{"id":816,"date":"2016-07-01T12:53:24","date_gmt":"2016-07-01T15:53:24","guid":{"rendered":"http:\/\/ultimato.com.br\/sites\/cslewis\/?p=816"},"modified":"2016-07-01T12:53:24","modified_gmt":"2016-07-01T15:53:24","slug":"credo-ou-caos","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/ultimato.com.br\/sites\/cslewis\/2016\/07\/01\/credo-ou-caos\/","title":{"rendered":"Credo ou caos"},"content":{"rendered":"<p style=\"text-align: right\"><strong>Por Dorothy L. Sayers<a href=\"#_ftn1\" name=\"_ftnref1\"><strong>[1]<\/strong><\/a><\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: right\">(trad. William Campos da Cruz<\/p>\n<p><em>E, quando ele vier, convencer\u00e1 o mundo do pecado, e da justi\u00e7a e do ju\u00edzo. Do pecado, porque n\u00e3o creem em mim; Da justi\u00e7a, porque vou para meu Pai, e n\u00e3o me vereis mais; E do ju\u00edzo, porque j\u00e1 o pr\u00edncipe deste mundo est\u00e1 julgado.<\/em><\/p>\n<p><em>Jo\u00e3o 16:8-11<\/em><\/p>\n<p>Para os crist\u00e3os, falar sobre a import\u00e2ncia da moralidade crist\u00e3 \u00e9 pior do que in\u00fatil se n\u00e3o estiverem preparados para defender suas posi\u00e7\u00f5es tomando como fundamento a teologia crist\u00e3. \u00c9 uma mentira dizer que o dogma n\u00e3o tem import\u00e2ncia; o dogma tem uma import\u00e2ncia imensa. \u00c9 fatal deixar as pessoas suporem que o cristianismo \u00e9 s\u00f3 uma maneira de sentir; \u00e9 uma necessidade vital insistir que [o cristianismo] \u00e9, em primeiro lugar e acima de tudo, uma explica\u00e7\u00e3o racional do universo. \u00c9 in\u00fatil oferecer o cristianismo como uma aspira\u00e7\u00e3o vagamente idealista de tipo simples e consolador; ele \u00e9, pelo contr\u00e1rio, uma doutrina s\u00f3lida, robusta, minuciosa e complexa, impregnada de um realismo en\u00e9rgico e intransigente. E \u00e9 fatal imaginar que todo mundo sabe muito bem o que o cristianismo \u00e9 e que basta incentivar sua pr\u00e1tica. O fato brutal \u00e9 que neste pa\u00eds crist\u00e3o nem uma pessoa em cem tem a menor no\u00e7\u00e3o do que a Igreja ensina acerca de Deus, ou do homem, ou da sociedade, ou da pessoa de Jesus Cristo.<\/p>\n<p>Se voc\u00ea acha que estou exagerando, pergunte aos capel\u00e3es do ex\u00e9rcito. Com exce\u00e7\u00e3o do poss\u00edvel um por cento de crist\u00e3os inteligentes e instru\u00eddos, h\u00e1 tr\u00eas tipos de pessoas com que temos de lidar. H\u00e1 os que s\u00e3o franca e abertamente pag\u00e3os, cujas no\u00e7\u00f5es de cristianismo s\u00e3o um amontoado terr\u00edvel de trapos e farrapos de hist\u00f3rias b\u00edblicas e pura besteira mitol\u00f3gica. H\u00e1 os crist\u00e3os ignorantes, que combinam o sentimentalismo de um Jesus pac\u00edfico e bonzinho com uma \u00e9tica vagamente humanista \u2013 a maioria destes s\u00e3o hereges arianos.<a href=\"#_ftn2\">[2]<\/a> Por fim, h\u00e1 os frequentadores de igrejas mais ou menos instru\u00eddos, que conhecem toda a discuss\u00e3o acerca do div\u00f3rcio, da confiss\u00e3o auricular e da comunh\u00e3o sob as duas esp\u00e9cies [o p\u00e3o e o vinho], mas est\u00e3o quase t\u00e3o bem equipados para a batalha sobre os fundamentos contra um ateu marxista ou um agn\u00f3stico wellsiano quanto um garotinho com uma zarabatana que enfrenta algu\u00e9m que porte uma metralhadora. Teologicamente, no momento, este pa\u00eds est\u00e1 num estado de caos absoluto, institu\u00eddo em nome da toler\u00e2ncia religiosa, degenerando-se a passos largos na fuga da raz\u00e3o e na morte da esperan\u00e7a. N\u00e3o estamos felizes nesta situa\u00e7\u00e3o, e sobretudo entre os mais jovens h\u00e1 sinais de grande \u00e2nsia de encontrar um credo a que possam aderir de todo o cora\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>Esta \u00e9 a oportunidade da Igreja, se esta resolver aproveit\u00e1-la. Enquanto a disposi\u00e7\u00e3o das pessoas para ouvir passa, ela n\u00e3o tem estado numa posi\u00e7\u00e3o muito boa por pelo menos dois s\u00e9culos. As filosofias rivais do humanismo, do ego\u00edsmo esclarecido e do progresso mec\u00e2nico fracassaram redondamente; o antagonismo da ci\u00eancia provou-se mais aparente que real; e a doutrina otimista do <em>laissez-faire<\/em> est\u00e1 totalmente desacreditada. No entanto, nenhum bem ser\u00e1 feito pelo recolhimento \u00e0 piedade pessoal ou pela mera exorta\u00e7\u00e3o a um retorno \u00e0 ora\u00e7\u00e3o. O que est\u00e1 em perigo \u00e9 toda a estrutura da sociedade, e \u00e9 necess\u00e1rio persuadir homens e mulheres de pensamento da rela\u00e7\u00e3o \u00edntima e vital entre a estrutura da sociedade e as doutrinas teol\u00f3gicas do cristianismo.<\/p>\n<p>A tarefa n\u00e3o \u00e9 facilitada pela recusa obstinada de uma grande massa de crist\u00e3os nominais, tanto leigos como cl\u00e9rigos, de enfrentar a quest\u00e3o teol\u00f3gica. \u201cLevem embora a teologia e deem-nos uma religi\u00e3o agrad\u00e1vel\u201d tem sido um <em>slogan <\/em>popular por tanto tempo que estamos propensos a aceit\u00e1-lo, sem questionar se religi\u00e3o sem teologia tem algum sentido. E, por mais impopular que me torne, devo afirmar, e o farei, que a raz\u00e3o por que as igrejas est\u00e3o desacreditadas hoje n\u00e3o \u00e9 que sejam intransigentes demais quanto \u00e0 teologia, mas, antes, porque t\u00eam fugido da teologia. A Igreja Cat\u00f3lica \u00e9 uma sociedade teol\u00f3gica \u2013 num sentido em que a Igreja da Inglaterra, tomada como um todo, n\u00e3o o \u00e9 \u2013 e, por causa dessa insist\u00eancia da teologia, \u00e9 um corpo disciplinado, honrado e sociologicamente importante.<\/p>\n<p>Gostaria de fazer duas coisas. Primeiro, apontar que, se realmente queremos uma sociedade crist\u00e3, temos de ensinar o cristianismo, e \u00e9 absolutamente imposs\u00edvel ensinar cristianismo sem ensinar o dogma crist\u00e3o. Em segundo lugar, colocar diante de voc\u00eas uma lista de meia d\u00fazia dos principais pontos doutrin\u00e1rios que o mundo precisa, de um modo todo especial, ter martelado em seus ouvidos neste momento \u2013 doutrinas esquecidas ou mal interpretadas mas que (se s\u00e3o t\u00e3o verdadeiras quanto a Igreja sustenta) s\u00e3o as pedras angulares daquela estrutura racional da sociedade humana que \u00e9 a alternativa ao mundo do caos.<\/p>\n<p>Come\u00e7arei com a quest\u00e3o da inevitabilidade do dogma, se o cristianismo h\u00e1 de ser mais do que um pensamento brando, trivial e autoiludido sobre o comportamento \u00e9tico.<\/p>\n<p>Escrevendo em <em>The Spectator<\/em>, o Dr. Selbie, ex-diretor do Mansfield College, discutia sobre \u201cO Ex\u00e9rcito e as Igrejas\u201d. No meio do artigo h\u00e1 uma passagem que exp\u00f5e a causa fundamental do fracasso das igrejas em influenciar a vida das pessoas comuns:<\/p>\n<p>[&#8230;] a ascens\u00e3o de um novo dogmatismo \u2013 seja calvinista, seja tomista \u2013 constitui uma amea\u00e7a s\u00e9ria e renovada \u00e0 unidade crist\u00e3. A trag\u00e9dia \u00e9 que <em>tudo isso, embora de interesse dos te\u00f3logos, \u00e9 extremamente irrelevante para a vida e para o pensamento do homem m\u00e9dio<\/em>, que fica mais confuso pela desuni\u00e3o das igrejas e pelas diferen\u00e7as teol\u00f3gicas e eclesi\u00e1sticas nas quais se baseiam.<\/p>\n<p>Estou agora inteiramente disposta a concordar que as disputas entre igrejas constituem uma amea\u00e7a \u00e0 Cristandade. E admitirei n\u00e3o ter muita certeza do que se pretende dizer com \u201cnovo dogmatismo\u201d; pode ser, suponho, o surgimento de novos dogmas entre os seguidores de Santo Tom\u00e1s e de Calvino, respectivamente. Mas, antes, imagino que quer dizer uma aten\u00e7\u00e3o renovada ao velho dogma, uma reafirma\u00e7\u00e3o dele, e que quando diz que tudo isso \u00e9 irrelevante para a vida e para o pensamento do homem m\u00e9dio, o Dr. Selbie est\u00e1 deliberadamente dizendo que o dogma crist\u00e3o, como tal, \u00e9 irrelevante.<\/p>\n<p>Mas se o dogma crist\u00e3o \u00e9 irrelevante para vida, para que, pelo amor de Deus, ele \u00e9 relevante? \u2013 uma vez que o dogma religioso n\u00e3o \u00e9 sen\u00e3o uma declara\u00e7\u00e3o das doutrinas concernentes \u00e0 natureza da vida e do universo. Se os ministros crist\u00e3os realmente creem que [o dogma] \u00e9 apenas um jogo intelectual para te\u00f3logos e n\u00e3o tem nenhum apoio na vida humana, n\u00e3o \u00e9 de surpreender que suas congrega\u00e7\u00f5es estejam ignorantes, entediadas e confusas. E, na verdade, no par\u00e1grafo imediatamente seguinte, o Dr. Selbie reconhece a rela\u00e7\u00e3o do dogma crist\u00e3o com a vida:<\/p>\n<p>[&#8230;] a paz s\u00f3 pode dar-se por meio da aplica\u00e7\u00e3o pr\u00e1tica dos princ\u00edpios e valores crist\u00e3os. Mas isso deve ter por tr\u00e1s <em>algo mais do que a mera rea\u00e7\u00e3o contra <\/em>aquele <em>humanismo pag\u00e3o <\/em>que tem sido insatisfat\u00f3rio.<\/p>\n<p>O \u201calgo mais\u201d \u00e9 o dogma, e n\u00e3o pode ser nenhuma outra coisa, pois entre humanismo e cristianismo e entre paganismo e te\u00edsmo n\u00e3o h\u00e1 distin\u00e7\u00e3o alguma sen\u00e3o uma distin\u00e7\u00e3o de dogma. Que n\u00e3o se pode ter princ\u00edpios crist\u00e3os sem Cristo fica cada vez mais claro, porque sua validade como princ\u00edpios depende da autoridade de Cristo; e, como vimos, os estados totalit\u00e1rios, tendo deixado de crer na autoridade de Cristo, est\u00e3o logicamente justificados em repudiar os princ\u00edpios crist\u00e3os. Se se exige do homem m\u00e9dio que creia no Cristo e aceite sua autoridade sobre os princ\u00edpios crist\u00e3os, \u00e9 decerto relevante perguntar quem ou o que \u00e9 o Cristo, e por que Sua autoridade deve ser aceita. Mas a pergunta \u201cO que pensamos de Cristo?\u201d chega ao homem m\u00e9dio junto com o tipo mais espinhoso de mist\u00e9rio dogm\u00e1tico. \u00c9 absolutamente in\u00fatil dizer que n\u00e3o interessa de modo particular quem ou que era o Cristo ou com que autoridade fez aquelas coisas, e que mesmo se fosse apenas um homem, era um homem muito bom e devemos viver segundo seus princ\u00edpios; pois isso \u00e9 meramente humanismo, e se o homem m\u00e9dio na Alemanha decide pensar que Hitler \u00e9 um tipo de homem mais perfeito, com princ\u00edpios ainda mais atraentes, o humanismo crist\u00e3o n\u00e3o tem resposta a dar.<\/p>\n<p>N\u00e3o \u00e9 verdade de maneira alguma que o dogma \u00e9 extremamente irrelevante para a vida e para o pensamento do homem m\u00e9dio. A verdade \u00e9 que ministros da religi\u00e3o crist\u00e3 frequentemente declaram que ele o \u00e9, apresentam-no para exame como se o fosse e, de fato, por sua exposi\u00e7\u00e3o falha, tornam-no assim. O dogma central da Encarna\u00e7\u00e3o \u00e9 aquele pelo qual a relev\u00e2ncia se sustenta ou rui. Se fosse apenas homem, Cristo seria irrelevante a qualquer pensamento sobre Deus; se fosse apenas Deus, ent\u00e3o seria inteiramente irrelevante para qualquer experi\u00eancia de vida humana. No sentido mais estrito, \u00e9 necess\u00e1rio \u00e0 salva\u00e7\u00e3o da relev\u00e2ncia que um homem acredite corretamente na Encarna\u00e7\u00e3o de Nosso Senhor Jesus Cristo. A menos que creia corretamente, n\u00e3o h\u00e1 o menor motivo para que creia de qualquer outra maneira. E, nesse caso, \u00e9 inteiramente irrelevante tagarelar sobre princ\u00edpios crist\u00e3os.<\/p>\n<p>Se o homem m\u00e9dio vai interessar-se por Cristo de todo modo, \u00e9 o dogma que fornecer\u00e1 o interesse. O problema \u00e9 que, em nove de dez casos, nunca lhe foi oferecido o dogma. O que lhe tem sido oferecido \u00e9 um conjunto de termos t\u00e9cnicos teol\u00f3gicos que ningu\u00e9m assumiu a tarefa de traduzir numa linguagem relevante para a vida comum.<\/p>\n<p>\u201c&#8230; Jesus Cristo, o Filho de Deus, \u00e9 Deus e homem\u201d. O que isso sugere sen\u00e3o que Deus, o Criador (o velho irritadi\u00e7o de barba branca), de alguma maneira misteriosa gerou na Virgem Maria algo anf\u00edbio, nem uma coisa nem outra, como um trit\u00e3o? E, assim como os filhos humanos, inteiramente distinto e (com alguma v\u00eania) provavelmente antag\u00f4nico ao pai? E o que, em todo caso, esse h\u00edbrido not\u00e1vel tem que ver com o Zezinho ou com a Mariazinha? Essa atitude de esp\u00edrito \u00e9 o que os te\u00f3logos chamam de nestorianismo, ou talvez uma forma degradada de arianismo. Mas realmente n\u00e3o podemos dar um r\u00f3tulo t\u00e9cnico e p\u00f4-lo de lado como algo irrelevante para o pensamento do homem m\u00e9dio. Foi o homem m\u00e9dio quem o produziu. \u00c9, na verdade, uma express\u00e3o imediata e simpl\u00f3ria do pensamento do homem m\u00e9dio. E sob o risco de mergulh\u00e1-lo na abomin\u00e1vel heresia do patripassianismo ou do teopasquismo, devemos unir-nos a Atan\u00e1sio para assegurar a Zezinho e Mariazinha que o Deus que viveu e morreu no mundo era o mesmo Deus que fez o mundo e que, portanto, o pr\u00f3prio Deus tem as melhores raz\u00f5es poss\u00edveis para compreender e simpatizar-se com os problemas pessoais de quem quer que seja.<\/p>\n<p>\u201cMas\u201d, Zezinho e Mariazinha logo objetar\u00e3o, \u201cpara ele n\u00e3o importava muito se era Deus. Um deus n\u00e3o pode sofrer realmente como voc\u00ea e eu. Ademais, o ministro diz que devemos tentar ser como Cristo; mas isso \u00e9 uma insensatez \u2013 n\u00e3o podemos ser Deus e \u00e9 tolice pedir-nos que tentemos\u201d. Essa h\u00e1bil exposi\u00e7\u00e3o da heresia eutiquiana mal pode ser descartada como meramente \u201cinteressante para te\u00f3logos\u201d; parece interessante a Zezinho e Mariazinha ao ponto de irrit\u00e1-los. A contragosto, somos for\u00e7ados a envolver-nos ainda mais em teologia dogm\u00e1tica e insistir em que Cristo \u00e9 Deus perfeito e homem perfeito.<\/p>\n<p>Neste ponto, a linguagem pode trair-nos. O homem m\u00e9dio n\u00e3o deve ser impedido de pensar que \u201cDeus perfeito\u201d implica uma compara\u00e7\u00e3o com deuses menos perfeitos, e que \u201chomem perfeito\u201d significa \u201co melhor tipo de homem que se pode ter\u201d. Embora ambas as proposi\u00e7\u00f5es sejam absolutamente verdadeiras, n\u00e3o s\u00e3o exatamente o que queremos transmitir. Talvez seja melhor dizer, \u201cinteiramente Deus e inteiramente homem\u201d \u2013 Deus e homem ao mesmo tempo, em cada aspecto particular e tamb\u00e9m no todo; Deus de eternidade a eternidade e do ventre ao sepulcro e tamb\u00e9m homem, do ventre ao sepulcro e agora.<\/p>\n<p>\u201cTudo muito bem\u201d, responde Zezinho, \u201cmas isso me \u00e9 indiferente. Porque, se ele era Deus todo o tempo, deve ter tomado conhecimento de que seu sofrimento, morte, etc., n\u00e3o durariam, e ele podia t\u00ea-los interrompido por milagre, se quisesse, de maneira que sua pretens\u00e3o de ser um homem comum n\u00e3o \u00e9 outra coisa se n\u00e3o puro teatro\u201d. E Mariazinha acrescenta: \u201cVoc\u00ea n\u00e3o pode chamar uma pessoa de \u2018inteiramente homem\u2019 se ele era Deus e n\u00e3o quis fazer nada errado. Era f\u00e1cil para ele ser bom, mas para mim n\u00e3o \u00e9, de jeito nenhum. E quanto a todas as tenta\u00e7\u00f5es? Encena\u00e7\u00e3o de novo. N\u00e3o me ajuda viver o que voc\u00ea chama de vida crist\u00e3\u201d.<\/p>\n<p>Zezinho e Mariazinha est\u00e3o agora no caminho de tornarem-se apolinarianos convictos, um fato que, embora interessante aos te\u00f3logos, tem relev\u00e2ncia distinta tamb\u00e9m para a vida do homem m\u00e9dio, uma vez que prop\u00f5em, com base nele, descartar os princ\u00edpios crist\u00e3os como impratic\u00e1veis. N\u00e3o h\u00e1 ajuda poss\u00edvel. Temos de insistir em que Cristo tinha uma alma racional bem como carne humana; temos de admitir as limita\u00e7\u00f5es humanas do conhecimento e do intelecto; temos de aceitar uma pista do pr\u00f3prio Cristo e sugerir que os milagres pertencem ao Filho do Homem bem como ao Filho de Deus; temos de postular uma vontade humana sujeita \u00e0 tenta\u00e7\u00e3o; e temos de ser muito firmes quanto a \u201cigual ao Pai no tocante a sua divindade e inferior ao Pai no tocante a sua humanidade\u201d. Complicada como a teologia \u00e9, o homem m\u00e9dio tem caminhado direto ao cora\u00e7\u00e3o do <a href=\"http:\/\/www.igrejacatolica.pt\/credo-atanasiano\/#.V2qDjbgrLIU\">credo atanasiano<\/a>, e somos obrigados a seguir.<\/p>\n<p>Professores e pregadores nunca, eu acho, deixam claro o suficiente que dogmas n\u00e3o s\u00e3o um conjunto arbitr\u00e1rio de regras inventadas <em>a priori<\/em> por um comit\u00ea de te\u00f3logos deleitando-se numa luta livre dial\u00e9tica. A maioria deles foram forjados sob a press\u00e3o da necessidade pr\u00e1tica urgente de oferecer uma resposta \u00e0 heresia. E heresia \u00e9, em grande medida, como tenho tentado mostrar, a express\u00e3o da opini\u00e3o do homem m\u00e9dio n\u00e3o instru\u00eddo, tentando enfrentar os problemas do universo a partir do ponto em que come\u00e7am a interferir na vida e no pensamento cotidianos. Para mim, comprometida com minha ocupa\u00e7\u00e3o diab\u00f3lica de seguir o vai e vem do mundo e caminhar para cima e para baixo nele, conversas e correspond\u00eancias trazem diariamente um recorte magn\u00edfico de todas as heresias padr\u00e3o. Estou muito bem familiarizada com elas como exemplos pr\u00e1ticos da vida e do pensamento do homem m\u00e9dio, embora tenha de pesquisar numa enciclop\u00e9dia para enquadr\u00e1-las nos r\u00f3tulos teol\u00f3gicos adequados para os fins deste discurso. Para respond\u00ea-las, no entanto, n\u00e3o preciso ir t\u00e3o longe; est\u00e3o concisamente apresentadas nos credos.<\/p>\n<p>Mas um fato interessante \u00e9 o seguinte: que nove entre dez dos meus hereges ficam surpres\u00edssimos em descobrir que os credos cont\u00eam declara\u00e7\u00f5es dotadas de um sentido pr\u00e1tico e compreens\u00edvel. Se lhes digo que \u00e9 um artigo de f\u00e9 que o mesmo Deus que fez o mundo suportou o sofrimento do mundo, perguntam na mais perfeita boa f\u00e9 que rela\u00e7\u00e3o h\u00e1 entre aquela declara\u00e7\u00e3o e a hist\u00f3ria de Jesus. Se chamo-lhes a aten\u00e7\u00e3o ao dogma de que o mesmo Jesus que era o amor divino era tamb\u00e9m luz de luz, a sabedoria divina, surpreendem-se. Alguns deles me agradecem sinceramente por essa interpreta\u00e7\u00e3o de todo nova e original das Escrituras, da qual nunca ouviram antes e sup\u00f5em que eu a inventei. Outros dizem com irrita\u00e7\u00e3o que n\u00e3o gostam de pensar que sabedoria e religi\u00e3o t\u00eam algo que ver uma com a outra, e que eu faria muito melhor em romper com a sabedoria, com a raz\u00e3o e com a intelig\u00eancia e apegar-me a um simples evangelho de amor. Mas, satisfeitos ou incomodados, est\u00e3o interessados; e o que lhes interessa, quer suponham ser inven\u00e7\u00e3o minha quer n\u00e3o, \u00e9 a resoluta afirma\u00e7\u00e3o do dogma.<\/p>\n<p>Quanto \u00e0 queixa do Dr. Selbie de que a insist\u00eancia no dogma somente afronta as pessoas e evidencia as lutas mortais da Cristandade, posso dizer duas coisas? Primeiro, creio ser um equ\u00edvoco grave apresentar o cristianismo como algo atraente e popular sem nada ofensivo. Vendo que o Cristo veio ao mundo trazer a mais violenta ofensa a todos os tipos de pessoas, pareceria absurdo esperar que a doutrina de sua pessoa pudesse ser apresentada sem ofender ningu\u00e9m. N\u00e3o podemos ignorar o fato de que o Jesus gentil, meigo e manso, era t\u00e3o r\u00edgido em suas opini\u00f5es e t\u00e3o inflamado em sua linguagem que foi expulso da igreja, apedrejado, ca\u00e7ado por toda parte e, enfim, levado ao madeiro como um agitador ou uma amea\u00e7a p\u00fablica. O que quer que fosse sua paz, n\u00e3o era a paz de uma indiferen\u00e7a cordial; e ele disse em muitas palavras que o que ele trouxe consigo foi fogo e espada. Sendo assim, ningu\u00e9m precisa ficar muito surpreso ou desconcertado ao constatar que determinada prega\u00e7\u00e3o do dogma crist\u00e3o pode \u00e0s vezes resultar numas poucas cartas irritadas de protesto ou numa diferen\u00e7a de opini\u00e3o sobre o conc\u00edlio eclesi\u00e1stico.<\/p>\n<p>A outra coisa \u00e9: percebo pela experi\u00eancia que h\u00e1 uma medida muito grande de conc\u00f3rdia entre as denomina\u00e7\u00f5es crist\u00e3s sobre todas as doutrinas que s\u00e3o realmente ecum\u00eanicas. Uma interpreta\u00e7\u00e3o rigidamente cat\u00f3lica dos credos, por exemplo \u2013 incluindo o <a href=\"http:\/\/www.monergismo.com\/textos\/credos\/credoatanasio.htm\">credo atanasiano<\/a> \u2013 encontrar\u00e1 apoio tanto em Roma quanto em Genebra. As obje\u00e7\u00f5es vir\u00e3o principalmente dos pag\u00e3os, e de um ramo ruidoso mas n\u00e3o muito representativo de pastores her\u00e9ticos que uma vez em sua juventude leram Robertson ou Conybeare e nunca se recuperaram. Mas o que \u00e9 urgentemente necess\u00e1rio \u00e9 que certos fundamentos sejam reafirmados em termos que tornem seu sentido \u2013 e ali\u00e1s o mero fato de que eles t\u00eam um sentido \u2013 importante para os pag\u00e3os n\u00e3o instru\u00eddos e comum para aqueles a quem a linguagem t\u00e9cnica teol\u00f3gica tornou-se letra morta.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>Extra\u00eddo do ensaio intitulado <a href=\"http:\/\/emmauscf.org\/images\/resources\/Creed_or_Chaos_Sayers.pdf\"><em>Creed or Chaos?<\/em><\/a>, publicado no livro <a href=\"https:\/\/www.amazon.com\/Letters-Diminished-Church-Passionate-Arguments\/dp\/0849945267\"><em>Letters to a Diminished Church<\/em><\/a> (2004).<\/p>\n<p>_________________________________________<\/p>\n<p><a href=\"#_ftnref1\">[1]<\/a> Dorothy L. Sayers (1893\u20131957) foi uma escritora de romances policiais, poetisa, dramaturga, ensa\u00edsta, tradutora e humanista crist\u00e3. Sua obra <em><a href=\"http:\/\/www.erealizacoes.com.br\/produto\/a-mente-do-criador\">A Mente do Criador<\/a><\/em> foi recentemente publicada no Brasil pela <a href=\"http:\/\/www.erealizacoes.com.br\/home\">\u00c9 Realiza\u00e7\u00f5es Editora<\/a>.<\/p>\n<p><a href=\"#_ftnref2\">[2]<\/a> Ou possivelmente adocionistas; eles n\u00e3o formulam suas teorias com grande precis\u00e3o. [A autora menciona outras heresias cristol\u00f3gicas dos prim\u00f3rdios da era crist\u00e3. Como ficar\u00e1 claro, a data\u00e7\u00e3o e a defini\u00e7\u00e3o precisas s\u00e3o desnecess\u00e1rias para os fins deste texto, por isso n\u00e3o me dei o trabalho de inserir notas explicativas. (N. T.)]<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>Fonte: http:\/\/esbocoserascunhos.blogspot.com.br\/2016\/06\/credo-ou-caos.html<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Por Dorothy L. Sayers[1] (trad. William Campos da Cruz E, quando ele vier, convencer\u00e1 o mundo do pecado, e da justi\u00e7a e do ju\u00edzo. Do pecado, porque n\u00e3o creem em mim; Da justi\u00e7a, porque vou para meu Pai, e n\u00e3o me vereis mais; E do ju\u00edzo, porque j\u00e1 o pr\u00edncipe deste mundo est\u00e1 julgado. 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