{"id":972,"date":"2017-11-22T12:35:03","date_gmt":"2017-11-22T15:35:03","guid":{"rendered":"http:\/\/ultimato.com.br\/sites\/cslewis\/?p=972"},"modified":"2017-11-29T08:06:28","modified_gmt":"2017-11-29T11:06:28","slug":"o-valor-dos-classicos-segundo-c-s-lewis","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/ultimato.com.br\/sites\/cslewis\/2017\/11\/22\/o-valor-dos-classicos-segundo-c-s-lewis\/","title":{"rendered":"O valor dos cl\u00e1ssicos segundo C.S. Lewis"},"content":{"rendered":"<div id=\"texto\" class=\"texto-mobile\" style=\"text-align: right;\"><strong>Por Gabriele Greggersen<\/strong><\/div>\n<div class=\"texto-mobile\" style=\"text-align: left;\">\n<p><strong>Como saber se um livro novo \u00e9 bom, se pouca gente o leu?<br \/>\n<\/strong><br \/>\n<img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"imagemdireita\" src=\"http:\/\/www.ultimato.com.br\/image\/atualiza_home\/principal\/destaques\/2017\/11_nov\/imag_dest_22_11_17_lewisOK.jpg\" alt=\"\" width=\"360\" height=\"266\" align=\"right\" border=\"0\" hspace=\"0\" vspace=\"0\">Muitos dos que apreciam a leitura, \u00e0s vezes, ficam desorientados quanto ao que ler. Ent\u00e3o, frequentemente, seguem a moda, os best-sellers ou os mais vendidos. Mas nem sempre os mais vendidos s\u00e3o os melhores livros, e, muitas vezes, os melhores n\u00e3o s\u00e3o os mais novos ou os lan\u00e7amentos.<\/p>\n<p>Ent\u00e3o, como saber se um livro novo \u00e9 bom, se pouca gente o leu? \u00c9 precisamente isso que Lewis questiona na introdu\u00e7\u00e3o \u00e0 tradu\u00e7\u00e3o inglesa de um cl\u00e1ssico de Atan\u00e1sio, \u201cOn the Incarnation\u201d [Sobre a encarna\u00e7\u00e3o], datada do s\u00e9culo IV. Ao autor \u00e9 atribu\u00eddo tamb\u00e9m um Credo de Atan\u00e1sio, mas cuja autoria \u00e9 questionada por Lewis.<\/p>\n<p>O fato \u00e9 que o tema central desse credo tamb\u00e9m \u00e9 a encarna\u00e7\u00e3o e s\u00f3 por isso, merece fazer parte da biblioteca dos credos cl\u00e1ssicos crist\u00e3os.<\/p>\n<p>\u00c9 sobre os cl\u00e1ssicos, que ele chama de \u201cold books\u201d (livros antigos), que Lewis escreve a sua introdu\u00e7\u00e3o. N\u00e3o \u00e9 precisamente sobre o conte\u00fado da obra de Atan\u00e1sio que Lewis discorre, mas por que ler livros como o dele, para come\u00e7o de conversa. A tenta\u00e7\u00e3o foi certamente grande, pois, como anglicano, o tema da encarna\u00e7\u00e3o lhe era especialmente caro. Talvez, por isso mesmo ele tenha sido escolhido para a introdu\u00e7\u00e3o. Mas ele decidiu priorizar falar sobre um tema que lhe pareceu mais urgente.<\/p>\n<p>Lewis poderia dizer que essa desvaloriza\u00e7\u00e3o dos cl\u00e1ssicos e prefer\u00eancia pelos mais novos seja por causa do que, em outro artigo, ele chama de \u201cesnobismo cronol\u00f3gico\u201d. Achamos tudo que \u00e9 mais novo mais \u201cna moda\u201d, porque \u00e9 \u201cde \u00faltima gera\u00e7\u00e3o\u201d, e, portanto, necessariamente melhor e mais verdadeiro. Mas ele prefere atribu\u00ed-lo \u00e0 nossa humildade e medo dos grandes pensadores, pois achamos que n\u00e3o vamos compreend\u00ea-los.<\/p>\n<p>Talvez, mas acho que o preconceito \u00e9 um motivo mais forte, mesmo nos meios em que o estudo se refere \u00e0 teologia. Nesse meio, acredito que o esnobismo cronol\u00f3gico \u00e9 especialmente agudo, pois todos querem seguir as doutrinas mais avan\u00e7adas e inseridas na contemporaneidade para parecerem mais modernos, ou p\u00f3s-modernos.<\/p>\n<p><strong>Os cl\u00e1ssicos foram testados pelo tempo<br \/>\n<\/strong><br \/>\nNesse esfor\u00e7o de mostrar o porqu\u00ea de os cl\u00e1ssicos serem mais importantes de se ler \u2013 que \u00e9 pelo simples fato de eles cometerem erros que j\u00e1 foram denunciados e terem li\u00e7\u00f5es a oferecer \u00e0 nossa \u00e9poca, que s\u00f3 quem est\u00e1 de fora pode nos oferecer \u2013, Lewis se coloca lado a lado com os reformadores. J\u00e1 que um dos pilares da Reforma era, justamente, fazer um resgate da igreja primitiva, dos primeiros pais da teologia e filosofia crist\u00e3, e de autores que fazem parte do patrim\u00f4nio comum, n\u00e3o apenas do cristianismo, mas de toda a humanidade.<\/p>\n<p>Em nosso pa\u00eds, temos alguns representantes dos defensores da escola dos cl\u00e1ssicos, como Ana Maria Machado em seu \u201cComo o por que ler os cl\u00e1ssicos desde cedo\u201d, em que Lewis e Tolkien t\u00eam um espa\u00e7o especial.<\/p>\n<p>Mas internacionalmente podemos citar o Projeto dos \u201cThe Great Books\u201d, que defende o retorno das Artes liberais, o \u201ctrivium\u201d e o \u201cquadrivium\u201d, praticado nas escolas gregas e romanas, retomadas na Academia de Genebra e escolas de Lutero e Melanchton.<\/p>\n<p>Mas h\u00e1 mais um motivo por que ler os cl\u00e1ssicos: porque eles foram testados pelo tempo e sobreviveram \u00e0 cr\u00edtica. Por isso eles tamb\u00e9m s\u00e3o chamados de imortais. Apesar de se colocar como autor moderno, sem d\u00favida, Lewis pode ser considerado um cl\u00e1ssico. Gostar\u00edamos de homenage\u00e1-lo com a tradu\u00e7\u00e3o in\u00e9dita do texto \u201cOn the Reading of Old Books\u201d.<\/p>\n<p>*****<\/p>\n<p><strong>Como ler livros antigos&nbsp;<\/strong><\/p>\n<\/div>\n<div class=\"texto-mobile\" style=\"text-align: left;\"><strong>C.S. Lewis<br \/>\n<\/strong><br \/>\nH\u00e1 uma ideia estranha rolando por a\u00ed de que, n\u00e3o importa o assunto de que se trate, qualquer livro antigo tenha que ser lido exclusivamente pelos profissionais e que o amador deva se contentar com os livros modernos. De acordo com a minha experi\u00eancia, como professor de literatura inglesa, quando o estudante m\u00e9dio quer descobrir algo sobre o platonismo, a \u00faltima coisa que ele pensa em fazer \u00e9 pegar uma tradu\u00e7\u00e3o de Plat\u00e3o da estante da biblioteca e ler o Simp\u00f3sio. Em vez disso, ele leria algum abomin\u00e1vel e grosso livro moderno, que se resume a \u201cismos\u201d e influ\u00eancias sofridas por ele, tendo apenas uma numa d\u00fazia de p\u00e1ginas que lhe dizem o que Plat\u00e3o realmente disse. Esse erro \u00e9 desculp\u00e1vel, pois deve-se \u00e0 humildade. \u00c9 que o estudante fica tremendo de medo de se encontrar face a face com os grandes fil\u00f3sofos. Ele se sente despreparado e acha que n\u00e3o vai compreend\u00ea-los. Mas se ao menos ele soubesse que o grande homem, precisamente por sua grandeza, \u00e9 muito mais intelig\u00edvel do que o seu comentador moderno. At\u00e9 mesmo o estudante mais limitado estar\u00e1 em condi\u00e7\u00f5es de entender, se n\u00e3o tudo, pelo menos uma grande parte do que Plat\u00e3o disse, mas \u00e9 dif\u00edcil haver algu\u00e9m que entenda certos livros modernos sobre o platonismo. Por isso, uma das minhas principais causas como professor sempre foi a de persuadir os jovens de que o conhecimento de primeira m\u00e3o n\u00e3o s\u00f3 vale mais a pena de ser adquirido do que o conhecimento de segunda, mas, usualmente, tamb\u00e9m \u00e9 mais f\u00e1cil e mais prazeroso de se adquirir.N\u00e3o h\u00e1 lugar em que essa prefer\u00eancia equivocada pelos livros modernos e essa timidez em rela\u00e7\u00e3o aos antigos esteja mais presente do que na teologia. Pegue qualquer grupo de estudos de leigos crist\u00e3os, e poder\u00e1 ter certeza de que eles n\u00e3o estar\u00e3o estudando S\u00e3o Lucas, S\u00e3o Paulo ou Santo Agostinho ou S\u00e3o Tom\u00e1s ou Hooker ou Butler; mas M. Berdyaev ou M. Maritain ou M. Niebuhr ou Dorothy L. Sayers ou mesmo a mim.<\/div>\n<div class=\"texto-mobile\" style=\"text-align: right;\">\n<p style=\"text-align: left;\">Ora, esse estado de coisas me parece bastante invertido. \u00c9 claro que, como escritor, n\u00e3o desejo que o leitor comum deixe de ler livros modernos. Mas se fosse para eu optar por recomendar que se leia apenas livros novos ou exclusivamente os antigos, eu escolheria os \u00faltimos. E daria esse conselho principalmente aos amadores que, precisamente por isso, est\u00e3o menos protegidos do que o especialista contra os perigos de uma dieta exclusivamente contempor\u00e2nea. Um livro novo ainda est\u00e1 no per\u00edodo de teste e um amador n\u00e3o estar\u00e1 em condi\u00e7\u00f5es de julg\u00e1-lo. Ele ter\u00e1 que ser testado em rela\u00e7\u00e3o ao grande corpo de conhecimentos crist\u00e3os ao longo das eras e todas as suas implica\u00e7\u00f5es ocultas (muitas vezes insuspeitas pelo pr\u00f3prio autor) tiveram que ser trazidas \u00e0 luz. Muitas vezes elas n\u00e3o podem ser compreendidas plenamente sem o conhecimento de uma boa quantidade de outros livros modernos.<\/p>\n<p style=\"text-align: left;\">Se voc\u00ea entra de paraquedas numa conversa que havia come\u00e7ado tr\u00eas horas atr\u00e1s, muitas vezes n\u00e3o ver\u00e1 a real import\u00e2ncia do que est\u00e1 sendo dito. Observa\u00e7\u00f5es que lhe pare\u00e7am muito normais estar\u00e3o provocando risos ou irrita\u00e7\u00e3o e voc\u00ea n\u00e3o entender\u00e1 por que \u2014 a raz\u00e3o, claro, \u00e9 que os est\u00e1gios anteriores da conversa lhes tenham dado um motivo especial para tanto.<\/p>\n<p style=\"text-align: left;\">Da mesma forma, as senten\u00e7as de um livro moderno que parecem bem ordin\u00e1rias, podem estar sendo relacionadas a algum outro livro, e dessa forma voc\u00ea pode ser induzido a aceitar o que voc\u00ea teria rejeitado com indigna\u00e7\u00e3o se soubesse o seu significado real. A \u00fanica seguran\u00e7a que se pode ter \u00e9 partir de um padr\u00e3o de cristianismo claro, central (\u201cCristianismo puro e simples\u201d, na formula\u00e7\u00e3o de Baxter), que coloca as controv\u00e9rsias do momento no seu \u00e2ngulo mais apropriado. Tal padr\u00e3o s\u00f3 pode ser adquirido a partir dos livros antigos. Uma boa regra para se adotar \u00e9 de n\u00e3o se permitir ler outro livro novo, enquanto n\u00e3o se tiver lido um antigo entre um e outro. Se essa regra for demasiada para voc\u00ea, deve ler pelo menos um livro antigo a cada tr\u00eas novos.<\/p>\n<p style=\"text-align: left;\">Toda \u00e9poca tem a suas idiossincrasias. Cada uma se especializa em ver certas verdades e em cometer certos erros. Por isso mesmo, todos n\u00f3s precisamos daqueles livros que ir\u00e3o corrigir os erros caracter\u00edsticos de nossa pr\u00f3pria era. E isso significa os livros antigos. Todos os escritores contempor\u00e2neos compartilham at\u00e9 certo ponto da cosmovis\u00e3o contempor\u00e2nea \u2013 mesmo aqueles que, como eu, parecem mais contr\u00e1rios a ela. Nada me impressiona mais ao ler as controv\u00e9rsias do passado do que o fato de que ambos os lados estavam assumindo sem questionamento uma boa quantidade de ideias que hoje est\u00e3o absolutamente negadas. Eles achavam que elas eram absolutamente opostas, mas, ao mesmo tempo, elas estavam secretamente unidas \u2013 unidas umas com as outras e contra as eras anteriores e posteriores \u2013 por um grande volume de suposi\u00e7\u00f5es em comum. Podemos ter certeza de que a cegueira caracter\u00edstica do s\u00e9culo vinte \u2013 a cegueira sobre a qual a posteridade viria a perguntar: \u201cMas como \u00e9 que pode eles terem ensinado tal coisa\u201d \u2013 se encontra onde n\u00f3s nunca suspeit\u00e1vamos, e se refere a algo sobre um acordo claro que h\u00e1 entre Hitler e o Presidente Roosevelt, ou entre o Sr. H.G. Wells e Karl Barth. Nenhum de n\u00f3s pode escapar completamente dessa cegueira, mas acabaremos certamente por aument\u00e1-la e afrouxar a nossa guarda contra ela, se nos limitarmos a ler livros modernos. Onde eles est\u00e3o ao lado da verdade, v\u00e3o nos fornecer verdades que j\u00e1 conhecemos em parte. Onde eles s\u00e3o falsos, v\u00e3o agravar o erro com o qual j\u00e1 estamos contaminados perigosamente. O \u00fanico ant\u00eddoto a isso \u00e9 de manter a brisa clara e limpa do mar dos s\u00e9culos soprando atrav\u00e9s das nossas mentes, e isso s\u00f3 pode ser feito lendo livros antigos. \u00c9 claro que n\u00e3o estou defendendo que haja alguma magia com rela\u00e7\u00e3o ao passado. As pessoas n\u00e3o eram mais inteligentes do que s\u00e3o agora; eles cometiam tantos erros quanto n\u00f3s. Mas n\u00e3o os mesmos erros, que uma vez conhecidos e palp\u00e1veis no presente, n\u00e3o v\u00e3o representar perigo para n\u00f3s hoje. Duas cabe\u00e7as pensam melhor do que uma, n\u00e3o porque alguma delas seja infal\u00edvel, mas porque \u00e9 improv\u00e1vel que elas errem na mesma dire\u00e7\u00e3o. Com certeza, os livros do futuro seriam um corretivo t\u00e3o bom quanto os livros do passado, mas infelizmente n\u00e3o temos acesso a eles.<\/p>\n<p style=\"text-align: left;\">Eu mesmo fui levado a ler os cl\u00e1ssicos crist\u00e3os quase por acidente, em decorr\u00eancia dos meus estudos de l\u00edngua e literatura inglesa. Alguns deles, como Hooker, Herbert, Traherne, Taylor e Bunyan, eu li porque eram grandes escritores ingleses propriamente ditos; outros, como Bo\u00e9cio, Santo Agostinho, Tom\u00e1s de Aquino e Dante, porque representaram \u201cinflu\u00eancias\u201d sobre eles. George Macdonald eu encontrei por mim mesmo aos dezesseis anos de idade e nunca vacilei na minha lealdade a ele, embora eu tivesse tentado, por muito tempo, ignorar o seu cristianismo. Esse, como voc\u00ea vai notar, \u00e9 um pacote bastante misto, com representantes de v\u00e1rias igrejas, climas e \u00e9pocas. E isso me leva a mais um motivo para l\u00ea-los. As divis\u00f5es do cristianismo s\u00e3o ineg\u00e1veis e s\u00e3o expressas com \u00edmpeto por muitos desses escritores. Mas se algu\u00e9m for tentado a pensar \u2014 como \u00e9 o caso de algu\u00e9m que s\u00f3 leu autores contempor\u00e2neos \u2014 que o \u201ccristianismo\u201d seja uma palavra com tantos significados, que n\u00e3o quer dizer mais nada, poder\u00e1 aprender que, sem d\u00favida alguma, n\u00e3o \u00e9 bem assim, dando um passo para fora de seu pr\u00f3prio s\u00e9culo. Comparado com as \u00e9pocas, o \u201ccristianismo puro e simples\u201d se revela como n\u00e3o sendo nenhuma transpar\u00eancia interdenominacional ins\u00edpida, mas algo positivo, auto consistente e inexaur\u00edvel.<\/p>\n<p style=\"text-align: left;\">Eu o sei, com efeito, por experi\u00eancia pr\u00f3pria. Na \u00e9poca em que eu ainda odiava o cristianismo, aprendi a reconhec\u00ea-lo como um aroma bastante familiar, que emanava quase que invariavelmente, seja do puritano Bunyan, seja do Hooker anglicano, seja do Dante tomista. Ele estava ali (de flores e mel) em Francois de Sales; ele estava presente (grave e caseiro) em Spenser e Walton; estava presente (impiedoso, mas viril) em Pascal e em Johnson; estava ali, novamente, com um sabor suave e tremendamente paradis\u00edaco, em Vaughan e Boehme e Traherne. Na sobriedade urbana do s\u00e9culo XVIII n\u00e3o se estava a salvo \u2014 Law e Butler eram dois le\u00f5es no meio do caminho. O suposto \u201cpaganismo\u201d dos elizabetanos n\u00e3o poderia deix\u00e1-lo de fora; ele estava \u00e0 espreita at\u00e9 mesmo onde uma pessoa poderia se achar mais segura poss\u00edvel, bem no centro de \u201cA rainha das fadas\u201d e da \u201cArcadia\u201d. \u00c9 claro que o aroma era variado, mas, ainda assim \u2014 afinal de contas \u2014 t\u00e3o invariavelmente o mesmo, reconhec\u00edvel, inescap\u00e1vel, o odor que sempre representar\u00e1 a morte para n\u00f3s, se n\u00e3o permitirmos que adquira vida:<\/p>\n<p style=\"text-align: left;\">\u201cUm ar que mata<br \/>\nSopra de um pa\u00eds long\u00ednquo\u201d<\/p>\n<p style=\"text-align: left;\">Ficamos todos angustiados e igualmente envergonhados quanto \u00e0s divis\u00f5es do cristianismo. Mas os que sempre viveram num meio crist\u00e3o ficar\u00e3o mais facilmente desanimados por elas. Elas s\u00e3o m\u00e1s, mas pessoas assim n\u00e3o sabem como a coisa se parece olhando de fora. Visto dessa perspectiva, o que permanece intacto apesar de todas as divis\u00f5es ainda parece ser (como realmente \u00e9) uma unidade impressionante. Eu sei, porque a vi, e nossos inimigos o sabem muito bem tamb\u00e9m. Qualquer um pode encontrar essa unidade, saindo de sua pr\u00f3pria \u00e9poca. N\u00e3o \u00e9 o suficiente, mas \u00e9 mais do que voc\u00ea havia pensado at\u00e9 ent\u00e3o. Uma vez que voc\u00ea esteja bem encharcado disso, se ent\u00e3o voc\u00ea se aventurar a falar, ter\u00e1 uma experi\u00eancia surpreendente. Ser\u00e1 tido como um papista, quando na verdade est\u00e1 reproduzindo Bunyan; um pante\u00edsta, quando est\u00e1 citando Aquino; e assim por diante. Pois agora voc\u00ea deve avan\u00e7ar para o grande viaduto que atravessa as eras e que parece t\u00e3o alto, a partir dos vales; t\u00e3o baixo, a partir das montanhas; t\u00e3o estreito, comparado com o mangue; e t\u00e3o largo, comparado com picada de burro.<\/p>\n<p style=\"text-align: left;\">O presente livro \u00e9 uma esp\u00e9cie de experimento. A tradu\u00e7\u00e3o \u00e9 destinada ao mundo como um todo, n\u00e3o apenas para os estudantes de teologia. Se ele suceder, outras tradu\u00e7\u00f5es de grandes livros crist\u00e3os presumivelmente seguir\u00e3o. Em certo sentido, \u00e9 claro, n\u00e3o se trata do primeiro do g\u00eanero. Tradu\u00e7\u00f5es da \u201cTheologia Germanica\u201d, de \u201cA Imita\u00e7\u00e3o de Cristo\u201d, de \u201cA escala da Perfei\u00e7\u00e3o\u201d e de \u201cAs Revela\u00e7\u00f5es da Sra. Juliana de Norwich\u201d j\u00e1 est\u00e3o no mercado e s\u00e3o muito valiosas, embora algumas delas n\u00e3o sejam muito acad\u00eamicas. Mas \u00e9 percept\u00edvel que todos esses livros s\u00e3o mais devocionais do que doutrinais. Agora, o leigo ou amador precisa ser instru\u00eddo, bem como exortado. Nos tempos de hoje, sua necessidade de conhecimento \u00e9 particularmente urgente. Eu tamb\u00e9m nem sequer admitiria alguma divis\u00e3o precisa entre os dois tipos de livro. Da minha pr\u00f3pria parte, tendo a achar os livros doutrinais muitas vezes mais \u00fateis para a devo\u00e7\u00e3o do que os livros devocionais, e suspeito que a mesma experi\u00eancia possa acometer muitas outras pessoas. Acredito que muitos daqueles que acham que \u201cnada acontece\u201d quando se sentam ou se ajoelham diante de um livro de devo\u00e7\u00e3o, achar\u00e3o que o cora\u00e7\u00e3o canta de forma espont\u00e2nea, enquanto est\u00e3o digerindo uma por\u00e7\u00e3o dura de teologia com um cachimbo entre os dentes e uma caneta na m\u00e3o.<\/p>\n<p style=\"text-align: left;\">Esta aqui \u00e9 uma \u00f3tima tradu\u00e7\u00e3o de mui grandioso livro. Santo Atan\u00e1sio sofreu na opini\u00e3o popular devido a certa senten\u00e7a no \u201cCredo de Atan\u00e1sio\u201d. N\u00e3o vou discutir aqui o ponto de que essa obra n\u00e3o \u00e9 exatamente um credo e n\u00e3o foi escrita por Atan\u00e1sio, pois eu acho que se trata de uma obra de escrita da mais alta qualidade. As palavras \u201cA qual [a f\u00e9 universal], a menos que cada um preserve perfeita e inviol\u00e1vel, certamente perecer\u00e1 para sempre\u201d \u00e9 que representam o ponto ofensivo. Elas s\u00e3o usualmente mal compreendidas. A palavra operacional \u00e9 preservar, n\u00e3o adquirir, ou mesmo crer, mas manter. O autor n\u00e3o est\u00e1 falando, na verdade, sobre descrentes, mas de desertores; n\u00e3o daqueles que nunca ouviram falar de Cristo, nem mesmo daqueles que o entenderam mal e se recusaram a aceit\u00e1-lo, mas daqueles que, tendo realmente compreendido e realmente crido, depois se permitiram, debaixo de um ataque de pregui\u00e7a ou a press\u00e3o da moda ou qualquer outra confus\u00e3o que tiverem deixado ingressar, partir para modos sub-crist\u00e3os de pensamento. Eles s\u00e3o um alerta contra a cren\u00e7a moderna de que todas as mudan\u00e7as de cren\u00e7a, por mais que sejam provocadas, sejam necessariamente isentas de culpa. Mas essa n\u00e3o \u00e9 a minha preocupa\u00e7\u00e3o imediata. Mencionei o \u201ccredo (usualmente assim chamado) de Atan\u00e1sio\u201d s\u00f3 para tirar do caminho do leitor o que poderia ser um fantasma e colocar o verdadeiro Atan\u00e1sio no seu lugar. O seu epit\u00e1fio \u00e9 Athanasius contra mundum, \u201cAtan\u00e1sio contra o mundo\u201d. Temos orgulho de que nosso pr\u00f3prio pa\u00eds se colocou contra o mundo mais de uma vez. Atan\u00e1sio fez o mesmo. Ele se colocou a favor da doutrina da Trindade \u201ccompleta e imaculada\u201d quando parecia que todo o mundo civilizado estava recaindo do cristianismo na religi\u00e3o de Ario \u2014 numa daquelas religi\u00f5es sint\u00e9ticas e \u201csens\u00edveis\u201d que s\u00e3o recomendadas de forma t\u00e3o efusiva hoje e que, ent\u00e3o, da mesma forma como agora, inclu\u00edam entre os seus devotos muitos cl\u00e9rigos altamente cultos. E sua gl\u00f3ria est\u00e1 em que ele n\u00e3o se moveu com os tempos; seu m\u00e9rito \u00e9 que ele permanece at\u00e9 agora, enquanto os tempos, como fazem em todas as eras, passaram.<\/p>\n<p style=\"text-align: left;\">Quando eu abri o seu De Incarnatione pela primeira vez, logo descobri por um teste muito simples que estava lendo uma obra de arte. Eu conhecia muito pouco de grego crist\u00e3o, exceto daquele no Novo Testamento, e esperava ter dificuldades. Para a minha surpresa eu o achei quase t\u00e3o f\u00e1cil quanto Xenofonte e apenas a mente de um mestre poderia, no s\u00e9culo IV, ter escrito de forma t\u00e3o profunda sobre tal objeto com uma simplicidade t\u00e3o cl\u00e1ssica. Cada p\u00e1gina que eu lia confirmava essa impress\u00e3o. Sua abordagem dos milagres \u00e9 muito necess\u00e1ria para os dias de hoje, pois \u00e9 a resposta definitiva \u00e0queles que se op\u00f5em a eles como \u201cviola\u00e7\u00f5es arbitr\u00e1rias e sem sentido das leis da natureza\u201d. Eles s\u00e3o apresentados aqui como sendo uma reprodu\u00e7\u00e3o em letras garrafais da mesma mensagem que a natureza escreve em sua letra cursiva, que mais parece um garrancho. Trata-se das mesmas opera\u00e7\u00f5es que se esperaria daquele que estava t\u00e3o cheio de vida que, quando desejou morrer, teve que \u201cemprestar a morte de outros\u201d. Todo o livro, com efeito, \u00e9 um retrato da \u00e1rvore da vida \u2014 um livro meloso e dourado, cheio de leveza e confian\u00e7a. N\u00e3o conseguimos nos apropriar de toda essa confian\u00e7a nos dias de hoje, eu admito. N\u00e3o podemos apontar para a alta virtude da vida crist\u00e3 e da coragem alegre, quase escarnecedora, do mart\u00edrio crist\u00e3o como uma prova de nossas doutrinas com a mesma seguran\u00e7a que Atan\u00e1sio toma por h\u00e1bito. Mas se h\u00e1 algu\u00e9m que possa ser acusado disso n\u00e3o \u00e9 Atan\u00e1sio.<\/p>\n<p style=\"text-align: left;\">A tradutora conhece tanto mais de grego crist\u00e3o do que eu, que seria despropositado de minha parte louvar a sua vers\u00e3o. Mas me parece que ela est\u00e1 em linha com a tradi\u00e7\u00e3o da tradu\u00e7\u00e3o inglesa. N\u00e3o penso que o leitor ir\u00e1 achar aqui qualquer tra\u00e7o daquelas imprecis\u00f5es que s\u00e3o t\u00e3o comuns nas interpreta\u00e7\u00f5es modernas das l\u00ednguas antigas. Isso \u00e9 o m\u00e1ximo que o leitor ingl\u00eas ir\u00e1 perceber. Aqueles capazes de comparar a vers\u00e3o com o original estar\u00e3o em condi\u00e7\u00f5es de estimar quanta intelig\u00eancia e talento \u00e9 pressuposta em uma escolha como, por exemplo, por \u201cesses sabich\u00f5es\u201d na primeira p\u00e1gina.<\/p>\n<\/div>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Por Gabriele Greggersen Como saber se um livro novo \u00e9 bom, se pouca gente o leu? Muitos dos que apreciam a leitura, \u00e0s vezes, ficam desorientados quanto ao que ler. Ent\u00e3o, frequentemente, seguem a moda, os best-sellers ou os mais vendidos. 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