{"id":991,"date":"2017-12-06T14:15:59","date_gmt":"2017-12-06T17:15:59","guid":{"rendered":"http:\/\/ultimato.com.br\/sites\/cslewis\/?p=991"},"modified":"2017-12-06T14:15:59","modified_gmt":"2017-12-06T17:15:59","slug":"meu-encontro-com-o-super-homem","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/ultimato.com.br\/sites\/cslewis\/2017\/12\/06\/meu-encontro-com-o-super-homem\/","title":{"rendered":"Meu encontro com o Super-homem"},"content":{"rendered":"<p style=\"text-align: right;\">De G.K. Chesterton<\/p>\n<p style=\"text-align: right;\">Trad. Gabriele Greggersen<\/p>\n<h2>Daily News, 1909<\/h2>\n<p>Possivelmente os apreciadores do Sr. Bernard Shaw e muitos autores modernos ficariam interessad\u00edssimos em saber: o Super-homem<a href=\"#_ftn1\" name=\"_ftnref1\">[1]<\/a> foi localizado. Fui eu que o encontrei; ele mora na cidade inglesa de South Croydon<a href=\"#_ftn2\" name=\"_ftnref2\">[2]<\/a>. O Sr. Shaw que seguia uma pista completamente falsa e est\u00e1 agora procurando a criatura na cidade de Blackpool<a href=\"#_ftn3\" name=\"_ftnref3\">[3]<\/a>; e no que diz respeito \u00e0 id\u00e9ia do Sr. Wells, de produzi-lo no seu laborat\u00f3rio particular \u00e0 base de diferentes combust\u00edveis, sempre tive a intui\u00e7\u00e3o de que estava fadada ao fracasso. Posso assegurar ao Sr. Wells que o Super-homem de Croydon nasceu pelo m\u00e9todo ordin\u00e1rio, embora ele mesmo evidentemente seja tudo, menos ordin\u00e1rio.<\/p>\n<p>Seus pais tamb\u00e9m n\u00e3o s\u00e3o menos indignos do ser maravilhoso que eles puseram neste mundo. O nome da Madame Hypatia<a href=\"#_ftn4\" name=\"_ftnref4\">[4]<\/a> Smythe-Brown (chamada hoje de Madame Hypatia Hagg<a href=\"#_ftn5\" name=\"_ftnref5\">[5]<\/a>) jamais ser\u00e1 esquecido no Extremo Oriente, onde ela realizou um trabalho social deveras magn\u00edfico. O seu brado retumbante, \u201csalvem as crian\u00e7as!\u201d, referia-se ao atroz pouco caso dado \u00e0 sensibilidade visual das crian\u00e7as, que tinham a abusiva permiss\u00e3o de brincar com brinquedos escandalosamente coloridos. Ela citava estat\u00edsticas irrefut\u00e1veis de que as crian\u00e7as freq\u00fcentemente expostas \u00e0 vis\u00e3o de cores violetas e rubras, passavam a sofrer de vista cansada quando chegam a uma idade extremamente avan\u00e7ada. Isso representava parte relevante da sua incans\u00e1vel luta por livrar-se da pestil\u00eancia destes charlat\u00e3es travessos de Hoxton<a href=\"#_ftn6\" name=\"_ftnref6\">[6]<\/a>.<\/p>\n<p>Todo trabalhador honesto deveria varrer as ruas incansavelmente atr\u00e1s de brinquedos assim, e arranc\u00e1-los das pobres criancinhas, que usualmente respondem com l\u00e1grimas de como\u00e7\u00e3o diante de tanta gentileza. Mas a obra de caridade da madame teve que ser interrompida, em parte pelo seu mais novo interesse pela cren\u00e7a no Zoroastro, mas tamb\u00e9m por um golpe violento de guarda-chuva. O mesmo foi dado por uma camponesa irlandesa decadente, que, ao voltar ao seu maltratado apartamento de alguma de suas orgias, pegou a Madame Hypatia no quarto de dormir, removendo uma pintura a \u00f3leo da parede, que ela considerava \u00a0francamente, n\u00e3o contribuir em nada para a eleva\u00e7\u00e3o do seu esp\u00edrito.<\/p>\n<p>Diante disto a celta ignorante e parcialmente embriagada deu um golpe violento na reformadora social, acrescentando a isto uma acusa\u00e7\u00e3o de roubo absurda. A normalmente t\u00e3o equilibrada madame ficou de mente abalada. Foi durante um breve per\u00edodo de doen\u00e7a mental dessas que ela foi se casar com o Dr. Hagg.<\/p>\n<p>Do pr\u00f3prio Dr. Hagg, espero n\u00e3o ter que falar. Qualquer pessoa minimamente familiarizada com os audazes experimentos de Eugen\u00e9tica Neo-Individualista, que se tornaram agora o assunto mais &#8220;quente&#8221; da democracia inglesa, deve ter ouvido falar neste nome, atribuindo-o muitas vezes \u00e0 sua prote\u00e7\u00e3o profissional e poder impessoal. J\u00e1 desde cedo ele defendia uma postura que lhe foi incutida na inf\u00e2ncia de engenheiro el\u00e9trico e que a hist\u00f3ria das religi\u00f5es considera primitiva. Mais tarde, ele se tornaria um dos nossos maiores ge\u00f3logos. Acabou, assim, desenvolvendo uma vis\u00e3o de mundo radiante em rela\u00e7\u00e3o ao futuro do socialismo, que s\u00f3 a geologia pode proporcionar. A princ\u00edpio, parece haver algo semelhante a uma brecha, uma sutil, mas percept\u00edvel fissura entre as suas id\u00e9ias e as da sua esposa aristocr\u00e1tica.<\/p>\n<p>Pois ela era a favor (para usar suas pr\u00f3prias palavras pomposas) da prote\u00e7\u00e3o dos pobres contra eles mesmos; enquanto ele declarava impiedosamente, usando uma nova e impressionante met\u00e1fora, que os mais fracos deviam ser fuzilados. No final das contas, entretanto, depois de selado o matrim\u00f4nio, o casal deu-se conta de sua unidade essencial, pelo car\u00e1ter inequivocadamente moderno de ambas as vis\u00f5es de mundo. Com isto suas almas encontraram a paz nesta express\u00e3o iluminadora e abrangente. O resultado foi que esta uni\u00e3o entre as duas manifesta\u00e7\u00f5es mais altas de civiliza\u00e7\u00e3o, da encantadora madame e do nada ordin\u00e1rio doutor, foi aben\u00e7oada pelo nascimento do Super-homem, aquele ser que todos os trabalhadores de Battersea estavam aguardando dia e noite ansiosos.<\/p>\n<p>N\u00e3o foi nada dif\u00edcil achar a casa do doutor e da Madame Hypatia Hagg; ela se situa numa das ruas menos remotas de Croydon, sendo vigiada de perto por uma galeria de \u00e1rvores. Aproximei-me da porta em meio \u00e0 penumbra. Era natural que eu imaginasse um vulto escuro e monstruoso na vastid\u00e3o turva daquela casa que deveria supostamente abrigar a criatura mais maravilhosa entre os filhos dos homens. Quando eu entrei na casa, fui recebido com distinta cortesia pela Madame Hypatia e seu marido. A dificuldade maior foi chegar a ver o Super-homem de fato, que j\u00e1 estava com aproximadamente quinze anos de idade, sendo mantido isolado em um quarto silencioso. A conversa que mantive com o seu pai e sua m\u00e3e n\u00e3o esclareceu muita coisa, nem mesmo sobre o car\u00e1ter daquele misterioso ser. O rosto de Madame Hypatia era p\u00e1lido e penetrante, coberto por uma camada de maquiagem acinzentada e esverdeada intoc\u00e1vel e cruel, com a qual ela iluminava tantos lares de Hoxton. Ela nem o quis expor, para falar do seu rebento com a vaidade vulgar de uma m\u00e3e humana ordin\u00e1ria. Dei um passo \u00e0 frente e perguntei, se o Super-homem era bonito.<\/p>\n<p>&#8211; Ele faz o seu pr\u00f3prio estilo, sabe? &#8211; respondeu ela, com um olhar de desd\u00e9m. \u2013 Neste aspecto, ele \u00e9 superior a Apollo. Isto, visto do nosso plano inferior, \u00e9 claro&#8230; &#8211; E voltou a assumir aquele olhar.<\/p>\n<p>Senti um \u00edmpeto terr\u00edvel e perguntei sem rodeios:<\/p>\n<p>&#8211; Ele \u00e9 careca?<\/p>\n<p>Houve um longo e doloroso sil\u00eancio, e ent\u00e3o Dr. Hagg disse diretamente:<\/p>\n<p>&#8211; Naquela dimens\u00e3o tudo \u00e9 diferente, no caso dele &#8230; bem, \u00e9 claro que n\u00e3o se trata do que chamamos de cabelo &#8230; mas &#8230;<\/p>\n<p>&#8211; Voc\u00ea n\u00e3o acha &#8211; disse a esposa com ternura &#8211; n\u00e3o concorda que, na realidade, para efeitos did\u00e1ticos, ao falarmos com gente simples, n\u00e3o dev\u00edamos cham\u00e1-lo de cabelo mesmo?<\/p>\n<p>&#8211; Talvez voc\u00ea esteja certa, &#8211; disse o doutor depois de alguns minutos de reflex\u00e3o- para falar de cabelos como aqueles \u00e9 precisamos usar par\u00e1bolas.<\/p>\n<p>&#8211; Mas, o que mais, poderia ser &#8211; perguntei eu com certa irrita\u00e7\u00e3o \u2013 se n\u00e3o ser, cabelo? Seriam penas?<\/p>\n<p>&#8211; N\u00e3o se trata de penas, no sentido que n\u00f3s costumamos entender,- respondeu Hagg \u00a0com uma voz horr\u00edvel.<\/p>\n<p>Eu fiquei um tanto irritado.<\/p>\n<p>&#8211; Ser\u00e1 que eu posso ao menos v\u00ea-lo? &#8211; perguntei &#8211; Sou um jornalista, e n\u00e3o tenho nenhum interesse sobre a face da Terra, a n\u00e3o ser a mais pura curiosidade e vaidade pessoal. S\u00f3 queria poder dizer a todos que j\u00e1 apertei a m\u00e3o ao Super-homem.<\/p>\n<p>O marido e a esposa puseram-se de p\u00e9 num salto e ficaram paralisados com ar embara\u00e7ada.<\/p>\n<p>&#8211; Bem, sabe como \u00e9 &#8211; disse Madame Hypatia, com aquele sorriso de fato charmoso de anfitri\u00e3 aristocr\u00e1tica. &#8211; Voc\u00ea deve entender que ele n\u00e3o tem exatamente como lhe dar a m\u00e3o \u2026 ele n\u00e3o tem propriamente m\u00e3os, entende? &#8230; \u00c9 claro que a estrutura&#8230;<\/p>\n<p>Com isso, eu rompi com todos os padr\u00f5es sociais e corri para a porta do quarto, onde supunha encontrar a inacredit\u00e1vel criatura. Eu a arrombei; o quarto estava escuro feito breu. Bem \u00e0 minha frente eu ouvi um uivo pequeno e triste, e pelas costas, um duplo grito estridente.<\/p>\n<p>&#8211; Veja s\u00f3 o que voc\u00ea aprontou! &#8211; choramingou Dr. Hagg, enterrando a testa calva nas m\u00e3os. &#8211; Voc\u00ea deixou entrar uma corrente de vento e agora, ele est\u00e1 morto.<\/p>\n<p>Ao deixar a cidade de Croydon naquela noite eu vi homens de preto, carregando um caix\u00e3o que n\u00e3o tinha forma humana. O vento soprava sobre mim, movimentando as \u00e1rvores, de modo a se inclinavam de um lado para o outro, como plumas de algum funeral c\u00f3smico.<\/p>\n<p>&#8211; \u00c9 isso mesmo,- disse o Dr. Hagg, -o universo todo est\u00e1 chorando em virtude frustra\u00e7\u00e3o da mais magn\u00edfica natividade.<\/p>\n<p>C\u00e1 comigo eu achei que havia um tom de riso debochado no fundo do lamento nobre do vento.<\/p>\n<p><a href=\"#_ftnref1\" name=\"_ftn1\">[1]<\/a> N.T. Evidentemente o autor n\u00e3o est\u00e1 se referindo aqui ao personagem de Hollywood que data dos anos 60, e sim do Sobre-homem ou Super-homem, como foi adotado nas tradu\u00e7\u00f5es mais tardias de Friedrich Nietzsche, &#8220;Pr\u00f3logo de Zarathustra&#8221; <em>Assim falou Zarathustra<\/em> (1883) e na obra de Bernard Shaw, <em>Homem e Super-Homem<\/em>. Evidentemente Chesterton est\u00e1 aqui fazendo outra das suas famosas provoca\u00e7\u00f5es ao seu arqui-inimigo literato, Shaw, ainda que fosse seu amigo na pr\u00e1tica.<\/p>\n<p><a href=\"#_ftnref2\" name=\"_ftn2\">[2]<\/a> N.T. Trata-se de uma cidade em Surrey, Inglaterra.<\/p>\n<p><a href=\"#_ftnref3\" name=\"_ftn3\">[3]<\/a> N.T. A cidade \u00e9 reconhecidamente a capital do entretenimento da Gr\u00e3-Bretanha.<\/p>\n<p><a href=\"#_ftnref4\" name=\"_ftn4\">[4]<\/a> N.T. O nome \u00e9 o mesmo da primeira mulher grega (350\u2013370 d.C.)\u00a0 a se destacar na matem\u00e1tica, que vivia na Alexandria sob o imp\u00e9rio romano. Era tamb\u00e9m fil\u00f3sofa neo-plat\u00f4nica e astr\u00f4noma.<\/p>\n<p><a href=\"#_ftnref5\" name=\"_ftn5\">[5]<\/a> N.T. \u201cHag\u201d com um \u201cg\u201d somente significa bruxa, velha malvada.<\/p>\n<p><a href=\"#_ftnref6\" name=\"_ftn6\">[6]<\/a> N.T. Cidade pr\u00f3xima a Liverpool, Inglaterra.<\/p>\n<p>Texto-Fonte dispon\u00edvel: &lt;http:\/\/www.cse.dmu.ac.uk\/~mward\/gkc\/books\/HIFTS.html&gt;. Acesso 07 Set. 2012.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>De G.K. Chesterton Trad. Gabriele Greggersen Daily News, 1909 Possivelmente os apreciadores do Sr. Bernard Shaw e muitos autores modernos ficariam interessad\u00edssimos em saber: o Super-homem[1] foi localizado. Fui eu que o encontrei; ele mora na cidade inglesa de South Croydon[2]. 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