{"id":155,"date":"2014-03-22T16:50:19","date_gmt":"2014-03-22T16:50:19","guid":{"rendered":"http:\/\/ultimato.com.br\/sites\/dignidade\/?p=155"},"modified":"2014-03-22T03:50:58","modified_gmt":"2014-03-22T03:50:58","slug":"a-dignidade-o-instante-e-o-anonimo","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/ultimato.com.br\/sites\/dignidade\/2014\/03\/22\/a-dignidade-o-instante-e-o-anonimo\/","title":{"rendered":"A dignidade, o instante e o an\u00f4nimo"},"content":{"rendered":"<p><a href=\"http:\/\/ultimato.com.br\/sites\/dignidade\/files\/2014\/03\/roda.jpg\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"size-medium wp-image-156 alignleft\" alt=\"roda\" src=\"http:\/\/ultimato.com.br\/sites\/dignidade\/files\/2014\/03\/roda-300x220.jpg\" width=\"300\" height=\"220\" srcset=\"https:\/\/ultimato.com.br\/sites\/dignidade\/files\/2014\/03\/roda-300x220.jpg 300w, https:\/\/ultimato.com.br\/sites\/dignidade\/files\/2014\/03\/roda-1024x752.jpg 1024w, https:\/\/ultimato.com.br\/sites\/dignidade\/files\/2014\/03\/roda-150x110.jpg 150w, https:\/\/ultimato.com.br\/sites\/dignidade\/files\/2014\/03\/roda.jpg 1936w\" sizes=\"auto, (max-width: 300px) 100vw, 300px\" \/><\/a>\u201cSons que se dissipam\u201d e sons que chegam; um \u00f4nibus, uma pra\u00e7a; uma presen\u00e7a e uma leitura. Coisas que primeiro me chegaram em emo\u00e7\u00e3o e, depois, me fizeram pensar. Dignidade se revela no instante, e no an\u00f4nimo.<\/p>\n<p><i>O instante.<\/i> Semana passada, tentando recolocar o corpo na rotina, fui correr. A pra\u00e7a estava convidativa, uma pista regular, dividida com pedestres. Pra\u00e7as s\u00e3o lugares de encontros. Havia um cheiro de flor, uma luminosidade boa, sorrisos, sons de crian\u00e7as, gente lendo, c\u00e3ezinhos correndo no gramado. Reparei em uma senhora idosa, sentada graciosamente em um dos bancos de madeira, abaixo da \u00e1rvore, com um carrinho de apoio para andar, com cesta para carregar coisas, que repousava ao lado do banco. O coque no alto da cabe\u00e7a exibia um porte elegante, um casaco discreto, cabelos naturalmente prateados. S\u00f3, n\u00e3o parecia sozinha.<\/p>\n<p>A senhora olhava ao redor, enquanto eu olhava para ela \u00e0 dist\u00e2ncia, mantendo meus movimentos. Mas o olhar senil n\u00e3o cruzou os meus olhos corridos. Caiu sobre o olhar jovial de uma m\u00e3e que, por sua vez, olhava para os filhos, um casal de crian\u00e7as. Por raz\u00f5es muito diferentes das minhas, as crian\u00e7as corriam. A mais velha \u00e0 frente, a mais nova logo atr\u00e1s, titubeando. Quando decidiram por destinos diferentes, a m\u00e3e se viu em apuros. Correu para uma, olhou para a segunda, que ficava cada vez mais distante, saiu em dire\u00e7\u00e3o a esta \u00faltima e, no fim, heroicamente reuniu as duas.<\/p>\n<p>Em sua face n\u00e3o havia sinal de cansa\u00e7o pelo esfor\u00e7o das corridas, apenas alegria de fim de tarde no parque com os filhos. J\u00e1 chegando pr\u00f3ximo \u00e0 cena, eu focava meu olhar na senhora, enquanto via simultaneamente a m\u00e3e com as crian\u00e7as. Presenciei o sublime. No instante em que a m\u00e3e reuniu os dois filhos e os tr\u00eas riram, a senhora sorriu. Um sorriso t\u00e3o denso e profundo, alegre e desejoso, um sorriso de passado, de presente e de sonhos.<\/p>\n<p><i>\u00a0<\/i><\/p>\n<p><i>O an\u00f4nimo<\/i>. Facebook \u00e9 um exerc\u00edcio quase di\u00e1rio. Costumo abrir tais p\u00e1ginas de vidas alheias e me perceber na rela\u00e7\u00e3o com elas. Outro dia, exercitando, encaro a narrativa de um fato \u2013 tipicamente carioca -, que transcrevo, com permiss\u00e3o da autora-protagonista:<\/p>\n<p>\u201cOs sons se dissipam rapidamente. A vis\u00e3o fica turva, escurece. Minhas pernas bambeiam e penso: &#8220;J\u00e1 era, vou desmaiar&#8221; &#8211; e, tendo em vista meu hist\u00f3rico, eu ia mesmo. S\u00e3o 8h da manh\u00e3 e eu estou num 457 lotado, quase sem ventila\u00e7\u00e3o. Em p\u00e9, sob um sol escaldante, que, pasmem, tem a capacidade de deixar um dia absolutamente lindo \u00e0 beira do \u201cinviv\u00edvel\u201d. Suando frio, era prov\u00e1vel que eu estivesse bem branca, quase sem cor. Eis que, ent\u00e3o, sinto uma m\u00e3o no meu ombro e ou\u00e7o algo como: \u201c_ Voc\u00ea t\u00e1 passando mal?\u201d At\u00e9 agora n\u00e3o sei se respondi ou sequer esbocei qualquer rea\u00e7\u00e3o. N\u00e3o me lembro do rosto do sujeito, nada. Mas marquei seu olhar cuidadoso, quase fraternal, que tratou de logo me arrumar um assento. Fez vento. Se importou. E, tentando me acalmar, repetia: \u201c_ \u00c9 o calor, vai ficar tudo bem.\u201d\u201d<\/p>\n<p>A narrativa fechava com um agradecimento e um \u201cstatus: restituindo a f\u00e9 na humanidade\u201d. Tamb\u00e9m eu virei-me para esse estado.<\/p>\n<p>Narrativas e viv\u00eancias cotidianas simples, nos olhos que observam, nos olhos que leem, no instante simult\u00e2neo a uma corrida, no passado, no pr\u00f3ximo que se revela nas letras das m\u00eddias. Dignidade \u00e9 sorrir na velhice, rir na pra\u00e7a, ver o mundo; \u00e9 gratid\u00e3o, \u00e9 humano, \u00e9 f\u00e9.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>Priscila Vieira<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>\u201cSons que se dissipam\u201d e sons que chegam; um \u00f4nibus, uma pra\u00e7a; uma presen\u00e7a e uma leitura. Coisas que primeiro me chegaram em emo\u00e7\u00e3o e, depois, me fizeram pensar. Dignidade se revela no instante, e no an\u00f4nimo. O instante. Semana passada, tentando recolocar o corpo na rotina, fui correr. 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