{"id":983,"date":"2017-12-06T14:11:21","date_gmt":"2017-12-06T17:11:21","guid":{"rendered":"http:\/\/ultimato.com.br\/sites\/cslewis\/?p=983"},"modified":"2017-12-06T14:13:49","modified_gmt":"2017-12-06T17:13:49","slug":"as-sombras","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/ultimato.com.br\/sites\/cslewis\/2017\/12\/06\/as-sombras\/","title":{"rendered":"As sombras"},"content":{"rendered":"<p style=\"text-align: right;\">de George MacDonald<\/p>\n<p style=\"text-align: right;\">Trad. Gabriele Greggersen<\/p>\n<p>O velho Ralf Rinkelmann ganhava a vida com a apresenta\u00e7\u00e3o de pequenas pe\u00e7as de com\u00e9dia. E gastava quase tudo novamente para financiar os seus poemas tr\u00e1gicos. Ent\u00e3o ele era o homem ideal para ser eleito rei do mundo das fadas, pois no reino das fadas deve haver elei\u00e7\u00f5es para a escolha o governante.<\/p>\n<p>Mas elas n\u00e3o tinham a inten\u00e7\u00e3o de o obrigar a vier morar ali de vez; pois elas precisavam da sua presen\u00e7a s\u00f3 em ocasi\u00f5es especiais. Entretanto era preciso, antes de tudo, achar um meio de traze-lo para a sua coroa\u00e7\u00e3o. Uma vez que o coroassem, elas poderiam dispor dele, o quanto lhes aprouvesse, mas havia um probleminha a ser resolvido antes da cerim\u00f4nia. Pois as fadas s\u00f3 t\u00eam poder para transportar os mortais em idade adulta para o seu pa\u00eds em situa\u00e7\u00f5es de vida ou de morte. Assim, elas tiriam que esperar at\u00e9 que surgisse alguma boa oportunidade.<\/p>\n<p>Por sorte elas n\u00e3o tiveram que aguardar muito tempo. Pois o velho Ralf ficou extremamente doente; e enquanto ele pairava entre a vida e a morte, elas aproveitaram para transportar e coroar o rei do Mundo das Fadas. S\u00f3 que \u00e9 evidente, levando em conta o seu estado de sa\u00fade, que ele n\u00e3o teria condi\u00e7\u00f5es de ficar assentado no seu trono no momento seguinte. E com isso, muitos seres terr\u00edveis e maldosos, como gnomos e duendes, que vivem nos buracos e cantos do reino, tiraram proveito do seu estado, fazendo-se de loucos, fazendo todo o tipo de arte com ele, embora j\u00e1 fosse o seu rei. Ficavam zombando do seu reinado, subindo e descendo as escadas. Eles chegaram at\u00e9 a arranha-lo e roer as suas orelhas e olhos, feito ratos, de modo que ele n\u00e3o pudesse ver, nem pensar em mais nada. Mas, para j\u00e1, preciso contar outro detalhe importante nesta parte das suas aventuras. Gra\u00e7as \u00e0 sua enorme dedica\u00e7\u00e3o e esfor\u00e7o leg\u00edtimo, depois enfrentar outros tantos problemas e sofrimentoa, ele acabou conseguindo domar os seus s\u00faditos rebeldes, fazendo tudo voltar \u00e0 vida normal. Aqueles seres foram se esconder em seus respectivos cantos e buracos. E quando voltou \u00e0 realidade humana, o rei Ralf viu-se devolta no seu leito, escorado em seus travesseiros.<\/p>\n<p>Mas o quarto continuava cheio de criaturas obscuras, que pulavam em redor, surtindo efeitos estranhos \u00e0 luz do fogo. Isso fez com que ele suspeitasse a princ\u00edpio at\u00e9, que alguns daqueles duendes rebeldes n\u00e3o foram totalmente subjugados, e que resolveram segui-lo para l\u00e1 dos limites do Mundo das Fadas, at\u00e9 a sua casa, que se situava em Londres. Que outra explica\u00e7\u00e3o poderia haver para o fato desses monstrinhos malucos e brutos estarem o aterrorizando assim Ralf Rinkelmann no seu quarto? Mas ele descobriu logo que, embora eles fossem iguaizinhos \u00e0queles duendes subterr\u00e2neos, por outro lado, eles tamb\u00e9m eram bem diferentes, e demandariam um tratamento bastante diferenciado. Ele estava convencido de que eles haviam aceitado submeter-se \u00e0 condi\u00e7\u00e3o de s\u00faditos, mas que ele devia t\u00ea-los ofendido de alguma forma no dia da sua coroa\u00e7\u00e3o, se \u00e9 que eles estavam realmente presentes; pois ele n\u00e3o conseguia lembrar de j\u00e1 ter visto seres semelhante a eles antes. Da\u00ed que ele tivesse resolvido, dar uma aten\u00e7\u00e3o redobrada aos seus h\u00e1bitos, formas e car\u00e1ter; do contr\u00e1rio, ele tinha plena consci\u00eancia disso. Dentro em breve eles acabariam por subir \u00e0 sua cabe\u00e7a; pelo menos era o que esta invas\u00e3o dos seus aposentos, onde a Sra. Rinkelmann claramente anunciava. Eles nem sequer tiveram em conta a presen\u00e7a da esposa dele, que afinal de contas, se ele era o rei, era a rainha, tomando o seu ch\u00e1 ao lado do fogo. Mas ela notou que ele estava olhando ao redor com uma das express\u00f5es de rosto mais serrenas que ela havia visto, por todos aqueles dias. Agora ele j\u00e1 ia de l\u00e1 para c\u00e1 r\u00e1pida e silenciosamente, com seu rosto radiante de alegria. Neste meio tempo, \u00e0 medida que o fogo ardia, cada vez mais animado, o comportamento das apari\u00e7\u00f5es ia ficando mais e mais retra\u00eddo e formal, recolidas contra a parede, como servi\u00e7ais bem treinados. Depois de servir-se de um pouco de ch\u00e1 e torradas, o rei do reino das fadas reclinou-se nas suas almofadas, e j\u00e1 ia pegar no sono; mas n\u00e3o conseguia ter descanso, pois continuava observando os invasores.<\/p>\n<p>No momento em que a rainha saiu da sala para servir ch\u00e1 aos seus anjinhos; o fogo come\u00e7ou a ficar mais fraco; e era poss\u00edvel observar as figuras ficarem gradativamente mais escuras, e cada vez mais desvairadas, aprontando das suas, como de costume! Ao que parecia suas brincadeiras favoritas eram de esconde-esconde; est\u00e1tua; queimada e muitas outras do g\u00eanero; e n\u00e3o era s\u00f3 isto; de modo que a situa\u00e7\u00e3o foi se tornando cada vez mais alarmante. A situa\u00e7\u00e3o estava quase t\u00e3o grave quanto, se a casa tivesse sido invadida por criaturas, que n\u00e3o s\u00e3o mencionadas nem sequer nos contos de fada, j\u00e1 que o reino das fadas, no que depender dele, n\u00e3o quer ter nada a ver com eles.<\/p>\n<p>Ainda bem que ao menos eles est\u00e3o usando *sapatos, disse o rei a si mesmo, pois ele estava com dor de cabe\u00e7a.<\/p>\n<p>Ent\u00e3o ele se deitou, com os seus olhos semicerrados, j\u00e1 cansado demais para prestar aten\u00e7\u00e3o nas brincadeiras, mas sentindo-se ao mesmo tempo, de uma maneira geral, muito mais distra\u00eddo, do que propriamente ofendido com toda essa liberdade que elas se concediam. Pois, na verdade, as criaturas pareciam alegres e de boa \u00edndole, e n\u00e3o realmente mal intencionadas. Foi ent\u00e3o s\u00f3 que ele se deu subitamente conta de que duas delas se destacavam na parede, dando um passo \u00e0 frente. Pois \u00e0 moda da maioria dos insetos, a grande maioria daquelas criaturas preferia espalhar-se por todos os lados. Mas naquele momento, elas se postaram no meio do corredor, aos p\u00e9s da cama de vossa majestade, curvando-se para reverenciar e exalta-lo num dos mais primitivos gestos de cortesia; e, de quando em quando, eles se viravam com ar solene formando uma roda, evidentemente supondo que este gesto seria o maior sinal de respeito que algu\u00e9m seria capazes de demonstrar.<\/p>\n<ul>\n<li>O que \u00e9 que voc\u00eas desejam?<\/li>\n<li>Que vossa majestade nos fa\u00e7a o favor de nos dar mais aten\u00e7\u00e3o. \u2013 responderam eles. \u2013 Somos seus s\u00faditos, vossa majestade.<\/li>\n<li>Eu sei muito bem quem voc\u00eas s\u00e3o: e isto me deixa muito contente.<\/li>\n<li>Mas n\u00f3s n\u00e3o somos o que vossa majestade est\u00e1 supondo que sejamos. N\u00e3o somos t\u00e3o est\u00fapidos, quanto vossa majestade nos considera.<\/li>\n<li>N\u00e3o consigo associar voc\u00eas a qualquer coisa que eu j\u00e1 tenha visto antes \u2013 replicou o rei, que queria faz\u00ea-los falar, dizendo a primeira coisa que lhe viesse \u00e0 mente- voc\u00eas n\u00e3o conseguem ficar suficientemente parados e quietos no lugar para que eu pudesse consider\u00e1-los soldados, marinheiros ou qualquer coisa do tipo. Suponho que, na verdade, voc\u00eas devem pertencer \u00e0 brigada de inc\u00eandio, pelo menos eu os vejo o tempo todo apagando fogo.<\/li>\n<\/ul>\n<p>&#8211; Pedimos que n\u00e3o brinque conosco, vossa majestade, por favor.<\/p>\n<p>E foram estas as suas palavras, pois ambos falavam ao mesmo tempo ao longo de toda a entrevista, o que fazia o rei ficar profundamente deprimido.<\/p>\n<p>&#8211; N\u00e3o estou brincando \u2013 contestou ele \u2013 muito menos com voc\u00eas! Voc\u00eas \u00e9 que n\u00e3o param de se divertir \u00e0s minhas custas. Voc\u00eas s\u00e3o o qu\u00ea, afinal?<\/p>\n<p>&#8211; Somos sombras, senhor. E, se \u00e9 que estamos brincando, as nossas brincadeiras sempre tem um lado s\u00e9rio. Mas talvez vossa majestade n\u00e3o esteja conseguindo nos reconhecer com clareza.<\/p>\n<p>&#8211; Eu os vejo perfeitamente bem \u2013 replicou o rei.<\/p>\n<p>&#8211; Permita-me, contudo \u2013 retrucou uma das sombras; e na medida em que ela falava, aproximava-se gradativamente do rei, at\u00e9 que, levantando o seu tenebroso dedo indicador, passou-o de leve, e com todo o cuidado, por cima de toda a superf\u00edcie enrugada da sua testa. O rei sentiu o toque escorrendo suavemente feito \u00e1gua para dentro de todos os seus poros, inundando at\u00e9 os cumes das cordilheiras dos seus pensamentos. Ele havia involuntariamente fechado os olhos durante o, e quando ele os abriu novamente, assim que o dedo se afastou, teve a sensa\u00e7\u00e3o de que num outro sentido ele os havia mantido \u00e9 bem abertos. As paredes do quarto pareciam ter se expandido por todos os lados, at\u00e9 perder de vista, de modo que ele j\u00e1 n\u00e3o podia mais distinguir onde elas se encontravam exatamente; e as sombras permaneciam im\u00f3veis espalhadas por todo o campo. Elas eram altas e pomposas, mas, na realidade tinham uma apar\u00eancia bastante assustadora, apesar de elas terem alguns tra\u00e7os bem grosseiros, muito semelhantes aos dos puritanos da \u00e9poca da reforma, com seus bra\u00e7os e pernas extremamente compridos e finos, dos quais pendiam grandes e p\u00e9s soltos. J\u00e1 nos seus rostos compridos o que se destacava eram o queixo e o nariz. A solenidade de sua apar\u00eancia, entretanto, sobrepujava toda a peculiaridade da sua forma, de modo que no fundo, qualquer um ficaria\u00a0 encantado em olhar para elas, vestidas assim de preto como que para um funeral. Mas o rei s\u00f3 teve permiss\u00e3o de dar uma s\u00f3 olhada, pois naquele instante, uma das sombras tapou os seus olhos com as suas m\u00e3os tenebrosas, de modo que tudo o que o rei pudesse enxergar fossem as paredes iluminadas pelo fogo e as formas escuras dan\u00e7ando sobre elas. As duas sombras que haviam falado no lugar de todas as demais tamb\u00e9m pareciam ter desaparecido. Mas no final, o rei acabou por descobr\u00ed-las paradas, uma de cada lado da lareira. Elas se encontravam pr\u00f3ximas \u00e0 chamin\u00e9 e estavam conversando por sobre a lareira, evitando assim, que fossem atingidas pelos raios diretos da luz do fogo, que, embora fossem luminosos, eram necess\u00e1rios, para que elas se tornassem vis\u00edveis aos olhos humanos, coisa que n\u00e3o se justifica totalmente\u2013 pois elas nasciam dotadas de uma luminosidade bem menor do que esta, como o rei ficaria sabendo em breve. Depois de alguns poucos minutos, eles voltaram a se aproximar da cama, dizendo o seguinte:<\/p>\n<p>&#8211; Por favor, vossa majestade, j\u00e1 est\u00e1 ficando escuro agora. Quero dizer\u2013 l\u00e1 fora, na neve, pelo menos. Vossa majestade poder\u00e1 reconhecer ali na luz fria do v\u00e9u \u2013 aquela pe\u00e7a famosa, por sobre a qual as sombras costumam dan\u00e7ar. Vossa majestade poder\u00e1 v\u00ea-lo da\u00ed mesmo, do lugar em que est\u00e1 deitado. Os nossos irm\u00e3os e irm\u00e3s todas devem estar na igreja agora, preparando-se para o servi\u00e7o noturno.<\/p>\n<ul>\n<li>Elas sempre v\u00e3o \u00e0 igreja antes de ir para o trabalho?<\/li>\n<li>Sim, elas sempre d\u00e3o uma passadinha na igreja antes.<\/li>\n<li>E onde ela fica?<\/li>\n<li>No pa\u00eds do gelo. Vossa majestade gostaria de conhec\u00ea-la?<\/li>\n<li>Como eu poderia ir visit\u00e1-la, se voc\u00ea sabem muito bem que eu estou doente de cama? Al\u00e9m disso, tenho certeza de que eu acabaria pegando um resfriado numa noite gelada como esta, mesmo se eu vestindo uma capa e mesmo, me cobrindo com uma grossa coberta de penas.<\/li>\n<\/ul>\n<p>O rosto da sombra parecia estar tremendo, mas a impress\u00e3o mesmo era que era uma risada. Todos os rostos come\u00e7aram a se abalar e tremer, como uma esp\u00e9cie de massa gelatinosa escuro, at\u00e9 que gradativamente elas foram voltando \u00e0 sua express\u00e3o calma usual. Ent\u00e3o uma das sombras abriu as cortinas diante da cama. Enquanto elas estavam fechadas, o brilho alvo da noite havia ficado do lado de fora, longe das vistas do rei, que lutava contra o excesso de escurid\u00e3o que amea\u00e7ava trag\u00e1-lo; semelhante ao que acontece com um c\u00e9u, repleto de estrelas lampejantes e brilhantes feito diamantes. A outra sombra dirigiu-se para o fogo e desapareceu dentro dele.<\/p>\n<p>Alguns grupos de sombras come\u00e7aram ent\u00e3o imediatamente a dan\u00e7ar desvairadamente por todo o quarto, desaparecendo, uma a uma, atrav\u00e9s da janela aberta e deslizando de forma tenebrosa por sobre a face da neve branca, pois a janela dava diretamente num jardim coberto de neve. Depois de poucos minutos, o quarto ficou em sil\u00eancio total e livre de sombras, mas, ao inv\u00e9s de ficar aliviado com a sua aus\u00eancia delas, o rei sentiu logo, como se estivesse numa casa de mortos, ficando com dificuldade at\u00e9 de respirar, devido ao sentimento de vazio e desola\u00e7\u00e3o em que ele recaiu. Mas enquanto observava a neve, que se estendia alva e extensa diante dele, deitado na sua cama, ele viu ao longe uma fileira escura, aproximando-se cada vez mais, e que acabou se revelando, no final, como sendo toda composta por sombras, que caminhavam em uma linha dupla, carregando algo parecido com um cesto. Elas sumiram no batente da janela, reaparecendo logo em seguida, depois de terem, de alguma forma, dado conta de escalar a parede da casa, pois elas entraram em fila indiana pela janela, fundindo-se com a transpar\u00eancia do vidro.<\/p>\n<p>Elas carregavam uma esp\u00e9cie de cesto. Ele estava coberto das mais ricas peles e cabe\u00e7as de majestosas feras selvagens, cujos olhos haviam sido substitu\u00eddos por safiras e esmeraldas, que brilhavam e cintilavam \u00e0 luz do fogo e do reflexo da neve. As camadas de cima reluziam ainda mais, devido \u00e0 crosta de gelo, mas as de baixo estavam macias, quentes e secas, como se se encontrassem sob as asas de um cisne. As sombras aproximaram-se da cama, e jogaram o cesto sobre ela. Ent\u00e3o, algumas delas tiraram um manto de pele enorme, colocando-o em torno dos ombros do rei, e o fizeram deitar no cesto em meio \u00e0s peles. Ningu\u00e9m jamais no mundo transportou algu\u00e9m de modo mais gentil e reverenciador. Ao rei nem sequer passou pela cabe\u00e7a recusar-se a ir. Em seguida eles colocaram algo sobre a sua cabe\u00e7a e, levantando o cesto, deram uma volta com ele pela sala, s\u00f3 para ensaiar o passo. Quando o cesto passou diante do espelho, o rei viu que ele estava repleto de peles reais, e que sobre a sua cabe\u00e7a havia uma maravilhosa coroa \u2013toda de ouro, revestida de uma imensa variedade de pedras preciosas: rubis, esmeraldas, pedras de jade e outras tantas precisidades, cujo nome ele nem saberia especificar, elas brilhavam gloriosamente em torno da sua cabe\u00e7a como a salamandrina, a ess\u00eancia de todos os fogos que alegram o Natal de tanta gente. Naquele instante, um espectro depositou um cetro de \u00e9bano ao lado dele, com um diamante de formato c\u00f4nico na ponta, que, se fosse cortado em peda\u00e7os, certamente refletiria todas as cores do arco-\u00edris. Ele espalhava seus raios coloridos por todos os lados, criando sombras infinitamente mais numinosas, do que aquelas que o haviam aborrecido. Em seguida as sombras o levantaram com todo o cuidado at\u00e9 a janela, e o ajudaram a pul\u00e1-la, pelo que ele foi para em um campo coberto de neve. Este ser\u00eda o in\u00edcio de uma longa jornada que parecia mais um v\u00f4o coletivo, do que uma caminhada sobre uma superf\u00edcie congelada.<\/p>\n<p>As sombras se revezavam para carregar o rei, enquanto percorriam o campo com a suavidade de um pensamento, em uma linha reta, rumo ao norte. A estrela d\u00b4Alva nasceu por sobre as suas cabe\u00e7as com crescente visibilidade, pois, na verdade, eles estavam avan\u00e7ando t\u00e3o r\u00e1pido, quanto os pensamentos mais tristes, ainda que n\u00e3o, na mesma velocidade que os mais felizes desejos. Aquele estranha comitiva composta de sombras, a carregar um rei, percorreu toda a Inglaterra, a Esc\u00f3cia. Passou por cima de rios e lagos flutuando ou deslizando. Eles escalaram altas montanhas, e cruzaram vales, como se n\u00e3o sentissem o peso; at\u00e9 que chegaram \u00e0 casa de *John O\u00b4Groat no Mar B\u00e1ltico. O mar n\u00e3o estava congelado; pois as estrelas refletidas piscavam com tanta for\u00e7a das suas profundezas dos lagos, quanto brilhavam as estrelas do c\u00e9u acima de suas cabe\u00e7as. E, \u00e0 medida que os carregadores deslizavam por sobre a superf\u00edcie azul-acinzentada, sem qualquer obst\u00e1culo no caminho, o rei notou que n\u00e3o podia enxergar a superf\u00edcie da \u00e1gua abaixo dele, de t\u00e3o iluminada que estava, muito menos o fundo, o que lhe dava a impress\u00e3o de estar flutuando atrav\u00e9s da esfera azul do c\u00e9u, com estrelas acima dele, e estrelas tamb\u00e9m em baixo dele, e, entre as estrelas e ele, nada mais, do que vazio. Agora, pela primeira vez em toda a sua vida, o rei sentia que a sua alma tinha conquistado o espa\u00e7o que merecia.<\/p>\n<p>Da\u00ed \u00e0 mais algum tempo, eles chegaram at\u00e9 as paredes rochosas da Isl\u00e2ndia, onde resolveram acampar, para dar continuidade \u00e0 viagem s\u00f3 no dia seguinte. E o rei n\u00e3o pegou nenhum s\u00f3 resfriado; pois as pedras vermelhas da sua coroa o mantinham aquecido, e os olhos de esmerada e safira dos animais selvagens impediam que o gelo se formasse sobre o seu ve\u00edculo.<\/p>\n<p>No meio do caminho a comitiva tivera que passar por diversas florestas, cavernas e passagens escuras nas rochas, uma das quais estava t\u00e3o escura, que de in\u00edcio, o rei ficou com medo de perder todas as sombras de vista. Mas, assim que eles entravam em lugares assim, o diamante do cetro come\u00e7ava a brilhar, cintilar e radiar, emitindo feixes de luz de tantas cores quantas a alma de um pintor poderia imaginar. Era tal esta luz, que tornava as sombras cada vez mais vivas e mais fortes, do que nunca. Foi assim que eles conseguiram atravessar apressadamente todos aqueles t\u00faneis escuros, numa velocidade superior \u00e0 da luz. Vistas assim \u00e0 luz dos diamantes, algumas das sombras tamb\u00e9m foram parecendo mais simples e humanas, enquanto outras pareciam ficar cada vez mais absurdas e selvagens.<\/p>\n<p>Uma vez atravessada a caverna, o rei viu que os seus olhos eram de fato estranhos, olhos de sombra: ele nunca havia visto olhos como aqueles antes. Mas, no mesmo momento em que ele conseguiu ver os olhos deles, tamb\u00e9m teve uma vis\u00e3o melhor dos seus rostos, pois eles os haviam voltado completamente para ele por um instante; e as outras sombras, ao v\u00ea-lo, encolheram-se e come\u00e7aram a tremer tanto, que quase desapareceram. Que ador\u00e1veis semblantes tinham eles. O rei ficou profundamente pensativo, depois de ter visto aquelas faces, e permaneceu assim impressionado pelo resto da viagem. Ele n\u00e3o contava com a exist\u00eancia de olhos t\u00e3o vivos naqueles rostos, ainda mais, considerando que se tratava da face de sombras.<\/p>\n<p>Finalmente a comitiva subiu pelo leito de um pequeno riacho, para em seguida, atravessar um desfiladeiro rochoso e estreito e dar subitamente em um dos lados da montanha, que dava uma maravilhosa vista para um lago azul congelado, situado no cora\u00e7\u00e3o das majestosas montanhas. A aurora boreal se mostrava com todo o seu explendor, com um brilho que parecia o reflexo do sol lan\u00e7ado por milh\u00f5es de espadas de soldados na batalha&#8230; Acontece que os raios de luz do t\u00e3o agitados e brilhantes do c\u00e9u do norte, disparavam em todas as dire\u00e7\u00f5es, e as sombras que se encontravam na superf\u00edcie do lago em baixo dele; ora se juntavam em grupos, ora ficavam tremendo, parecendo que iam afundar, ora cobrindo toda a superf\u00edcie do lago, para se juntar em uma s\u00f3, formando um n\u00f3 escuro. De quando em quando era poss\u00edvel ver nas montanhas brancas duas sombras, disparando em dire\u00e7\u00e3o dos picos, e desaparecendo por tr\u00e1s deles. Na verdade as sombras estava diminuindo gradativamente em quantidade, ainda que de forma pouco percept\u00edvel.<\/p>\n<ul>\n<li>Com licen\u00e7a, vossa majestade \u2013 disseram as sombras \u2013 queira nos deixar apresentar: esta \u00e9 a nossa igreja \u2013 a igreja das sombras.<\/li>\n<\/ul>\n<p>E dizendo isso, o guarda-costas do rei sentou-se por um instante numa pedra para interagir com a multid\u00e3o. Mas ele voltou logo para conduzir o rei at\u00e9 o meio do lago. As sombras reuniram-se todas em seu redor, de forma respeitosa, mas destemida. Certamente olhos mortais jamais viram uma reuni\u00e3o assim t\u00e3o burlesca. O rei j\u00e1 havia visto todo o tipo de gnomos, duendes e seres tenebrosos no dia da sua coroa\u00e7\u00e3o, mas tratava-se at\u00e9 que de figuras bastante homog\u00eaneas, se comparadas com a forma incongruente e desregrada de que se orgulhavam tanto as sombras; e os pulos mais selvagens daqueles seres, podiam at\u00e9 parecer uma dan\u00e7a cerimonial entre eles, sem falar da aparente falta de objetivos e improvisa\u00e7\u00f5es aleat\u00f3rias e metamorfoses que empreendiam na sua forma f\u00edsica. Entretanto, para a surpresa do rei, toda sombra tinha a sua identidade pr\u00f3pria, e cada uma mantinha o seu pr\u00f3prio estilo, que era misteriosamente percept\u00edvel para al\u00e9m de toda mudan\u00e7a. O que interessa destacar aqui \u00e9 a id\u00e9ia essencial de que cada sombra tinha a sua pr\u00f3pria forma de encanto, da mesma forma como tinha o seu estilo de efetuar mudan\u00e7as radicais e \u00e0s vezes at\u00e9 rid\u00edculas \u00e0 que estavam sujeitas a qualquer momento.<\/p>\n<ul>\n<li>O que \u00e9 que s\u00e3o voc\u00eas? \u2013 perguntou o rei, apoiado sobre o seu cotovelo e olhando em redor.<\/li>\n<li>N\u00f3s somos as sombras, majestade \u2013 responderam v\u00e1rias vozes imediatamente.<\/li>\n<li>Que tipo de sombras?<\/li>\n<li>Sombras humanas. As sombras de homens e mulheres e dos seus filhos.<\/li>\n<li>N\u00e3o seriam voc\u00eas as mesmas sombras de cadeiras, mesas ou ent\u00e3o, fantasmas?<\/li>\n<\/ul>\n<p>Esta quest\u00e3o gerou uma estranha e inesperada como\u00e7\u00e3o no meio daquela comunidade, que ficou sinceramente chocada. Muitas das apari\u00e7\u00f5es se inflaram, at\u00e9 atingir as alturas dos c\u00e9us, entretanto, voltaram imediatamente ao tamanho humano, como se querendo controlar os seus sentimentos, por puro respeito em rela\u00e7\u00e3o a quem os havia despertado. Uma das sombras, que j\u00e1 havia percorrido todas aquelas redondezas, conquistando at\u00e9 os mais altos picos cobertos de neve, apresentou-se repentinamente \u00e0 frente de todo o resto, como o porta-voz das sombras da\u00ed para frente.<\/p>\n<ul>\n<li>Perdoe a nossa ansiedade, vossa majestade \u2013 disse ele \u2013 vejo que vossa majestade ainda n\u00e3o conseguiu muito bem familiarizar-se com a nossa natureza e costumes.<\/li>\n<li>Estou disposto a isso \u2013 respondeu o rei.<\/li>\n<li>N\u00f3s somos sombras \u2013 repetiu a Sombra em tom solene.<\/li>\n<li>E da\u00ed? \u2013 disse o rei.<\/li>\n<li>N\u00e3o costumamos aparecer com muita freq\u00fc\u00eancia aos homens.<\/li>\n<li>Ah \u00e9 ? \u2013 disse o rei.<\/li>\n<\/ul>\n<p>&#8211; N\u00f3s n\u00e3o temos absolutamente nenhuma rela\u00e7\u00e3o com raio do sol. Passamos totalmente despercebidos. Mas sempre que o homem passa diante de um de n\u00f3s com tanta arrog\u00e2ncia, bem que ele nota uma presen\u00e7a desconhecida.<\/p>\n<ul>\n<li>Ah \u00e9? Disse o rei novamente.<\/li>\n<li>S\u00f3 na penumbra do fogo ou quando certo homem ou certa mulher est\u00e3o sozinhos, diante de seu candelabro solit\u00e1rio, ou quando um n\u00famero qualquer de pessoas compartilha do mesmo sentimento ao mesmo tempo tornando-se um s\u00f3, \u00e9 que a verdade das coisas se manifesta.<\/li>\n<li>Ent\u00e3o quer dizer que os amantes da noite existem de verdade? -perguntou o rei.<\/li>\n<li>A escurid\u00e3o \u00e9 a monitora da luz \u2013 respondeu a sombra.<\/li>\n<li>Mas quem me diz que n\u00e3o \u00e9 quem faz pouco caso das sombras que est\u00e1 com a verdade? &#8211; perguntou o rei.<\/li>\n<li>A verdade percorre como uma tempestade o mundo, sem qualquer forma, nem fundo \u2013 respondeu a sombra.<\/li>\n<li>Ah! Ah! \u2013 pensou Ralf Rinkelmann, isto at\u00e9 rimou. A sombra est\u00e1 respondendo a todas as minhas perguntas de maneira t\u00e3o singular. Isso \u00e9 muito estranho! \u2013 e com isso ele voltou a se entreter com os seus pensamentos profundos.<\/li>\n<\/ul>\n<p>A sombra foi a primeira a retomar a palavra.<\/p>\n<ul>\n<li>Por favor, vossa majestade, ser\u00e1 que n\u00f3s poder\u00edamos agora fazer o nosso pedido?<\/li>\n<li>Com toda a certeza \u2013 respondeu o rei \u2013acontece que eu ainda n\u00e3o estou bem o suficiente para recebe-lo da forma mais apropriada.<\/li>\n<li>N\u00e3o tem import\u00e2ncia, vossa majestade. N\u00e3o nos importamos muito com cerim\u00f4nias; e, de fato nenhuma de n\u00f3s est\u00e1 se sentindo muito bem no momento. O objeto do nosso pedido est\u00e1 pesando sobre n\u00f3s.<\/li>\n<li>V\u00e1 em frente, disse o rei.<\/li>\n<li>Senhor,- come\u00e7ou a sombra, &#8211; a nossa exist\u00eancia est\u00e1 em perigo. S\u00e3o tantos os tipos de luz artificial, que se encontra nas casas e nos pr\u00f3prios homens, mulheres e crian\u00e7as que eles est\u00e3o amea\u00e7ando acabar conosco. O consumo e disposi\u00e7\u00e3o de luzes a g\u00e1s, que \u00e9 especialmente alto nos centros, amea\u00e7am cegar os nossos olhos, que s\u00e3o os \u00fanicos atrav\u00e9s do quais n\u00f3s podemos ser vistos. Todos n\u00f3s fomos sumariamente banidos das cidades. Fomos levados para as vilas e casas solit\u00e1rias, e especialmente para as velhas fazendas, das quais, at\u00e9 mesmo as nossas amigas, as fadas, est\u00e3o desaparecendo rapidamente. Por isso \u00e9 que o nosso pedido junto ao nosso rei, \u00e9 que com o poder de sua arte, ele nos restitua o nosso direito de morar nas casas e nos cora\u00e7\u00f5es das pessoas.<\/li>\n<\/ul>\n<p>\u201c\u00b4Mas, disse o rei, \u00b4n\u00e3o se esque\u00e7a que voc\u00ea assustou as crian\u00e7as.\u00b4<\/p>\n<p>&#8220;&#8216;Isso s\u00f3 ocorreu raras vezes, vossa majestade; e mesmo nos casos em que aconteceu, foi s\u00f3 para o bem delas. \u00c9 raro n\u00f3s procuramos meter medo em algu\u00e9m. O que n\u00f3s queremos mesmo \u00e9 fazer as pessoas ficarem quietas por um momento, para refletirem, fazendo-as sentirem um pouco de terror, vossa majestade.<\/p>\n<p>&#8220;&#8216;\u00c9 mais prov\u00e1vel que voc\u00eas as fa\u00e7am rir,&#8217; disse o rei.<\/p>\n<p>&#8220;&#8216;Ser\u00e1 mesmo?&#8217; disse a sombra.&#8221;<\/p>\n<p>E, aproximando-se um pouco do rei, ele ficou por alguns instantes parado. O diamante do cetro do rei estava irradiando um brilho vivo de cor violeta, e o rei fitou a sombra em sil\u00eancio, at\u00e9 que o seu l\u00e1bio inferior come\u00e7ou a tremer.<\/p>\n<p>&#8220;&#8216;O problema,&#8217; replicou a sombra, &#8216;\u00e9 que se n\u00f3s n\u00e3o mantemos os pensamentos fixos em algum objeto particular, os nossos corpos ficam sujeitos a qualquer tipo de interfer\u00eancia elementar. Entre os homens e mulheres ordin\u00e1rios deste mundo, basta n\u00f3s nos atermos a alguma pe\u00e7a de mob\u00edlia ou de roupa; e eles nunca desconfiam de que n\u00f3s sejamos mais do que meros efeitos bobos e imprecisos das incid\u00eancias dos feixes da luz sobre os objetos s\u00f3lidos, das quais as sua casas est\u00e3o cheias. N\u00f3s nem nos preocupamos em dizer-lhes a verdade, pois eles jamais acreditariam. Mas um dia este homem &#8212;- ou mulher ordin\u00e1rios do mundo &#8212;- quem sabe &#8212;- &#8216;<\/p>\n<p>Entre uma e outra retic\u00eancia siginificativa como esta, a multid\u00e3o de sombras aplaudia e come\u00e7ava a agitar-se de emo\u00e7\u00e3o, mas a agita\u00e7\u00e3o n\u00e3o durava muito, e a multid\u00e3o voltava logo ao seu sil\u00eancio contemplativo.<\/p>\n<p>E, no mesmo instante que a sombra representante j\u00e1 ensaiava a sua retomada da palavra, todos levantaram os olhos, e o rei, acompanhando o olhar deles, viu que a aurora estava come\u00e7avando a empalidecer.<\/p>\n<p>&#8220;&#8216;A lua est\u00e1 nascendo,&#8217; disse a sombra. Assim que ela aparecer por cima das montanhas, inundando o vale com sua luz, n\u00f3s teremos que ter ido, pois temos muita coisa a fazer sob a lua: n\u00f3s ficamos energizadas com a sua luz. Mas, se vossa majestade vier aqui amanh\u00e3 \u00e0 noite, poder\u00e1 aprender muitas coisas mais sobre n\u00f3s, e julgar por si mesmo, se \u00e9 apropriado concordar com o nosso pedido; pois neste caso n\u00f3s faremos a nossa grande assembl\u00e9ia anual, na qual n\u00f3s reportamos aos nossos chefes todos nossos feitos, e os bons ou maus resultados a que chegamos.<\/p>\n<p>&#8220;&#8216;Se voc\u00ea me chamar,&#8217; respondeu o rei, &#8216;certamente que eu irei.&#8217;<\/p>\n<p>&#8220;Antes que a sombra pudesse responder, uma pontinha da lua crescente surgiu por tr\u00e1s de um monte de gelo, e um raio delgado caiu sobre o lago. Mas ele n\u00e3o incindiu sobre nenhuma das sombras. Antes que os olhos do rei conseguissem novamente vilumbrar a terra, depois de contemplar os primeiros raios da lua, todas as sombras desapareceram e a superf\u00edcie do lago passou a brilhar fria e azul no esplendor p\u00e1lido do luar.<\/p>\n<p>&#8220;L\u00e1 estava o rei, sozinho no meio do lago congelado, com a lua a raiar sobre ele. Mas, depois de algum tempo, ele ouviu uma voz conhecida que lhe dizia:<\/p>\n<p>&#8220;&#8216;Voc\u00ea aceita outra x\u00edcara de ch\u00e1, meu amor?&#8217; disse a Sra. Rinkelmann; e Ralf, recobrando lentamente a consci\u00eancia, notou que estava deitado na sua pr\u00f3pria cama.<\/p>\n<p>&#8220;&#8216;Sim, aceito, obrigado,&#8217; respondeu ele; &#8216; e uma boa fatia de torrada, se for poss\u00edvel, por favor; pois eu empreendi uma longa jornada, desde a \u00faltima vez que eu a vi.&#8217;<\/p>\n<p>&#8220;&#8216;Ele ainda n\u00e3o est\u00e1 bem consciente,&#8217; disse a Sra. Rinkelmann, para si mesma.<\/p>\n<p>&#8220;&#8216;Ser\u00e1 que voc\u00ea ficaria muito surpresa,\u00b4continuou Ralf` se eu lhe contasse onde estive, e tudo o mais.&#8217;<\/p>\n<p>&#8220;Confesso que ficaria,&#8217; respondeu a sua esposa.<\/p>\n<p>&#8220;&#8216;Ent\u00e3o eu vou lhe contar,&#8217; celebrou Ralf.<\/p>\n<p>&#8220;Mas naquele momento, uma grande sombra pulou de dentro do fogo, com um enorme salto, encobrindo a sala toda. Em seguida ele se recolheu em um canto e Ralf viu que ele estava lhe fazendo gestos de amea\u00e7a com a m\u00e3o cerrada atada ao seu bra\u00e7o rid\u00edculo. Esta foi a maneira que ele emcontrou para passar o seu recado e manter a sua paz de esp\u00edrito. E isso lhe fez bem. Pois a estas alturas eu mesmo j\u00e1 conhecia as sombras o bastante; e sabia que, se ele amea\u00e7asse contar tudo sobre eles \u00e0 sua esposa naquele momento, eles certamente viriam busca-lo na noite seguinte.<\/p>\n<p>&#8220;Assim, o rei deitou , depois de tomar o caf\u00e9 e comer a sua torrada e olhou em volta. E as sombras dan\u00e7antes do seu quarto lhe pareciam ainda mais estranhas e inexplic\u00e1veis do que nunca. Todo o seu quarto estava repleto de mist\u00e9rio. E se isto j\u00e1 era verdade de uma maneira geral, agora o ambiente era mais misterioso do que nunca. Depois de tudo o que ele viu na igreja das sombras, no seu pr\u00f3prio quarto, ele achou que as sombras estavam ainda mais maravilhosas e insond\u00e1veis do que aquelas.<\/p>\n<p>Com isso tudo ficava mais veross\u00edmil do que se ele tivesse tido uma vis\u00e3o de verdade; pois, ao inv\u00e9s de faze-lo considerar o corriqueiro parecer um lugar comum, como as vis\u00f5es enganosas costumam fazer, tudo aquilo fez com que ele tivesse a vis\u00e3o ampliada para o maravilhoso que h\u00e1 nas coisas do dia a dia.<\/p>\n<p>&#8220;&#8216;O mesmo vale para toda arte verdadeira,&#8217; pensou Ralf Rinkelmann.<\/p>\n<p>&#8220;Na tarde seguinte, na medida em que o crep\u00fasculo ia se escurecendo, o rei foi se deitar com uma s\u00f3 d\u00favida: ser\u00e1 que as sombras mandariam busc\u00e1-lo de novo? Ele desejava muito partir, pois adorou aquelas viagens, al\u00e9m do que, estava louco para ouvir as hist\u00f3rias de alguns fantasmas. No entanto, a escurid\u00e3o foi se aprofundando cada vez mais, e as sombras n\u00e3o apareceram. \u00c9 que a Sra. Rinkelmann continuava sentada junto ao fogo no crep\u00fasculo e eles n\u00e3o tinham como levar o rei, enquanto ela estivesse ali. Alguns deles tentaram assust\u00e1-la, projetando as mais estranhas sombras nas paredes, no ch\u00e3o e no teto; mas nada disso surtiu o efeito desejado: a rainha apenas sorriu, pois ela tinha uma consci\u00eancia tranq\u00fcila. No entanto, de repente ouviu-se um grito terr\u00edvel do quarto das crian\u00e7as, e a Sra. Rinkelmann precipitou-se escadas acima para ver o que estava acontecendo. Mal ela chegou l\u00e1, apareceram os dois vigias dos cantos da chamin\u00e9 e se postaram no meio da sala, dizendo em voz baixa:<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>&#8220;\u00b4Vossa majestade est\u00e1 pronto?&#8217;<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>&#8220;&#8216;Ser\u00e1 que voc\u00eas n\u00e3o t\u00eam cora\u00e7\u00e3o?&#8217; disse o rei; &#8216;ou ser\u00e3o eles t\u00e3o escuros, quanto os seus rostos? Isso n\u00e3o foi um grito de crian\u00e7a? Preciso saber o que est\u00e1 acontecendo l\u00e1 em cima, antes de eu ir.&#8217;<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>&#8220;&#8216;Vossa majestade h\u00e1 de convir que este \u00e9 uma boa forma de concentrar a mente,&#8217; responderam os vigilantes. &#8216;N\u00f3s imaginamos tudo o que nos veio \u00e0 mente, para nos livrar da vossa majestade, a rainha, mas n\u00e3o tivemos sucesso. Foi ent\u00e3o que uma sombra desvairada, meio contra a vontade dos mais velhos entre n\u00f3s, precipitou-se escada acima, at\u00e9 o quarto das crian\u00e7as e sem d\u00favida nenhuma, teve sucesso em assustar o beb\u00ea, pois ela \u00e9 bastante flex\u00edvel e r\u00e1pida nas pernas.<\/p>\n<p>-E agora, vossa majestade?&#8217;<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>&#8220;&#8216;N\u00e3o quero que ningu\u00e9m fa\u00e7a mais este tipo de brincadeira no quarto das minhas crian\u00e7as,&#8217; disse o rei muito nervoso. &#8216;Voc\u00eas podiam ter feito a crian\u00e7a ficar totalmente fora de si.&#8217;\u201d<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>&#8220;&#8216;Ent\u00e3o, neste caso ter\u00edamos um clone, vossa majestade. E n\u00f3s gostamos muito de g\u00eameos.&#8217;<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>&#8220;&#8216;N\u00e3o quero mais saber dos seus miser\u00e1veis gracejos! O que quero dizer \u00e9 que voc\u00eas poderiam ter feito a crian\u00e7a perder a cabe\u00e7a&#8230;&#8217;<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>&#8220;&#8216;Isso \u00e9 imposs\u00edvel, senhor, pois ela nem sequer tem uma cabe\u00e7a para perder ainda&#8230;&#8217;<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>&#8220;Suma daqui\u201d, disse o rei.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>&#8220;&#8216;Perdoe-nos, vossa majestade. Na verdade, isso vai fazer bem \u00e0 crian\u00e7a, pois aquela sombra passar\u00e1 a ser um s\u00edmbolo de tudo o que \u00e9 feio e do mal, por toda a sua vida. Quando ela se sentir tentada a odiar ou sentir inveja de algu\u00e9m, aquela sombra voltar\u00e1 \u00e0 sua mente e lhe dar\u00e1 calafrios.&#8217;<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>&#8220;&#8216;Tudo bem&#8217; disse o rei &#8216; Esta id\u00e9ia j\u00e1 me agrada mais. Vamos embora.&#8217;<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>&#8220;As sombras empreenderam os mesmos rituais e prepara\u00e7\u00f5es de outrora, durante as quais, a mencionada sombra jovem que tramou a hist\u00f3ria de fazer caretas, mantinha o beb\u00ea aterrorizado e a rainha no quarto dela, at\u00e9 que tudo estivesse acabado. Em seguida, com um impulso que o arremessou contra o teto e um ponta-p\u00e9 no seu pr\u00f3prio traseiro, ele desapareceu pela porta do quarto de crian\u00e7as, alcan\u00e7ando a c\u00e2mara de dormir do rei, bem a tempo de sair junto com as \u00faltimas sombras pela janela, seguindo a cesta e assumindo o seu posto na neve bem embaixo dela.<\/p>\n<p>E assim, eles foram embora, formando uma enorme sombra que deslizava por sobre o carpete branco, da mesma forma como fizeram anteriormente. E era V\u00e9spera de Natal.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>&#8220;Quando, a certa altura, eles reconheceram o lago da montanha, o rei viu que toda a superf\u00edcie estava coberta por uma mistura mutante de sombras. Todas elas estavam falando e ouvindo alternativamente, aos pares, trios, e grupos de todos os tamanhos. L\u00e1 e c\u00e1 havia confrarias enormes com toda a aten\u00e7\u00e3o concentrada em uma determinada sombra que se destacava do resto. Ela n\u00e3o estava falando de nenhum p\u00falpito ou plataforma, mas sobre as suas pr\u00f3prias longas pernas, que ele alongou especialmente para o evento.<\/p>\n<p>A aurora, bem acima da cabe\u00e7a deles, iluminava o lago e as laterais das montanhas, enviando grandes ondas de vapores luminousos, que brilhavam em todas as cores do arco-\u00edris do seu cume, quase at\u00e9 a superf\u00edcie do lago.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>Entretanto, enquanto as palavras se espalhavam por todos os lados, n\u00e3o havia praticamente nenhuma palavra capaz de alcan\u00e7ar os ouvidos do rei: o discurso das sombras n\u00e3o podia ser captado pelos seus \u00f3rg\u00e3os corp\u00f3reos. Entretanto, um dos l\u00edderes das sombras, vendo que o rei estava tentando entender e n\u00e3o conseguia, come\u00e7ou a manipular a sua cabe\u00e7a e ouvidos de maneira muito estranha; e com isso ele passou a entender tudo perfeitamente, embora somente as sombras para as quais ele voltava a sua aten\u00e7\u00e3o. Isto, entretanto, acabou sendo uma grande vantagem, que o rei quis at\u00e9 levar consigo devolta para o mundo dos mortais.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>Naquele momento o rei percebeu que aquela n\u00e3o era s\u00f3 uma igreja das sombras, mas ao mesmo tempo tamb\u00e9m o seu lugar de troca de novidades. Pois, como as sombras n\u00e3o t\u00eam escrita ou imprensa, a \u00fanica forma pela qual eles podem informar-se uns aos outros sobre os seus feitos e pensamentos, era de se encontrar e trocar id\u00e9ias neste mercado de id\u00e9ias que era o parlamento de sombras. E como as pessoas deste mundo preferem ler os seus autores favoritos e d\u00e3o prefer\u00eancia a dar ouvidos aos seus preletores favoritos, as sombras tamb\u00e9m buscam as suas preletoras favoritas para ouvir acerca das suas aventuras e geralmente d\u00e3o ouvidos ao que elas t\u00eam a dizer.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>&#8220;Sentindo-se bastante forte, o rei levantou-se e come\u00e7ou a andar entre elas, enrolado na sua t\u00fanica de pele, com a sua coroa vermelha na cabe\u00e7a, e o seu cetro de diamantes na sua m\u00e3o. Cada grupo de sombras de que ele se aproximava, parava de falar, assim que eles o viam se aproximar, mas depois de um aceno as sombras continuavam imediatamente a conversar e relatar e comentar, como se ningu\u00e9m estivesse l\u00e1 que n\u00e3o fosse do mesmo cal\u00e3o e n\u00edvel deles mesmos.<\/p>\n<p>Assim o rei acabou ouvindo uma s\u00e9rie de hist\u00f3rias; algumas o fizeram rir, e outras, o levaram a chorar. Mas, se as hist\u00f3rias que as sombras contavam fossem impressas, elas teriam que escrever um livro que nenhum editor seria capaz de produzir r\u00e1pido o bastante para satisfazer os seus compradores. Eu registrei algumas das coisas que o rei ouviu, que ele me contou logo depois. O fato \u00e9 que eu fui o secret\u00e1rio particular dele por algum tempo. Foi assim que eu fiquei sabendo de todas estas aventuras.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>&#8220;&#8216;Eu o fiz algu\u00e9m se confessar um assassinato no prazo de uma s\u00f3 semana,&#8217; disse uma sombra com ar sombrio.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>&#8220;&#8216;Mas que vantagem teve isso?&#8217; disse um jovem de ar alegre; &#8216;isso n\u00e3o pode desfazer o que j\u00e1 foi feito.&#8217;<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>&#8220;&#8216;Pode, sim. &#8216;<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>&#8220;\u00b4O qu\u00ea! Trazer os mortos devolta \u00e0 vida?&#8217;<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>&#8220;&#8216;N\u00e3o; mas pode trazer conforto ao assassino. Eu n\u00e3o suportaria jamais continuar assistindo \u00e0 mis\u00e9ria de dar d\u00f3, em que ele se encontrava. Ele seria muito mais feliz com a corda amarrada ao pesco\u00e7o, do que ele foi com a carteira recehada no seu bolso. Eu tamb\u00e9m o salvei de quere r de se matar.&#8217;<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>&#8220;&#8216;Como voc\u00ea o fez confessar?&#8217;<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>&#8220;&#8216;Foi s\u00f3 lan\u00e7ar algumas sombras na parede..&#8217;<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>&#8220;&#8216;Como isso poderia faze-lo falar?&#8217;<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>&#8220;&#8216;Ele sabe muito bem.&#8217;<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>&#8220;A sombra ficou em sil\u00eancio; e o rei voltou-se para outra.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>&#8220;&#8216;E eu fiz uma m\u00e3e moderna arrepender-se.&#8217;<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>&#8220;&#8216;E como foi isso?&#8217; em muitas vozes podia-se ouvir um certo tom de incredulidade.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>&#8220;&#8216;Foi s\u00f3 imitar a sombra de um pequeno caix\u00e3o na parede,&#8217; foi a resposta.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>&#8220;&#8216;E ent\u00e3o a m\u00e3e moderna confessou?&#8217;<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>&#8220;&#8216;Ela n\u00e3o tinha nada a confessar, que todos j\u00e1 n\u00e3o soubessem.&#8217;<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>&#8220;&#8216;O que \u00e9, ent\u00e3o, que todo mundo j\u00e1 sabia?&#8217;<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>&#8220;&#8216;Que ela podia beijar uma crian\u00e7a viva, enquanto estava querendo seguir uma crian\u00e7a morta para o t\u00famulo. O pr\u00f3ximo filhos ser\u00e1 menos custoso.&#8217;<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>&#8220;&#8216;E eu acabei com um noivado,&#8217; disse outro.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>&#8220;&#8216;Que coisa horr\u00edvel voc\u00ea fez!&#8217; observou um dem\u00f4nio po\u00e9tico.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>&#8220;Como foi isso?&#8217; perguntaram os outros. &#8216;Conte-nos, como foi isso.&#8217;<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>&#8220;&#8216;Eu simplesmente imitei a sombra de parte do corpo de uma bela garota.-eles ainda n\u00e3o eram casados, e eu n\u00e3o acredito que eles jamais casariam. Mas eu amava o rapaz que a amou. Que interessante foi, como tudo come\u00e7ou! Aquilo foi uma revela\u00e7\u00e3o para ele.&#8217;<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>&#8220;&#8216;Mas isso n\u00e3o o deixouconfuso?&#8217;<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>&#8220;&#8216;Bem pelo contr\u00e1rio.&#8217;<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>&#8220;&#8216;Mas tratava-se s\u00f3 de uma sombra forjada, e de nenhuma sombra que pertencesse a uma garota real.&#8217;<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>&#8220;&#8216;\u00c9 verdade. Pode-se dizer que sim. Mas isso foi o bastante para que lhe ca\u00edsse a trave do olho\u2013 sim, de toda a sua face, que, ocasionalmente deixava perturbada a sua juventude. Todo o seu semblante, nariz arrebitado, l\u00e1bios pujantes, queixo destacado, entendeu-se num instante com aquela escurid\u00e3o que havia entre as suas sombrancelhas. O rapaz o percebeu imediatamente e voltou para casa, sentindo-se miser\u00e1vel. E eles n\u00e3o casaram at\u00e9 hoje.&#8217;<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>&#8220;&#8216;Eu peguei um b\u00eabado sozinho, em cima do seu garraf\u00e3o de vinho do porto,&#8217; disse uma sombra bem escura; &#8216;e n\u00e3o permiti que ele bebesse! Primeiro eu fiz tive um trimilique desvairado; e depois eu comecei a encenar um funeral, percorrendo devagarinho toda a parede da sala de jantar. E inventei muitas plumas e carruagens de luto. E depois eu me ofereci para organizar um funeral como esse, s\u00f3 o que eu n\u00e3o consegui arranjar de jeito nenhum foi uma batina branca, que ficaria muito melhor em um pecador com aquele. O desgra\u00e7ado hesitou, at\u00e9 que a sua face passou de p\u00farpura para cinzenta, e na verdade ele s\u00f3 estava sendo obrigado renunciar ao seu quinto copo e, para a sua m\u00e1xima surpresa, ele foi buscar ref\u00fagio precisamente no seu quarto, com a sua esposa e os seus filhos. Acredito que, na verdade, ele estava bebendo um copo de ch\u00e1 e, por mais que o visitasse novamente, eu pelo menos nunca mais o vi bebendo sozinho.&#8217;<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>&#8220;&#8216;Mas ele passou a beber menos? Ser\u00e1 que voc\u00ea fez algum bem a ele?&#8217;<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>&#8220;&#8216;Eu espero que sim; mas lamento muito confessar que n\u00e3o posso dize-lo com muita certeza.&#8217;<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>&#8220;&#8216;Hum! Hum! Hum!&#8217; grunhiram v\u00e1rias sombras.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>&#8220;&#8216;E eu me diverti tanto certa vez!&#8217; berrou outro. &#8216;Com uma pe\u00e7a que eu preguei em um jovem padre!&#8217;<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>&#8220;&#8216;Voc\u00ea n\u00e3o tem o direito pregar pe\u00e7as em ningu\u00e9m.&#8217;<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>&#8220;&#8216;Ah, sim. Tenho sim, se \u00e9 para o pr\u00f3prio bem da pessoa. Voc\u00ea acha mesmo que ele costumava preparar os seus serm\u00f5es?&#8217;<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>&#8220;Considerando o seu estudo, \u00e9 evidente que sim.&#8217;<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>&#8220;&#8216;Sim e n\u00e3o. Continue advinhando.&#8217;<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>&#8220;&#8216;Eles se inspirava nas express\u00f5es de rosto das pessoas na rua.&#8217;<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>&#8220;&#8216;Adivinhe novamente.&#8217;<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>&#8220;&#8216;Em lugares que ainda est\u00e3o verdes na cidade?&#8217;<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>&#8220;Tente mais uma vez.&#8217;<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>&#8220;\u00b4Em livros antigos?&#8217;<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>&#8220;\u00b4E mais uma.&#8217;<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>&#8220;&#8216;N\u00e3o, n\u00e3o. Chega! Conte logo.&#8217;<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>&#8220;&#8216;No espelho. Ha! ha! ha!&#8217;<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>&#8220;&#8216;Esta \u00e9 boa; uma bela piada de sombra.&#8217;<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>&#8220;&#8216;Eu tamb\u00e9m achei. E eu me diverti tanto com ele uma noite na parede! Ele teve bom senso o bastante para perceber que era ele mesmo que ele estava vendo e que ele estava se parecendo muito com um macaco. Ent\u00e3o ele ficou com vergonha, virou o espelho com a face para a parede, e come\u00e7ou a pensar um pouco mais no seu povo, e um pouco menos em si mesmo. Eu fiquei muito contente; pois, por favor vossa majestade,&#8217;- e neste momento ele se dirigiu para o rei -&#8216;n\u00f3s n\u00e3o gostamos das pessoas que vivem nos espelhos. Voc\u00eas os chamam de fantasmas, n\u00e3o \u00e9?&#8217;<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>&#8220;Antes que o rei pudesse responder, outra sombra come\u00e7ou a falar. Mas s\u00f3 a men\u00e7\u00e3o do padre despertou no rei o desejo de ouvir um dos serm\u00f5es do padre qualquer dia. Ent\u00e3o ele se voltou para uma sombra comprida, que estava pregando para uma multid\u00e3o muito silenciosa e atenta. Ele j\u00e1 estava na parte final do seu serm\u00e3o.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>&#8220;Portanto, queridas sombras, \u00e9 ainda mais necess\u00e1rio que n\u00f3s, as sombras, nos amemos umas \u00e0s outras o m\u00e1ximo que pudermos, porque isso n\u00e3o \u00e9 querer demais. N\u00e3o temos desculpa para n\u00e3o amar, como os mortais t\u00eam, pois n\u00f3s n\u00e3o morremos como eles. Eu imagino que seja \u00e9 esta morte que fa\u00e7a com que eles odeiem tanto. Al\u00e9m disso, n\u00f3s costumamos dormir o dia todo, pelo menos a maioria de n\u00f3s, e n\u00e3o \u00e0 noite, como os homens fazem. E todos sabem muito bem que n\u00f3s esquecemos tudo o que aconteceu na noite anterior; por isso, temos que amar bem, pois o amor \u00e9 breve. Ah! Querida sombra, que eu amo agora com toda a minha alma sombria, provavelmente eu n\u00e3o as amarei mais amanh\u00e3 \u00e0 noite, pois j\u00e1 nem terei como as conhecer, devo passar por voc\u00eas na multid\u00e3o, sem nem imaginar que a sombra que eu amo agora pode estar bem do meu lado ent\u00e3o. Aben\u00e7oadas sombras! Por s\u00f3 nos lembrarmos das nossas hist\u00f3rias at\u00e9 que as tenhamos contado aqui, para depois elas desaparecerem pelo patio sombrio da igreja, onde tudo o que n\u00f3s s\u00f3 enterramos s\u00e3o os nossos egos mortos. Ah! Irm\u00e3os, quem quer ser um homem para lembrar? Quem quer ser homem para chorar? Na verdade, n\u00f3s temos que amar uns aos outros, porque s\u00f3 n\u00f3s \u00e9 que herdamos o dom do esquecimento; s\u00f3 n\u00f3s somos renovados continuamente com o nascimento eterno; somente n\u00f3s n\u00e3o acumulamos o peso dos anos. Preciso lhes contar acerca do destino cruel de uma sombra que se rebelou contra a sua natureza, e buscou lembrar-se do passado. Ela disse, &#8216;a partir de hoje eu hei de lembrarar de tudo.&#8217;Ela ainda estava lutando contra as influ\u00eancias ben\u00e9ficas do sono benigno, quando o sol nasceu em um dia iluminado e terrivelmente m\u00f3rbido. Embora ele n\u00e3o tivesse conseguido ficar totalmente acordado, ela sonhou a respeito do ocorrido na tarde anterior e nunca mais esqueceu-se do seu sonho. Depois ela tentou novamente na noite seguinte e na pr\u00f3xima e na seguinte; e passou a tentar outra sombra a fazer a experi\u00eancia junto com ela. Finalmente a sua terr\u00edvel sina recaiu sobre elas; e, ao inv\u00e9 de continuarem sendo sombras, elss come\u00e7aram a ter corpos aderidos a elas; e foram engrossando e engrossando, at\u00e9 que desapareceram do nosso mundo; e agora elas est\u00e3o condenadas a zanzar sobre a Terra, um homem e uma mulher sob a amea\u00e7a da morte, e mem\u00f3rias dentro delas. Ah, irm\u00e3o sombras! \u00c9 preciso nos amarmos umas \u00e0s outras, pois s\u00f3 n\u00f3s \u00e9 que poderemos esquecer rapidamente. N\u00f3s n\u00e3o somos humanos, e sim sombras.&#8217;<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>&#8220;O rei virou as costas e ficou com mais pena daquelas pobres sombras, do que daquele homem e mulher.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>&#8220;&#8216;Oh! Como n\u00f3s brincamos com aquele m\u00fasico certa noite!&#8217; exclamou outro grupo, ao qual o rei havia dirigido um pensamento passageiro. Ele parou para ouvir.<\/p>\n<p>-&#8216;N\u00f3s sub\u00edamos e desc\u00edamos por sobre as teclas e abafadores do seu piano. Mas ele se vingou de n\u00f3s. Pois depois que ficou nos observando meia hora na penumbra, ele se levantou e dirigiu at\u00e9 o seu instrumento. Da\u00ed ele passou a tocar a \u201cdan\u00e7a das sombras\u201d que nos prendeu a todas em forma de som para sempre. Cada uma de n\u00f3s poderia at\u00e9 contar o significado que cada nota teve para ela; e \u00e0 medida que ele tocava, n\u00f3s n\u00e3o pod\u00edamos mais parar, mas s\u00f3 continuar dan\u00e7ando e dan\u00e7ando com todo o prazer de acordo com a m\u00fasica, como se ele fosse um m\u00e1gico \u2013 estou falando do m\u00fasico \u2013 E ele at\u00e9 que inventou uma boa puni\u00e7\u00e3o; pois ele quase nos fez dan\u00e7ar para fora das nossas pernas e fora da nossa forma at\u00e9 que viramos um monte exausto de escurid\u00e3o palpitante e colapsa. N\u00f3s nem sequer chegamos perto dele denovo por algum tempo, e nunca cehgar\u00edamos, se pud\u00e9ssemos nos lembrar de tudo aquilo. Ele se sentiu muito miser\u00e1vel por todo aquele dia, pois era t\u00e3o pobre que; e n\u00e3o consegu\u00edamos imaginar outra forma de conforta-lo, a n\u00e3o ser, fazendo-o rir. N\u00f3s n\u00e3o tivemos sucesso, nem mesmo empenhando os maiores esfor\u00e7os; mas, no final tudo acabou melhor do que esper\u00e1vamos, pois a dan\u00e7a das sombras o tornou celebre e famoso, e ele \u00e9 bastante popular at\u00e9 hoje, ganhando dinheiro r\u00e1pido.-Se ele n\u00e3o tomar cuidado, n\u00f3s acabaremos pregando outra pe\u00e7a nele de quando em quando, pobre rapaz!&#8217;<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>&#8220;&#8216;Eu mais outras colegas fizemos o mesmo para um pobre diretor de teatro certa vez. Ele estava precisando escrever uma pe\u00e7a de natal e, como n\u00e3o era nenhum g\u00eanio em originalidade, n\u00e3o conseguiu pensar em nada que j\u00e1 n\u00e3o tivesse sido criado e repetido mais de vinte vezes. Eu entendi a enrascada em que ele estava, e, juntando-me com mais algumas poucas sombras errantes, n\u00f3s apresentamos uma pe\u00e7a, muda, \u00e9 claro. Aquele foi o teoatro do absurdo mais engra\u00e7ado que j\u00e1 inventamos; e obteve consider\u00e1vel sucesso. O pobre rapaz observou cada movimento, urrando de rir de n\u00f3s, e de prazer pelas id\u00e9ias que n\u00f3s lhe demos. Ele transformou tudo em palavras e cenas e a\u00e7\u00f5es; e a pe\u00e7a \u201cfez o maior sucesso\u201d, sem precedentes nos registros daquele teatro;&#8221;-pelo menos foi isso que o rep\u00f3rter do <em>Palpiteiro Fuxiqueiro<\/em> disse.&#8217;<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>&#8220;&#8216;Mas quanto tempo ser\u00e1 que teremos que esperar para ter uma chance de fazer algo que realmente vale a pena!&#8217; disse uma sombra especialmente longa, esbelta e l\u00fagubre. &#8216;Da minha parte eu s\u00f3 realizei uma fa\u00e7anha digna de men\u00e7\u00e3o, desde a \u00faltima vez que n\u00f3s nos encontramos. Mas eu estou orgulhosa disso.&#8217;<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>&#8220;&#8216;O que foi que aconteceu? &#8216; perguntaram umas vinte vozes.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>&#8220;&#8216;Eu invadi uma sala de jantar no cair de uma tarde, logo depois do \u00faltimo dia das comemora\u00e7\u00f5es de Natal. Eu havia sido atra\u00eddo para l\u00e1 pelo brilho de um grande fogo atrav\u00e9s das cortinas vermelhas da janela. Primeiro eu pensei que n\u00e3o houvesse ningu\u00e9m ali, e j\u00e1 estava a ponto de abandonar o quarto para sair novamente para a rua coberta de neve, quando eu subitamente captei o cintilar de olhos, e notei que eles pertenciam a um pequeno garoto que se encontrava deitado e paralisado no sof\u00e1. Ent\u00e3o eu resolvi ficar no quarto em um canto escuro, atr\u00e1s do batente da porta e ficar olhando para ele. Ele parecia muito triste, e n\u00e3o fazia nada, a n\u00e3o ser olhar fixamente para o fogo. No final, ele deu um suspiro nost\u00e1lgico: &#8216;Eu queria que a mam\u00e3e voltasse para casa.&#8217; &#8216;Pobre menino!&#8217; pensei comigo, &#8216;n\u00e3o h\u00e1 quem possa ajuda-lo a n\u00e3o ser a m\u00e3e dele.&#8217; Mesmo assim eu vou tentar fazer o tempo passar mais depressa para ele. Assim, eu estiquei o meu longo bra\u00e7o de sombra para fora do meu canto, passando por cima de todo o teto, e simulei estar tentando seq\u00fcestr\u00e1-lo. Primeiro ele ficou muito assustado; mas ele era um garoto valente, e logo viu que tudo n\u00e3o passava s\u00f3 de uma brincadeira. Assim, quando eu repeti o gesto, ele me agarrou com for\u00e7a; e depois disso ele passou a se divertir a valer! Pois embora ele continuasse suspirando freq\u00fcentemente, desejando que a mam\u00e3e voltasse para casa, ele sempre recome\u00e7ava a brincadeira comigo; e n\u00f3s ficamos brincando assim selvagemente. At\u00e9 que finalmente pudemos ouvir a m\u00e3e batendo \u00e0 porta, e, num salto de prazer, ele correu para o hall para se encontrar com ela, esquecendo tudo sobre a minha pobre pessoa escura. Mas, no final, eu n\u00e3o liguei nada para isso; pois quando eu deslizei atr\u00e1s dele para o hall, eu fui bem recompensado pelo meu esfor\u00e7o, quando ouvi a sua m\u00e3e lhe dizendo: &#8216;Que surpresa boa, Charlie, meu amor, voc\u00ea est\u00e1 com uma cara mil vezes melhor desde que eu te deixei!&#8217; Naquele momento eu sa\u00ed pela porta antes que ela fosse fechada, e, enquanto eu corria por sobre a neve, ouvi a m\u00e3e dizer ainda: &#8216;Que sombra pode ter sido aquela, passando t\u00e3o r\u00e1pido?&#8217; E Charlie respondeu com um mero riso: &#8216;Oh! mam\u00e3e, acho que deve ser a sombra engra\u00e7ada que esteve fazendo aquelas brincadeiras comigo, enquanto voc\u00ea esteve fora.&#8217; Assim que a porta foi fechada, eu arrastei-me ao longo da parede e olhei para dentro da janela da sala de jantar. E ouvi a sua m\u00e3e dizer, enquanto ela o levava para o quarto: &#8216;Que imagina\u00e7\u00e3o que este garoto tem!&#8217; Ha! ha! ha! Ent\u00e3o ela olhou para ele com muita seriedade por um minuto, e as l\u00e1grimas vieram aos seus olhos; e quando ela parou, curvando-se sobre ele, eu ouvi algo que parecia um beijo, misturado com choro.'&#8221;<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>&#8220;&#8216;Eu sempre saio em busca de ber\u00e7\u00e1rios cheios de crian\u00e7as,&#8217; disse outro; &#8216;e neste inverno eu tive uma sorte especial. Tenho certeza de que n\u00f3s pertencemos de uma maneira especial \u00e0s crian\u00e7as. Certa noite, enquanto eu perambulava pela cidade grande, eu olhei, atrav\u00e9s de uma janela para dentro de um grande ber\u00e7\u00e1rio, em que a odiosa l\u00e2mpada a g\u00e1s ainda n\u00e3o havia sido acesa. Em volta do fogo estava assentada uma turma das crian\u00e7as mais bonitinhas que eu j\u00e1 vi no mundo. Elas estavam aguardando pacientemente o seu ch\u00e1. Esta era uma oportunidade boa demais para ser desperdi\u00e7ada. Eu corri para juntar vinte das melhores sombras que eu pude encontrar, e voltei em alguns segundos para o ber\u00e7\u00e1rio. Ali n\u00f3s come\u00e7amos a dan\u00e7ar na parede, uma das nossas melhores dan\u00e7as. Podem ter certeza de que est\u00e1vamos improvisando, mas conseguimos manter uma certa harmonia, cantando uma can\u00e7\u00e3o que eu fui criando, enquanto dan\u00e7\u00e1vamos. \u00c9 claro que as crian\u00e7as n\u00e3o tinham como ouvir aquilo; pois s\u00f3 podiam ver os movimentos. Mas elas pareciam, de fato, estar extremamente felizes em ver aquilo.<\/p>\n<p>(\u2026)<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>&#8220;&#8216;Que enormes que s\u00e3o estas sombras!&#8217; disse uma das crian\u00e7as \u2013 uma menininha pensativa.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>&#8220;&#8216;Gostaria de saber de onde elas v\u00eam.&#8217; disse um garoto pequeno e sonolento.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>&#8220;&#8216;Eu acho que elas nascem para fora da parede,&#8217; respondeu a garotinha; &#8216;pois eu os estive observando chegando; primeiro uma e depois outra, at\u00e9 que chegou uma enorme quantidade delas. Tenho certeza de que elas nascem para fora das paredes.&#8217;<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>&#8220;&#8216;Talvez elas tenham mam\u00e3es e papais,&#8217; disse um menino mais velho, com um sorriso.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>&#8220;&#8216;Sim, sim, o doutor os traz em seu bolso,&#8217; disse uma outra pequena garota conclusivamente.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>&#8220;&#8216;N\u00e3o; Eu preciso lhes dizer,&#8217; disse o garoto mais velho. &#8216;Eles s\u00e3o fantasmas.&#8217;<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>&#8220;&#8216;Mas como, se os fantasmas s\u00e3o brancos.&#8217;<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>&#8220;&#8216;Oh! Estes ficaram pretos ao descer pela chamin\u00e9. &#8216;<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>&#8220;&#8216;N\u00e3o,&#8217; disse um menino de apar\u00eancia curiosa e quatorze anos de idade, que estava lendo junto \u00e0 luz do fogo, e parou para ouvir a conversa dos menores.; &#8216;eles s\u00e3o fantasmas de corpo; eles n\u00e3o s\u00e3o fantasmas de alma.&#8217;<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>&#8220;Seguiu-se um sil\u00eancio, quebrado pelo primeiro garoto, o do olhar sonhador, que disse:<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>&#8220;&#8216;Eu espero que eles n\u00e3o me tenham criado;&#8217; o que fez todos cair na maior risada, bem na hora em que a crecheira lhes trouxe o ch\u00e1. Quando ela se voltou para ligar a l\u00e2mpada a g\u00e1s n\u00f3s desaparecemos.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>&#8220;&#8216;Eu impedi um assassinato,&#8217; gritou outra sombra.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>&#8220;Como? Como?Como?&#8217;<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>&#8220;&#8216;Calma, que vou lhes contar.-Estava eu \u00e0 ca\u00e7a de um quarto de repouso, em que um pobre avaro estava deitado doente h\u00e1 algum tempo, aparentemente morrendo. Eu n\u00e3o estava gostando nada daquele lugar, mas eu me senti como se estivesse sendo desejado ali. Havia muitos lugares para se esconder por l\u00e1, pois ele estava repleto de toda a esp\u00e9cie de m\u00f3veis, &#8211; especialmente arm\u00e1rios, cofres e prensas. Acho que ele mantinha naquele quarto cada pe\u00e7a de sua propriedade que ele passou a vida toda para juntar. E eu sabia que ele tinha um monte de ouro naqueles lugares, pois uma noite, quando a sua enfermeira estava fora, ele levantou da cama, resmungando e tremendo, e deu um jeito de abrir um dos seus cofres, embora ele quase tivesse desmaiado devido ao esfor\u00e7o. Eu estava besbilhotando por sobre o seu ombro, e um brilho t\u00e3o grande de ouro caiu sobre mim, que quase me matou. Mas quando se podia ouvir a enfermeira voltando, ele fechou a tampa, e eu me recuperei. Eu bem que me empenhei com todas as minhas for\u00e7as, mas n\u00e3o consegui fazer-lhe nenhum bem. Pois, por mais que eu criasse todos os tipos de sombras nas paredes e teto, representando as m\u00e1s a\u00e7\u00f5es que ele havia cometido, que eram tantas, que ficava dif\u00edcil escolher, n\u00e3o fui capaz de criar nenhuma sombra na sua cabe\u00e7a ou consci\u00eancia. Ele n\u00e3o tinha olhos para nada, a n\u00e3o ser para o ouro. E foi assim que aconteceu que a sua enfermeira n\u00e3o tinha nem olhos, nem cora\u00e7\u00e3o para mais nada.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>&#8220;&#8216;Um dia, quando ela estava sentada ao lado da cama dele, mas em um lugar de onde ele n\u00e3o podia v\u00ea-la, mexendo algum tipo de mingau em uma bacia, para esfria-lo para ele, eu a vi tirar um pequeno frasco do seu decote, e eu soube, pela express\u00e3o do rosto dela, tanto o que era quando o que ela viria a fazer com aquilo. Felizmente a rosca era um pouco dif\u00edcil de tirar, e isso me deu um momento para pensar.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>&#8220;&#8216;O quarto estava t\u00e3o lotado com todo o tipo de coisas, que embora n\u00e3o houvesse curtinas na cama de quatro n\u00edveis para esconder das vistas do avaro os seus tesouros preciosos, havia entretanto ali ainda um \u00fanico ponto no teto adequado para que eu pudesse aparecer na forma que eu desejava assumir. E aquele ponto era dif\u00edcil de alcan\u00e7ar. Mas eu descobri que sobre este preciso ponto, incidia um raio largo da luz do fogo, lan\u00e7ado de um espelho estranho, velho e empoeirado, largado em algum canto, ent\u00e3o eu me coloquei diante do fogo, espiando onde o espelho estava, joguei-me sobre ele, e confinei-me da sua face sobre a piscina larga de luz turva no teto, assumindo, enquanto passava, a forma de uma velha bruxa corcunda, vertendo algo do frasco em uma baxia. Eu formei o cabo da colher com o meu pr\u00f3prio nariz, ha! ha!&#8217;<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>&#8220;E uma m\u00e3o sombria acariciou a ponta sombria do nariz de sombra antes de que a l\u00edngua da sombra retornasse.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>&#8220;&#8216;O velho avaro me viu. Ele n\u00e3o viria a provar o mingau naquela noite, por mais que a sua enfermeira o procurasse seduzir e ralhasse com ele at\u00e9 que ambos ficarem exaustos. Ela fez de conta que o estava provando, e que estava muito bom, e no final retirou-se para um canto, fazendo de conta que o estava comendo ela mesma, mas eu via que ela estava tomando cuidado para expelir tudo novamente.&#8217;<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>&#8220;&#8216;Mas chegaria uma hora em que ela divia ter tido sucesso, ou acabaria por mat\u00e1-lo de fome.&#8217;<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>&#8220;&#8216;Nem te conto.&#8217;<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>&#8220;&#8216;Mas,&#8217; interveio outro, \u00b4ele n\u00e3o era digno de ser salvo.&#8217;<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>&#8220;&#8216;Ele podia se arrepender,&#8217; disse uma outra sombra mais benevolente.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>&#8220;&#8216;Nem pensar,&#8217; replicou o primeiro. &#8216;Os avaros nunca fazem isso. O amor pelo dinheiro tem menos cura em si mesmo do que qualquer outra fraqueza em que os seres humanos desgra\u00e7ados podem cair.<\/p>\n<p>Que b\u00ean\u00e7\u00e3o que \u00e9, ter nascido como sombra. As fraquezas n\u00e3o nos atingem. Que interesse poderiamos n\u00f3s ter em ouro! N\u00e3o passa de lixo.&#8217;<\/p>\n<p>&#8220;&#8216;Am\u00e9n! Am\u00e9n! Am\u00e9n!&#8217; ouviu-se de uma centena de vozes de sombra.<\/p>\n<p>&#8220;&#8216;Voc\u00ea deveria t\u00ea-la deixado matar-te e com isso estaria tudo acabado com ele.&#8217;<\/p>\n<p>&#8220;&#8216;E al\u00e9m disso, afinal, que chance tinha ele de ter escapado? Ele jamais teria como se livrar dela.<\/p>\n<p>&#8220;&#8216;Eu bem que ia lhes contra,&#8217; repetiu o narrador, &#8216;\u00e9 s\u00f3 que voc\u00ea me interrompeu com tantas observa\u00e7\u00f5es de sombra que n\u00e3o me deixava.&#8217;<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>&#8220;&#8216;Prossiga, prossiga.&#8217;<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>&#8220;&#8216;Havia uma pequena neta que costumava vir e visit\u00e1-lo \u00e0s vezes a \u00fanica criatura com a qual o avaro se preocupava. A m\u00e3e dela foi a sua filha, mas o velho nunca ia v\u00ea-la, porque ela casou contra a vontade dele. O seu marido estava morto agora, mas ele ainda n\u00e3o a perdoou.<\/p>\n<p>Depois que ele viu a sombra, entretanto, ele disse a ele mesmo, enquanto estava deitado acordado aquele noite \u2013 e eu via as palavras escritas no seu rosto -&#8216;Como \u00e9 que eu vou fazer para me livrar daquele velho diabo? Se eu n\u00e3o comer, acabarei morrendo. Gostaria que a pequena Mary viesse amanh\u00e3. Ah! A sua m\u00e3o jamais me trataria desse jeito, nem se eu vivesse uns cem anos mais.&#8217; Ele ficou assim deitado em vig\u00edlia, pensando e remoendo estas coisas thinking a noite toda, e eu fiquei parado observando-o de um canto escuro, at\u00e9 o raiar do dia, que me espantou. Quando eu voltei na noite seguinte, o quarto estava limpo e arrumado. A sua pr\u00f3pria filha, que tinha uma fei\u00e7\u00e3o triste, mas era ainda uma bela mulher, sentou-se a seu lado, e a pequena Maria estava enrolada no ch\u00e3o, junto ao fogo, imitando-nos, projetando sombras estranhas no teto com as suas m\u00e3os enganchadas. Mas ela n\u00e3o podia sequer imaginar como foi que elas apareceram ali. E n\u00e3o \u00e9 de estranhar, pois eu ajudei a criar algumas das mais incont\u00e1veis.&#8217;<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>&#8220;&#8216;Eu tamb\u00e9m tenho uma hist\u00f3ria sobre uma netinha,&#8217; disse uma outra, na mesma hora em que o outro narrador terminou.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>&#8220;&#8216;Conte. Conte.&#8217;<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>&#8220;&#8216;No Natal passado,&#8217; come\u00e7ou ele, &#8216;eu e um grupo de sombras sa\u00edmos pela penumbra afora, para encontrar alguma casa, onde todos n\u00f3s pud\u00e9ssemos ter algo a fazer; pois n\u00f3s hav\u00edamos decidido agir em conjunto. N\u00f3s procuramos e v\u00e1rios lugares, mas encontramos obje\u00e7\u00f5es a todos eles. Finalmente demos uma espiada numa ampla casa de campo, e nos precipitamos na sua dire\u00e7\u00e3o, onde encontramos v\u00e1rias pessoas ocupadas em grandes preparativos para o jantar de natal. N\u00f3s entramos, quase nos atropelamos, e decidimos na hora que ali daria certo. N\u00f3s nos divertimos primeiro no quarto das crian\u00e7as, onde havia diversas crian\u00e7as sendo vestidas para o jantar.<\/p>\n<p>Geralmente n\u00f3s nos dirigimos primeiro para o quarto das crian\u00e7as, vossa majestade. Desta vez est\u00e1vamos especialmente encantados com uma pequena garota de mais ou menos cinco anos de idade que bateu palmas e dan\u00e7ava por a\u00ed com prazer devido \u00e0s travessuras que n\u00f3s empreendemos; e n\u00f3s dissemos que far\u00edamos algo para ela se tiv\u00e9ssemos chance para isso. A companhia come\u00e7ou a comparecer; e a cada chegada, corr\u00edamos para o hall, e damos maravilhosas cambalhotas de boas-vindas. No meio tempo, n\u00f3s voamos embora para ver, como as coisas estavam indo.<\/p>\n<p>Uma garota de mais ou menos dezoito anos dava gosto de ver. Ela se vestia, como se n\u00e3o tivesse ligado muito para aquilo, mas n\u00e3o podia deixar de faze-lo de modo bonito. Quando ela deu a sua \u00faltima olhada no vulto no espelho, ela deu um meio sorriso para ele.<\/p>\n<p>&#8211; Mas n\u00f3s n\u00e3o gostamos nada, nada daquelas criaturas que aparecem nos espelhos, vossa majestade. N\u00f3s n\u00e3o as entendemos. Elas s\u00e3o assombrosas para n\u00f3s.<\/p>\n<p>-Ela parecia muito s\u00e9ria e p\u00e1lida, mas muito doce e cheia de esperan\u00e7as. N\u00f3s quer\u00edamos saber tudo sobre ela, e logo descobrimos que ela era uma parente distante e grande favorita de um cavaleiro da casa, um senhor de idade, com uma express\u00e3o de benevol\u00eancia misturada com obstina\u00e7\u00e3o e uma profunda sombra com algo de tir\u00e2nico. N\u00f3s n\u00e3o conseguir\u00edamos admir\u00e1-lo muito; mas n\u00f3s n\u00e3o mudar\u00edamos de opini\u00e3o todos ao mesmo tempo: as sombras nunca fazem isto.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>&#8220;&#8216;O sinal de jantar tocou e n\u00f3s nos precipitamos escadas abaixo. Todas as crian\u00e7as pareciam contentes, e n\u00f3s est\u00e1vamos felizes. Havia um camarada entre os serventes que aguardava ansioso. Como n\u00f3s o atormentamos! E como n\u00f3s nos divertimos! Quando ele estava pondo os pratos, n\u00f3s esperamos deitados por ele por todos os cantos e pulamos sobre ele do ch\u00e3o e por sobre os corrim\u00f5es, e para baixo das cornijas. Ele pulou, cambaleou e zanzou por a\u00ed, de modo que os seus colegas serventes come\u00e7aram a achar que ele estava b\u00eabado. Uma vez ele derrubou uma bandeja, e teve que reunir todos os peda\u00e7os, e fugiu com eles.<\/p>\n<p>E como n\u00f3s o perseguimos e eprturbamos no trabalho! Sorte dele foi que o seu chefe n\u00e3o o viu; mas n\u00f3s tomamos cuidado para que ele n\u00e3o entrasse em nenhuma complica\u00e7\u00e3o mais s\u00e9ria, embora os seus olhos estivessem ficado bastante ofuscados com o sumi\u00e7o das incont\u00e1veis sombras. Algumas vezes ele achou como se a parede estivesse caindo sobre ele; outras vezes, que o ch\u00e3o estava se abrindo para trag\u00e1-lo; outras ainda, que ele seria espancado e rasgado em peda\u00e7os correndo para cima e para baixo ou que fosse sucumbir na multid\u00e3o negra.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>&#8220;&#8216;Quando o medroso foi trazido para dentro, n\u00f3s promovemos um perfeito carnaval de sombras em torno dele, dan\u00e7ando e nos transformando em chamas azuis, como dem\u00f4nios enlouquecidos. E como as crian\u00e7as gritaram de prazer!<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>&#8220;&#8216;O velho cavaleiro, que gostava muito de crian\u00e7as, riu com uma risada que vinha do mais fundo do seu cora\u00e7\u00e3o, quando algu\u00e9m bateu fortemente na porta do hall. A bela menina deu um pulo, ficou mais p\u00e1lida e em seguida, vermelha como o fogo do Natal. Eu o vi, e arremessei as minhas m\u00e3os por sobre o seu rosto. Ela ficou muito contente, e eu sei que ela disse no seu cora\u00e7\u00e3o, &#8220;Minhas sombras do cora\u00e7\u00e3o!&#8221; o que deceu muito bem. Em seguida eu segui o resto para o hall, e encontrei um marinheiro muito jovial, bonito, de face bronzeada pelo sol, evidentemente era algum filho da casa. O velho o recebeu com l\u00e1grimas nos olhos, e as crian\u00e7as com gritos de alegria. A garotinha escapou na confus\u00e3o em tempo somente de salvar a si mesma de um desmaio. N\u00f3s nos reunimos sob a l\u00e2mpada para esconder a sua fuga, e quase a deixamos a descoberto. O mordomo n\u00e3o conseguiu acend\u00ea-lo enquanto ela n\u00e3o escorregasse novamente para o seu lugar, muito feliz por encontrar a sala t\u00e3o escura. Foi s\u00f3 o marinheiro ver ela sair, que ele se sentou ao lado dela e, sem uma s\u00f3 palavra, pegou na sua m\u00e3o na penumbra. Mas agora n\u00f3s todos nos dispersamos pelas paredes e cantos; e a l\u00e2mpada foi novamente acesa, e ele largou da m\u00e3o dela.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>&#8220;&#8216;Por todo o resto do jantar, o velho observeou os dois e viu que havia algo entre eles, e ficou muito bravo. Pois ele era um homem importante na sua pr\u00f3pria estimative e eles nunca o consultaram. O fato era que eles mesmos nem sabiam ao certo o que lhes estava acontecendo, at\u00e9 que o marinheiro foi embora para a sua \u00faltima viagem; e eles s\u00f3 conheceram um ao outro naquele momento.<\/p>\n<p>-N\u00f3s descobrimos tudo observando-os, e depois conversando sobre isso juntos depois.<\/p>\n<p>-O velho cavaleiro viu tamb\u00e9m que o seu favorito, que estava sob tal obriga\u00e7\u00e3o em rela\u00e7\u00e3o a ele por am\u00e1-la tanto, amava o seu filho mais do que a ele; e isso o deixou t\u00e3o enciumado, que em pouco tempo ele estava lan\u00e7ando uma nuvem negra sobre toda a mesa com o seu olhar moroso e respostas curtas.<\/p>\n<p>Este tipo de sombra \u00e9 muito diferente da nossa; e a sobremesa de Natal acabou ficando t\u00e3o deprimente que n\u00f3s as sombras n\u00e3o conseguimos suporta-lo, e ficamos felizes quando as senhoras se levantaram para ir at\u00e9 a sala de estar. Os cavaleiros n\u00e3o iriam atr\u00e1s das damas, nem para provar do bem conhecido vinho. Ent\u00e3o o anfitri\u00e3o mal-humorado, n\u00e3o obstante a sua hospitalidade, foi abandonado sozinho \u00e0 mesa, no grande e silencioso sal\u00e3o. N\u00f3s seguimos a comitiva escada acima para a sala de visitas e depois para o quarto das crian\u00e7as para brincar de \u201cpega-drag\u00e3o\u201d. Enquanto elas se ocupavam com este jogo, que \u00e9 um dos mais sombrios, quase todas as sombras dispararam escadas abaixo novamente para a sala de jantar, onde o velho ainda se encontrava assentado, remoendo o osso duro do seu pr\u00f3prio egocentrismo. Elas invadiram a sala e usando todo o tipo de m\u00e9todo para se expandir e inflar como bolhas de sab\u00e3o, elas obtiverma sucesso em preencher toda a sala com uma sombra depois da outra. Eles se fizeram o mais gordas poss\u00edvel em torno do fogo e da l\u00e2mpada, at\u00e9 que finalmente elas quase que inundaram todo o ambiente com montes de escurid\u00e3o.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>&#8220;&#8216;Antes de terem conseguido tudo isso, as crian\u00e7as, cansadas de tanto divertimento e bagun\u00e7a foram postas para dormir. Mas a pequena garota de cinco anos de idade, com a qual n\u00f3s ficamos t\u00e3o enquantados quando chegamos pela primeira vez n\u00e3o conseguia or dormir. Ela tinha pouco espa\u00e7o para si; e eu a estava observando na cama e agora a mantinha acordada saltitando nos raios da luz noturna. Quando os olhos dela ficaram certo dia fixos sobre mim, eu assumi as formas do av\u00f4 dela, representando-o na parede, assentado na sua cadeira, com a sua cabe\u00e7a baixa, e os seus bra\u00e7os indiferentes frouxos soltos a seu lado. E a crian\u00e7a lembrou que foi assim precisamente que ela o havia visto pela \u00faltima vez; pois acontece que ela havia dado uma espiada pela porta da sala de jantar, depois que todo o mundo se levantou e subiu as escadas. &#8220;E se ele ainda estiver sentado ali,&#8221; pensou ela, &#8220;abandonado sozinho no escuro!&#8221; Ela desceu da cama e engatinhou para baixo.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>&#8220;&#8216;Neste meio tempo os outros fizeram o quarto de baixo ficar t\u00e3o escuro, que apenas a face e cabelos broncos do velho homem podiam ser vagamente discernidos em meio \u00e0 multid\u00e3o de sombras. Pois ele havia enchido a sua pr\u00f3pria mente com sombras, que n\u00f3s, as Sombras, desej\u00e1vamos expulsar dele. Aquelas sombras eram bem diferentes de n\u00f3s, vossa majesta bem o sabe. Ele estava pensando em todos os decep\u00e7\u00f5es que ele j\u00e1 teve na vida, e de toda a ingratid\u00e3o que ele encontrou. Ele pensou muito mais no bem que ele havia feito, do que no bem que outros lhe fizeram. &#8220;Depois de tudo o que eu fiz para eles,&#8221; disse ele, com um suspiro de amargura, &#8220;nenhum deles me d\u00e1 um s\u00f3 pingo de aten\u00e7\u00e3o. Meus pr\u00f3prios filhos ficar\u00e3o contentes quando eu me for!&#8221; Naquele instante ele levantou os olhos e viu, parada junto \u00e0 porta, uma figura delicada em uma camisola. A porta atr\u00e1s dela estava fechada. Era a minha pequena amiga que havia entrado sem fazer barualho. Uma forte pontada de gelado pavor tomou o cora\u00e7\u00e3o do homem velho \u2013 mas ele derreteu-se rapidamente, pois n\u00f3s fizemos um corredor entre n\u00f3s, para que um s\u00f3 raio de luz do fogo ca\u00edsse sobre a face da pequena fada, e ele achou que fosse um dos seus filhos que havia morrido quando tinha exatamente a mesma idade da sua pequena neta, que estava agora olhando para o seu av\u00f4 por entre as sombras. Ele pensou que ela havia se levantado do seu t\u00famulo na velha escurid\u00e3o para perguntar, porque \u00e9 que o seu pai estava ali sentado, sozinho no dia do Natal. E ele sentiu que n\u00e3o tinha resposta alguma a dar para a sua pequena fantasma, a n\u00e3o ser alguma coisa que ele ficaria envergonhado de lhe dizer. Mas a pequena garota o havia visto agora. Ela caminhou at\u00e9 ele com uma dignidade infantile, entre um trope\u00e7o e outro, no que lhe parecia ser uma corda comprida. Abrindo o seu caminho entre as sombras amontoadas, ela o alcan\u00e7ou, subiu no seu colo, deitou a sua cabecinha de cabelos compridos nos seus ombros e disse: &#8220;V\u00f4! Ce ta tiste? N\u00e3o \u00e9 natal para voc\u00ea tamb\u00e9m, vov\u00f4?&#8221;<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>&#8220;&#8216;Uma nova onda de amor parecia jorrar do fundo do cora\u00e7\u00e3o do velho homem. Ele deu um abra\u00e7o apertado na crian\u00e7a e come\u00e7ou a chorar. Em seguida, sem uma s\u00f3 palavra, ele a levantou nos seus bra\u00e7os, carregou-a para cima at\u00e9 o quarto dela e a deitou na sua caminha, cobriu-a, beijou a sua pequena boca doce, sem dar-se conta de qualquer censura, e depois seguiu para a sala de visitas.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>&#8220;&#8216;Assim que entrou, viu os r\u00e9us sozinhos em um canto silencioso. Ele se dirigiu a eles, pegou na m\u00e3o de cada um e predeu-as nas dele, dizendo: &#8220;Deus os aben\u00e7oe a todos!&#8221; Ent\u00e3o ele se dirigiu para o resto do grupo, e disse &#8220;Agora, vamos celebrar o natal.&#8221;<\/p>\n<p>&#8211; E eles devem ter comemorado bastante, pois por mais visitas que eu tenha feito \u00e0quela casa, eu nunca mais o vi deprimido desde aquele dia; e eu tenho certeza de que isso deve ter lhe custado bastante esfor\u00e7o.&#8217;<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>&#8220;&#8216;N\u00f3s acabamos de chegar de um arrojado pal\u00e1cio,&#8217; disse outra sombra, &#8216;onde ficamos sabendo que havia muitas crian\u00e7as, e onde pensamos ter ouvido vozes contentes, e vimos rostos com apar\u00eancia real e feliz. Mas, assim que n\u00f3s entramos, n\u00f3s nos demos conta de que uma grande e poderosa sombra encobria o todo; e que aquela sombra se aprofundava cada vez mais, at\u00e9 que ele se consolidou tanto em escurid\u00e3o, at\u00e9 que sossegou na forma de um s\u00e1bio pr\u00edncipe. Quando n\u00f3s o vimos, n\u00e3o conseguimos mais nos mover, mas bat\u00edamos fortemente nas paredes, pelo nosso sil\u00eancio acrescido \u00e0 tristeza da hora. E quando n\u00f3s vimos a m\u00e3e daquele povo chorando cabisbaixa pela perda daquele em quem ela confiava, n\u00f3s fomos acometidos de um desejo t\u00e3o grande de deixarmos de ser sombras, mas anjos alados, que s\u00e3o as sombras alvas criados nos c\u00e9us pela Luz de todas as Luzes, ent\u00e3o, para juntar em torno dela, e fazer pairar sobre ela um consolo tal, que desaparecemos das paredes e nos encontramos flutuando bem acima das torres do pal\u00e1cio, onde n\u00f3s nos encontramos com os anjos no seu caminho; e sab\u00edamos que o nosso servi\u00e7o n\u00e3o estava sendo demandado. &#8216;<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>&#8220;Naquele momento houve um brilho de uma luz luar que se aproximava, e o rei comecou a ver v\u00e1rios daquelas Sombras estrangeiras, com rostos humanos e olhos, que se moviam entre a multid\u00e3o. Ele sabia de imediato que eles n\u00e3o pertenciam ao seu dom\u00ednio. Eles olharam para ele, e se aproximaram dele, e passaram rapidamente, mas eles nunca fizeram qualquer rever\u00eancia, ou deram sinais de respeito e admira\u00e7\u00e3o. E o que os seus olhos diziam a ele, s\u00f3 o rei seria capaz de dizer. Mas ele n\u00e3o disse.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>&#8220;&#8216;O que s\u00e3o aquelas outras sombras que est\u00e3o se movendo atrav\u00e9s da multid\u00e3o?&#8217; disse ele para um de seus s\u00faditos que estava pr\u00f3ximo dele.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>&#8220;A sombra come\u00e7ou, olhando ao redor, e tremendo um pouco, colocou um dedo sobre os seus l\u00e1bios. Em seguida, puxando o rei um pouco de lado, e olhando com aten\u00e7\u00e3o para ele mais uma vez, disse em um tom baixo:<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>&#8220;&#8216;Eu n\u00e3o sei bem o que eles s\u00e3o. Ouvi dizer muito a seu respeito, mas eu s\u00f3 vi um deles certa vez em toda a minha vida. Isso foi quando alguns de n\u00f3s prestamos certa vez uma visita a um homem que ficava muito sozinho, e diziam que ele costumava pensar muito. N\u00f3s vimos dois dels sentados no quarto jutno com ele, e ele estava t\u00e3o p\u00e1lido quanto eles eram. N\u00e3o conseguimos cruzar a soleira da porta, mas come\u00e7amos a temer e tremitar, e est\u00e1vamos prontos para derreter totalmente. Vossa majestade tamb\u00e9m n\u00e3o tem medo deles?&#8217;<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>&#8220;Mas o rei n\u00e3o deu resposta; e antes de conseguirmos falar novamente, a lua se elevou acima dos poderosos pilares da igreja das sombras, e olhou para dentro da grande janela do c\u00e9u.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>&#8220;As sombras desapareceram todas e o rei, levantando os seus olhos novamente, n\u00e3o via mais nada a n\u00e3o ser a parede do seu pr\u00f3prio quarto, na qual trimulava a sombra de uma pequena crian\u00e7a. Ele olhou para baixo e ali, sentado em uma cadeirinho junto ao fogo, ele viu um dos seus filhos, esperando para desejar boa noite para o seu pai, e ir para a cama cedo, para que pudesse acordar igualmente cedo e ser muito bonzinho e feliz no dia do natal.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>&#8220;E Ralf Rinkelmann sentiu-se muito grato por ser um ser humano, e nenhuma sombra. &#8221;<\/p>\n<p>Fonte:<\/p>\n<p>http:\/\/kirov.seanet.com\/~eldrbarry\/mous\/bibl\/csr.htm<\/p>\n<p>http:www.geocities.com\/Athens\/Atlantes\/6510\/col-chesterton.htm<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>de George MacDonald Trad. Gabriele Greggersen O velho Ralf Rinkelmann ganhava a vida com a apresenta\u00e7\u00e3o de pequenas pe\u00e7as de com\u00e9dia. E gastava quase tudo novamente para financiar os seus poemas tr\u00e1gicos. Ent\u00e3o ele era o homem ideal para ser eleito rei do mundo das fadas, pois no reino das fadas deve haver elei\u00e7\u00f5es para [&hellip;]<\/p>\n","protected":false},"author":46,"featured_media":0,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"ngg_post_thumbnail":0,"footnotes":""},"categories":[11070],"tags":[29225],"class_list":["post-983","post","type-post","status-publish","format-standard","hentry","category-traducao","tag-george-macdonald"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/ultimato.com.br\/sites\/cslewis\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/983","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/ultimato.com.br\/sites\/cslewis\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/ultimato.com.br\/sites\/cslewis\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/ultimato.com.br\/sites\/cslewis\/wp-json\/wp\/v2\/users\/46"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/ultimato.com.br\/sites\/cslewis\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=983"}],"version-history":[{"count":3,"href":"https:\/\/ultimato.com.br\/sites\/cslewis\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/983\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":990,"href":"https:\/\/ultimato.com.br\/sites\/cslewis\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/983\/revisions\/990"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/ultimato.com.br\/sites\/cslewis\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=983"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/ultimato.com.br\/sites\/cslewis\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=983"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/ultimato.com.br\/sites\/cslewis\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=983"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}