{"id":735,"date":"2014-05-30T17:11:37","date_gmt":"2014-05-30T20:11:37","guid":{"rendered":"http:\/\/www.cslewis.com.br\/?p=735"},"modified":"2014-05-30T17:11:37","modified_gmt":"2014-05-30T20:11:37","slug":"bulverismo-ou-os-fundamentos-do-pensamento-do-seculo-xx","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/ultimato.com.br\/sites\/cslewis\/2014\/05\/30\/bulverismo-ou-os-fundamentos-do-pensamento-do-seculo-xx\/","title":{"rendered":"Bulverismo, ou os fundamentos do pensamento do s\u00e9culo XX"},"content":{"rendered":"<p> Bulverismo, ou os fundamentos do pensamento do s\u00e9culo XX<\/p>\n<p>por  C. S. Lewis<\/p>\n<p>\u00c9 necess\u00e1rio mostrar que um homem est\u00e1 errado antes de come\u00e7ar a explicar porque ele est\u00e1 errado.<\/p>\n<p>Nota do tradutor \u2013 Este talvez seja o texto curto mais famoso de Lewis. Nele o autor identifica o que pode ser considerado um novo estratagema er\u00edstico, que Schopenhauer n\u00e3o descreveu em seu famoso tratado sobre a t\u00e9cnica de ganhar uma discuss\u00e3o, mesmo sem ter raz\u00e3o. [*] Ele n\u00e3o poderia faz\u00ea-lo, pois o bulverismo alimenta-se da psican\u00e1lise e do marxismo para sobreviver, duas coisas que n\u00e3o existiam na \u00e9poca do fil\u00f3sofo alem\u00e3o. O tema geral deste texto \u00e9 mais bem desenvolvido no cap\u00edtulo terceiro (A principal dificuldade do Naturalismo) do livro de Lewis intitulado \u201cMilagres\u201d. L\u00e1 o autor desenvolve com mais vagar seus argumentos sobre a Raz\u00e3o, o pensamento e os eventos f\u00edsicos em geral.<\/p>\n<p>***<\/p>\n<p>\u00c9 desastrosa, como diz Emerson, a descoberta de que existimos. Quero dizer, \u00e9 desastrosa quando, ao inv\u00e9s de atentarmos para a rosa, somos for\u00e7ados a pensar em n\u00f3s observando a rosa, com um certo tipo de mente e um certo tipo de olhos. \u00c9 desastroso porque, se voc\u00ea n\u00e3o for muito cuidadoso, a cor da rosa acaba sendo atribu\u00edda ao nosso nervo \u00f3tico e seu perfume ao nosso nariz e, no final, n\u00e3o sobra nenhuma rosa. Os fil\u00f3sofos profissionais t\u00eam se preocupado com esse blackout universal por duzentos anos e o mundo n\u00e3o tem dado ouvido a eles. Mas, o mesmo desastre est\u00e1 agora acontecendo em um n\u00edvel que todos n\u00f3s podemos entender.<\/p>\n<p>Descobrimos recentemente que n\u00f3s \u201cexistimos\u201d em dois novos sentidos. Os freudianos descobriram que existimos como feixes de complexos. Os marxistas descobriram que existimos como membros de alguma classe econ\u00f4mica. Antigamente, supunha-se que se uma coisa parecia obviamente verdadeira a cem homens, ent\u00e3o ela era provavelmente verdadeira de fato. Hoje em dia, o freudiano dir\u00e1 que temos de analisar os cem indiv\u00edduos: descobriremos que eles consideram Elizabeth I uma grande rainha porque todos eles t\u00eam um complexo materno. Seus pensamentos s\u00e3o psicologicamente deformados na fonte. E o marxista dir\u00e1 que temos de examinar os interesses econ\u00f4micos das cem pessoas: descobriremos que todos consideram a liberdade uma boa coisa porque eles s\u00e3o todos membros da burguesia cuja prosperidade cresce sob a pol\u00edtica do laissez-faire. Seus pensamentos s\u00e3o \u201cideologicamente distorcidos\u201d na fonte.<\/p>\n<p>Ora, isso \u00e9 obviamente muito engra\u00e7ado; mas, nem sempre se nota que h\u00e1 um pre\u00e7o a pagar por isso. H\u00e1 duas quest\u00f5es que devemos formular \u00e0s pessoas que dizem tais coisas. A primeira \u00e9: todos os pensamentos s\u00e3o, ent\u00e3o, distorcidos na fonte ou apenas alguns? A segunda \u00e9: a distor\u00e7\u00e3o invalida o pensamento \u2013 no sentido de torn\u00e1-lo in\u00fatil \u2013 ou n\u00e3o?<\/p>\n<p>Se eles disserem que todos os pensamentos s\u00e3o assim distorcidos, ent\u00e3o, claramente, devemos lembr\u00e1-los que as teorias freudiana e marxista s\u00e3o sistemas de pensamento tanto quanto a teologia crist\u00e3 e o idealismo filos\u00f3fico. Todas essas teorias est\u00e3o no mesmo barco em que nos encontramos e n\u00e3o podem nos tecer cr\u00edticas desde o exterior. Eles serraram o galho em que estavam sentados. Se, por outro lado, eles disserem que a distor\u00e7\u00e3o n\u00e3o invalida necessariamente o pensamento deles, ent\u00e3o ela tamb\u00e9m n\u00e3o invalida o nosso. Nesse caso, eles salvar\u00e3o o pr\u00f3prio galho mas tamb\u00e9m salvar\u00e3o o nosso.<\/p>\n<p>O \u00fanico caminho que eles podem realmente tomar \u00e9 dizer que alguns pensamentos s\u00e3o distorcidos e outros n\u00e3o \u2013 o que tem a vantagem (se freudianos e marxistas considerarem isso uma vantagem) de ser o que todos os homens s\u00e3os sempre acreditaram. Mas, se \u00e9 assim, devemos perguntar como se faz para descobrir quais s\u00e3o distorcidos e quais n\u00e3o s\u00e3o. N\u00e3o adianta dizer que os distorcidos s\u00e3o aqueles que concordam como os desejos secretos do pensante. Algumas das coisas que eu desejo devem ser verdadeiras; \u00e9 imposs\u00edvel organizar um universo que contradiz cada desejo de algu\u00e9m, em todos os aspectos, o tempo todo. Suponha que, depois de fazer muita conta, eu imagino que tenho um grande saldo banc\u00e1rio. E suponha que voc\u00ea queira descobrir se minha cren\u00e7a \u00e9 \u201cwishful thinking\u201d. Voc\u00ea n\u00e3o chegar\u00e1 a nenhuma conclus\u00e3o apenas examinando minha condi\u00e7\u00e3o psicol\u00f3gica. Sua \u00fanica chance \u00e9 sentar e rever meus c\u00e1lculos. Quando isso acontecer, ent\u00e3o, e somente ent\u00e3o, voc\u00ea saber\u00e1 se eu tenho aquele saldo ou n\u00e3o. Se voc\u00ea concluir que minha aritm\u00e9tica est\u00e1 certa, ent\u00e3o qualquer quantidade de ila\u00e7\u00f5es sobre minha condi\u00e7\u00e3o psicol\u00f3gica s\u00f3 ser\u00e1 uma grande perda de tempo. Se voc\u00ea descobrir que meus c\u00e1lculos est\u00e3o errados, ent\u00e3o pode ser relevante uma explica\u00e7\u00e3o psicol\u00f3gica sobre como eu pude ser t\u00e3o ignorante em matem\u00e1tica, e a doutrina do desejo secreto se tornar\u00e1 importante \u2013 mas, somente depois de voc\u00ea ter feito a soma e descoberto, em bases puramente matem\u00e1ticas, meu erro. Acontece o mesmo com todo o pensamento e com todos os sistemas de pensamento. Se voc\u00ea tenta descobrir qual est\u00e1 distorcido por meio de especula\u00e7\u00f5es sobre os desejos dos pensantes, voc\u00ea est\u00e1 meramente se enganando. Voc\u00ea deve primeiro descobrir, em bases puramente l\u00f3gicas, qual deles de fato pode ser reduzido a argumentos. Depois, se voc\u00ea quiser continue e descubra as causas psicol\u00f3gicas do erro.<\/p>\n<p>Em outras palavras, voc\u00ea deve mostrar que um homem est\u00e1 errado antes de come\u00e7ar a explicar porque ele est\u00e1 errado. O m\u00e9todo moderno assume, sem discuss\u00e3o, que ele est\u00e1 errado e ent\u00e3o distrai sua aten\u00e7\u00e3o disso (a \u00fanica quest\u00e3o real) por meio de uma prolixa explica\u00e7\u00e3o de como ele se tornou t\u00e3o tolo. No curso dos \u00faltimos quinze anos tenho descoberto que esse v\u00edcio \u00e9 t\u00e3o comum que eu inventei um nome para ele. Eu o chamo Bulverismo. Algum dia eu vou escrever a biografia de seu inventor imagin\u00e1rio, Ezekiel Bulver, cujo destino foi determinado quando ele tinha 5 anos de idade e ouviu sua m\u00e3e dizer ao seu pai \u2013 que afirmava que a soma do comprimento dos dois lados de um tri\u00e2ngulo era maior que o comprimento do terceiro \u2013 \u201cAh, voc\u00ea diz isso porque voc\u00ea \u00e9 um homem\u201d. \u201cNaquele momento\u201d, E. Bulver nos conta, \u201ccomo um facho de luz, a grande verdade atingiu minha mente receptiva: a refuta\u00e7\u00e3o n\u00e3o \u00e9 uma parte necess\u00e1ria de um argumento. Suponha que seu oponente esteja errado e que, ent\u00e3o, voc\u00ea explique o erro dele. O mundo estar\u00e1 a seus p\u00e9s. Tente provar que ele est\u00e1 errado e o dinamismo nacional de nosso tempo lan\u00e7ar\u00e1 vo c\u00ea contra a parede\u201d. Foi assim que Bulver se tornou um dos construtores do S\u00e9culo XX.<\/p>\n<p>Encontro os frutos de sua descoberta em todo o lugar. Assim, vejo minha religi\u00e3o rejeitada sob o argumento de que \u2018o p\u00e1roco de vida confort\u00e1vel tinha toda a raz\u00e3o de assegurar ao trabalhador do s\u00e9culo XIX de que a pobreza seria recompensada num outro mundo\u2019. Bem, sem d\u00favida ele tinha. Supondo que o cristianismo seja errado, posso ver muito bem que alguns ainda teriam um motivo para inculcar tal id\u00e9ia. Vejo isso t\u00e3o facilmente que posso, claro, inverter a coisa e dizer: \u2018o homem moderno tem toda a raz\u00e3o para tentar convencer-se de que n\u00e3o h\u00e1 nenhuma san\u00e7\u00e3o eterna por tr\u00e1s da moralidade que ele rejeita\u2019. Pois, o bulverismo \u00e9 um jogo verdadeiramente democr\u00e1tico no sentido de que todos podem jog\u00e1-lo o tempo todo e de que ele n\u00e3o trata injustamente a pequena e ofensiva minoria que o joga. Mas, claro est\u00e1 que ele n\u00e3o nos aproxima sequer um mil\u00edmetro da conclus\u00e3o a respeito da falsidade ou verdade do cristianismo. Essa quest\u00e3o permanece em aberto para ser discutida em bases muito diferentes \u2013 utilizando-se argumentos hist\u00f3ricos e filos\u00f3ficos. Qualquer que seja a decis\u00e3o, os motivos impr\u00f3prios da cren\u00e7a ou descren\u00e7a permanecer\u00e3o intocados.<\/p>\n<p>At\u00e9 que o bulverismo seja vencido, a raz\u00e3o n\u00e3o pode ter nenhum papel nas quest\u00f5es humanas.<\/p>\n<p>Vejo o bulverismo em funcionamento em todo argumento pol\u00edtico. Os capitalistas devem ser maus economistas, pois sabemos porque eles querem o capitalismo. Igualmente, os comunistas devem ser maus economistas, pois sabemos porque eles querem o comunismo. Assim, h\u00e1 bulveristas de ambos os lados. Na realidade, ou as doutrinas dos capitalistas s\u00e3o falsas, ou as doutrinas dos comunistas s\u00e3o falsas ou ambas s\u00e3o falsas; mas voc\u00ea s\u00f3 pode descobrir os erros e os acertos por meio do racioc\u00ednio \u2013 nunca por meio de grosserias a respeito da psicologia do seu oponente.<\/p>\n<p>At\u00e9 que o bulverismo seja vencido, a raz\u00e3o n\u00e3o pode ter nenhum papel nas quest\u00f5es humanas. Cada lado agarra-se ao bulverismo como uma arma contra o outro; entre os dois, a pr\u00f3pria raz\u00e3o \u00e9 desacreditada. E por que n\u00e3o seria? Seria f\u00e1cil, em resposta, mostrar o estado presente do mundo mas a resposta real \u00e9 ainda mais imediata. As for\u00e7as que desacreditam a raz\u00e3o, elas pr\u00f3prias dependem da raz\u00e3o. Voc\u00ea raciocina mesmo quando bulverisa. Voc\u00ea est\u00e1 tentando provar que todas as provas s\u00e3o inv\u00e1lidas. Se voc\u00ea falhar, voc\u00ea falhou. Se voc\u00ea tiver sucesso, ent\u00e3o voc\u00ea falha ainda mais \u2013 pois a prova de que todas as provas s\u00e3o inv\u00e1lidas deve ser, ela pr\u00f3pria, inv\u00e1lida.<\/p>\n<p>A alternativa seria ou uma completa idiotice auto-contradit\u00f3ria ou ent\u00e3o, uma cren\u00e7a tenaz no nosso poder de racioc\u00ednio, mantido a unhas e dentes diante de toda evid\u00eancia que os bulveristas pudessem trazer de uma \u2018distor\u00e7\u00e3o\u2019 neste ou naquele racioc\u00ednio humano. Estou pronto a admitir, se voc\u00ea quiser, que essa cren\u00e7a tenaz tem algo de transcendental ou m\u00edstico. E da\u00ed? Voc\u00ea preferiria ser um lun\u00e1tico ao inv\u00e9s de um m\u00edstico?<\/p>\n<p>Assim, vemos que h\u00e1 justificativa para nos atermos \u00e0 cren\u00e7a na Raz\u00e3o. Mas, isso pode ser feito sem o te\u00edsmo? A express\u00e3o \u201cEu conhe\u00e7o\u201d n\u00e3o implica que Deus existe? Tudo que conhe\u00e7o \u00e9 uma infer\u00eancia da sensa\u00e7\u00e3o (exceto o momento presente). Todo o nosso conhecimento do universo, al\u00e9m de nossa experi\u00eancia imediata, depende de infer\u00eancias dessas experi\u00eancias. Se nossas infer\u00eancias n\u00e3o nos d\u00e3o uma genu\u00edna apreens\u00e3o da realidade, ent\u00e3o nada podemos conhecer. Uma teoria n\u00e3o pode ser aceita se n\u00e3o permite que nosso racioc\u00ednio nos leve a uma genu\u00edna apreens\u00e3o, nem tampouco se o nosso conhecimento n\u00e3o for explic\u00e1vel em termos dessa teoria.<\/p>\n<p>Mas, nossos pensamentos s\u00f3 podem ser aceitos como apreens\u00f5es genu\u00ednas sob certas circunst\u00e2ncias. Todas as cren\u00e7as t\u00eam causas, mas uma distin\u00e7\u00e3o h\u00e1 de ser feita entre (1) as causas ordin\u00e1rias e (2) um tipo especial de causa chamada \u201cuma raz\u00e3o\u201d. Causas s\u00e3o eventos inconscientes que podem produzir outros resultados al\u00e9m de cren\u00e7as. Raz\u00f5es surgem de axiomas e infer\u00eancias e afetam nossas cren\u00e7as. O bulverismo tenta mostrar que outro homem tem causas e n\u00e3o raz\u00f5es e que n\u00f3s temos raz\u00f5es e n\u00e3o causas. Uma cren\u00e7a que pode ser explicada inteiramente em termos de causas \u00e9 in\u00fatil. Esse princ\u00edpio n\u00e3o deve ser abandonado quando consideramos as cren\u00e7as que s\u00e3o os fundamentos de outras. Nosso conhecimento depende de nossa certeza sobre axiomas e infer\u00eancias. Se esses s\u00e3o resultados de causas, ent\u00e3o n\u00e3o h\u00e1 possibilidade de conhecimento. Ou n\u00e3o podemos conhecer nada ou o pensamento tem apenas raz\u00f5es e n\u00e3o causas.<\/p>\n<p>[O resto deste ensaio, que foi originalmente lido no Clube Socr\u00e1tico antes da publica\u00e7\u00e3o no Socratic Digest, continua na forma de notas tomadas pelo secret\u00e1rio do clube. Isso explica porque ele n\u00e3o \u00e9 todo na primeira pessoa, como o texto at\u00e9 aqui.]<\/p>\n<p>Pode-se argumentar, continuou o sr. Lewis, que a raz\u00e3o evoluiu por sele\u00e7\u00e3o natural e que somente os m\u00e9todos de racioc\u00ednio que se provaram \u00fateis sobreviveram. Mas a teoria depende de uma infer\u00eancia que ligue a utilidade \u00e0 verdade, cuja validade deve ser suposta. Todas as tentativas de tratar o pensamento como um evento natural envolvem a fal\u00e1cia de excluir o pensamento do indiv\u00edduo que faz a tentativa.<\/p>\n<p>Admite-se que a mente \u00e9 afetada por eventos f\u00edsicos; um aparelho eletr\u00f4nico \u00e9 influenciado por eventos atmosf\u00e9ricos, mas n\u00e3o os causa \u2013 n\u00e3o notaremos isso se pensarmos o contr\u00e1rio. Podemos relacionar eventos naturais uns com os outros numa seq\u00fc\u00eancia cont\u00ednua no espa\u00e7o-tempo. Mas o pensamento n\u00e3o tem outro pai a n\u00e3o ser o pensamento. Ele \u00e9 condicionado, sem d\u00favida, mas n\u00e3o tem causa. Meu conhecimento de que estou ansioso \u00e9 gerado por infer\u00eancia.<\/p>\n<p>O mesmo argumento aplica-se aos nossos valores, que s\u00e3o afetados por fatores sociais, mas se estes causam aqueles, nunca poderemos saber se eles (os valores) s\u00e3o certos. Pode-se rejeitar a moralidade como uma ilus\u00e3o, mas o indiv\u00edduo que faz isso o faz freq\u00fcentemente excetuando seu pr\u00f3prio motivo \u00e9tico tacitamente: por exemplo, no caso da tentativa de libertar a moralidade da supersti\u00e7\u00e3o e de difundir a ilustra\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>Nem a Vontade nem a Raz\u00e3o s\u00e3o produtos da Natureza. Portanto, ou eu sou auto-existente (uma cren\u00e7a que ningu\u00e9m pode aceitar) ou eu sou dependente de algum Pensamento ou Vontade que \u00e9 auto-existente. Tal raz\u00e3o e bondade que podemos atingir devem derivar de uma Raz\u00e3o e uma Bondade auto-existentes fora de n\u00f3s, na realidade, uma Raz\u00e3o e uma Bondade Sobrenaturais.<\/p>\n<p>O sr. Lewis continuou dizendo que \u00e9 comum se argumentar que a exist\u00eancia do Sobrenatural \u00e9 excessivamente importante para ser discern\u00edvel apenas por argumentos abstratos e que, dessa forma, apenas alguns poucos desocupados podem faz\u00ea-lo. Mas, em todas as outras eras o homem comum tem aceitado as descobertas dos m\u00edsticos e dos fil\u00f3sofos para a formula\u00e7\u00e3o de sua cren\u00e7a inicial no Sobrenatural. Atualmente, o homem \u00e9 for\u00e7ado, ele pr\u00f3prio, a carregar aquele peso. Ou a humanidade cometeu um terr\u00edvel erro em rejeitar a autoridade, ou o poder(es) que controla(m) seu destino est\u00e1 (\u00e3o) fazendo um ousado experimento, e estamos todos no caminho de nos tornarmos s\u00e1bios. Uma sociedade que consista apenas de homens comuns est\u00e1 fadada ao desastre. Se vamos sobreviver, devemos ou acreditar nos homens de vis\u00e3o ou escalar as alturas n\u00f3s pr\u00f3prios.<\/p>\n<p>Evidentemente ent\u00e3o, algo al\u00e9m da Natureza existe. O homem est\u00e1 na linha limite entre o Natural e o Sobrenatural. Os event os materiais n\u00e3o podem produzir atividade espiritual, mas esta pode ser respons\u00e1vel por muitas de nossas a\u00e7\u00f5es na Natureza. A Vontade e a Raz\u00e3o n\u00e3o podem depender de nada a n\u00e3o ser delas pr\u00f3prias, mas a Natureza pode depender da Vontade e da Raz\u00e3o ou, em outras palavras, Deus criou a Natureza.<\/p>\n<p>A rela\u00e7\u00e3o entre a Natureza e o Sobrenatural, que n\u00e3o \u00e9 uma rela\u00e7\u00e3o no espa\u00e7o e no tempo, torna-se intelig\u00edvel se o Sobrenatural tiver feito o Natural. Temos at\u00e9 uma id\u00e9ia disso, pois conhecemos o poder da imagina\u00e7\u00e3o, apesar de n\u00e3o podermos criar nada novo, mas podemos rearranjar o material absorvido pelos sentidos. N\u00e3o \u00e9 inconceb\u00edvel que o universo tenha sido criado por uma Imagina\u00e7\u00e3o forte o suficiente para impor os fen\u00f4menos em nossas mentes.<\/p>\n<p>Sugere-se, o sr. Lewis conclui, que nossas id\u00e9ias do fazer e do causar s\u00e3o inteiramente derivadas de nossa experi\u00eancia da vontade. A conclus\u00e3o que usualmente se tira \u00e9 que n\u00e3o h\u00e1 o fazer ou o causar, apenas \u201cproje\u00e7\u00e3o\u201d. Mas, \u201cproje\u00e7\u00e3o\u201d \u00e9 em si uma forma de causar e \u00e9 mais razo\u00e1vel supor que a Vontade \u00e9 a \u00fanica causa que conhecemos e que, portanto, a Vontade \u00e9 a causa da Natureza.<\/p>\n<p>Uma discuss\u00e3o se segue. Alguns pontos levantados:<\/p>\n<p>Todo o racioc\u00ednio sup\u00f5e a hip\u00f3tese de que a infer\u00eancia \u00e9 v\u00e1lida. A infer\u00eancia correta \u00e9 auto-evidente.<\/p>\n<p>\u201cRelevante\u201d (re-evidente) \u00e9 um termo racional.<\/p>\n<p>O universo n\u00e3o alega ser verdadeiro: ele apenas existe.<\/p>\n<p>Conhecimento por revela\u00e7\u00e3o \u00e9 mais conhecimento emp\u00edrico do que racional.<\/p>\n<p>Pergunta : Qual \u00e9 o crit\u00e9rio da verdade, se voc\u00ea distingue entre causa e raz\u00e3o?<\/p>\n<p>Sr. Lewis: Um pa\u00eds montanhoso deve ter muitos mapas. Apenas um \u00e9 verdadeiro, isto \u00e9, apenas um corresponde aos contornos reais. O mapa feito pela Raz\u00e3o alega ser o verdadeiro. Eu n\u00e3o poderia perceber o universo a menos que eu pudesse confiar em minha raz\u00e3o. Se n\u00e3o pud\u00e9ssemos confiar na infer\u00eancia n\u00e3o poder\u00edamos conhecer nada, exceto nossa pr\u00f3pria exist\u00eancia. A realidade f\u00edsica \u00e9 uma infer\u00eancia de nossas sensa\u00e7\u00f5es.<\/p>\n<p>Pergunta: Como um axioma pode ser mais auto-evidente do que um ju\u00edzo baseado em evid\u00eancia emp\u00edrica?<\/p>\n<p>[Este ensaio termina aqui, deixando essa quest\u00e3o sem resposta.]<\/p>\n<p>Notas:<\/p>\n<p>Texto originalmente publicado no livro God in the Dock.<\/p>\n<p>Tradu\u00e7\u00e3o: Antonio Em\u00edlio Angueth de Ara\u00fajo<\/p>\n<p>[*] Ver, Como Vencer um Debate sem Ter Raz\u00e3o: em 38 estratagemas, Introdu\u00e7\u00e3o, Notas e Coment\u00e1rios de Olavo de Carvalho, Topbooks, 1997.<\/p>\n<p>Fonte: M\u00eddia sem M\u00e1scara e M\u00eddia sem M\u00e1scara<br \/>\nFonte: http:\/\/semanacslewis.blogspot.com.br\/2012\/11\/bulverismo-ou-os-fundamentos-do.html<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Artigo-resumo de palestra publicada em God in the Dock.<\/p>\n","protected":false},"author":46,"featured_media":0,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"ngg_post_thumbnail":0,"footnotes":""},"categories":[114,29082],"tags":[29133,5304,29203,15602],"class_list":["post-735","post","type-post","status-publish","format-standard","hentry","category-artigos","category-artigos-de-c-s-lewis","tag-bulverismo","tag-c-s-lewis","tag-existencia-de-deus","tag-razao"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/ultimato.com.br\/sites\/cslewis\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/735","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/ultimato.com.br\/sites\/cslewis\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/ultimato.com.br\/sites\/cslewis\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/ultimato.com.br\/sites\/cslewis\/wp-json\/wp\/v2\/users\/46"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/ultimato.com.br\/sites\/cslewis\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=735"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/ultimato.com.br\/sites\/cslewis\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/735\/revisions"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/ultimato.com.br\/sites\/cslewis\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=735"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/ultimato.com.br\/sites\/cslewis\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=735"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/ultimato.com.br\/sites\/cslewis\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=735"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}