{"id":810,"date":"2016-07-01T12:46:35","date_gmt":"2016-07-01T15:46:35","guid":{"rendered":"http:\/\/ultimato.com.br\/sites\/cslewis\/?p=810"},"modified":"2016-07-01T12:54:48","modified_gmt":"2016-07-01T15:54:48","slug":"sobre-tolkien-e-a-teodiceia-de-o-silmarillion","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/ultimato.com.br\/sites\/cslewis\/2016\/07\/01\/sobre-tolkien-e-a-teodiceia-de-o-silmarillion\/","title":{"rendered":"Sobre Tolkien e a teodiceia de O Silmarillion"},"content":{"rendered":"<h6 class=\"western\" style=\"text-align: right\" align=\"JUSTIFY\">Por Maur\u00edcio Avolleta Jr.<\/h6>\n<h6 class=\"western\" align=\"JUSTIFY\"><strong>Obs.: O texto a seguir \u00e9 um resumo de um projeto em andamento previsto para ser publicado no in\u00edcio de 2017, portanto, n\u00e3o se aprofundara tanto nos assuntos propostos, assim como algumas perguntas que ser\u00e3o levantadas neste texto, ser\u00e3o respondidas e aprofundadas apenas no trabalho final.<\/strong><\/h6>\n<p class=\"western\" align=\"JUSTIFY\">Neste texto, buscaremos levantar algumas perguntas e di\u00e1logos em cima do Imaginarium do Professor Tolkien relacionados ao problema do mal, pois assim como o Professor Carlos Caldas, entendemos que, O Silmarillion, \u00e9 uma Teodiceia, ou seja, uma explica\u00e7\u00e3o para o problema do mal <strong>[1]<\/strong>.Dito isso, podemos observar semelhan\u00e7as entre a cria\u00e7\u00e3o de <i>E\u00e4<\/i>, que o pr\u00f3prio Tolkien se referiu como sendo o mito de sua sub-cria\u00e7\u00e3o <strong>[2]<\/strong>, e a cria\u00e7\u00e3o do mundo, narrada nos primeiros cap\u00edtulos do G\u00eanesis.<\/p>\n<p class=\"western\" align=\"JUSTIFY\"><img decoding=\"async\" class=\" size-full wp-image-537 aligncenter\" src=\"https:\/\/becounderground.files.wordpress.com\/2016\/06\/o-silmarillion.jpg?w=640\" alt=\"O-Silmarillion\" \/><\/p>\n<blockquote>\n<p class=\"western\" align=\"JUSTIFY\">Havia Eru, o \u00danico, que em Arda \u00e9 chamado de Il\u00favatar. Ele criou primeiro os Ainur, os Sagrados, Gerados por seu pensamento, e eles lhe faziam companhia antes que tudo o mais fosse criado. E ele lhes falou, propondo-lhes temas musicais; e eles cantaram em sua presen\u00e7a, e ele se alegrou. <strong>[3]<\/strong><\/p>\n<\/blockquote>\n<p class=\"western\" align=\"JUSTIFY\">Assim como na narrativa B\u00edblica, o mito de Tolkien nos apresenta\u00a0apenas um deus soberano e que ele se encontra fora do tempo, em outros trechos, podemos encontrar outros\u00a0atributos semelhantes ao Deus B\u00edblico como ser pr\u00e9-existente, criador e criativo, n\u00e3o se revelava por completo, \u00e9 soberano sobre sua cria\u00e7\u00e3o, se revela parcialmente atrav\u00e9s das coisas criadas e mais alguns outros. Podemos tamb\u00e9m identificar os <i>Ainur<\/i> como correspondentes aos anjos da mitologia crist\u00e3. Outro ponto interessante para prestarmos aten\u00e7\u00e3o, \u00e9\u00a0que toda a cria\u00e7\u00e3o \u00e9 gerada a partir de temas sugeridos pelo pr\u00f3prio Il\u00favatar, nos remetendo a ideia da Teologia Paulina que diz que tudo\u00a0nEle subsiste (Cl 1:17).<\/p>\n<p class=\"western\" align=\"JUSTIFY\">O Professor e Te\u00f3logo Carlos Caldas, cita que a ideia da m\u00fasica ser divina est\u00e1 presente em uma antiga tradi\u00e7\u00e3o rab\u00ednica, o que torna plaus\u00edvel a influ\u00eancia n\u00e3o s\u00f3 da tradi\u00e7\u00e3o rab\u00ednica e judaica, como da tradi\u00e7\u00e3o crist\u00e3 sobre a sub-cria\u00e7\u00e3o de Tolkien.<\/p>\n<blockquote>\n<p class=\"western\" align=\"JUSTIFY\">Parece que Tolkien e Lewis encontram inspira\u00e7\u00e3o para esse ponto (a cria\u00e7\u00e3o do mundo pela m\u00fasica) n\u00e3o em mitologias n\u00f3rdicas ou celtas, mas em uma antiga tradi\u00e7\u00e3o rab\u00ednica, que diz ser a m\u00fasica uma linguagem divina. Ainda que nenhuma tradi\u00e7\u00e3o rab\u00ednica afirme explicitamente que Deus criou o mundo pela m\u00fasica, \u00e9 razo\u00e1vel inferir que a fala de Deus se expressou com musicalidade. Com criatividade, Tolkien combina um pano de fundo escandinavo com uma antiga tradi\u00e7\u00e3o da sabedoria judaica. Essa mescla, assaz curiosa, \u00e9 um louvor ao Criados. <strong>[4]<\/strong><\/p>\n<\/blockquote>\n<p class=\"western\" align=\"JUSTIFY\">Voltando para\u00a0<i>O Silmarillion<\/i>, vemos que Tolkien descreve um Ainur que se rebela contra Il\u00favatar, pois desejava possuir\u00a0a chama imperec\u00edvel, que dava a quem a possu\u00eda, a possibilidade de trazer seus pensamentos a realidade. Melkor se rebela contra Il\u00favatar por um desejo de ser igual a deus, semelhante ao que\u00a0ensina a Tradi\u00e7\u00e3o Crist\u00e3 a respeito da queda de Satan\u00e1s.<\/p>\n<p class=\"western\" align=\"JUSTIFY\">Tolkien diz o seguinte em, O Silmarillion:<\/p>\n<blockquote>\n<p class=\"western\" align=\"JUSTIFY\">Enquanto o tema se desenvolvia, no entanto, <strong>surgiu no cora\u00e7\u00e3o de Melkor o impulso<\/strong> de entremear motivos da sua pr\u00f3pria imagina\u00e7\u00e3o que n\u00e3o estavam em harmonia com o tema de Il\u00favatar; com isso<strong> procurava aumentar o poder e a gl\u00f3ria do papel a ele designado.<\/strong> <strong>[5]<\/strong><\/p>\n<\/blockquote>\n<p class=\"western\" align=\"JUSTIFY\">Aqui podemos perceber, que al\u00e9m de um aparente di\u00e1logo com a Tradi\u00e7\u00e3o Crist\u00e3 quando a queda de Satan\u00e1s,\u00a0encontramos tamb\u00e9m\u00a0a ideia do mal como corrup\u00e7\u00e3o de algo primariamente bom, no caso, Melkor, um Ainur que por desejar a chama imperec\u00edvel para assim ser como Il\u00favatar, corrompeu-se e se tornou um ser mal.<\/p>\n<p class=\"western\" align=\"JUSTIFY\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\" wp-image-540 aligncenter\" src=\"https:\/\/becounderground.files.wordpress.com\/2016\/06\/c-s-lewis-ap1-bw.jpg?w=373&amp;h=515\" alt=\"c.s.lewis-ap1-bw\" width=\"373\" height=\"515\" \/><\/p>\n<p class=\"western\" align=\"JUSTIFY\">A ideia do mal como corrup\u00e7\u00e3o \u00e9 presente na Teologia e na Filosofia de C. S. Lewis, que partilhou de uma longa amizade com Tolkien e que explicitamente se influenciaram mutuamente na cria\u00e7\u00e3o de suas est\u00f3rias.\u00a0Em\u00a0seu livro, <i>Cristianismo Puro e Simples, <\/i>Lewis elabora sua ideia a respeito da exist\u00eancia do mal. Lewis entendia que o mal n\u00e3o era algo em si, mas uma consequ\u00eancia de um agente moralmente livre. Para Lewis, o mal era a corrup\u00e7\u00e3o gerada pela escolha errada de alguma criatura.<\/p>\n<blockquote>\n<p class=\"western\" align=\"JUSTIFY\">Para ser mau, ele tem de querer algo de bom e busc\u00e1-lo de forma errada: tem de ter <strong>impulsos originariamente bons para depois pervert\u00ea-los<\/strong>. Mas, se \u00e9 mau, n\u00e3o pode fornecer a si mesmo nem as coisas boas e desej\u00e1veis nem os bons impulsos pass\u00edveis de pervers\u00e3o. <strong>[6]<\/strong><\/p>\n<\/blockquote>\n<p class=\"western\" align=\"JUSTIFY\">Lewis, ainda acrescenta que:<\/p>\n<blockquote>\n<p class=\"western\" align=\"JUSTIFY\">Para que seja mau, esse poder tem de existir e ter intelig\u00eancia e vontade. Ora, a exist\u00eancia, a intelig\u00eancia e a vontade s\u00e3o, em si mesmas, coisas boas. [\u2026] <strong>o Mal \u00e9 um parasita, n\u00e3o um ente original<\/strong>. <strong>[7]<\/strong><\/p>\n<\/blockquote>\n<p class=\"western\" align=\"JUSTIFY\">Contudo, n\u00e3o foi Lewis quem primeiro concebeu a ideia\u00a0do mal como corrup\u00e7\u00e3o, na verdade, essa ideia nasce com Santo Agostinho. Em suas confiss\u00f5es, como resposta a seita Manique\u00edsta da qual fez parte durante sua juventude, Santo Agostinho chega a seguinte conclus\u00e3o a respeito do que seria o mal:<\/p>\n<blockquote>\n<p class=\"western\" align=\"JUSTIFY\">Vi claramente que as coisas corrupt\u00edveis s\u00e3o boas. N\u00e3o se poderiam corromper se fossem sumamente boas, ou se n\u00e3o fossem boas. Se fossem absolutamente boas, n\u00e3o seriam corrupt\u00edveis. E se n\u00e3o fossem boas nada haveria a corromper. A corrup\u00e7\u00e3o de fato \u00e9 um mal, por\u00e9m, n\u00e3o seria nociva se n\u00e3o diminu\u00edsse um bem real. Portanto, ou a corrup\u00e7\u00e3o n\u00e3o \u00e9 um mal, o que \u00e9 imposs\u00edvel, ou \u2013 e isto \u00e9 certo \u2013 tudo que se corrompe sofre diminui\u00e7\u00e3o de bem. <strong>[8]<img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\" wp-image-539 alignright\" src=\"https:\/\/becounderground.files.wordpress.com\/2016\/06\/sant_agostino_di_canterbury.jpg?w=326&amp;h=439\" alt=\"sant_agostino_di_canterbury\" width=\"326\" height=\"439\" \/><\/strong><\/p>\n<\/blockquote>\n<p class=\"western\" align=\"JUSTIFY\">Frente a isso, voltamos para O Silmarillion, onde podemos observar um eco da Teologia de Lewis e Agostinho quanto o mal na Sub-cria\u00e7\u00e3o de Tolkien. Tolkien narra o seguinte:<\/p>\n<blockquote>\n<p class=\"western\" align=\"JUSTIFY\">Alguns desses pensamentos ele agora <strong>entrela\u00e7ava em sua m\u00fasica<\/strong> e logo a<strong> disson\u00e2ncia<\/strong> surgiu ao seu redor. <strong>Muitos dos que cantavam pr\u00f3ximo perderam o \u00e2nimo<\/strong>, seu pensamento foi perturbado e sua m\u00fasica hesitou; mas alguns <strong>come\u00e7aram a afinar sua m\u00fasica \u00e0 de Melkor<\/strong>, <strong>em vez de manter a fidelidade<\/strong> ao pensamento que haviam tido no in\u00edcio. <strong>[9]<\/strong><\/p>\n<\/blockquote>\n<p class=\"western\" align=\"JUSTIFY\">Vemos\u00a0nesse trecho da narrativa, os aspectos levantados por Lewis e Santo Agostinho a respeito do mal como corrup\u00e7\u00e3o, principalmente no momento onde a can\u00e7\u00e3o de Melkor destoa da can\u00e7\u00e3o original de Il\u00favatar e corrompe os outros <i>Ainur<\/i> que estavam ao seu redor, mostrando que realmente existe um di\u00e1logo de ideias. Em uma de suas cartas, Tolkien explicita a ideia da corrup\u00e7\u00e3o em seu <i>Imagiarium<\/i>.<\/p>\n<blockquote>\n<p class=\"western\" align=\"JUSTIFY\">Sauron, \u00e9 claro, <strong>n\u00e3o era \u201cmau\u201d em origem.<\/strong> <strong>Foi um \u201cesp\u00edrito\u201d corrompido<\/strong> pelo Primeiro Senhor do Escuro (o Primeiro Rebelde subcriativo), Morgoth. <strong>[10]<\/strong><\/p>\n<\/blockquote>\n<p class=\"western\" align=\"JUSTIFY\">Facilmente\u00a0podemos notar a ideia agostiniana de mal como corrup\u00e7\u00e3o na obra de Tolkien, no entanto, alguns problemas a mais podem ser s\u00e3o levantados. Agostinho, como j\u00e1 observado, n\u00e3o atribu\u00eda ao mal uma forma f\u00edsica, mas aparentemente, Tolkien parece atribuir\u00a0a Melkor a figura do mal, ou seja, seria Melkor o mal f\u00edsico?<\/p>\n<p class=\"western\" align=\"JUSTIFY\">Em O Silmarillion, observa-se o seguinte:<\/p>\n<blockquote>\n<p class=\"western\" align=\"JUSTIFY\"><strong>Cresceu-lhe<\/strong> ent\u00e3o muito mais a <strong>inveja<\/strong>; e ele tamb\u00e9m <strong>assumiu forma vis\u00edvel<\/strong>; mas, <strong>em virtude de seu \u00e2nimo e do rancor<\/strong> que nele ardia, <strong>essa forma era escura e terr\u00edvel<\/strong>. E ele desceu sobre Arda com poder e majestade maiores do que os de qualquer outro Valar, como uma montanha que avan\u00e7ava sobre o mar e tem seu topo acima das nuvens, que \u00e9 revestida de gelo e coroada de fuma\u00e7a e fogo; e a luz dos olhos de <strong>Melkor era como uma chama que faz murchar com seu calor e perfura com uma frio mortal.<\/strong>\u00a0<strong>[11]<\/strong><\/p>\n<\/blockquote>\n<p class=\"western\" align=\"JUSTIFY\">Um pouco mais adiante, o autor escreve o seguinte:<\/p>\n<blockquote>\n<p class=\"western\" align=\"JUSTIFY\">Diz-se, por\u00e9m, entre os eldar que os Valar sempre se esfor\u00e7aram, apesar de Melkor, para governar a Terra e prepar\u00e1-la para a chegada dos Primog\u00eanitos: e eles criaram terras, e <strong>Melkor as destru\u00eda<\/strong>; sulcavam vales, e Melkor os erguia; esculpiam montanhas, e Melkor as derrubava; abriam cavidades para os mares, e Melkor os fazia transbordar; e nada tinha paz ou se desenvolvia, pois mal os Valar come\u00e7avam algum trabalho, <strong>Melkor o desfazia ou corrompia.<\/strong> <strong>[12]<\/strong><\/p>\n<\/blockquote>\n<p class=\"western\" align=\"JUSTIFY\">Nestes trechos, nota-se uma diferen\u00e7a com a\u00a0Teologia agostiniana e o que ainda n\u00e3o sabemos se \u00e9 o pensamento de Tolkien, ou apenas parte da Teologia de sua Sub-cria\u00e7\u00e3o. Percebemos que Melkor foi criado como todos os Ainur, mas que assim como entendia Santo Agostinho, por n\u00e3o ser totalmente bom, tinha a possibilidade, atrav\u00e9s do livre-arb\u00edtrio, de se corromper com desejos ruins, e foi o que aconteceu com Melkor, a ponto de o mesmo, como observado nos trechos acima, ter sua apar\u00eancia alterada devido a estes desejos ruins e corrupt\u00edveis. Vemos\u00a0tamb\u00e9m que o autor passa a atribuir a Melkor o ato de corromper: Contudo, devemos nos lembrar que antes de ele tomar uma \u201cforma m\u00e1\u201d e passar a ser o agente de corrup\u00e7\u00e3o, ele foi antes corrompido, mas pelo fato de n\u00e3o nos ser informado em nenhuma parte d\u2019O Silmarillion e nem em qualquer outra obra de Tolkien de um \u201cmal pr\u00e9-Melkor\u201d, ficamos com as seguintes perguntas:\u00a0seria Melkor realmente uma forma f\u00edsica do mal? Se sim, essa ideia de um mal com forma f\u00edsica\u00a0seria parte da teologia de Tolkien ou apenas parte de sua Sub-cria\u00e7\u00e3o?<\/p>\n<p class=\"western\" align=\"JUSTIFY\">Outro problema nos \u00e9 apresentado em O Silmarillion, causando-nos algumas d\u00favidas semelhantes as que acabei de apresentar. Tolkien diz o seguinte:<\/p>\n<blockquote>\n<p class=\"western\" align=\"JUSTIFY\">J\u00e1 os filhos dos homens morrem de verdade e deixam o mundo; motivo pelo qual s\u00e3o chamados H\u00f3spedes ou Forasteiros. <strong>A morte \u00e9 seu destino<\/strong>, o <strong>dom de Il\u00favatar<\/strong>, que, com o passar do tempo, at\u00e9 os Poderes h\u00e3o de invejar. <strong>Melkor, por\u00e9m, lan\u00e7ou sua sombra sobre esse dom, confundindo-o com as trevas<\/strong>; e fez surgir o mal do bem; e o medo, da esperan\u00e7a. <strong>[14]<\/strong><\/p>\n<\/blockquote>\n<p class=\"western\" align=\"JUSTIFY\">Estaria Tolkien nos dizendo que existia uma \u201cmorte pr\u00e9-queda? Vemos nesse trecho que a morte, ao inv\u00e9s de ser um fruto de uma queda, como acredita a Tradi\u00e7\u00e3o Crist\u00e3, seria na verdade um dom corrompido, mas tudo isso na Teologia interna da sub-cria\u00e7\u00e3o de Tolkien. Contudo, em\u00a0um nota feita em uma de suas cartas, Tolkien\u00a0faz algumas considera\u00e7\u00f5es interessantes sobre isso:<\/p>\n<blockquote>\n<p class=\"western\" align=\"JUSTIFY\">Visto que a \u201cmortalidade\u201d \u00e9 assim representada como uma <strong>d\u00e1diva especial de Deus [15]<\/strong> \u00e0 segunda Ra\u00e7a dos Filhos (os Eruh\u00edni, os Filhos do Deus \u00danico) e <strong>n\u00e3o como uma puni\u00e7\u00e3o por uma Queda<\/strong>, o senhor <strong>pode chamar isso de \u201cm\u00e1 teologia\u201d<\/strong>. Talvez o seja, no mundo prim\u00e1rio, mas \u00e9 uma imagina\u00e7\u00e3o <strong>capaz de elucidar a verdade<\/strong>, e uma <strong>base leg\u00edtima de lendas<\/strong>. <strong>[16]<\/strong><\/p>\n<\/blockquote>\n<p class=\"western\" align=\"JUSTIFY\">Tolkien confirma\u00a0que essa ideia \u00e9 realmente presente em sua obra e o mesmo se refere a ela como uma m\u00e1 teologia no mundo prim\u00e1rio, mas perfeitamente poss\u00edvel em sua Sub-cria\u00e7\u00e3o por se tratar apenas de um mundo que reflete a realidade, mas que n\u00e3o \u00e9 a realidade em si. Como dizia Tolkien em alguns ensaios e cartas, esse mundo cont\u00e9m apenas a ess\u00eancia da verdade mas n\u00e3o o verdadeiro. Mas o que levanta hip\u00f3teses de isto ser parte da Teologia pessoal de Tolkien s\u00e3o as \u00faltimas linhas: \u201cTalvez o seja, no mundo prim\u00e1rio, mas \u00e9 uma imagina\u00e7\u00e3o capaz de elucidar a verdade, e uma base leg\u00edtima de lendas.\u201d<\/p>\n<p class=\"western\" align=\"JUSTIFY\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\" wp-image-541 aligncenter\" src=\"https:\/\/becounderground.files.wordpress.com\/2016\/06\/jrr-tolkien-reading.jpg?w=543&amp;h=715\" alt=\"jrr-tolkien-reading\" width=\"543\" height=\"715\" \/><\/p>\n<p class=\"western\" align=\"JUSTIFY\">Em seu ensaio, Sobre Contos de Fadas, Tolkien elabora a ideia de Fa\u00ebrie, o mundo encantado das fadas, onde as coisas l\u00e1 existentes s\u00e3o reflexos da realidade, embora como j\u00e1 dissemos, n\u00e3o \u00e9 a realidade em si, e portanto, n\u00e3o s\u00e3o necessariamente mentiras, mas \u201cverdades em potencial\u201d.<\/p>\n<blockquote>\n<p class=\"western\" align=\"JUSTIFY\">A hist\u00f3ria muitas vezes se parece com o \u201cMito\u201d, porque <strong>ambos, em \u00faltima an\u00e1lise, comp\u00f5em-se da mesma mat\u00e9ria<\/strong>. Se de fato Ingeld e Freawaru jamais viveram, ou pelo menos jamais amaram, ent\u00e3o em \u00faltima an\u00e1lise eles obt\u00eam sua hist\u00f3ria de um homem e uma mulher an\u00f4nimos, ou melhor, entraram na hist\u00f3ria deles. <strong>[17]<\/strong><\/p>\n<\/blockquote>\n<p class=\"western\" align=\"JUSTIFY\">Michael White, em sua biografia de Tolkien, acrescenta\u00a0o seguinte sobre a teoria de Tolkien sobre hist\u00f3rias de fadas: \u201cMitos, (\u2026) com certeza n\u00e3o s\u00e3o mentiras. Mitos derivam de um n\u00facleo verdadeiro e carregam consigo um significado cultural muito espec\u00edfico\u201d <strong>[18]<\/strong>. Ou seja, se um conto de fadas reflete uma verdade, logo certos pontos dessa Sub-cria\u00e7\u00e3o s\u00e3o, se levarmos em conta a teoria de Tolkien, verdade.\u00a0Sendo assim, afirmar que a ideia de uma morte pr\u00e9-queda e de que a morte haveria tido seu entendimento corrompido com a queda e se tornado algo ruim \u00e9 razo\u00e1vel n\u00e3o s\u00f3 na Teologia do mundo Sub-criativo de Tolkien, como provavelmente tamb\u00e9m faz parte de sua Teologia pessoal, assim como parte da teodiceia aqui encontrada, justamente por dialogar com o \u201cmundo prim\u00e1rio\u201d, assim como Tolkien pressup\u00f5e que um mito deve fazer.<\/p>\n<p class=\"western\" align=\"JUSTIFY\">Por fim, gostaria de deixar claro que isso n\u00e3o \u00e9 a palavra final dizendo: \u201cFoi isso que Tolkien quis passar SIM!\u201d ou \u201cEssa \u00e9 sim a \u2018Teologia Tolkieniana&#8217;\u201d. Como j\u00e1 afirmei no in\u00edcio, isso \u00e9 apenas parte de uma pesquisa maior que est\u00e1 em andamento. A real inten\u00e7\u00e3o desse breve artigo foi apenas incentivar amantes de Tolkien e de fantasia em geral, a ler com um olhar mais cr\u00edtico e atencioso para perceber que a Literatura tem muito para nos ensinar.<\/p>\n<p class=\"western\" align=\"JUSTIFY\"><strong>Refer\u00eancias e notas:<\/strong><\/p>\n<p class=\"western\" align=\"JUSTIFY\">[1] CALDAS, Carlos. Religi\u00e3o e Literatura \u2013 Reflex\u00f5es sobre O Silmarillion. S\u00e3o Paulo. Ed. Mackenzie. 2003. p. 151.<\/p>\n<p class=\"western\" align=\"JUSTIFY\">[2] TOLKIEN, J. R. R. As Cartas de J. R. R. Tolkien. Curitiba. Arte e Letra Editora. 2006. p. 242.<\/p>\n<p class=\"western\" align=\"JUSTIFY\">[3] ______. O Silmarillion. S\u00e3o Paulo. WMF. Martins Fontes. 2015. p. 3.<\/p>\n<p class=\"western\" align=\"JUSTIFY\">[4] CALDAS, Carlos. Religi\u00e3o e Literatura \u2013 Reflex\u00f5es sobre O Silmarillion. S\u00e3o Paulo. Ed. Mackenzie. 2003. p. 142<\/p>\n<p class=\"western\" align=\"JUSTIFY\">[5] TOLKIEN, J. R. R.. O Silmarillion. S\u00e3o Paulo. WMF. Martins Fontes. 2015. p. 4.<\/p>\n<p class=\"western\" align=\"JUSTIFY\">[6] LEWIS, C. S. Cristianismo Puro e Simples. S\u00e3o Paulo. WMF. Martins Fontes. 2014. p. 59.<\/p>\n<p class=\"western\" align=\"JUSTIFY\">[7] ______. Cristianismo Puro e Simples. S\u00e3o Paulo. WMF. Martins Fontes. 2014. p. 60.<\/p>\n<p class=\"western\" align=\"JUSTIFY\">[8] SANTO AGOSTINHO. Confiss\u00f5es. S\u00e3o Paulo. Ed. Paulus. 2013. p. 191.<\/p>\n<p class=\"western\" align=\"JUSTIFY\">[9] TOLKIEN, J. R. R.. O Silmarillion. S\u00e3o Paulo. WMF. Martins Fontes. 2015. p. 4-5.<\/p>\n<p class=\"western\" align=\"JUSTIFY\">[10] TOLKIEN, J. R. R. As Cartas de J. R. R. Tolkien. Curitiba. Arte e Letra Editora. 2006. p. 183.<\/p>\n<p class=\"western\" align=\"JUSTIFY\">[11] TOLKIEN, J. R. R.. O Silmarillion. S\u00e3o Paulo. WMF. Martins Fontes. 2015. p. 12.<\/p>\n<p class=\"western\" align=\"JUSTIFY\">[12] ______. O Silmarillion. S\u00e3o Paulo. WMF. Martins Fontes. 2015. p. 12.<\/p>\n<p class=\"western\" align=\"JUSTIFY\">[13] Idem.<\/p>\n<p class=\"western\" align=\"JUSTIFY\">[14] Ibdem, p. 37.<\/p>\n<p class=\"western\" align=\"JUSTIFY\">[15] Em suas cartas, Tolkien se refere a Er\u00fa Il\u00favatar, o deus soberano de sua Sub-cria\u00e7\u00e3o apenas como Deus, as vezes tamb\u00e9m como LORD, Lord, ou at\u00e9 mesmo \u201cEle\u201d.<\/p>\n<p class=\"western\" align=\"JUSTIFY\">[16] TOLKIEN, J. R. R. As Cartas de J. R. R. Tolkien. Curitiba. Arte e Letra Editora. 2006. p. 182.<\/p>\n<p class=\"western\" align=\"JUSTIFY\">[17] TOLKIEN, J. R. R. \u00c1rvore e Folha. S\u00e3o Paulo. WMF Martins Fontes. 2014. p. 29.<\/p>\n<p class=\"western\" align=\"JUSTIFY\">[18] WHITE, Michael. J. R. R. Tolkien; o senhor da fantasia. Rio de Janeiro. Darkside. 2013. p. 131.<\/p>\n<p class=\"western\" align=\"JUSTIFY\">Fonte: https:\/\/becounderground.wordpress.com\/2016\/06\/02\/sobre-tolkien-e-a-teodiceia-de-o-silmarillion\/<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Por Maur\u00edcio Avolleta Jr. Obs.: O texto a seguir \u00e9 um resumo de um projeto em andamento previsto para ser publicado no in\u00edcio de 2017, portanto, n\u00e3o se aprofundara tanto nos assuntos propostos, assim como algumas perguntas que ser\u00e3o levantadas neste texto, ser\u00e3o respondidas e aprofundadas apenas no trabalho final. 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