{"id":178,"date":"2014-03-28T23:07:51","date_gmt":"2014-03-28T23:07:51","guid":{"rendered":"http:\/\/ultimato.com.br\/sites\/dignidade\/?p=178"},"modified":"2014-03-28T15:20:20","modified_gmt":"2014-03-28T15:20:20","slug":"ditadura-nunca-mais","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/ultimato.com.br\/sites\/dignidade\/2014\/03\/28\/ditadura-nunca-mais\/","title":{"rendered":"Ditadura Nunca Mais"},"content":{"rendered":"<p>&nbsp;<\/p>\n<p>por Jorge Barros*<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<div id=\"attachment_179\" style=\"width: 216px\" class=\"wp-caption alignleft\"><a href=\"http:\/\/bnmdigital.mpf.mp.br\/#!\/\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" aria-describedby=\"caption-attachment-179\" class=\" wp-image-179   \" alt=\"\" src=\"http:\/\/ultimato.com.br\/sites\/dignidade\/files\/2014\/03\/logo-brasil-nunca-mais-digital-3.png\" width=\"206\" height=\"206\" srcset=\"https:\/\/ultimato.com.br\/sites\/dignidade\/files\/2014\/03\/logo-brasil-nunca-mais-digital-3.png 294w, https:\/\/ultimato.com.br\/sites\/dignidade\/files\/2014\/03\/logo-brasil-nunca-mais-digital-3-150x150.png 150w, https:\/\/ultimato.com.br\/sites\/dignidade\/files\/2014\/03\/logo-brasil-nunca-mais-digital-3-80x80.png 80w\" sizes=\"auto, (max-width: 206px) 100vw, 206px\" \/><\/a><p id=\"caption-attachment-179\" class=\"wp-caption-text\">Clique na imagem para visitar o site &#8220;Brasil: Nunca Mais Digit@l&#8221;<\/p><\/div>\n<p>Hoje fez 50 anos que foi controlada a Revolta dos Marinheiros, a rebeli\u00e3o de pra\u00e7as que se entrincheiraram no Sindicato dos Metal\u00fargicos, na Rua Ana N\u00e9ri, em Benfica. Eu e minha fam\u00edlia mor\u00e1vamos ali perto, na Rua Fausto Barreto 10. Eu ia completar dois anos em maio daquele ano. Meu pai, Jorge da Costa, fora cassado pelo AI-2. Era sargento da Aeron\u00e1utica, militava no Centro Popular de Cultura da UNE e era estudante de direito na UFRJ, cujo campus era ao lado da Pra\u00e7a da Rep\u00fablica. Meu pai era atuante no C.A.C.O. (Centro Acad\u00eamico C\u00e2ndido de Oliveira), um centro de agita\u00e7\u00e3o do movimento estudantil, que completar\u00e1 cem anos em 2017.<\/p>\n<p>Para completar o perfil &#8220;comunista&#8221; do meu pai &#8212; que nunca foi filiado a nenhum partido comunista &#8212; ele era locutor da R\u00e1dio Mayrink Veiga, no Centro do Rio, que era considerado um centro de agita\u00e7\u00e3o brizolista.<\/p>\n<p>Essa introdu\u00e7\u00e3o \u00e9 para explicar que nas minhas veias corre sangue antigolpista. Acusado de n\u00e3o-sei-o-qu\u00ea, meu pai foi preso incomunic\u00e1vel por 60 dias no Parque de Material Aeron\u00e1utico, na Avenida Brasil, Zona Norte do Rio. Apesar disso, nunca vi meu pai chorando pelos cantos, criticando o regime militar. Ele foi privado de participar de concursos p\u00fablicos simplesmente porque fora cassado como militar, sem qualquer acusa\u00e7\u00e3o formal. S\u00f3 em 1979, quando comecei a estudar jornalismo, fui saber dessa hist\u00f3ria contada pelo meu pai. Eu detestava pol\u00edtica, como boa parte dos jovens da minha gera\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>Na faculdade, Suse, em Jacarepagu\u00e1, peguei um jornalzinho dos estudantes intitulado &#8220;Pro que der e vier&#8221;. Havia uma nota pequena, mas que cresceu diante dos meus olhos. Lembrava que um militante, M\u00e1rio Alves, havia sido torturado, empalado e morto no Doi-Codi, na Bar\u00e3o de Mesquita. Aquela not\u00edcia me chocou. Por que afinal um ser humano havia sido v\u00edtima de tanta trucul\u00eancia dentro de um quartel do Ex\u00e9rcito? Os militares n\u00e3o eram preparados para enfrentar o inimigo externo? O que levou militares a assassinarem seus compatriotas, dentro dos quart\u00e9is transformados em masmorras?<\/p>\n<p>A curiosidade, o pavor e as d\u00favidas diante de uma fra\u00e7\u00e3o da Hist\u00f3ria me levaram a cobrar do meu pai explica\u00e7\u00f5es sobre o que afinal fora aquela &#8220;revolu\u00e7\u00e3o de 64&#8221;. No Centro C\u00edvico Escolar (CCE) da Escola Marechal Mascarenhas de Moraes, no Caju, ouvi falar que os militares haviam feito uma revolu\u00e7\u00e3o para livrar o pa\u00eds do comunismo. Mas era preciso tanta viol\u00eancia?<\/p>\n<p>A resposta do meu pai durou uma noite. Foi uma aula de pol\u00edtica em casa. Passei ent\u00e3o a gostar do assunto e a ler tudo o que ca\u00eda nas minhas m\u00e3os sobre pol\u00edtica. Entendi que em 1964 o pa\u00eds estava dividido. Quem n\u00e3o tinha nada estava de um lado. Quem tinha muito ou alguma coisa estava do outro. Esse lado conseguiu apoio da elite militar e da superpot\u00eancia americana para fechar o cerco e varrer os que estavam no poder e defendiam profundas reformas sociais e pol\u00edticas. Quem tinha muito alegava que o Brasil marchava, sem volta, para o comunismo &#8212; ideologia difundida pela guerra fria, que dividia o mundo entre capitalistas e comunistas.<\/p>\n<p>Atemorizados pela &#8220;amea\u00e7a comunista&#8221; &#8212; cujo p\u00e2nico foi gerado pela propaganda americana &#8212; os religiosos, cat\u00f3licos e protestantes, tamb\u00e9m aderiram \u00e0 ideia do golpe, de se romper com a legalidade, em nome da liberdade. O golpe gerou o que de pior pode gerar uma sociedade: terror, repress\u00e3o pol\u00edtica e social, censura \u00e0 imprensa, viol\u00eancia sem controle, controle social absoluto, suspens\u00e3o dos direitos pol\u00edticos, arb\u00edtrio, ditadura. A democracia foi jogada na lata do lixo, sempre debaixo da tese de que o golpe era justamente para defender a democracia. Mentira em cima de mentira.<\/p>\n<p>Cinquenta anos depois, temos um pa\u00eds pior, mil vezes pior do que se tivesse seguido seu destino democr\u00e1tico. Durante os anos de chumbo, n\u00e3o foi s\u00f3 tortura que se ofereceu aos oponentes. \u00c0 sociedade foi entregue um legado de empobrecimento cultural e a desigualdade social se acirrou, enquanto os militares investiam em desenvolvimento. At\u00e9 hoje o Brasil patina na educa\u00e7\u00e3o. A impunidade na corrup\u00e7\u00e3o tamb\u00e9m \u00e9 heran\u00e7a da ditadura, que, auxiliada pela censura \u00e0 imprensa, conseguiu acobertar grandes falcatruas de seus ministros e governantes nomeados, sem elei\u00e7\u00f5es diretas. Os movimentos pol\u00edticos e sociais foram castrados ao ponto de assistirmos hoje alguns deles renascerem sob a \u00e9gide do terror e do mesmo tipo de viol\u00eancia que foi empregado pela ditadura.<\/p>\n<p>Esclare\u00e7o que nunca fui favor\u00e1vel \u00e0 rea\u00e7\u00e3o armada dos grupos de esquerda, que lutaram para derrubar a ditadura. Sinceramente, n\u00e3o me interessa mais se esses grupos tinham o ideal de implantar o comunismo no Brasil. Jamais conseguiriam. N\u00e3o resta d\u00favida de que a luta armada acirrou tamb\u00e9m a rea\u00e7\u00e3o da linha-dura do regime militar, que deu seu golpe de miseric\u00f3rdia com o AI-5, em dezembro de 1968. A ditadura poderia ser derrubada por a\u00e7\u00f5es pac\u00edficas? N\u00e3o se sabe, mas teria sido poss\u00edvel, sim. A n\u00e3o-viol\u00eancia tamb\u00e9m \u00e9 uma forma de resist\u00eancia.<\/p>\n<p>Desculpe alugar voc\u00eas com meus dilemas. Cinquenta anos depois, estou cada dia mais convicto que nenhuma forma de ditadura vale \u00e0 pena. Seja de direita, seja de esquerda. Criado \u00e0 semelhan\u00e7a divina, o homem nasceu para ser livre e decidir seu pr\u00f3prio destino. E que Deus nos ajude a decidirmos pelo melhor. E, sem d\u00favida, democracia \u00e9 melhor. Sempre.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>*Este texto foi publicado hoje pela manha nas redes sociais no perfil do jornalista do O Globo Jorge Barros. Jorge \u00e9 um amigo de longa data, homem de f\u00e9, irm\u00e3o camarada e comprometido com a dignidade humana. \u00c9 um privil\u00e9gio t\u00ea-lo por aqui no Dignidade!<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>&nbsp; por Jorge Barros* &nbsp; Hoje fez 50 anos que foi controlada a Revolta dos Marinheiros, a rebeli\u00e3o de pra\u00e7as que se entrincheiraram no Sindicato dos Metal\u00fargicos, na Rua Ana N\u00e9ri, em Benfica. 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