{"id":875,"date":"2017-01-05T18:04:23","date_gmt":"2017-01-05T21:04:23","guid":{"rendered":"http:\/\/ultimato.com.br\/sites\/cslewis\/?p=875"},"modified":"2017-01-05T18:04:23","modified_gmt":"2017-01-05T21:04:23","slug":"a-teoria-humanitaria-da-punicao","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/ultimato.com.br\/sites\/cslewis\/2017\/01\/05\/a-teoria-humanitaria-da-punicao\/","title":{"rendered":"A Teoria Humanit\u00e1ria da Puni\u00e7\u00e3o*"},"content":{"rendered":"<p style=\"text-align: right;\">Por C.S. Lewis (tradu\u00e7\u00e3o <span class=\"skimlinks-unlinked\">conservadorismopolitico.wordress.com<\/span>)<\/p>\n<p style=\"text-align: right;\"><strong>Fonte:<\/strong> <a href=\"http:\/\/www.spiked-online.com\/images\/273-275-1-PB.pdf\">http:\/\/www.spiked-online.com\/images\/273-275-1-PB.pdf<\/a><\/p>\n<p style=\"text-align: right;\">\n<p>Na Inglaterra, temos recentemente tido uma controv\u00e9rsia sobre a Pena Capital. Eu n\u00e3o sei se um homicida \u00e9 mais capaz de se arrepender e fazer o bem na forca, algumas semanas ap\u00f3s seu julgamento, ou na enfermaria da pris\u00e3o, trinta anos depois. Eu n\u00e3o sei se o medo da morte \u00e9 um dissuasor indispens\u00e1vel. Eu n\u00e3o preciso, para o prop\u00f3sito desse artigo, decidir se este \u00e9 um dissuasor moralmente permiss\u00edvel. Essas s\u00e3o quest\u00f5es que proponho deixar intocada. Meu assunto n\u00e3o \u00e9 a Pena Capital em particular, mas aquela teoria da puni\u00e7\u00e3o em geral que a controv\u00e9rsia revelou ser chamada a teoria Humanit\u00e1ria. Aqueles que a defendem pensam que ela \u00e9 suave e misericordiosa. Nisto acredito que eles est\u00e3o seriamente enganados. Acredito que a \u201cHumanidade\u201d que eles afirmam \u00e9 uma ilus\u00e3o perigosa e disfar\u00e7a a possibilidade de crueldade e injusti\u00e7a sem fim. Insto um retorno \u00e0 teoria tradicional, ou Retributiva, n\u00e3o apenas, nem sequer primariamente, nos interesses da sociedade, mas nos interesses do criminoso.<\/p>\n<p>De acordo com a teoria Humanit\u00e1ria, punir um homem porque ele merece, e t\u00e3o quanto ele merece, \u00e9 mera vingan\u00e7a, e, portanto, b\u00e1rbaro e imoral. Alega-se que os \u00fanicos motivos leg\u00edtimos para punir s\u00e3o os desejo de dissuadir outros por exemplo ou consertar o criminoso. Quando essa teoria \u00e9 combinada, como frequentemente acontece, com a cren\u00e7a de que todo o crime \u00e9 mais ou menos patol\u00f3gico, a ideia de consertar diminui-se \u00e0quela de cicatrizar ou curar [healing or curing], e a puni\u00e7\u00e3o se torna terap\u00eautica. Dessa forma, parece \u00e0 primeira vista que n\u00f3s passamos da no\u00e7\u00e3o dura e farisaica de dar aos \u00edmpios seus merecimentos [Desert, termo filos\u00f3fico: sentido aproximado] para a caridosa e esclarecida de cuidar dos psicologicamente doentes. O que poderia ser mais af\u00e1vel? Um pequeno ponto que \u00e9 dado como certo por essa teoria, por\u00e9m, precisa ser explicitado. As coisas feitas ao criminoso, mesmo que elas sejam chamadas de curas, ser\u00e3o t\u00e3o compuls\u00f3rias quanto elas eram nos velhos dias em que as cham\u00e1vamos de puni\u00e7\u00f5es. Se uma tend\u00eancia de roubar pode ser curada por psicoterapia, o ladr\u00e3o, sem d\u00favida, ser\u00e1 for\u00e7ado a submeter-se ao tratamento. De outra forma, a sociedade n\u00e3o pode continuar.<\/p>\n<p>Meu argumento \u00e9 de que essa doutrina, misericordiosa que pare\u00e7a, na realidade significa que cada um de n\u00f3s, a partir do momento em que ele quebra a lei, \u00e9 privado dos direitos de um ser humano.<\/p>\n<p>A raz\u00e3o \u00e9 essa. A teoria Humanit\u00e1ria remove da Puni\u00e7\u00e3o o conceito de Merecimento. Mas o conceito de Merecimento \u00e9 o \u00fanico elo de liga\u00e7\u00e3o entre puni\u00e7\u00e3o e justi\u00e7a. \u00c9 apenas como merecida ou imerecida que uma pena pode ser justa ou injusta. Eu n\u00e3o alego aqui que a quest\u00e3o \u2018Ela \u00e9 merecida?\u2019 \u00e9 a \u00fanica que podemos razoavelmente perguntar sobre uma puni\u00e7\u00e3o. Podemos bem apropriadamente perguntar se ela \u00e9 suscet\u00edvel de dissuadir outros e de reformar o criminoso. Mas nenhuma dessas duas \u00faltimas quest\u00f5es \u00e9 uma quest\u00e3o de justi\u00e7a. N\u00e3o h\u00e1 sentido em falar sobre uma \u201cdissuas\u00e3o justa\u201d ou de uma \u201ccura justa\u201d. Exigimos de um dissuasor n\u00e3o se \u00e9 justo, mas que detenha. Exigimos de uma cura n\u00e3o se \u00e9 justa, mas se\u00a0 tem \u00eaxito. Logo, quando deixamos de considerar o que o criminoso merece e consideramos apenas o que ir\u00e1 cur\u00e1-lo ou dissuadir outros, n\u00f3s tacitamente o removemos por completo da esfera da justi\u00e7a; em vez de uma pessoa, um sujeito de direitos, temos agora meramente um objeto, um paciente, um \u201ccaso\u201d.<\/p>\n<p>A distin\u00e7\u00e3o se tornar\u00e1 mais clara se n\u00f3s perguntarmos quem ser\u00e1 qualificado para determinar penas quando as penas n\u00e3o forem mais tidas como derivando sua adequa\u00e7\u00e3o dos merecimentos do criminoso. Na vis\u00e3o antiga, o problema de fixar a pena certa era um problema moral. Por conseguinte, o juiz que fazia isso era uma pessoa treinada em jurisprud\u00eancia; treinada, isto \u00e9, em uma ci\u00eancia que lida com direitos e deveres, e que, pelo menos em sua origem, aceitava conscientemente a orienta\u00e7\u00e3o da Lei da Natureza e da Escritura. Devemos tamb\u00e9m admitir que no c\u00f3digo penal real da maioria dos pa\u00edses na maior parte do tempo esses originais elevados foram t\u00e3o modificados pelo costume local, interesses de classe e concess\u00f5es utilit\u00e1rias ao ponto de ser muito imperfeitamente reconhec\u00edvel. Mas o c\u00f3digo nunca esteve em princ\u00edpio, e nem sempre de fato, al\u00e9m do controle da consci\u00eancia da sociedade. E quando (digamos, na Inglaterra do s\u00e9culo dezoito) puni\u00e7\u00f5es reais conflitavam muito violentamente com o senso moral da comunidade, os j\u00faris se recusaram a condenar e a reforma foi finalmente provocada. Isto foi poss\u00edvel\u00a0 porque, enquanto estivermos pensando em termos de Merecimento, a propriedade do c\u00f3digo penal, sendo uma quest\u00e3o moral, \u00e9 uma quest\u00e3o em que todo homem tem o direito a uma opini\u00e3o, n\u00e3o porque ele segue essa ou aquela profiss\u00e3o, mas simplesmente porque ele \u00e9 um homem, um animal racional desfrutando da Luz Natural. Mas tudo isso muda quando deixamos de lado o conceito de Merecimento. As \u00fanicas duas quest\u00f5es que podemos agora perguntar sobre uma puni\u00e7\u00e3o s\u00e3o se ela dissuade e se cura. Mas essas n\u00e3o s\u00e3o quest\u00f5es sobre as quais qualquer um tem o direito de ter uma opini\u00e3o simplesmente por ser um homem. Ele n\u00e3o tem o direito a uma opini\u00e3o mesmo que, al\u00e9m de ser um homem, ele por acaso seja tamb\u00e9m um jurista, um Crist\u00e3o e um te\u00f3logo moral. Pois elas n\u00e3o s\u00e3o quest\u00f5es sobre princ\u00edpio, mas sobre assuntos de fato; e, para tais, quicam in sua arte credendum [latim: algo como \u201cqualquer um, em sua arte\/habilidade, acredite\u201d]. Apenas o \u2018pen\u00f3logo\u2019 especialista (deixemos coisas b\u00e1rbaras terem nomes b\u00e1rbaros), \u00e0 luz de experimento anterior, pode nos dizer o que \u00e9 prov\u00e1vel de dissuadir: s\u00f3 o psicoterapeuta pode nos dizer o que \u00e9 prov\u00e1vel de curar. Ser\u00e1 v\u00e3o para o resto de n\u00f3s, falando simplesmente como homens, dizer, \u2018mas essa puni\u00e7\u00e3o \u00e9 medonhamente injusta, medonhamente desproporcional aos merecimentos do criminoso\u2019. O especialista, com l\u00f3gica perfeita, responder\u00e1, \u2018mas ningu\u00e9m estava falando sobre merecimentos. Ningu\u00e9m estava falando de puni\u00e7\u00e3o em seu sentido vingativo arcaico da palavra. Aqui est\u00e3o as estat\u00edsticas provando que esse tratamento dissuade. Aqui est\u00e3o as estat\u00edsticas provando que esse outro tratamento cura. Qual sua dificuldade?\u2019<\/p>\n<p>A teoria Humanit\u00e1ria, ent\u00e3o, remove as penas das m\u00e3os de juristas a quem a consci\u00eancia p\u00fablica tem o direito de criticar e as coloca nas m\u00e3os de especialistas t\u00e9cnicos cujas ci\u00eancias especiais nem ao menos empregam tais categorias como direitos ou justi\u00e7a. Pode-se argumentar de que, como essa transfer\u00eancia resulta de um abandono da velha ideia de puni\u00e7\u00e3o, e, portanto, de todos os motivos vingativos, ser\u00e1 mais seguro deixar nossos criminosos em tais m\u00e3os. N\u00e3o farei uma pausa para comentar sobre a vis\u00e3o simpl\u00f3ria da natureza humana deca\u00edda que tal cren\u00e7a implica. Deixe-nos, em vez disso, lembrar que a \u2018cura\u2019 dos criminosos deve ser compuls\u00f3ria; e deixe-nos ent\u00e3o assistir como a teoria realmente funciona na mente do Humanit\u00e1rio. O ponto de partida imediato desse artigo foi uma carta que li em uma de nossos semanais Esquerdistas. O autor estava suplicando que um pecado que um determinado pecado, hoje tratado por nossas leis como um crime, deveria doravante ser tratado como uma doen\u00e7a. E ele queixou-se que, sob nosso sistema atual, o infrator, ap\u00f3s um tempo na cadeia, era simplesmente solto para retornar ao seu ambiente original, onde ele provavelmente teria uma reca\u00edda. O que ele queixou-se de n\u00e3o foi o fechamento [do preso na cadeia], mas o deixar sair. Em sua vis\u00e3o curativa da puni\u00e7\u00e3o o infrator deveria, naturalmente, ser detido at\u00e9 que ele fosse curado. E, \u00e9 claro que os endireitadores oficiais s\u00e3o as \u00fanicas pessoas que podem dizer quando isto \u00e9. O primeiro resultado da teoria Humanit\u00e1ria \u00e9, portanto, substituir uma senten\u00e7a definitiva (refletindo at\u00e9 certo ponto o julgamento moral da comunidade sobre o grau de mal-merecimento envolvido) por uma senten\u00e7a indefinida termin\u00e1vel somente pela palavra daqueles especialistas\u2014e eles n\u00e3o s\u00e3o especialistas em teologia moral e nem mesmo na Lei da Natureza\u2014que a infligem. Qual de n\u00f3s, se estivesse no banco dos r\u00e9us, n\u00e3o preferiria ser julgado pelo sistema antigo?<\/p>\n<p>Pode ser dito que atrav\u00e9s utiliza\u00e7\u00e3o continuada da palavra puni\u00e7\u00e3o e o uso do verbo \u2018infligir\u2019 eu estou deturpando os Humanit\u00e1rios. Eles n\u00e3o est\u00e3o punindo, n\u00e3o infligindo, apenas curando. Mas n\u00e3o nos deixemos enganar por um nome. Ser levado sem minha permiss\u00e3o de minha casa e amigos; perder minha liberdade; ser submetido a todos esses ataques a minha personalidade que a psicoterapia moderna sabe bem como proporcionar; ser refeito em fun\u00e7\u00e3o de algum padr\u00e3o de \u2018normalidade\u2019 chocado em um laborat\u00f3rio Vienense ao qual nunca professei fidelidade; saber que esse processo nunca terminar\u00e1 at\u00e9 meus raptores terem sucesso, ou at\u00e9 que eu me torne s\u00e1bio o suficiente para engan\u00e1-los com sucesso aparente\u2014quem se importa se isso \u00e9 chamado Puni\u00e7\u00e3o ou n\u00e3o? Que isso inclui a maior parte dos elementos pelos quais qualquer puni\u00e7\u00e3o \u00e9 temida\u2014vergonha, ex\u00edlio, servid\u00e3o, e anos consumidos pelo gafanhoto\u2014\u00e9 \u00f3bvio. Apenas um enorme mal-merecimento poderia justificar isso; mas mal-merecimento \u00e9 a pr\u00f3pria concep\u00e7\u00e3o que a teoria Humanit\u00e1ria jogou fora.<\/p>\n<p>Se nos voltamos agora da justifica\u00e7\u00e3o curativa da puni\u00e7\u00e3o para a dissuasiva, descobriremos a nova teoria ainda mais alarmante. Quando voc\u00ea pune um homem in terrorem [latim: para\/sobre o medo], fazemos dele um \u2018exemplo\u2019 para outros, voc\u00ea est\u00e1 assumidamente usando-o como um meio para um fim; o fim de outra pessoa. Isso, por si s\u00f3, seria uma coisa bem perversa de se fazer. Na teoria cl\u00e1ssica da Puni\u00e7\u00e3o isto era, \u00e9 claro, justificado com o fundamento de que o homem o merecia. Isso era suposto estabelecido antes que qualquer pergunta de \u2018fazer dele um exemplo\u2019 surgisse. Voc\u00ea, ent\u00e3o, como diz o ditado, matou dois coelhos com uma cajadada s\u00f3 [em ingl\u00eas, dois p\u00e1ssaros com uma pedra; o sentido \u00e9 o mesmo]; no processo de lhe dar o que ele merecia, voc\u00ea dava como exemplo aos outros. Mas retire o merecimento e toda a moralidade da puni\u00e7\u00e3o desaparece. Por que, em nome dos C\u00e9us, eu devo ser sacrificado pelo bem da sociedade desta maneira?\u2014a n\u00e3o ser, \u00e9 claro, que eu mere\u00e7a isso.<\/p>\n<p>Mas isto n\u00e3o \u00e9 o pior. Se a justifica\u00e7\u00e3o da puni\u00e7\u00e3o exemplar n\u00e3o deve ser baseada no merecimento, mas apenas em sua efic\u00e1cia como um dissuasor, ent\u00e3o n\u00e3o \u00e9 absolutamente necess\u00e1rio que o homem que punimos deva ao menos ter cometido o crime. O efeito de dissuas\u00e3o exige que o p\u00fablico capte a moral \u2018Se fizermos tal ato n\u00f3s sofreremos como aquele homem.\u2019 A puni\u00e7\u00e3o de um homem realmente culpado que o p\u00fablico acha inocente n\u00e3o ter\u00e1 o efeito desejado; a puni\u00e7\u00e3o de um homem na realidade inocente ir\u00e1, dado que o p\u00fablico ache-o culpado. Mas todo Estado moderno\u00a0 tem poderes que tornam f\u00e1cil fingir um julgamento. Quando uma v\u00edtima \u00e9 urgentemente necess\u00e1ria para prop\u00f3sitos de exemplifica\u00e7\u00e3o e uma v\u00edtima culpada n\u00e3o pode ser encontrada, todos os prop\u00f3sitos de dissuas\u00e3o ser\u00e3o igualmente servidos pela puni\u00e7\u00e3o (chame de \u2018cura\u2019 se preferir) de um homem inocente, dado que o p\u00fablico possa ser enganado a ach\u00e1-lo culpado. N\u00e3o adianta me perguntar por que eu assume que nossos governantes ser\u00e3o t\u00e3o maus. A puni\u00e7\u00e3o de um inocente, isto \u00e9, um homem n\u00e3o merecedor, \u00e9 m\u00e1 apenas se concedermos a vis\u00e3o tradicional de que puni\u00e7\u00e3o justa significa puni\u00e7\u00e3o merecida. Ap\u00f3s abandonarmos esse crit\u00e9rio, todas as puni\u00e7\u00f5es ter\u00e3o que ser justificadas, se de todo, com outros fundamentos que nada tem nada a ver com merecimento. Onde a puni\u00e7\u00e3o de um inocente possa ser justificada com base nesses fundamentos (e poderia em alguns casos ser justificada como um dissuasor), n\u00e3o ser\u00e1 menos moral que qualquer outra puni\u00e7\u00e3o. Qualquer desgosto por ela da parte do Humanit\u00e1rio ser\u00e1 meramente uma ressaca da teoria Retributiva.<\/p>\n<p>\u00c9, de fato, importante ressaltar que meu argumento at\u00e9 agora n\u00e3o pressup\u00f5e nenhuma m\u00e1 inten\u00e7\u00e3o da parte do Humanit\u00e1rio e considera apenas o que est\u00e1 envolvido na l\u00f3gica de sua posi\u00e7\u00e3o. Minha contenda \u00e9 que homens bons (n\u00e3o homens maus), agindo consistentemente sobre essa posi\u00e7\u00e3o, iriam agir t\u00e3o cruel e injustamente quanto os maiores tiranos. Eles podem em alguns aspectos agir at\u00e9 pior. De todas as tiranias, uma tirania sinceramente exercida pelo bem de suas v\u00edtimas pode ser a mais opressiva. Pode ser melhor viver sob bar\u00f5es ladr\u00f5es [robber barons, plutocratas inescrupulosos] do que sob intrometidos morais onipotentes. A crueldade do bar\u00e3o ladr\u00e3o pode algumas vezes dormir, sua cupidez pode ser em algum momento saciada; mas aqueles que nos atormentam para o nosso pr\u00f3prio bem nos atormentar\u00e3o sem fim, pois eles o fazem com a aprova\u00e7\u00e3o de suas pr\u00f3prias consci\u00eancias. Eles podem ser mais propensos a ir para o C\u00e9u, mas, ao mesmo tempo mais propensos a fazer da terra um Inferno. Sua pr\u00f3pria bondade ferroa com insulto intoler\u00e1vel. Ser \u2018curado\u2019 contra sua vontade, e curados de estados que podemos n\u00e3o considerar como doen\u00e7a, \u00e9 ser posto no mesmo n\u00edvel daqueles que ainda n\u00e3o atingiram a idade da raz\u00e3o, ou daqueles que nunca ir\u00e3o; ser classificado com crian\u00e7as, imbecis e animais dom\u00e9sticos. Mas ser punido, seja qu\u00e3o severamente, porque n\u00f3s o merecemos, porque \u2018dev\u00edamos saber melhor\u2019, \u00e9 ser tratado como uma pessoa humana feita \u00a0\u00e0 imagem de Deus.<\/p>\n<p>Na realidade, por\u00e9m, devemos encarar a possibilidade de maus governantes armados com uma teoria Humanit\u00e1ria de puni\u00e7\u00e3o. Um grande n\u00famero de plantas [de projeto, blueprint] para uma sociedade Crist\u00e3 s\u00e3o meramente o que os Elizabetanos chamavam \u2018cascata\u2019 [\u2018eggs in moonshine\u2018, prato elisabetano. Express\u00e3o usada de forma n\u00e3o literal; foi traduzida assim em sua ocorr\u00eancia no<em> Pr\u00edncipe Caspian<\/em>, de autoria de Lewis], porque elas assumem que a totalidade da sociedade \u00e9 Crist\u00e3, ou que os Crist\u00e3os est\u00e3o no controle. Esse n\u00e3o \u00e9 o caso na maior parte dos estados Contempor\u00e2neos. Mesmo se fosse, nossos governantes ainda seriam homem deca\u00eddos, e, portanto nem muito s\u00e1bios nem muito bons. Como \u00e9, eles geralmente ser\u00e3o descrentes. E j\u00e1 que a sabedoria e a virtude n\u00e3o s\u00e3o as \u00fanicas ou as mais comuns qualifica\u00e7\u00f5es para um lugar no governo, eles normalmente n\u00e3o ser\u00e3o sequer os melhores descrentes.<\/p>\n<p>O problema pr\u00e1tico da pol\u00edtica Crist\u00e3 n\u00e3o \u00e9 aquele de elaborar esquemas para uma sociedade Crist\u00e3, mas aquele de viver t\u00e3o inocentemente quanto podemos com nossos companheiros s\u00faditos sob governantes descrentes que nunca ser\u00e3o perfeitamente s\u00e1bios e bons e que algumas vezes ser\u00e3o bem maus e bem tolos. E quando eles s\u00e3o maus, a teoria Humanit\u00e1ria da puni\u00e7\u00e3o colocar\u00e1 em suas m\u00e3os um instrumento de tirania melhor do que a malvadez j\u00e1 teve antes. Pois se crime e doen\u00e7a devem ser considerados a mesma coisa, segue-se que qualquer estado de esp\u00edrito que nossos mestres escolherem chamar de \u2018doen\u00e7a\u2019 podem ser tratados como um crime; e compulsoriamente curados. Ser\u00e1 in\u00fatil alegar que estados de esp\u00edrito que desagradam o governo n\u00e3o precisam sempre envolver torpeza moral e, portanto, n\u00e3o merecem sempre a perda da liberdade. Pois nossos mestres n\u00e3o estar\u00e3o usando os conceitos de Merecimento e Puni\u00e7\u00e3o, mas aqueles de doen\u00e7a e cura. N\u00f3s sabemos que uma escola da psicologia j\u00e1 considera a religi\u00e3o como uma neurose. Quando essa neurose em particular se tornar inconveniente para o governo, o que impedir\u00e1\u00a0 o governo de prosseguir para \u2018cur\u00e1\u2019-la? Tal \u2018cura\u2019, \u00e9 claro, ser\u00e1 compuls\u00f3ria; mas sob a teoria Humanit\u00e1ria isso n\u00e3o ser\u00e1 chamado pelo nome chocante de Persegui\u00e7\u00e3o. Ningu\u00e9m ir\u00e1 nos culpar por sermos Crist\u00e3os, ningu\u00e9m ir\u00e1 nos odiar, ningu\u00e9m ir\u00e1 nos injuriar. O novo Nero ir\u00e1 se aproximar de n\u00f3s com as maneiras sedosas de um m\u00e9dico, e embora tudo ser\u00e1 de fato t\u00e3o compuls\u00f3rio quanto a tunica molesta [latim: camisa irritante; m\u00e9todo de execu\u00e7\u00e3o por queima usado na Roma Antiga] ou Smithfield ou Tyburn [\u00e1reas da Inglaterra associadas \u00e0 execu\u00e7\u00f5es], tudo ir\u00e1 ocorrer dentro da esfera terap\u00eautica sem emo\u00e7\u00e3o na qual palavras como \u2018certo\u2019 e \u2018errado\u2019 ou \u2018liberdade\u2019 e \u2018escravid\u00e3o\u2019 nunca s\u00e3o escutadas. E de tal forma, quando o comando for dado, todo Crist\u00e3o proeminente na terra poder\u00e1 desaparecer noturnamente em Institui\u00e7\u00f5es para o Tratamento dos Ideologicamente Doentios, e recair\u00e1 sobre os carcereiros especialistas dizer quando (se algum dia) eles ir\u00e3o reemergir. Mas n\u00e3o ser\u00e1 persegui\u00e7\u00e3o. Mesmo que o tratamento seja doloroso, mesmo que seja vital\u00edcio, mesmo que seja fatal, tudo isso ser\u00e1 apenas um acidente lastim\u00e1vel; a inten\u00e7\u00e3o era puramente terap\u00eautica. Na medicina comum haviam opera\u00e7\u00f5es dolorosas e opera\u00e7\u00f5es fatais; igualmente nisto. Mas, porque eles s\u00e3o \u2018tratamentos\u2019, n\u00e3o puni\u00e7\u00e3o, eles podem ser criticados apenas por colegas especialistas, e apenas em bases t\u00e9cnicas, nunca por homens como homens e com bases na justi\u00e7a.<\/p>\n<p>\u00c9 por isso que acho essencial se opor a teoria Humanit\u00e1ria da puni\u00e7\u00e3o, raiz e ramos, onde quer que a encontremos. Ela carrega em sua fronte um semblante de miseric\u00f3rdia que \u00e9 completamente falso. E assim que ela engana homens de boa vontade. O erro come\u00e7ou com a afirma\u00e7\u00e3o de Shelley de que a distin\u00e7\u00e3o entre miseric\u00f3rdia e justi\u00e7a foi inventada nas cortes de tiranos. Soa nobre, e foi de fato o erro de uma mente nobre. Mas a distin\u00e7\u00e3o \u00e9 essencial. A vis\u00e3o mais velha era de que a miseric\u00f3rdia \u2018temperava\u2019 a justi\u00e7a, ou (no n\u00edvel mais alto de todos) que a miseric\u00f3rdia e a justi\u00e7a tinham se encontrado e se beijado. O ato essencial da miseric\u00f3rdia era perdoar; e perdoar em sua pr\u00f3pria ess\u00eancia envolve o reconhecimento de culpa e mal-merecimento no recipiente. Se o crime \u00e9 apenas uma doen\u00e7a que precisa ser curada, n\u00e3o um pecado que merece puni\u00e7\u00e3o, n\u00e3o pode ser perdoado. Como voc\u00ea pode perdoar um homem por ter um abcesso dent\u00e1rio ou um p\u00e9 torto? Mas a teoria Humanit\u00e1ria quer simplesmente abolir a Justi\u00e7a e substitu\u00ed-la pela Miseric\u00f3rdia. Isto significa que voc\u00ea come\u00e7a sendo \u2018gentil\u2019 para as pessoas antes de voc\u00ea ter considerado seus direitos e\u00a0 ent\u00e3o for\u00e7a sobre elas supostas gentilezas que ningu\u00e9m al\u00e9m de voc\u00ea ir\u00e1 reconhecer como gentilezas, e cujo recipiente ir\u00e1 sentir como crueldades abomin\u00e1veis. Voc\u00ea extrapolou o objetivo [overshot the mark]. A Miseric\u00f3rdia, separada da justi\u00e7a, se torna imisericordiosa. Esse \u00e9 o paradoxo importante. Assim comoh\u00e1 plantas que ir\u00e3o florescer apenas em solo montanhoso, da mesma forma parece que a Miseric\u00f3rdia florescer\u00e1 apenas quando ela cresce nas fendas da rocha da Justi\u00e7a; transplantada para os p\u00e2ntanos do mero humanitarismo, torna-se uma erva daninha devoradora de homens, ainda mais perigosa porque ainda \u00e9 chamada pelo mesmo nome que a variedade da montanha. Mas dever\u00edamos h\u00e1 muito ter aprendido nossa li\u00e7\u00e3o. N\u00f3s dever\u00edamos agora ser velhos demais para sermos enganados por essas pretens\u00f5es humanit\u00e1rias que t\u00eam servido para iniciar cada crueldade do per\u00edodo revolucion\u00e1rio no qual vivemos. Estes s\u00e3o os \u2018b\u00e1lsamos preciosos\u2019 que ir\u00e3o \u2018quebrar nossas cabe\u00e7as\u2019.<\/p>\n<p>H\u00e1 uma boa frase em Bunyan: \u2018Me veio queimando na mente a ideia de que, apesar do que ele disse, e por mais que me bajulasse, quando ele me levasse para sua casa, me venderia como escravo.\u2019 H\u00e1 um bom d\u00edstico, tamb\u00e9m, em John Ball:<\/p>\n<p>\u2018Cuidado antes do aflito<\/p>\n<p>Saiba [diferenciar] seu amigo do seu inimigo.\u2019<\/p>\n<p>[Descobri o que \u201cye be woo\u201d significava perguntando na internet, \u201cwoo\u201d seria \u201cwoe\u201d e \u201cere\u201d seria \u201cbefore\u201d. O original era \u2018Be ware ere ye be woo; Know your friend from your foe.\u2018, escrito em um ingl\u00eas de s\u00e9culos atr\u00e1s. O atual seria algo como \u201cBeware before you woe\u201d. Basicamente: tenha cuidado antes de se arrepender\/sofrer\/dizer ai, saiba distinguir amigos e inimigos]<\/p>\n<p>Uma \u00faltima palavra. Voc\u00ea pode perguntar porque eu enviei isto para um peri\u00f3dico australiano. A raz\u00e3o \u00e9 simples e talvez valha a pena registrar; n\u00e3o consigo audi\u00eancia para ele na Inglaterra.<\/p>\n<p><em>C.S. Lewis (1898-1963) era um ensa\u00edsta, novelista e poeta, e na faculdade de Magdalen College, Oxford, quando ele escreveu esse artigo.<\/em><\/p>\n<p>*Reimpresso de C.S. Lewis (1949), A teoria humanit\u00e1ria da puni\u00e7\u00e3o, <em>The Twentieth Century: An Australian Quarterly Review, 3 <\/em>(3), 5-12<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>Fonte: https:\/\/conservadorismopolitico.wordpress.com\/2014\/11\/15\/a-teoria-humanitaria-da-punicao\/<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Por C.S. Lewis (tradu\u00e7\u00e3o conservadorismopolitico.wordress.com) Fonte: http:\/\/www.spiked-online.com\/images\/273-275-1-PB.pdf Na Inglaterra, temos recentemente tido uma controv\u00e9rsia sobre a Pena Capital. Eu n\u00e3o sei se um homicida \u00e9 mais capaz de se arrepender e fazer o bem na forca, algumas semanas ap\u00f3s seu julgamento, ou na enfermaria da pris\u00e3o, trinta anos depois. Eu n\u00e3o sei se o medo [&hellip;]<\/p>\n","protected":false},"author":46,"featured_media":0,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"ngg_post_thumbnail":0,"footnotes":""},"categories":[29082],"tags":[29395,29394,29396],"class_list":["post-875","post","type-post","status-publish","format-standard","hentry","category-artigos-de-c-s-lewis","tag-merecimento","tag-punicao","tag-teoria-humanitaria"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/ultimato.com.br\/sites\/cslewis\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/875","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/ultimato.com.br\/sites\/cslewis\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/ultimato.com.br\/sites\/cslewis\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/ultimato.com.br\/sites\/cslewis\/wp-json\/wp\/v2\/users\/46"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/ultimato.com.br\/sites\/cslewis\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=875"}],"version-history":[{"count":1,"href":"https:\/\/ultimato.com.br\/sites\/cslewis\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/875\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":876,"href":"https:\/\/ultimato.com.br\/sites\/cslewis\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/875\/revisions\/876"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/ultimato.com.br\/sites\/cslewis\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=875"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/ultimato.com.br\/sites\/cslewis\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=875"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/ultimato.com.br\/sites\/cslewis\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=875"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}