Jó, se eu fosse você […] Feliz é aquele a quem Deus corrige! [Jó 5.8, 17]
As indelicadezas de Elifaz tornam-se ainda mais graves. No entanto, é possível aproveitarmos algo delas. Você já passou por uma dor, uma perda ou um sofrimento em que foi preciso ouvir relatos de como outros passaram por sofrimento ainda pior? Se quiser consolar um amigo, não chame atenção para si mesmo. Não é você quem está sofrendo, não agora. É seu amigo. Interesse-se por ele. Se ele precisar, pedirá a sua opinião. Se não, morda a língua e escute.
“Jó, se eu fosse você, voltaria para Deus.” Que coisa horrível! Elifaz não pergunta, mas pressupõe o pecado como sendo a “causa” dos sofrimentos de Jó. Aliás, não aguentamos sofrer ou ver alguém sofrendo sem identificar a “causa”. Além disso, é arrogância dizer “se eu fosse você”…
Para completar a insensibilidade, Elifaz afirma: “Feliz é aquele a quem Deus corrige”. Ao dizer isso ele demonstra dois equívocos. Primeiro, Jó pecou e Deus o está corrigindo. Ora, Jó pecou? Existe alguém que não pecou ou que não peca? A resposta é óbvia e em momento algum Jó afirma ser um homem sem pecado, mesmo sendo “homem íntegro e reto, temente a Deus e que se desviava do mal” (1.1). E, mais: ele era vítima de uma “aposta” entre Deus e o Acusador. Do mesmo modo que também há vítimas inocentes de desastres naturais, acidentes horríveis e outras mazelas de um mundo ainda em aflição.
Por fim, Elifaz afirma que Jó precisava ser “feliz” ou “bem-aventurado” (5.17). Novamente, o apelo para alegrar-se é apenas mais uma dimensão da teologia da compensação que parte do pressuposto de que somos nós que mudamos a nossa situação.
Cura divina é prometida para os que choram (Is 57.18; 61.2). Bem-aventurados são os que choram (Mt 5.4). Nós devemos chorar com aqueles que choram, não exortá-los a serem felizes (Rm 12.15). Deus restaura em meio ao choro.
Pai, sou péssimo ouvinte das dores do outro. Não sei distinguir entre o momento em que devo ser doce e o momento em que devo fazer advertência. Em nome de Cristo Jesus, dá-me sabedoria e um coração compassivo.
>> Retirado de Refeições Diárias – Celebrando a Reconciliação. Editora Ultimato.
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