{"id":149,"date":"2014-03-21T18:13:55","date_gmt":"2014-03-21T18:13:55","guid":{"rendered":"http:\/\/ultimato.com.br\/sites\/dignidade\/?p=149"},"modified":"2014-03-21T02:46:20","modified_gmt":"2014-03-21T02:46:20","slug":"esquecer-invisibilizar-e-no-fim-barbarie","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/ultimato.com.br\/sites\/dignidade\/2014\/03\/21\/esquecer-invisibilizar-e-no-fim-barbarie\/","title":{"rendered":"Esquecer, Invisibilizar e, no fim, Barb\u00e1rie"},"content":{"rendered":"<p>&nbsp;<\/p>\n<p style=\"text-align: center;\"><a href=\"http:\/\/ultimato.com.br\/sites\/dignidade\/files\/2014\/03\/luto.jpg\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"size-full wp-image-150 aligncenter\" alt=\"luto\" src=\"http:\/\/ultimato.com.br\/sites\/dignidade\/files\/2014\/03\/luto.jpg\" width=\"259\" height=\"194\" srcset=\"https:\/\/ultimato.com.br\/sites\/dignidade\/files\/2014\/03\/luto.jpg 259w, https:\/\/ultimato.com.br\/sites\/dignidade\/files\/2014\/03\/luto-150x112.jpg 150w\" sizes=\"auto, (max-width: 259px) 100vw, 259px\" \/><\/a><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>Ainda n\u00e3o consegui digerir a morte da Cl\u00e1udia Silva Ferreira. N\u00e3o consigo esquecer aquela imagem. \u00c9 como se minha mente, de maneira arbitr\u00e1ria, se esfor\u00e7asse por simular em minha pr\u00f3pria carne a sensa\u00e7\u00e3o de ter a minha pele sendo desfigurada ao ser arrastada violentamente em asfalto quente, por 350 metros. \u00c9 como se a todo o momento meu subconsciente reproduzisse de maneira aud\u00edvel aos meus ouvidos a voz de uma adolescente, agora \u00f3rf\u00e3, dizendo: \u201cjogaram a minha m\u00e3e igual a bicho\u201d. E tudo isso, eu ainda n\u00e3o digeri.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>Tamanho inc\u00f4modo n\u00e3o me permite alcan\u00e7ar abstra\u00e7\u00e3o necess\u00e1ria para escrever sobre outra coisa ou focar em outra reflex\u00e3o, eu n\u00e3o consigo esquecer. E ao n\u00e3o esquecer, eu lembro que \u00e9 exatamente o <i>esquecimento<\/i> que nos afronta como instrumento de destrui\u00e7\u00e3o da esperan\u00e7a que busca insistentemente o seu lugar, perturbador da nossa mem\u00f3ria, estabilizador das pot\u00eancias de conflito de nossas contradi\u00e7\u00f5es sociais.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>O <i>esquecimento<\/i> \u00e9 a aposta dos que det\u00e9m o poder, dos que oprimem cotidianamente, possuidores da legitimidade da for\u00e7a e da viol\u00eancia. \u00c9 a aposta de que, seja l\u00e1 qual for a dor ou a dimens\u00e3o da injusti\u00e7a, sempre contra os mais fracos, sua indigna\u00e7\u00e3o popular causada n\u00e3o se sustentar\u00e1, ser\u00e1 dilu\u00edda, dissolver-se-\u00e1 na futilidade do nosso cotidiano, em meio a folcloriza\u00e7\u00e3o das nossas desigualdades sociais, na repeti\u00e7\u00e3o das nossas a\u00e7\u00f5es de postagens, curtidas e compartilhamentos. Pois todo assunto, por mais b\u00e1rbaro que seja, no fim, vai mesmo para o fundo de nossas <i>timelines<\/i>.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>O <i>esquecimento<\/i> \u00e9 o gatilho da nossa capacidade de invisibilizar a condi\u00e7\u00e3o do outro, de neutralizar a nossa sensibilidade, inclusive a pr\u00f3pria sensibilidade de quem sofre. Ele se torna o arcabou\u00e7o da produ\u00e7\u00e3o de invis\u00edveis, e o poder n\u00e3o se relaciona com invis\u00edveis. Ele elimina. Uma elimina\u00e7\u00e3o que nem sempre se materializa na supress\u00e3o da vida, mas na nega\u00e7\u00e3o da dignidade da vida, nega\u00e7\u00e3o que torna a vida <i>in-viv\u00edvel<\/i>, exatamente pela invisibilidade que aliena o acesso ao direito, aos servi\u00e7os, ao reconhecimento. O poder n\u00e3o se relaciona com invis\u00edveis, as urg\u00eancias e clamores dos miser\u00e1veis n\u00e3o interessa.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>Eis que a resposta do estado, a resposta do poder, quando vem a p\u00fablico, nunca vem como uma rela\u00e7\u00e3o face a face \u2013 um pedido de desculpas, um reconhecimento de vergonha, um manifesto de rep\u00fadio, um compromisso de indeniza\u00e7\u00e3o \u2013 como um olhar nos olhos do injusti\u00e7ado, do vitimado, do indefeso, do fraco, do desprovido. A resposta do estado \u00e9 sempre um gesto proporcional \u00e0 visibilidade midi\u00e1tica da trag\u00e9dia, ou seja, o tamanho da repercuss\u00e3o. A resposta do estado n\u00e3o foi dada \u00e0 fam\u00edlia de Cl\u00e1udia Silva Ferreira, a resposta foi dada \u00e0 imprensa, \u00e0 m\u00eddia, \u00e0 press\u00e3o dos olhos de todo o Brasil e do mundo. Sem olhos nos olhos, sempre a media\u00e7\u00e3o da c\u00e2mera, do microfone, do foco. Mesmo ao ter encontrado a fam\u00edlia de Cl\u00e1udia Silva Ferreira, a media\u00e7\u00e3o est\u00e1 presente na rela\u00e7\u00e3o com o governador, chefe m\u00e1ximo do Estado. A media\u00e7\u00e3o \u00e9 simb\u00f3lica, mas est\u00e1.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>No fundo, a mulher negra, pobre, favelada, detalhe an\u00f4nimo num territ\u00f3rio criminalizado, de corpos criminalizados, continua sendo invis\u00edvel. Sendo invis\u00edvel, ao que tudo indica, ap\u00f3s toda essa euforia de como\u00e7\u00e3o e revolta ser\u00e1 digna de nosso <i>esquecimento<\/i>. Mas at\u00e9 agora eu n\u00e3o digeri, eu n\u00e3o consegui esquecer.<\/p>\n<div><\/div>\n<div>Ronilso Pacheco<\/div>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>&nbsp; &nbsp; Ainda n\u00e3o consegui digerir a morte da Cl\u00e1udia Silva Ferreira. N\u00e3o consigo esquecer aquela imagem. \u00c9 como se minha mente, de maneira arbitr\u00e1ria, se esfor\u00e7asse por simular em minha pr\u00f3pria carne a sensa\u00e7\u00e3o de ter a minha pele sendo desfigurada ao ser arrastada violentamente em asfalto quente, por 350 metros. \u00c9 como se [&hellip;]<\/p>\n","protected":false},"author":42,"featured_media":0,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"ngg_post_thumbnail":0,"footnotes":""},"categories":[116],"tags":[20877,20893,6097],"class_list":["post-149","post","type-post","status-publish","format-standard","hentry","category-blog","tag-policia","tag-ronilso","tag-violencia"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/ultimato.com.br\/sites\/dignidade\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/149","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/ultimato.com.br\/sites\/dignidade\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/ultimato.com.br\/sites\/dignidade\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/ultimato.com.br\/sites\/dignidade\/wp-json\/wp\/v2\/users\/42"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/ultimato.com.br\/sites\/dignidade\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=149"}],"version-history":[{"count":4,"href":"https:\/\/ultimato.com.br\/sites\/dignidade\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/149\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":154,"href":"https:\/\/ultimato.com.br\/sites\/dignidade\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/149\/revisions\/154"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/ultimato.com.br\/sites\/dignidade\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=149"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/ultimato.com.br\/sites\/dignidade\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=149"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/ultimato.com.br\/sites\/dignidade\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=149"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}