos mesmo \u00e9 a escassez de rampas nas mentes e cora\u00e7\u00f5es humanos que n\u00e3o se sensibilizam em promover o andar dos deficientes f\u00edsicos nos consult\u00f3rios e servi\u00e7os de sa\u00fade, nas escolas, nos transportes p\u00fablicos, nas igrejas, na cidade. O deficiente \u00e9 suficiente, a sociedade \u00e9 que \u00e9 deficiente\u201d.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><b><i>At\u00e9 quando envelhecer<\/i><\/b> traduz a ideia de processo, de perman\u00eancia e troca intergeracional, de promessa de que desfrutaremos desse tempo de longevidade e repartiremos as conquistas com familiares, amigos, conhecidos e desconhecidos. \u00a0<i>At\u00e9 quando<\/i> n\u00e3o se trata de um adv\u00e9rbio interrogativo, mas de uma compreens\u00e3o interna e profunda da passagem do tempo e da alegria em desfrutar a vida, da participa\u00e7\u00e3o na qualidade da vida do \u201cOutro\u201d do qual me torno \u201cPr\u00f3ximo\u201d. <i>At\u00e9 quando<\/i> \u00e9 grito de liberdade, \u00e9 encontro da alma com o self e a celebra\u00e7\u00e3o da solitude. \u00c9 uma atitude de espera silenciosa, madura e resiliente. \u00c9 saber que \u00e9 poss\u00edvel ser saud\u00e1vel mesmo lidando com a doen\u00e7a. \u00c9 o acolhimento do auto-cuidado apoiado (eu me cuido apoiado pela fam\u00edlia, amigos, irm\u00e3os na f\u00e9, comunidade e profissionais do cuidado). <i>At\u00e9 quando<\/i> \u00e9 exerc\u00edcio para manter a capacidade funcional e a paci\u00eancia para enfrentar as disfuncionalidades f\u00edsicas e funcionalidades limitadas da mem\u00f3ria. \u00c9 a sauda\u00e7\u00e3o do encontro com a morte e com a finitude da vida sem as correntes paralizadoras do medo e da desesperan\u00e7a. \u00c9 a celebra\u00e7\u00e3o da gerotranscend\u00eancia, do contentamento e da espiritualidade dos gestos simples e secretos. <i>At\u00e9 quando<\/i> o Senhor conceder \u201cvida aos nossos anos e anos \u00e0s nossas vidas\u201d.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>Baseado nesse exerc\u00edcio hermen\u00eautico no prov\u00e9rbio b\u00edblico \u00e9 poss\u00edvel discernir que envelhecimento precisa ser cada vez mais ser compreendido como resultado de uma trajet\u00f3ria biol\u00f3gica, mas principalmente social, cultural e espiritual. Trajet\u00f3ria baseada em conquistas e viola\u00e7\u00f5es de direitos na fase pr\u00e9-natal, inf\u00e2ncia, adolesc\u00eancia, juventude e adulta. Os processos de senesc\u00eancia ser\u00e3o t\u00e3o diferenciados na popula\u00e7\u00e3o idosa quanto foram as trajet\u00f3rias de vida marcadas pela injusti\u00e7a social e escolhas equivocadas de comportamentos de risco \u00e0 sa\u00fade f\u00edsica, psicol\u00f3gica e espiritual.<\/p>\n<p>O descompasso entre transi\u00e7\u00e3o demogr\u00e1fica e institui\u00e7\u00f5es de apoio aos processos de envelhecimento j\u00e1 demanda uma amplia\u00e7\u00e3o de consci\u00eancia muito r\u00e1pida por parte de cada pessoa, fam\u00edlia e grupo social.<\/p>\n<p>Estamos envelhecendo e a ditosa velhice \u00e9 uma conquista de todos. \u00c9 preciso construir um senso de comunidade, uma gest\u00e3o urbana e agr\u00edcola, um novo modelo de desenvolvimento nacional para al\u00e9m da l\u00f3gica do capital, uma nova ordem global pautada na qualidade de vida e respeito \u00e0 dignidade da pessoa idosa. Fomos chamados para n\u00e3o nos desviarmos do caminho. Que seja Assim!!<\/p>\n<p><em>\u00a0<\/em><\/p>\n<p align=\"center\">&#8220;Quando era novo tinha esperan\u00e7a<\/p>\n<p align=\"center\">De encontrar um velho que se deixasse educar,<\/p>\n<p align=\"center\">Quando for velho espero<\/p>\n<p align=\"center\">Que se encontre um mo\u00e7o e eu<\/p>\n<p align=\"center\">Me deixe educar&#8221; (Bertolt Brecht<b>)<\/b><\/p>\n<p align=\"center\"><b>\u00a0<\/b><\/p>\n<p align=\"right\"><b>Valter e Leides Barroso Azevedo Moura<\/b><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>&#8220;Educa a crian\u00e7a no caminho em que deve andar; e at\u00e9 quando envelhecer n\u00e3o se desviar\u00e1 dele&#8221;\u00a0(Prov\u00e9rbios 22:6) Refletir sobre o processo r\u00e1pido de envelhecimento da popula\u00e7\u00e3o brasileira sob uma perspectiva b\u00edblica \u00e9 convite instigante no Brasil do s\u00e9culo XXI. 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