{"id":479,"date":"2011-10-01T14:35:21","date_gmt":"2011-10-01T14:35:21","guid":{"rendered":"http:\/\/www.cslewis.com.br\/?p=479"},"modified":"2011-10-01T14:35:21","modified_gmt":"2011-10-01T14:35:21","slug":"os-dois-olhos-do-dragao-uma-analise-de-beowulf-a-partir-de-tolkien-e-borges","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/ultimato.com.br\/sites\/cslewis\/2011\/10\/01\/os-dois-olhos-do-dragao-uma-analise-de-beowulf-a-partir-de-tolkien-e-borges\/","title":{"rendered":"Os dois olhos do drag\u00e3o: uma an\u00e1lise de Beowulf a partir de Tolkien e Borges"},"content":{"rendered":"<p>\ufeffPara ler o artigo de <strong>Diego Klautau <\/strong>inteiro<\/p>\n<p>clique<a href=\"http:\/\/ciberteologia.paulinas.org.br\/ciberteologia\/wp-content\/uploads\/downloads\/2010\/12\/Art03Osdoisolhos.pdf\"> aqui<\/a>:<\/p>\n<div id=\"_mcePaste\" style=\"width: 1px;height: 1px;overflow: hidden\">Ciberteologia &#8211; Revista de Teologia &amp; Cultura &#8211; Ano II, n. 14 10<br \/>\nAs est\u00f3rias de fadas na Cidade de Deus:<br \/>\nteoria liter\u00e1ria de J. R. R. Tolkien e as<br \/>\nvirtudes cardeais de santo Agostinho<br \/>\nDiego Klautau*<br \/>\nResumo: Este artigo trata dos conceitos liter\u00e1rios de J. R. R. Tolkien de est\u00f3rias de fadas, fantasia,<br \/>\nsubcria\u00e7\u00e3o e eucat\u00e1strofe. Atrav\u00e9s do poema Mythopoieia (1930), do ensaio Beowulf: The<br \/>\nMonsters and the Critics (1936) e do ensaio On Fairy-Stories (1939) podemos tecer uma teoria<br \/>\nliter\u00e1ria que entende sua fi nalidade como uma express\u00e3o religiosa, buscando similitudes com<br \/>\no pensamento de santo Agostinho, especifi camente nas quatro virtudes cardeais, expressas nos<br \/>\nlivros A cidade de Deus (426) e O livre-arb\u00edtrio (388), assim como a gloria das na\u00e7\u00f5es pag\u00e3s e<br \/>\na presen\u00e7a de virtudes que justifi cassem elementos da verdade em povo pag\u00e3os. Assim como<br \/>\nantigas virtudes romanas poderiam ser exemplos para os crist\u00e3os, tamb\u00e9m nos mitos escandinavos,<br \/>\ncomo Beowulf, poderiam ser encontradas virtudes pertinentes \u00e0 revela\u00e7\u00e3o crist\u00e3. Por fi m,<br \/>\ntamb\u00e9m as est\u00f3rias de fadas, subcriadas, podem e devem ecoar elementos do Evangelho crist\u00e3o.<br \/>\nPalavras-chave: Literatura, cristianismo, virtudes.<br \/>\nBut even as hope died in Sam, or seemed to die, it was<br \/>\nturned to a new strength. Sam\u00b4s plain hobbit-face grew<br \/>\nstern, almost grim, as the will hardened in him, and he<br \/>\nfelt through all his limbs a thrill, as if he was turning into<br \/>\nsome creature of stone and steel that neither despair nor<br \/>\nweariness nor endless barren miles could subdue<br \/>\n(Tolkien, 2005, p. 934).1<br \/>\nTolkien e sua teoria liter\u00e1ria<br \/>\nA partir da experi\u00eancia dos folcloristas da Inglaterra,<br \/>\ncomo Georges MacDonald2 e Andrew Lang,3 J.<br \/>\nR. R. Tolkien4 produziu seu legendarium,5 um ciclo<br \/>\nde escritos sobre o universo da Terra-m\u00e9dia, onde desenvolveu<br \/>\ntoda uma realidade fant\u00e1stica, com seres<br \/>\ninteligentes e m\u00e1gicos, criaturas horrendas e angelicais,<br \/>\nsemideuses e dem\u00f4nios. Atrav\u00e9s de uma cria\u00e7\u00e3o<br \/>\nliter\u00e1ria que se estendeu por v\u00e1rios livros, poemas e<br \/>\ncontos, Tolkien prop\u00f4s uma concep\u00e7\u00e3o de literatura<br \/>\nfant\u00e1stica que retomou perspectivas em ambientes<br \/>\npr\u00e9-modernos de narrativa, fundamentalmente as<br \/>\nnarra\u00e7\u00f5es mitol\u00f3gicas gregas, romanas e escandinavas,<br \/>\nos poemas \u00e9picos e as narrativas b\u00edblicas.<br \/>\nEntre os diversos livros do legendarium est\u00e3o, entre<br \/>\nos publicados em vida ou postumamente, O hobbit<br \/>\n(1937), as tr\u00eas partes de O senhor dos an\u00e9is (1954-<br \/>\n1955), As aventuras de Tom Bombadill (1934), O<br \/>\nsilmarillion (1977), Outros versos do Livro Vermelho<br \/>\n(1962), A \u00faltima can\u00e7\u00e3o de Bilbo (1974), Os contos<br \/>\ninacabados (1980) e os doze volumes da Hist\u00f3ria da<br \/>\nTerra-m\u00e9dia (1983-1996).<br \/>\nEntre as diversas publica\u00e7\u00f5es acad\u00eamicas, especialmente<br \/>\nsua an\u00e1lise de Beowulf,6 com a confer\u00eancia<br \/>\nem Oxford Beowulf, The Monsters and the Critics<br \/>\n(1936), trabalho de maior consist\u00eancia acad\u00eamica,<br \/>\nfi lol\u00f3gica e liter\u00e1ria, Tolkien, sempre expressou a necessidade<br \/>\nde entender as lendas e mitos7 como elementos<br \/>\nimportantes da linguagem e da religi\u00e3o. Seu<br \/>\nfamoso poema Mythopoieia (1930), publicado no<br \/>\nlivro Tree and Leaf (1964), refl ete a discuss\u00e3o entre<br \/>\nPhylomythus (o que ama mitos) e o Mysomythus (o<br \/>\nque odeia mitos). Essa discuss\u00e3o seria uma repercuss\u00e3o<br \/>\ndos di\u00e1logos entre Tolkien, crist\u00e3o convicto, e seu<br \/>\ncolega professor de Oxford C. S. Lewis,8 na \u00e9poca extremamente<br \/>\nmaterialista. O poema teria os conte\u00fados<br \/>\ndebatidos entre os professores.<br \/>\nBlessed are the legends-makers with their rhyme<br \/>\nof things not found within recorded time.<br \/>\nIt is not they that have forgot the Night,<br \/>\nor bid us flee to organized delight,<br \/>\nin lotus-isles of economic bliss<br \/>\nforswering souls to gain a Circe-kiss<br \/>\n(and counterfeit at that, machine-produced,<br \/>\nbogus seduction of the twice-seduced).9<br \/>\n(Lopes, 2006, p. 157)<br \/>\nCiberteologia &#8211; Revista de Teologia &amp; Cultura &#8211; Ano II, n. 14 11<br \/>\nA refer\u00eancia do mundo como al\u00e9m do que se v\u00ea, do<br \/>\npensamento mitol\u00f3gico grego, no caso expresso pela<br \/>\nrela\u00e7\u00e3o entre Circe e as ilhas de L\u00f3tus em Homero,10<br \/>\nna Odiss\u00e9ia, e tamb\u00e9m da tradi\u00e7\u00e3o plat\u00f4nica,11 como<br \/>\nno mito da caverna da Rep\u00fablica, e tamb\u00e9m do pensamento<br \/>\ncrist\u00e3o da transcend\u00eancia, recusa o materialismo<br \/>\nfundado na busca do lucro e da produ\u00e7\u00e3o industrial,<br \/>\ne das m\u00e1quinas, como desenvolvimento absoluto.<br \/>\nEssa cr\u00edtica12 de Tolkien ao que ele considerava<br \/>\numa aliena\u00e7\u00e3o e um desvio do verdadeiro prop\u00f3sito<br \/>\ndo saber indica sua tradi\u00e7\u00e3o religiosa. Nesse sentido,<br \/>\nesse trecho do poema refl ete sua preocupa\u00e7\u00e3o com<br \/>\nos poetas como investigadores para al\u00e9m do mundo<br \/>\nmaterial. Sua valoriza\u00e7\u00e3o da mitologia, das lendas e<br \/>\ndos poetas que as realizavam indica a recusa do tempo<br \/>\nem que vivia \u2014 entre guerras mundiais \u2014, e da industrializa\u00e7\u00e3o,<br \/>\nque amea\u00e7ava constantemente destruir<br \/>\no mundo rural no qual o pr\u00f3prio Tolkien crescera.13<br \/>\nDe fato, a religi\u00e3o, em Tolkien, sempre foi importante.<br \/>\nA refl ex\u00e3o sobre a verdade religiosa est\u00e1 presente<br \/>\nna produ\u00e7\u00e3o de seu legendarium e tamb\u00e9m em<br \/>\nseus escrito te\u00f3ricos. A pr\u00f3pria pesquisa do poema<br \/>\nmedieval Beowulf se encaminha para essa rela\u00e7\u00e3o<br \/>\nentre a tradi\u00e7\u00e3o crist\u00e3, entendida como verdade de<br \/>\nf\u00e9, revelada e acolhida, e as produ\u00e7\u00f5es pag\u00e3s da mitologia<br \/>\ne das lendas, que exaltavam virtudes e valores<br \/>\nde uma determinada cultura, no caso de Beowulf, escandinava.<br \/>\nO ensaio mais importante nessa \u00e1rea \u00e9 On Fairy-<br \/>\nStories (1939), uma palestra conferida na Universit of<br \/>\nSt Andrews, na Esc\u00f3cia, em 8 de mar\u00e7o de 1939. Esse<br \/>\nensaio \u00e9 considerado o mais extenso e abrangente de<br \/>\nTolkien, no qual o autor demonstra toda a sua vis\u00e3o<br \/>\nsobre trabalhos de folcloristas, mit\u00f3logos e fi l\u00f3logos.<br \/>\nNesse ensaio Tolkien busca apresentar conceitos<br \/>\nfundamentais em sua teoria liter\u00e1ria. Valorizando as<br \/>\nlendas, narrativas e mitologias, o escritor apresenta<br \/>\numa vis\u00e3o nova, entendida como n\u00e3o-anal\u00edtica dessas<br \/>\nprodu\u00e7\u00f5es, mas como um incentivo e uma apologia<br \/>\na essa literatura, como est\u00edmulo para ler e escrever.<br \/>\nN\u00e3o apenas uma apresenta\u00e7\u00e3o acad\u00eamica, mas um<br \/>\nadmirador e atuante do of\u00edcio de escritor.<br \/>\nO primeiro conceito importante apresentado \u00e9 o<br \/>\npr\u00f3prio t\u00edtulo da palestra. As est\u00f3rias de fadas, fairy<br \/>\nstories, s\u00e3o objeto de refl ex\u00e3o de Tolkien. Em ingl\u00eas,<br \/>\nfairy stories s\u00e3o diferentes dos fairy tales, os contos de<br \/>\nfadas. A tradu\u00e7\u00e3o do conceito adotada \u00e9 de Reinaldo<br \/>\nLopes,14 em sua disserta\u00e7\u00e3o de mestrado A \u00e1rvore das<br \/>\nest\u00f3rias: uma proposta de tradu\u00e7\u00e3o para \u201cTree and<br \/>\nLeaf\u201d, de J. R. R. Tolkien (2006). Nesse estudo, Lopes<br \/>\ntraduz On-Fairy-Stories e Mythopoieia nos moldes em<br \/>\nque trabalhamos. Ap\u00f3s tal defi ni\u00e7\u00e3o de fairy-stories,<br \/>\nTolkien desenvolve seu ensaio para responder a tr\u00eas<br \/>\nperguntas: que s\u00e3o est\u00f3rias de fadas? Qual sua origem?<br \/>\nPara que servem?<br \/>\nEssa tradu\u00e7\u00e3o \u00e9 proposital no pensamento de<br \/>\nTolkien. Ao fazer a diferen\u00e7a entre history, stories e<br \/>\ntales, Tolkien quer, de fato, marcar a diferen\u00e7a entre<br \/>\nhist\u00f3ria, est\u00f3rias e contos:<br \/>\n\u2022 Hist\u00f3ria \u00e9 a realidade em que vivemos, no mundo<br \/>\nonde acontecem os fatos que estamos acostumados<br \/>\na ver. \u00c9 o lugar onde acontecem os dramas<br \/>\npuramente cotidianos, humanos e naturais.<br \/>\n\u2022 Est\u00f3rias seriam as narrativas que demonstram que<br \/>\no ser humano n\u00e3o defi ne o real. Existem outras<br \/>\ndimens\u00f5es do pensamento e da realidade. S\u00e3o<br \/>\nas lendas, os mitos e as narrativas que demonstram<br \/>\nque a humanidade sempre esteve ligada a<br \/>\num mundo que \u00e9 misterioso, transcendente ao<br \/>\nhumano e sobrenatural.<br \/>\n\u2022 Contos s\u00e3o aquelas narrativas que s\u00e3o usadas<br \/>\ncomo f\u00e1bulas, sem nenhuma pretens\u00e3o de expor<br \/>\ne investigar nada. Esses, sim, s\u00e3o os contos infantis<br \/>\ne de puro entretenimento.<br \/>\nEssa primeira defi ni\u00e7\u00e3o de Tolkien, ao fazer a diferen\u00e7a<br \/>\nentre est\u00f3rias de fadas e contos de fadas, marca<br \/>\nseu objeto. Os contos de fadas s\u00e3o as narrativas com<br \/>\nfadas diminutas, que normalmente s\u00e3o consideradas<br \/>\ning\u00eanuas e graciosas. As est\u00f3rias de fadas s\u00e3o sobre<br \/>\num lugar, o Reino Encantado, ou Fe\u00e9ria, onde seres<br \/>\nhumanos adentram e vivem experi\u00eancias liter\u00e1rias<br \/>\npr\u00f3prias. As aventuras dos seres humanos em Fe\u00e9ria<br \/>\n\u00e9 que s\u00e3o as est\u00f3rias de fadas. As est\u00f3rias de fadas<br \/>\nsempre tratam de seres humanos em rela\u00e7\u00e3o consigo<br \/>\nmesmo, com a natureza e com o mist\u00e9rio transcendente.<br \/>\nEstes s\u00e3o os desejos saciados em Fe\u00e9ria: a observa\u00e7\u00e3o<br \/>\ndas profundezas do tempo e do espa\u00e7o. A<br \/>\noutra \u00e9 a comunh\u00e3o com todas as coisas vivas.<br \/>\nAs est\u00f3rias de fadas trazem a refl ex\u00e3o de Fe\u00e9ria, em<br \/>\nseus n\u00edveis de questionamento e de aprofundamento,<br \/>\nque tragam a experi\u00eancia humana em dire\u00e7\u00e3o ao desconhecido<br \/>\ne imprevis\u00edvel. Segundo o pr\u00f3prio Tolkien,<br \/>\na natureza de Fe\u00e9ria \u00e9 indescrit\u00edvel, por\u00e9m n\u00e3o \u00e9 impercept\u00edvel,<br \/>\ne nenhuma an\u00e1lise do tipo cartesiano15<br \/>\npoder\u00e1 desvelar seus segredos. Logo, as est\u00f3rias de<br \/>\nfadas possuem uma tradi\u00e7\u00e3o pr\u00f3pria, que remontam a<br \/>\npessoas, lugares e criaturas que podem ser encontradas<br \/>\nem diversos tempos e lugares. Os elementos das<br \/>\nest\u00f3rias de fadas estariam misturados no grande Caldeir\u00e3o<br \/>\nde Est\u00f3rias, onde os poetas e escritores fariam<br \/>\nsuas sopas, as narrativas que s\u00e3o constru\u00eddas durante<br \/>\no tempo e o espa\u00e7o. Os an\u00e9is de poder, os cora\u00e7\u00f5es<br \/>\nCiberteologia &#8211; Revista de Teologia &amp; Cultura &#8211; Ano II, n. 14 12<br \/>\nescondidos, o cetro, a estrela, o cristal, a espada, o<br \/>\ndrag\u00e3o, o cavaleiro, o mago, os monstros. S\u00e3o todos<br \/>\nelementos constitutivos das est\u00f3rias de fadas.<br \/>\n\u00c9 justamente nesse ponto que Tolkien responde \u00e0<br \/>\nsua segunda pergunta: qual a origem das est\u00f3rias de<br \/>\nfadas? Fazendo uma compara\u00e7\u00e3o com a fi lologia,16<br \/>\nexistem tr\u00eas metodologias de pesquisa em rela\u00e7\u00e3o aos<br \/>\nelementos que comp\u00f5em as est\u00f3rias de fadas, seja<br \/>\natrav\u00e9s da evolu\u00e7\u00e3o independente, seja da difus\u00e3o,<br \/>\nseja da heran\u00e7a. Para Tolkien, o elemento mais dif\u00edcil<br \/>\nde abordar \u00e9 a evolu\u00e7\u00e3o independente, pois trata da<br \/>\ninven\u00e7\u00e3o. A busca pela difus\u00e3o, propaga\u00e7\u00e3o no espa\u00e7o,<br \/>\nou da heran\u00e7a, propaga\u00e7\u00e3o no tempo, apenas<br \/>\ndeslocam a quest\u00e3o da origem para um debate mais<br \/>\ncomplexo e com mais elementos.<br \/>\nAssim, Tolkien afi rma a incapacidade do m\u00e9todo<br \/>\ncient\u00edfi co anal\u00edtico para desvendar as origens de Fe\u00e9ria,<br \/>\nchegando, no m\u00e1ximo, a dissecar seus elementos<br \/>\ne fazer certa arqueologia dos personagens, objetos e<br \/>\nlugares comuns \u00e0s est\u00f3rias de fadas.<br \/>\nPor\u00e9m, embora pesquisando os ossos, legumes e<br \/>\ndemais ingredientes de uma sopa, o que mais importa<br \/>\n\u00e9 como ela \u00e9 servida e se realmente \u00e9 saborosa e nutritiva.<br \/>\nDa\u00ed a preocupa\u00e7\u00e3o de Tolkien com as fun\u00e7\u00f5es e<br \/>\nutilidades das est\u00f3rias de fadas. Ao dialogar com Max<br \/>\nM\u00fcller,17 discorda de que a mitologia seja uma doen\u00e7a<br \/>\nda linguagem, ao contr\u00e1rio: \u00e9 integrante essencial<br \/>\nda experi\u00eancia humana de comunicar. Seria o mesmo<br \/>\nque considerar o pensamento uma doen\u00e7a da mente.<br \/>\nFundamentalmente, as origens das est\u00f3rias de fadas<br \/>\nest\u00e3o associadas ao pensamento mitol\u00f3gico e religioso.<br \/>\nAo mesmo tempo, o ser humano inicia sua<br \/>\nrefl ex\u00e3o sobre o mundo a sua volta e reconhece sua<br \/>\npr\u00f3pria condi\u00e7\u00e3o, questiona a validade de sua vida,<br \/>\nenquanto investiga o mundo que transcende ao que<br \/>\nv\u00ea e a ele mesmo, encaminhando-se em dire\u00e7\u00e3o ao<br \/>\nprofundo mist\u00e9rio que reconhece e n\u00e3o consegue explicar.<br \/>\nTolkien, em On Fairy-Stories, afi rma que:<br \/>\nYet these things have in fact become entangled or maybe<br \/>\nthey were sundered long ago and have since groped<br \/>\nslowly, through a labyrinth of error, though confusion,<br \/>\nback towards re-fusion. Even fairy-stories as a whole<br \/>\nhave three faces: the Mystical towards the Supernatural;<br \/>\nthe Magical towards Nature; and the mirror of scorn and<br \/>\npity towards the Man. The essential face of Faerie is the<br \/>\nmiddle one, the Magical. But the degree in which the<br \/>\nothers appear (if at all) is variable, and may be decided<br \/>\nby the individual story-teller (Tolkien, 1997, p. 125).18<br \/>\nPara Tolkien, as est\u00f3rias de fadas s\u00e3o essencialmente<br \/>\nsobre a Natureza. Isso corrobora a id\u00e9ia da<br \/>\npreocupa\u00e7\u00e3o de Tolkien com a condi\u00e7\u00e3o moderna e<br \/>\ncom a explora\u00e7\u00e3o da natureza pela ci\u00eancia e pelo<br \/>\ncapital. A resist\u00eancia das est\u00f3rias de fadas em rela\u00e7\u00e3o<br \/>\nao materialismo se expressa pelo cuidado com a<br \/>\nNatureza. Da\u00ed a refl ex\u00e3o do mito como elemento da<br \/>\nnatureza: o Trov\u00e3o \u00e9 Thor, mas tamb\u00e9m \u00e9 o ferreiro<br \/>\nmal-humorado, fi gura t\u00edpica dos escandinavos.<br \/>\nTamb\u00e9m as est\u00f3rias de fadas t\u00eam seus elementos<br \/>\nde refl ex\u00e3o sobre o ser humano, enquanto condi\u00e7\u00e3o<br \/>\ne destino, e sobre o mist\u00e9rio, centro da religi\u00e3o. Tanto<br \/>\no ser humano quanto a m\u00edstica podem estar presentes<br \/>\nnas est\u00f3rias de fadas, por\u00e9m seu fundamento \u00e9 a m\u00e1gica,<br \/>\na representa\u00e7\u00e3o e reconhecimento da Natureza.<br \/>\nChegamos, agora, \u00e0 terceira pergunta de Tolkien.<br \/>\nA utilidade das est\u00f3rias de fadas \u00e9 justamente a de<br \/>\nproporcionar um novo olhar para o mundo. Essas<br \/>\nest\u00f3rias, por tratarem de um lugar, de um encontro<br \/>\nentre os seres humanos e algo que est\u00e1 al\u00e9m deles,<br \/>\npor\u00e9m presentes em seu desejo, \u00e9 um lugar de novidade,<br \/>\nde assombro e de surpresa. \u00c9 o espa\u00e7o em que<br \/>\no mist\u00e9rio se apresenta com novas imagens, em que<br \/>\nos dramas humanos s\u00e3o re-visitados e re-atualizados<br \/>\ne reconhecidos. Eis Fe\u00e9ria, que novamente se re-encanta19<br \/>\ncom o cotidiano da natureza.<br \/>\nEsse novo olhar promovido pelas est\u00f3rias de fadas<br \/>\nem rela\u00e7\u00e3o \u00e0 natureza \u00e9 o fundamento de sua<br \/>\nexist\u00eancia. O que preserva as est\u00f3rias de fadas s\u00e3o<br \/>\nsuas virtudes e valores, presentes em si e espalhadas<br \/>\ne difundidas em todos os que se aventuram em Fe\u00e9ria.<br \/>\nDa\u00ed a associa\u00e7\u00e3o das est\u00f3rias de fadas com as<br \/>\ncrian\u00e7as. Embora Tolkien discorde dessa associa\u00e7\u00e3o<br \/>\nimediata, diz que o fundamento de tal associa\u00e7\u00e3o \u00e9 a<br \/>\ncapacidade de as crian\u00e7as acreditarem em coisas novas.<br \/>\nQue existe tamb\u00e9m nos adultos, por\u00e9m de uma<br \/>\nforma mais prejudicada, principalmente nos dom\u00ednios<br \/>\ndas m\u00e1quinas e do materialismo.<br \/>\nEssa capacidade de cren\u00e7a est\u00e1 expressa porque<br \/>\nas est\u00f3rias de fadas n\u00e3o est\u00e3o preocupadas com a<br \/>\npossibilidade \u2014 da\u00ed o irreal, o sobrenatural e o sobre-<br \/>\nhumano \u2014 , mas sim com a desejabilidade de<br \/>\ncoisas espl\u00eandidas e transcendentes. Tamb\u00e9m essas<br \/>\nvirtudes presentes nessas coisas espl\u00eandidas s\u00e3o trazidas<br \/>\npelas est\u00f3rias de fadas atrav\u00e9s da fantasia, que<br \/>\n\u00e9 a capacidade imaginativa de formar imagens mentais<br \/>\nque n\u00e3o est\u00e3o presentes: o escape, transporte fora<br \/>\ndo mundo em que estamos aprisionados na mat\u00e9ria;<br \/>\na recupera\u00e7\u00e3o, elemento que retoma a condi\u00e7\u00e3o de<br \/>\ncomunh\u00e3o com as coisas vivas e de integralidade humana;<br \/>\ne a consola\u00e7\u00e3o, que permite ao ser humano<br \/>\nesperar algo al\u00e9m de sua vis\u00e3o limitada pela pr\u00f3pria<br \/>\ncondi\u00e7\u00e3o humana.<br \/>\nTais utilidades das est\u00f3rias de fadas se re\u00fanem<br \/>\nem um conceito central de Tolkien: a subcria\u00e7\u00e3o.<br \/>\nA principal forma de as est\u00f3rias de fadas atingirem<br \/>\nCiberteologia &#8211; Revista de Teologia &amp; Cultura &#8211; Ano II, n. 14 13<br \/>\nseus objetivos, o encontro com Fe\u00e9ria, \u00e9 a cria\u00e7\u00e3o de<br \/>\num mundo fant\u00e1stico. Cada subcriador se utiliza dos<br \/>\nelementos do Caldeir\u00e3o de Est\u00f3rias, e serve sua sopa<br \/>\ncom determinados elementos j\u00e1 existentes. Por\u00e9m \u00e9<br \/>\ngra\u00e7as \u00e0 atividade art\u00edstica do subcriador que se consegue<br \/>\na medida para que os meios das est\u00f3rias de<br \/>\nfadas consigam produzir frutos.<br \/>\nApenas se consegue fantasia, recupera\u00e7\u00e3o, escape<br \/>\ne consolo quando a medida correta \u00e9 conseguida. No<br \/>\ncaso, a subcria\u00e7\u00e3o \u00e9 essa medida. A subcria\u00e7\u00e3o \u00e9 feita<br \/>\nquando se consegue produzir uma cren\u00e7a secund\u00e1ria,<br \/>\nem que o leitor se permite acreditar em algo veross\u00edmil,<br \/>\ncoerente, mesmo que num ambiente de criaturas<br \/>\nsobre-humanas, num ambiente sobrenatural, com divindades<br \/>\ne seres muito al\u00e9m da realidade material.<br \/>\nEssa correspond\u00eancia com a cria\u00e7\u00e3o,20 o mundo<br \/>\nno qual vivemos, passa pela realidade da divindade<br \/>\ncriadora. S\u00e3o as virtudes promovidas pela religi\u00e3o<br \/>\nque estabelecem a correspond\u00eancia, pois Deus nos<br \/>\nindica como agir corretamente. Em suma: pode at\u00e9<br \/>\nexistir um mundo com o sol verde, com \u00e1rvores amarelas,<br \/>\npor\u00e9m deve obedecer a um par\u00e2metro que permita<br \/>\numa explica\u00e7\u00e3o de que Deus, ou seus avatares,<br \/>\ncriaram o sol verde para expressar a gratid\u00e3o da grama,<br \/>\ne as \u00e1rvores amarelas para mostrar a prote\u00e7\u00e3o do<br \/>\nfogo quando usado para aquecer os seres humanos.<br \/>\nAssim, como na religi\u00e3o do mundo prim\u00e1rio, na cria\u00e7\u00e3o,<br \/>\na arte subcriativa demonstra o cuidado de Deus<br \/>\ncom a natureza e com os seres humanos, e nisso existe<br \/>\na l\u00f3gica religiosa real no mundo prim\u00e1rio.<br \/>\nDa mesma forma, seres humanos compostos de<br \/>\nferro, num mundo subcriado, devem seguir as virtudes<br \/>\npropostas da religi\u00e3o da mesma forma que os<br \/>\nseres humanos de carne e osso o fazem no mundo<br \/>\nprim\u00e1rio, pois a honra e a coragem s\u00e3o importantes<br \/>\ntanto no mundo prim\u00e1rio, na cria\u00e7\u00e3o, quanto nos<br \/>\nmundos secund\u00e1rios. Se, ao contr\u00e1rio, os seres humanos<br \/>\nde lama forem traidores e mentirosos, ser\u00e3o<br \/>\ncondenados no mundo secund\u00e1rio, assim como trai\u00e7\u00e3o<br \/>\ne mentira s\u00e3o conden\u00e1veis no mundo prim\u00e1rio.<br \/>\nSomente assim ser\u00e1 poss\u00edvel estabelecer uma liga\u00e7\u00e3o<br \/>\nentre o desejo dos seres humanos e a arte subcriativa.<br \/>\nEm Mythopoieia, Tolkien escreve:<br \/>\nThe heart of Man is not compound of lies,<br \/>\nbut draws some wisdom from the only Wise,<br \/>\nand still recalls him. Though now long estranged,<br \/>\nMan is not wholly lost nor wholly changed,<br \/>\nDis-graced he may be, yet is not dethroned,<br \/>\nand keeps the rags of lordship once he owned,<br \/>\nhis world-dominion by creative act:<br \/>\nnot his to worship the great Artefact,<br \/>\nMan, Sub-creator, the refracted light<br \/>\nthrough whom is splintered from a single White<br \/>\nto many hues, and endlessly combined<br \/>\nin living shapes that move from mind to mind.<br \/>\nThough all the crannies of the world we filled<br \/>\nwith Elves and Goblins, though we dared to build<br \/>\nGods and their houses out of dark and light,<br \/>\nand sowed the seed of dragons, \u2018twas our right<br \/>\n(used or misused). The right has not decayed.<br \/>\nWe make still by the law in which we\u00b4re made.21<br \/>\n(Lopes, 2006, p. 155)<br \/>\nNesse trecho do poema Tolkien novamente retoma<br \/>\na vis\u00e3o da subcria\u00e7\u00e3o como correspond\u00eancia da verdade<br \/>\nreligiosa. Apesar da queda humana, a descri\u00e7\u00e3o<br \/>\nda expuls\u00e3o do homem e da mulher do Para\u00edso de<br \/>\nDeus feita no relato b\u00edblico, no livro de G\u00eanesis, o ser<br \/>\nhumano ainda \u00e9 fi lho de Deus, sua criatura. Assim,<br \/>\napesar de desgra\u00e7ado, o ser humano ainda carrega<br \/>\nem si a realeza de Deus.<br \/>\nAo recusar o deus-artefato, Tolkien critica novamente<br \/>\no materialismo e a tecnologia da ci\u00eancia moderna.<br \/>\nA capacidade de compreens\u00e3o e de desenvolvimento<br \/>\nintelectual e espiritual do ser humano \u00e9<br \/>\nimensa, como as luzes que se refratam em v\u00e1rios tons,<br \/>\nmas a unidade \u00e9 novamente resgatada no branco. Por<br \/>\nfi m, a apologia de que as est\u00f3rias de fadas, com elfos,<br \/>\nduendes, deuses de trevas e luz, drag\u00f5es, s\u00e3o parte<br \/>\nda heran\u00e7a de Deus ao ser humano, a capacidade de<br \/>\ncria\u00e7\u00e3o imaginativa.<br \/>\nNa dimens\u00e3o da consola\u00e7\u00e3o das est\u00f3rias de fadas,<br \/>\nexiste um desdobramento fundamental, e chegamos<br \/>\nao conceito central no pensamento religioso<br \/>\nde Tolkien, a eucat\u00e1strofe. Eucat\u00e1strofe signifi ca boa<br \/>\ncat\u00e1strofe, a virada que permite que as virtudes que<br \/>\nest\u00e3o no mundo prim\u00e1rio prevale\u00e7am no mundo secund\u00e1rio.<br \/>\nA subcria\u00e7\u00e3o na medida correta acontece<br \/>\nquanto mais for veross\u00edmil a eucat\u00e1strofe. O fi nal feliz<br \/>\nn\u00e3o \u00e9 algo rom\u00e2ntico, bobo ou incoerente, mas<br \/>\nparte integrante da vida e da experi\u00eancia humana.<br \/>\nExistem perdas, confus\u00e3o, mortes e sofrimento,<br \/>\ne muitas vezes essa eucat\u00e1strofe n\u00e3o \u00e9 exatamente<br \/>\ncomo gostar\u00edamos que ela fosse. Existem mudan\u00e7as<br \/>\ne, muitas vezes, as coisas seguem rumos nunca imaginados.<br \/>\nPor\u00e9m o que a eucat\u00e1strofe revela \u00e9 que as<br \/>\nvirtudes sempre s\u00e3o recompensadas e nunca nenhum<br \/>\nsacrif\u00edcio \u00e9 in\u00fatil.<br \/>\nDeve haver uma plausibilidade, uma tens\u00e3o que<br \/>\ntamb\u00e9m existe no mundo prim\u00e1rio, e assim estabelecer<br \/>\na liga\u00e7\u00e3o entre o mundo prim\u00e1rio e o secund\u00e1rio.<br \/>\nAssim como na cria\u00e7\u00e3o muitas vezes pensamos<br \/>\nque as virtudes n\u00e3o irreais e in\u00fateis, mas devemos<br \/>\nmant\u00ea-las, para conseguirmos entender o qu\u00e3o v\u00e1lida<br \/>\nelas s\u00e3o, tamb\u00e9m no mundo secund\u00e1rio acontece o<br \/>\nmesmo. Para afi rmar esse conceito, Tolkien apresenta<br \/>\nCiberteologia &#8211; Revista de Teologia &amp; Cultura &#8211; Ano II, n. 14 14<br \/>\na maior est\u00f3ria de fadas que ele conhece, os evangelhos,<br \/>\ncom a narrativa da vida, ensinamentos, paix\u00e3o,<br \/>\nmorte e ressurrei\u00e7\u00e3o de Jesus Cristo. Assim Tolkien escreve<br \/>\nna parte fi nal de On Fairy-Stories:<br \/>\nIt is not difficult to imagine the peculiar excitement and<br \/>\njoy that one would feel, if any specially beautiful fairystory<br \/>\nwere found to be \u201cprimarily\u201d true, its narrative to be<br \/>\nhistory, without thereby necessarily losing the mythical<br \/>\nor allegorical significance that it had possessed. It is not<br \/>\ndifficult, for one is not called upon to try and conceive<br \/>\nanything of a quality unknown. The joy would have exactly<br \/>\nthe same quality, if not the same degree, as the joy<br \/>\nwhich the \u201cturn\u201d in fairy-story gives: such joy has the<br \/>\nvery taste of primary truth. (otherwise its name would<br \/>\nnot be joy.) It looks forward (or backward: the direction<br \/>\nin this regard is unimportant) to the Great Eucatastrophe.<br \/>\nThe Christian joy, the Gloria, is of the same<br \/>\nkind; but it is pre-eminently (infinitely, if our capacity<br \/>\nwere not finite) high and joyous. Because this story is<br \/>\nsupreme; and it is true. Art has been verified. God is the<br \/>\nLord, of angels, and of men \u2014 and of elves. Legend and<br \/>\nhistory have met and fused (Tolkien, 1997, p. 156).22<br \/>\nNesse trecho Tolkien expressa sua vis\u00e3o evang\u00e9lica<br \/>\ndas est\u00f3rias de fadas. A id\u00e9ia da eucat\u00e1strofe se coloca<br \/>\nao lado da ressurrei\u00e7\u00e3o. A diferen\u00e7a entre est\u00f3rias<br \/>\nde fadas, hist\u00f3ria e lenda \u00e9 abolida. O Evangelho \u00e9 a<br \/>\nvida de Jesus Cristo, que se inicia na hist\u00f3ria enquanto<br \/>\nhomem, natureza e mist\u00e9rio. Por\u00e9m \u00e9 justamente a<br \/>\narrebenta\u00e7\u00e3o desses limites que orienta a f\u00e9 crist\u00e3. A<br \/>\nressurrei\u00e7\u00e3o \u00e9 verdadeira, por isso hist\u00f3rica. O mundo<br \/>\nnatural \u00e9 vencido pelos milagres, curas e assombros<br \/>\nque Jesus Cristo realiza, e fi nalmente a Gloria<br \/>\ncrist\u00e3 \u00e9 a alegria do encontro com um Deus que \u00e9<br \/>\nPai. Nesse sentido Fe\u00e9ria \u00e9 um vislumbre do Reino<br \/>\nde Deus no mundo, nostalgia do Para\u00edso perdido no<br \/>\nrelato b\u00edblico. Fe\u00e9ria \u00e9 o lugar de reencontro do ser<br \/>\nhumano com os anjos, e com os elfos.<br \/>\nAssim, a eucat\u00e1strofe \u00e9 a caracter\u00edstica que diferencia<br \/>\nas est\u00f3rias de fadas de outros g\u00eaneros de narrativa.<br \/>\nA trag\u00e9dia, o drama, a com\u00e9dia. \u00c9 essa grande virada,<br \/>\nquando tudo parece perdido, que se assemelha com<br \/>\no Gl\u00f3ria da ressurrei\u00e7\u00e3o. E junto os conceitos est\u00f3ria<br \/>\nde fadas, narrativa da experi\u00eancia humana no Reino<br \/>\nPerigoso, Fe\u00e9ria, associado com o de subcria\u00e7\u00e3o, que<br \/>\nesse Reino Perigoso \u00e9 refl exo das escolhas originais<br \/>\ndo ser humano. \u00c9 o Evangelho que d\u00e1 sentido a todas<br \/>\nas outras est\u00f3rias de fadas. Em certo sentido, o drama<br \/>\nevang\u00e9lico, com a eucat\u00e1strofe, \u00e9 que inicia e redime<br \/>\ntodas as outras est\u00f3rias de fadas. Para Tolkien, o<br \/>\nEvangelho \u00e9 que \u00e9 o Fogo que alimenta o Caldeir\u00e3o<br \/>\nde Est\u00f3rias, onde surgem todas as por\u00e7\u00f5es da Sopa,<br \/>\nque rasga a diferen\u00e7a entre Mundo Prim\u00e1rio e Mundo<br \/>\nSecund\u00e1rio, que justifi ca todos os subcriadores, de<br \/>\ntoda \u00e9poca e lugar.<br \/>\nAgostinho e as virtudes<br \/>\nPara aprofundarmos a rela\u00e7\u00e3o que Tolkien estabelece<br \/>\nentre as virtudes e as est\u00f3rias de fadas, \u00e9 necess\u00e1rio<br \/>\no entendimento crist\u00e3o de virtudes. Para tanto, a<br \/>\nfi losofi a de santo Agostinho23 \u00e9 a fonte na qual Tolkien<br \/>\nentende suas virtudes.<br \/>\nEm A cidade de Deus,24 Agostinho discorre sobre<br \/>\ncomo o Imp\u00e9rio Romano foi grandioso devido aos<br \/>\ndons que recebeu de Deus. Mesmo sem ter a revela\u00e7\u00e3o<br \/>\ndo Deus \u00fanico, os romanos buscaram verdadeiramente<br \/>\nas virtudes como centro de sua gl\u00f3ria e,<br \/>\nassim, conseguiram que o maior imp\u00e9rio do mundo<br \/>\nantigo pudesse ser-lhes concedido por Deus. Dessa<br \/>\nforma, Agostinho abre a discuss\u00e3o sobre a a\u00e7\u00e3o de<br \/>\nDeus sobre os pag\u00e3os, que, mesmo desconhecendo a<br \/>\nrevela\u00e7\u00e3o monote\u00edsta e crist\u00e3, poderiam seguir as virtudes<br \/>\ncomo caminho para o encontro com a verdade.<br \/>\nEstes s\u00e3o os meios honestos, a saber: chegar \u00e0 gl\u00f3ria, ao<br \/>\nmando e \u00e0s honras pela virtude, n\u00e3o pela enganadora<br \/>\nambi\u00e7\u00e3o. Essas coisas de igual modo deseja o bom e o<br \/>\nremisso; mas aquele, isto \u00e9: o bom, toma pelo verdadeiro<br \/>\ncaminho. O caminho em que se ap\u00f3ia \u00e9 a virtude<br \/>\ne ap\u00f3ia-se nele para o fim, que \u00e9 a possess\u00e3o, ou seja:<br \/>\npara a gl\u00f3ria, a honra e o mando. Que isso se revelou<br \/>\ninato nos romanos indicam-no, entre eles, os templos<br \/>\ndos deuses da Virtude e da Honra, que constru\u00edram na<br \/>\nmais estreita uni\u00e3o, tendo por deuses o que n\u00e3o passa<br \/>\nde dons de Deus. Da\u00ed pode-se inferir o fim que queriam<br \/>\npara a virtude e a que referiam os que eram bons, quer<br \/>\ndizer: a honra, porque os maus n\u00e3o a possu\u00edam, mesmo<br \/>\nquando desejaram ter a honra, que se esfor\u00e7avam<br \/>\nem conseguir por meios infames, isto \u00e9: com enganos e<br \/>\ndolos. (Agostinho, 1991, pp. 208-209).<br \/>\nA vis\u00e3o de Agostinho sobre as virtudes como dons<br \/>\nde Deus demonstra que os romanos obtiveram seu<br \/>\n\u00eaxito no mundo por causa da busca e venera\u00e7\u00e3o dessas<br \/>\nvirtudes, at\u00e9 mesmo como deusas em si. Enganados<br \/>\npor n\u00e3o conhecerem a verdade do monote\u00edsmo<br \/>\ncrist\u00e3o, puderam gozar dos dons das virtudes. No<br \/>\ncaso, o objetivo \u00e9 a gl\u00f3ria, a honra e o mando, isto<br \/>\n\u00e9: o reconhecimento entre os pares da vit\u00f3ria, essa<br \/>\nvit\u00f3ria considerada justa e respeit\u00e1vel, e, enfi m, o poder<br \/>\nde mando entre seres humanos e Estado oriundo<br \/>\ndessa gl\u00f3ria e honra. Por isso que se explica a exist\u00eancia<br \/>\ndo Imp\u00e9rio Romano como dom de Deus para<br \/>\nos romanos.<br \/>\nA pr\u00f3pria exist\u00eancia de seres humanos que desejavam<br \/>\nessas virtudes e n\u00e3o as possu\u00edam demonstra,<br \/>\nembora com esfor\u00e7o, que tra\u00edam as pr\u00f3prias virtudes,<br \/>\nrevela a condi\u00e7\u00e3o de gratuidade dessas virtudes. Apenas<br \/>\no caminho correto poderia conceder essas virtudes<br \/>\ne, ainda assim, a forma e para quem era concediCiberteologia<br \/>\n&#8211; Revista de Teologia &amp; Cultura &#8211; Ano II, n. 14 15<br \/>\ndo de forma reta era mist\u00e9rio. Ent\u00e3o a conclus\u00e3o de<br \/>\nAgostinho sobre a concess\u00e3o de Deus.<br \/>\nNovamente em A cidade de Deus, Agostinho defi &#8211;<br \/>\nne a virtude e expressa como a sua busca pode objetivamente<br \/>\nconceder a felicidade, isto \u00e9: a realiza\u00e7\u00e3o<br \/>\nplena do ser humano em seu gozo pela vida.<br \/>\nA virtude os antigos definiram como a arte de viver bem<br \/>\ne retamente. Da\u00ed, porque em grego virtude se diz arete,<br \/>\nacreditarem os latinos traduzi-la bem com o nome de<br \/>\narte. Se a virtude fosse insepar\u00e1vel das faculdades do<br \/>\nesp\u00edrito, que necessidade haveria do deus C\u00e1cio para<br \/>\ntorn\u00e1-los h\u00e1beis, isto \u00e9: inteligentes, se a felicidade \u00e9<br \/>\ncapaz de conferi-lo? Nascer engenhoso \u00e9 privativo da<br \/>\nfelicidade. Em conseq\u00fc\u00eancia, mesmo quando o n\u00e3onascido<br \/>\nn\u00e3o possa tributar culto \u00e0 Felicidade, para que,<br \/>\ngranjeando-lhe a amizade, lho conceda, aos pais, que<br \/>\nlho tributam, poder\u00e1 conceder lhes nas\u00e7am filhos engenhosos<br \/>\n(Agostinho, 1991, p. 169).<br \/>\nA arte de viver bem e retamente, a arete, \u00e9 virtude.<br \/>\nSendo uma arte, h\u00e1 quem fa\u00e7a bem e quem n\u00e3o fa\u00e7a.<br \/>\nMesmo o engenhoso, o inteligente, que pode aproximar-<br \/>\nse mais facilmente da felicidade, deve buscar<br \/>\nessa felicidade, objetivo \u00faltimo da virtude. Toda virtude<br \/>\nexiste e \u00e9 concedida pela busca da felicidade.<br \/>\nFelicidade \u00e9 viver bem e retamente, a virtude \u00e9 a<br \/>\narte pela qual se encontra essa vida. Mesmo quem<br \/>\nn\u00e3o tem capacidade de engenhosidade e intelig\u00eancia<br \/>\ndeve buscar essa vida para que os familiares em<br \/>\nseu entorno possam, sendo pais ou fi lhos, porventura<br \/>\nconseguir tal felicidade. Tamb\u00e9m a concep\u00e7\u00e3o de que<br \/>\n\u00e9 algo que deve ser buscado e n\u00e3o algo inato ao ser<br \/>\nhumano, a virtude deve ser entendida, sempre, como<br \/>\numa busca. Por isso Agostinho coloca a quest\u00e3o de<br \/>\nque, se a virtude fosse algo insepar\u00e1vel do esp\u00edrito,<br \/>\nn\u00e3o haveria necessidade de deuses, ou seja: de algo<br \/>\nal\u00e9m do ser humano, algo que a concedesse.<br \/>\nApesar da discuss\u00e3o25 entre vontade e gra\u00e7a em<br \/>\nAgostinho, podemos estabelecer a condi\u00e7\u00e3o de que<br \/>\na virtude \u00e9 algo que deve ser buscado pela vontade,<br \/>\npor\u00e9m \u00e9 concedida pela gra\u00e7a divina. Assim, a<br \/>\ndiferen\u00e7a que Agostinho realiza entre querer, poder<br \/>\ne fazer imp\u00f5e-se como uma express\u00e3o da busca da<br \/>\nvirtude para alcan\u00e7ar a felicidade, isto \u00e9: a vida reta<br \/>\ne boa. Para tanto, as virtudes no mundo pr\u00e9-crist\u00e3o,<br \/>\nque Agostinho investiga, demonstram esta realidade:<br \/>\nda mesma forma que Deus se revelou aos hebreus,<br \/>\ntamb\u00e9m aos pag\u00e3os existiam caminhos que indicavam<br \/>\na presen\u00e7a do Cristo.<br \/>\nAo identifi car os objetivos romanos da felicidade<br \/>\ncomo gl\u00f3ria, honra e mando, Agostinho retoma<br \/>\na pessoa de Jesus Cristo como express\u00e3o central dessas<br \/>\nqualidades. Em O livre-arb\u00edtrio,26 Agostinho defi &#8211;<br \/>\nne Jesus Cristo como a For\u00e7a e a Sabedoria de Deus.<br \/>\nEssa defi ni\u00e7\u00e3o pode enquadrar-se nas caracter\u00edsticas<br \/>\nda gl\u00f3ria, da honra e do mando romanos. Assim, a<br \/>\npr\u00f3pria pessoa de Jesus Cristo \u00e9 em si a mais gloriosa,<br \/>\nhonrada e poderosa, a honra, o poder e a gl\u00f3ria s\u00e3o<br \/>\nexclusivos do Filho de Deus.<br \/>\nPorta-te com \u00e2nimo viril, e persevera acreditando na<br \/>\nverdade em que acreditas, pois nada \u00e9 mais recomend\u00e1vel<br \/>\nque se acredite, embora se mantenha oculta a<br \/>\nraz\u00e3o por que (tal verdade) \u00e9 assim, ter de Deus o mais<br \/>\nalto grau de devotividade. Ora, ningu\u00e9m acredita que<br \/>\nele \u00e9 onipotente, e que nem por min\u00fascula parcela (da<br \/>\nsua natureza) est\u00e1 sujeito a mudan\u00e7a. (N\u00e3o se acredita)<br \/>\nigualmente que \u00e9 ele o criador de todas as coisas boas,<br \/>\n\u00e0s quais sobreleva. Que tamb\u00e9m \u00e9 o dirigente just\u00edssimo<br \/>\nde todas as coisas por ele criadas. E bem assim,<br \/>\nque n\u00e3o foi ajudado na cria\u00e7\u00e3o por nenhum outro ser,<br \/>\ncomo quem se n\u00e3o bastasse a si mesmo. Da\u00ed ter criado<br \/>\ndo nada todas as coisas e que, procedente dele mesmo,<br \/>\nn\u00e3o tenha criado mas gerado quem lhe fosse igual, esse<br \/>\nque n\u00f3s professamos ser o Filho \u00fanico de Deus, e a<br \/>\nquem, se pretendemos design\u00e1-lo mais acessivelmente,<br \/>\nchamamos For\u00e7a e Sabedoria de Deus, por meio<br \/>\nda qual fez todas as coisas, que foram feitas do nada.<br \/>\nAssentes estas verdades, dirijamos os nossos esfor\u00e7os,<br \/>\ncom a ajuda de Deus e pelo modo que vai seguir-se,<br \/>\npara a intelec\u00e7\u00e3o do assunto sobre que me interrogas<br \/>\n(Agostinho, 1986, pp.25-26).<br \/>\nAqui, Agostinho exprime a coer\u00eancia entre acreditar<br \/>\nna onipot\u00eancia de Deus e sua caracter\u00edstica de<br \/>\nCriador. Al\u00e9m de ser a pot\u00eancia original, o criador de<br \/>\ntudo, \u00e9 tamb\u00e9m o justo juiz que determina e condena<br \/>\ntudo o que acontece no mundo. Tamb\u00e9m demonstra a<br \/>\ngera\u00e7\u00e3o do Filho de Deus, Jesus Cristo, como Senhor<br \/>\ne Ordenador do mundo. Enquanto Deus \u00e9 pot\u00eancia<br \/>\ncriadora e reguladora, Jesus Cristo \u00e9 o Ordenador do<br \/>\nmundo, ou seja: aquele que domina os caminhos da<br \/>\nvida da boa e reta vida, enfi m, da felicidade. E assim<br \/>\nexpressa os fundamentos da For\u00e7a e da Sabedoria divina.<br \/>\nEssas mesmas caracter\u00edsticas valorizadas pelos<br \/>\nromanos s\u00e3o atribu\u00eddas por Agostinho a Jesus Cristo.<br \/>\nAs caracter\u00edsticas de For\u00e7a e Sabedoria de Deus<br \/>\ns\u00e3o expressas primeiramente por s\u00e3o Paulo (1Cor<br \/>\n1,22-31), quando afi rma que Jesus Cristo transforma a<br \/>\nno\u00e7\u00e3o tanto de judeus quanto de gregos na qualidade<br \/>\nde valores de For\u00e7a e Sabedoria.<br \/>\nNo evangelho de Jo\u00e3o, a apresenta\u00e7\u00e3o de Jesus<br \/>\nCristo \u00e9 feita atrav\u00e9s da Palavra de Deus (Jo 1,1-18),<br \/>\nque \u00e9 o meio pelo qual tudo foi feito, onde se encontra<br \/>\na vida enquanto luz que dispersa as trevas, que \u00e9<br \/>\nvoltada para Deus e \u00e9 o pr\u00f3prio Deus. Tamb\u00e9m se revela<br \/>\nna encarna\u00e7\u00e3o da Palavra, como um homem que<br \/>\nveio mostrar, ensinar e doar a capacidade humana de<br \/>\namar como o pr\u00f3prio Deus ama.<br \/>\nCiberteologia &#8211; Revista de Teologia &amp; Cultura &#8211; Ano II, n. 14 16<br \/>\nPara tal doa\u00e7\u00e3o, Agostinho refl ete sobre a virtude<br \/>\ncomo fazendo parte dessa doa\u00e7\u00e3o do amor. Embora<br \/>\nhaja diferen\u00e7a entre a revela\u00e7\u00e3o de Jesus Cristo,<br \/>\nsua vida e sua ressurrei\u00e7\u00e3o, as demais virtudes humanas<br \/>\napresentadas no decorrer da hist\u00f3ria tamb\u00e9m<br \/>\ns\u00e3o encontradas, enquanto dons de Deus, na pessoa<br \/>\nde Jesus Cristo. Assim especifi ca o professor Ant\u00f4nio<br \/>\nSoares Pinheiro, tradutor e comentador da edi\u00e7\u00e3o de<br \/>\nO livre-arb\u00edtrio por n\u00f3s adotada, objetivamente, o que<br \/>\nse entendia por virtude:<br \/>\nO latim dispunha do substantivo virtus (virtude), mas<br \/>\nn\u00e3o possu\u00eda o adjetivo correspondente. Uma das express\u00f5es<br \/>\na que se recorria para suprir essa falta era o<br \/>\nadjectivo justus, e isso contribu\u00eda para que um dos sentidos<br \/>\nda palavra justitia (justi\u00e7a) viesse a ser o de virtude.<br \/>\nPor outro lado, tanto justus como justitia ora se<br \/>\naplicavam a determinada virtude, ora \u00e0 posse normal<br \/>\nde todas, ora \u00e0 sua posse no supremo grau de perfei\u00e7\u00e3o.<br \/>\nA par dessas acep\u00e7\u00f5es, justi\u00e7a designava tamb\u00e9m o que<br \/>\nhoje por ela entendemos, isto \u00e9: a virtude que obriga a<br \/>\ndar a cada um o que lhe pertence ou \u00e9 devido (Pinheiro,<br \/>\n1986, p. 52).<br \/>\nSegundo essa defi ni\u00e7\u00e3o, virtude pode ser entendida<br \/>\natrav\u00e9s da concep\u00e7\u00e3o de uma determinada virtude,<br \/>\nou como a posse de todas as virtudes em certo<br \/>\ngrau ou o dom\u00ednio m\u00e1ximo de certa virtude. A rela\u00e7\u00e3o,<br \/>\nportanto, entre virtude e justi\u00e7a se expressa de<br \/>\nforma \u00edntima. O fato de justi\u00e7a e justo serem associados<br \/>\nao fundamento da virtude pode fazer com que<br \/>\nsejam confundidos o virtuoso com o justo. Aqui \u00e9 necess\u00e1rio,<br \/>\nent\u00e3o, diferenciarmos o que \u00e9 exatamente a<br \/>\njusti\u00e7a em termos de Agostinho.<br \/>\nA virtude \u00e9 a arte de viver bem e retamente, que<br \/>\n\u00e9 a felicidade. Logo a virtude \u00e9 a arte de se chegar \u00e0<br \/>\nfelicidade. Por\u00e9m existem v\u00e1rias virtudes como caminhos<br \/>\npara esse objetivo. Virtude pode ser entendida<br \/>\ntanto como a vida virtuosa como uma determinada<br \/>\nvirtude ou como o dom\u00ednio supremo de perfei\u00e7\u00e3o.<br \/>\nAssim, \u00e9 necess\u00e1rio entendermos como Agostinho<br \/>\ncompreende essas virtudes, al\u00e9m da justi\u00e7a, que<br \/>\nexpressa seu fundamento mais \u00edntimo. Para tal, no<br \/>\npr\u00f3prio O livre-arb\u00edtrio, existe uma defi ni\u00e7\u00e3o de tais<br \/>\nvirtudes, que s\u00e3o retomadas em toda a obra de Agostinho,<br \/>\nat\u00e9 n\u2019A cidade de Deus.<br \/>\n[&#8230;] prud\u00eancia \u00e9 o conhecimento do que se deve buscar,<br \/>\ne do que se deve evitar.<br \/>\n[&#8230;] fortaleza \u00e9 aquela afici\u00eancia27 pela qual desprezamos<br \/>\ntodas as incomodidades e perdas de bens, que n\u00e3o<br \/>\nest\u00e3o em nosso poder.<br \/>\n[&#8230;] a temperan\u00e7a \u00e9 a afici\u00eancia que reprime e afasta a<br \/>\nvontade das coisas que se desejam aviltantemente.<br \/>\nNo tocante \u00e0 justi\u00e7a, que diremos ser ela sen\u00e3o a virtude<br \/>\npela qual se d\u00e1 a cada um o que \u00e9 seu?<br \/>\n(Agostinho, 1986, pp. 59-60)<br \/>\nS\u00e3o essas as quatro virtudes que Agostinho defi &#8211;<br \/>\nne como fundamentos da felicidade. Todos os imp\u00e9rios<br \/>\npag\u00e3os de alguma forma conseguiram seu poder,<br \/>\nhonra e gl\u00f3ria atrav\u00e9s dessas quatro virtudes. S\u00e3o<br \/>\nchamadas de cardeais, porque indicam a dire\u00e7\u00e3o da<br \/>\nvida reta e boa, a felicidade. Ao aproximar o termo<br \/>\nvirtude de justi\u00e7a, tamb\u00e9m \u00e9 necess\u00e1rio apontar as<br \/>\noutras tr\u00eas virtudes, para que fi que claro que o virtuoso<br \/>\nn\u00e3o \u00e9 apenas o justo, mas aquele que busca as tr\u00eas<br \/>\noutras virtudes.<br \/>\nDessa forma, ao designar Jesus Cristo como For\u00e7a<br \/>\ne Sabedoria de Deus, Agostinho tamb\u00e9m apresenta<br \/>\nas virtudes humanas que o pr\u00f3prio Cristo possu\u00eda e<br \/>\nconcedia. For\u00e7a \u00e9 a fortaleza, como a supera\u00e7\u00e3o das<br \/>\nperdas e danos que sofremos \u2014 f\u00edsicos, ps\u00edquicos ou<br \/>\nsociais \u2014, e justi\u00e7a \u00e9 a capacidade humana e social<br \/>\nde distribui\u00e7\u00e3o de bens f\u00edsicos, ps\u00edquicos e sociais.<br \/>\nEnquanto por sabedoria presume-se a temperan\u00e7a<br \/>\n\u2014 como autocontrole e discernimento tamb\u00e9m f\u00edsico,<br \/>\nps\u00edquico e social \u2014, a prud\u00eancia \u2014 como conhecimento<br \/>\ndaquilo que move o ser humano, seja para<br \/>\no bem, seja para o mal, e a capacidade de distinguir<br \/>\na ambos.<br \/>\nO pensamento de Agostinho sobre as virtudes expressa-<br \/>\nse, ent\u00e3o, como um fundamento de liga\u00e7\u00e3o<br \/>\ncom Deus. A virtude \u00e9 o caminho da felicidade, e<br \/>\nessa felicidade \u00e9 a uni\u00e3o com Deus, \u00e9 sua frui\u00e7\u00e3o,28<br \/>\nentendido como a alegria, o gozo de estar junto com<br \/>\nDeus. \u00c9 esse o caminho que o crist\u00e3o, ao seguir Jesus<br \/>\nCristo, deve abra\u00e7ar. As virtudes s\u00e3o dons de Deus<br \/>\nassim como a pr\u00f3pria uni\u00e3o com Deus. O caminho<br \/>\nvirtuoso fundamental \u00e9 o seguimento de Jesus Cristo<br \/>\nem seus ensinamentos e pr\u00e1ticas. \u00c9 a vida de Jesus<br \/>\nCristo que demonstra a verdadeira felicidade, que \u00e9<br \/>\na alegria da ressurrei\u00e7\u00e3o, a gl\u00f3ria, como verdade do<br \/>\namor de Deus e da possibilidade humana de estar<br \/>\nunido a esse Deus.<br \/>\nBeowulf e as virtudes<br \/>\nDepois de defi nirmos os conceitos liter\u00e1rios de<br \/>\nTolkien, e as defi ni\u00e7\u00f5es de virtude de Agostinho, retomamos<br \/>\nagora como Tolkien avalia o poema Beowulf.<br \/>\nEm seu ensaio Beowulf: The Monsters and the<br \/>\nCritics (1936), Tolkien busca compreender esse texto<br \/>\nque narra as aventuras do pr\u00edncipe dos geats, povo<br \/>\nda Su\u00e9cia atual, no s\u00e9culo IV d.C., que parte para<br \/>\nHeorot, o sal\u00e3o do hidromel do rei Hrothgar, do povo<br \/>\ndos dinamarqueses. Em busca de gl\u00f3ria, o pr\u00edncipe<br \/>\nCiberteologia &#8211; Revista de Teologia &amp; Cultura &#8211; Ano II, n. 14 17<br \/>\nBeowulf, dos geats, descobre que Heorot \u00e9 atacada<br \/>\nconstantemente por Grendel, monstro antropom\u00f3rfi &#8211;<br \/>\nco que devora os maiores guerreiros do rei Hrothgar.<br \/>\nDepois de lutar e matar o monstro, Beowulf tamb\u00e9m<br \/>\nderrota a m\u00e3o de Grendel, retornando como her\u00f3i<br \/>\nhonrado e glorioso para sua terra.<br \/>\nDepois de muitos anos, agora como rei dos geats,<br \/>\nBeowulf enfrenta sua derradeira batalha, ao enfrentar<br \/>\no drag\u00e3o que ataca seu povo. Gra\u00e7as \u00e0 ajuda de seu<br \/>\nparente Wiglaf, e com o sacrif\u00edcio do pr\u00f3prio Beowulf,<br \/>\no drag\u00e3o \u00e9 morto. Por\u00e9m o funeral de Beowulf<br \/>\nprenuncia a era de tristeza dos geats, pois o maior de<br \/>\nseus guerreiros e seu pr\u00f3prio rei est\u00e1 morto.<br \/>\nAo estudar o poema, Tolkien elenca sete pontoschave<br \/>\nem sua compreens\u00e3o. S\u00e3o esses pontos que<br \/>\nnos permitem fazer uma aproxima\u00e7\u00e3o entre o pensamento<br \/>\nliter\u00e1rio de Tolkien expresso em On Fairy-Stories<br \/>\ne a fi losofi a de Agostinho sobre as virtudes.<br \/>\nEsse poema foi analisado por Tolkien em seu ensaio<br \/>\ncomo um poema. Eis o primeiro ponto importante.<br \/>\nO valor liter\u00e1rio em termos de beleza e for\u00e7a<br \/>\ncriativa. Tolkien ressalta esse ponto justamente porque<br \/>\nquer delimitar sua cr\u00edtica entre entender Beowulf<br \/>\ncomo um documento hist\u00f3rico ou como um tratado<br \/>\nteol\u00f3gico. Quer justamente fazer o que considera o<br \/>\nmeio-termo entre ambos. N\u00e3o \u00e9 algo te\u00f3rico fi los\u00f3fi<br \/>\nco ou conceitual, \u00e9 um poema escrito para retratar<br \/>\nbeleza, encantamento e arte, ao mesmo tempo que<br \/>\nn\u00e3o \u00e9 um documento hist\u00f3rico, porque n\u00e3o trata exatamente<br \/>\nda hist\u00f3ria documental ou administrativa de<br \/>\nqualquer institui\u00e7\u00e3o ou corpo burocr\u00e1tico. S\u00e3o mitos<br \/>\ne lendas de um povo.<br \/>\nAqui, aproximamo-nos de seu conceito de subcria\u00e7\u00e3o.<br \/>\nA import\u00e2ncia de um poema \u00e9 mais do que<br \/>\nseu valor est\u00e9tico. N\u00e3o \u00e9 porque \u00e9 belo, mas porque<br \/>\n\u00e9 bom e verdadeiro. A preocupa\u00e7\u00e3o de Tolkien em<br \/>\nafi rmar que seu estudo \u00e9 sobre o poema, e n\u00e3o sobre<br \/>\nseus conceitos ou sobre seu contexto hist\u00f3rico,<br \/>\n\u00e9 para ressaltar que o pr\u00f3prio poema, enquanto arte,<br \/>\nexpressa conceitos e um contexto, por\u00e9m isso n\u00e3o<br \/>\n\u00e9 o mais importante. O importante \u00e9 exatamente o<br \/>\nimpacto que o poema tem sobre o leitor. Sobre as<br \/>\nrefl ex\u00f5es que podem ou n\u00e3o possuir a aplicabilidade<br \/>\nem outros tempos e outros pensamentos.<br \/>\n\u00c9 exatamente esse segundo ponto que Tolkien<br \/>\naprofunda em seu ensaio. Faz diferen\u00e7a entre alegoria<br \/>\ne mito. Para Tolkien, a alegoria possui um signifi<br \/>\ncado direto do signifi cante. O que \u00e9 representado<br \/>\npode ser explicado sem maiores difi culdades atrav\u00e9s<br \/>\ndaquilo que representa. N\u00e3o \u00e9 assim que Tolkien estuda<br \/>\nem Beowulf:<br \/>\nThe myth has other forms than the (now discredited)<br \/>\nmythical allegory of nature: the sun, the seasons, the<br \/>\nsea, and such things&#8230; The significance of a myth is not<br \/>\neasily to be pinned on paper by analytical reasoning.<br \/>\nIt is at its best when it is presented by a poet who fells<br \/>\nrather than makes explicit what his theme portends;<br \/>\nwho presents it incarnate in the world of history and<br \/>\ngeography, as our poet has done. Its defender is thus at<br \/>\na disadvantage: unless he is careful, and speaks in parables,<br \/>\nhe will kill what he is studying by allegory, and,<br \/>\nwhat is more, probably with one that will not work. For<br \/>\nmyth is alive at once and in all its parts, and dies before<br \/>\nit can be dissected (Tolkien, 1997, p.15)29<br \/>\nA cr\u00edtica de Tolkien em rela\u00e7\u00e3o \u00e0 racionalidade<br \/>\nanal\u00edtica se funda no resgate do pensamento m\u00edtico.<br \/>\nA compreens\u00e3o dos mitos como alegorias de fen\u00f4menos<br \/>\nda natureza que os antigos n\u00e3o entendiam n\u00e3o<br \/>\n\u00e9 aceita por Tolkien, para quem o mito est\u00e1 vivo e \u00e9<br \/>\nmais f\u00e1cil um poeta compreend\u00ea-lo do que um cientista<br \/>\nmoderno.<br \/>\nEssa concep\u00e7\u00e3o mais uma vez corrobora seu conceito<br \/>\nde subcria\u00e7\u00e3o, e mesmo o de eucat\u00e1strofe. Ao<br \/>\nestar vivo, o mito produz sentimentos e realidade que<br \/>\na raz\u00e3o anal\u00edtica n\u00e3o consegue explicar. Somente<br \/>\na poesia pode aproximar-se dessa explica\u00e7\u00e3o, dessa<br \/>\nverdade que o poeta pode exprimir com base no<br \/>\nmundo da hist\u00f3ria e da geografi a, ou seja: no tempo e<br \/>\nno espa\u00e7o que pode ser compreendido pelos seus pares.<br \/>\nIsso n\u00e3o signifi ca que o pr\u00f3prio mito esteja preso<br \/>\nneste tempo e espa\u00e7o, por\u00e9m \u00e9 a maneira do poeta<br \/>\nexpressar essa realidade m\u00edtica que n\u00e3o pode ser explicada<br \/>\nnem mesmo alegoricamente.<br \/>\nDe mesma forma, ao refl etir sobre a fi losofi a de<br \/>\nAgostinho, as mesmas virtudes que s\u00e3o encontradas<br \/>\nnos diversos povos independem do tempo e do espa\u00e7o.<br \/>\nJesus Cristo \u00e9 atemporal, e embora sua revela\u00e7\u00e3o<br \/>\naconte\u00e7a em determinado tempo da hist\u00f3ria isso n\u00e3o<br \/>\nsignifi ca que os demais tempos n\u00e3o tivessem virtudes<br \/>\nque refl etissem seu caminho. A rela\u00e7\u00e3o que Tolkien<br \/>\nfaz com o mundo prim\u00e1rio, e da\u00ed a compreens\u00e3o das<br \/>\nvirtudes, pode ser alargada para as est\u00f3rias de fadas,<br \/>\ne da\u00ed o entendimento do mito como eco do Evangelho,<br \/>\nindependente do tempo e do espa\u00e7o.<br \/>\nNo terceiro ponto de an\u00e1lise de Tolkien em rela\u00e7\u00e3o<br \/>\na Beowulf, a import\u00e2ncia simb\u00f3lica \u00e9 expressa.<br \/>\nO drag\u00e3o \u00e9 o mal. Esse s\u00edmbolo30 est\u00e1 presente em<br \/>\nv\u00e1rias culturas, seja a serpente mal\u00e9vola do relato do<br \/>\nG\u00eanesis (3,1-14), seja a serpente de Midgard,31 da mitologia<br \/>\nescandinava, que circula o mundo e vai despertar<br \/>\nno Ragnarok, o fi m dos tempos. Seja o drag\u00e3o<br \/>\nenfrentado e morto pelo rei Beowulf, que morre por<br \/>\ncausa dos ferimentos, seja o drag\u00e3o cor de fogo do<br \/>\nApocalipse crist\u00e3o (Ap 12,1-18).<br \/>\nCiberteologia &#8211; Revista de Teologia &amp; Cultura &#8211; Ano II, n. 14 18<br \/>\nPara Tolkien, o drag\u00e3o \u00e9 o mal absoluto, a morte<br \/>\ncomo derradeiro fi m. Na mitologia escandinava, o<br \/>\nRagnarok termina com todos os deuses derrotados,<br \/>\nmas com os gigantes mortos, e Surtur, o grande dem\u00f4nio<br \/>\ndo fogo, incendeia tudo e \u00e9 o fi m dos tempos.<br \/>\nPara Beowulf, o que importa para conseguir gl\u00f3ria,<br \/>\nhonra e comando \u00e9 a capacidade de resistir aos apelos<br \/>\nda covardia e da fraqueza de decis\u00e3o. O mundo<br \/>\nda p\u00f3s-morte tamb\u00e9m n\u00e3o oferecia descanso eterno,<br \/>\npois os grande guerreiros tamb\u00e9m viveriam apenas<br \/>\npara lutar no fi m dos tempos, onde todos seriam derrotados,<br \/>\ninclusive os deuses.<br \/>\nAqui, estabelecemos o quarto ponto do estudo de<br \/>\nTolkien, e o fundamental em rela\u00e7\u00e3o \u00e0s virtudes de<br \/>\nAgostinho: o dogma da coragem na mitologia escandinava.<br \/>\nA principal virtude trazida pela narrativa de<br \/>\nBeowulf ecoa o fundamento mitol\u00f3gico do Ragnarok.<br \/>\nO que importa \u00e9 n\u00e3o desistir. N\u00e3o h\u00e1 esperan\u00e7a de<br \/>\nvit\u00f3ria, nem mesmo com a ajuda dos deuses, porque<br \/>\nos pr\u00f3prios deuses est\u00e3o fadados a morrer.<br \/>\nEmbora seja um texto que traga Grendel e sua m\u00e3e<br \/>\ncomo monstros antropomorfos e devoradores de seres<br \/>\nhumanos, ambos s\u00e3o descendentes do Caim da Escritura<br \/>\nhebraica. Assim, a presen\u00e7a do cristianismo no<br \/>\ntexto \u00e9 clara, tamb\u00e9m nos valores que os reis trazem<br \/>\nem si. For\u00e7a e sabedoria s\u00e3o as marcas fundamentais<br \/>\nnos ideais propostos nos reis, assim como Agostinho<br \/>\nexpressa a pessoa de Jesus Cristo.<br \/>\nTanto Hygelac, reis dos geats, tio de Beowulf e<br \/>\nseu antecessor no trono, quanto Hrothgar e o pr\u00f3prio<br \/>\nBeowulf como rei giram nessa tens\u00e3o entre for\u00e7a e<br \/>\nsabedoria. Enquanto Hrothgar, rei dos dinamarqueses,<br \/>\n\u00e9 a sabedoria, monote\u00edsta, acolhedor e doador<br \/>\nde an\u00e9is,32 por\u00e9m j\u00e1 idoso e sem for\u00e7as para enfrentar<br \/>\nGrendel, que amea\u00e7a seu povo; enquanto Hygelac<br \/>\n\u00e9 o valoroso rei dos bravos geats, povo do pr\u00f3prio<br \/>\nBeowulf, rei que morre em batalha em invas\u00e3o de outros<br \/>\npovos, Beowulf \u00e9 apresentado como aquele que<br \/>\nconsegue ter a sabedoria e a for\u00e7a durante seu tempo<br \/>\nde juventude e de her\u00f3i, ao matar Grendel, e governa<br \/>\ncom sabedoria seu povo quando se torna rei, e n\u00e3o<br \/>\nfoge da batalha contra o inimigo \u00faltimo, s\u00edmbolo do<br \/>\npr\u00f3prio mal, o drag\u00e3o.<br \/>\nEmbora todos esses s\u00edmbolos possuam concomit\u00e2ncia<br \/>\nentre as Escrituras e a fi losofi a de Agostinho em<br \/>\nrela\u00e7\u00e3o \u00e0 for\u00e7a e \u00e0 sabedoria, e \u00e0 mitologia escandinava,<br \/>\nTolkien apresenta a formula\u00e7\u00e3o pr\u00f3pria do texto<br \/>\nde Beowulf como a vis\u00e3o da coragem caracetr\u00edstica<br \/>\nda virtude escandinava.<br \/>\nSo regarded Beowulf is, of course, an historical document<br \/>\nof the first order for the study of the mood and<br \/>\nthought of the period and one perhaps too litlle used for<br \/>\nthe purpose by professed historians. But it is the mood<br \/>\nof the author, the essential cast of his imaginative apprehension<br \/>\nof the world, that is my concern, not history<br \/>\nfor its own sake; I am interested in that time of fusion<br \/>\nonly as it may help us to understand the poem. And<br \/>\nin the poem I think we may observe not confusion, a<br \/>\nhalf-hearted or a muddled business, but a fusion that<br \/>\nhas ocurred at a given point of contact between old and<br \/>\nnew, a product of thought and deep emotion.<br \/>\n\u201cOne of the most potent elements in that fusion is the<br \/>\nNorthern courage: the theory of courage, which is the<br \/>\ngreat contribution of early Northern literature (Tolkien,<br \/>\n1997, p. 20).33<br \/>\nAqui, Tolkien demonstra sua preocupa\u00e7\u00e3o fundamental:<br \/>\na apreens\u00e3o imaginativa do poeta que escreveu<br \/>\nBeowulf. De fato, o conceito de est\u00f3ria de fada<br \/>\ncomo uma subcria\u00e7\u00e3o se apresenta tamb\u00e9m em Beowulf.<br \/>\nO mundo prim\u00e1rio \u00e9 descrito, por\u00e9m com elementos<br \/>\nque est\u00e3o presentes no caldeir\u00e3o de est\u00f3rias.<br \/>\nDrag\u00e3o, Caim, Grendel e sua m\u00e3e est\u00e3o em combate<br \/>\ncom fi guras de reis e her\u00f3is que se balizam nas virtudes<br \/>\nde Agostinho. A teoria da coragem, ou o dogma,<br \/>\nque Tolkien apresenta em seu ensaio, nos mostra<br \/>\no qu\u00e3o importante esse fundamento se apresenta na<br \/>\nnarrativa de Bewoulf. Da mesma maneira que os romanos<br \/>\nreceberam seu Imp\u00e9rio como dom de Deus<br \/>\natrav\u00e9s das virtudes, os escandinavos tamb\u00e9m mantiveram<br \/>\nsua cultura e sua tradi\u00e7\u00e3o atrav\u00e9s do dom da<br \/>\ncoragem.<br \/>\n\u00c9 poss\u00edvel tra\u00e7ar paralelos com as virtudes de<br \/>\nfortaleza, justi\u00e7a, temperan\u00e7a e prud\u00eancia atrav\u00e9s<br \/>\ndo dogma da coragem. E este \u00e9 o quinto ponto que<br \/>\nTolkien apresenta em Beowulf. Tal ponto de fus\u00e3o entre<br \/>\na cristandade e o pensamento pag\u00e3o \u00e9 o que se<br \/>\napresenta no poema. N\u00e3o algo misturado de forma<br \/>\ndesordenada, mas uma coer\u00eancia e uma harmonia<br \/>\nque produz um poema com valor em si mesmo.<br \/>\nNeste ponto, ao entender o pensamento pag\u00e3o de<br \/>\nBeowulf e ao mesmo tempo expressar o monote\u00edsmo<br \/>\nde Hrothgar e a descend\u00eancia de Grendel at\u00e9 Caim,<br \/>\nas escrituras se fazem presente. Na mitologia escandinava,<br \/>\nn\u00e3o h\u00e1 salva\u00e7\u00e3o, nem mesmo para os mais<br \/>\nfortes. O Ragnarok ir\u00e1 consumir tudo, inclusive os<br \/>\ndeuses. A batalha, ent\u00e3o, se torna espiritual, pois n\u00e3o<br \/>\n\u00e9 mais poss\u00edvel recuar pela pr\u00f3pria honra.<br \/>\nA resist\u00eancia se torna perfeita, porque \u00e9 sem esperan\u00e7a<br \/>\nnenhuma. A no\u00e7\u00e3o de que \u00e9 poss\u00edvel agarrar<br \/>\na vit\u00f3ria pela teimosia em continuar lutando mesmo<br \/>\nsem esperan\u00e7a. Ao concretizar esse dogma, o paganismo<br \/>\nde Beowulf se aproxima da Paix\u00e3o de Jesus<br \/>\nCristo, descrita no evangelho de Jo\u00e3o (Jo 18,1-40), que<br \/>\na apresenta de forma diferente da dos demais evangeCiberteologia<br \/>\n&#8211; Revista de Teologia &amp; Cultura &#8211; Ano II, n. 14 19<br \/>\nlhos sin\u00f3ticos, onde Jesus sua sangue (Lc 22,35-53),<br \/>\npede para o pai afastar o c\u00e1lice (Mc 14,32-42), ou<br \/>\nmesmo duvida da presen\u00e7a do pai em sua agonia na<br \/>\ncruz (Mt 27,45-51).<br \/>\nNo evangelho de Jo\u00e3o, a quem Tolkien, por tamb\u00e9m<br \/>\nchamar-se Jo\u00e3o (John), considerava seu patrono,34<br \/>\nJesus Cristo \u00e9 apresentado sem medo de seu mart\u00edrio<br \/>\ne de sua cruz. Um Jesus Cristo que busca cumprir<br \/>\nexatamente o plano de Deus sem nenhuma d\u00favida.<br \/>\n\u00c9 a vontade superando qualquer sentimento de fraqueza.<br \/>\nO sexto ponto do estudo de Beowulf \u00e9 a apresenta\u00e7\u00e3o<br \/>\nque faz da mitologia do Norte em compara\u00e7\u00e3o<br \/>\ncom a mitologia do Sul. Para Tolkien, o continente<br \/>\neuropeu dava muito valor aos deuses do Sul, entendido<br \/>\ncomo o Mediterr\u00e2neo, especifi camente o mundo<br \/>\ngreco-romano, e deveria reconhecer melhor as contribui\u00e7\u00f5es<br \/>\nque foram feitas em sua cultura e forma\u00e7\u00e3o,<br \/>\noriundas do mundo do Norte, especifi camente<br \/>\nda Escandin\u00e1via e do anglo-sax\u00e3o.<br \/>\nNo ensaio, Tolkien realiza uma compara\u00e7\u00e3o entre<br \/>\nos deuses e os monstros na Eneida, de Virg\u00edlio,35 na<br \/>\nOdiss\u00e9ia, de Homero,36 e no Beowulf. A concep\u00e7\u00e3o<br \/>\ndo ciclope como um fi lho dos deuses que os seres<br \/>\nhumanos devem enganar porque invadiram seu lar e,<br \/>\nassim, dentro de um jogo dos pr\u00f3prios deuses, conseguir<br \/>\nvoltar s\u00e3os para suas casas diverge completamente<br \/>\nda vis\u00e3o de Grendel, de sua m\u00e3e e do drag\u00e3o.<br \/>\nEm Beowulf os monstros s\u00e3o o mal. Os deuses s\u00e3o<br \/>\naliados dos seres humanos em sua tentativa desesperada<br \/>\nde lutar uma luta in\u00fatil, mas que \u00e9 a \u00fanica op\u00e7\u00e3o<br \/>\npara os seres humanos que merecem ser chamados<br \/>\nassim, com base na gl\u00f3ria, honra e poder de comando.<br \/>\nComo os objetivos romanos em sua cidade. As<br \/>\nrela\u00e7\u00f5es entre os dons das virtudes s\u00e3o fundamentais<br \/>\nna an\u00e1lise dos monstros e dos deuses. Mesmo condenando<br \/>\nos deuses romanos como dem\u00f4nios e ilus\u00f5es,<br \/>\nAgostinho via nas virtudes o meio pelo qual Jesus<br \/>\nCristo poderia manifestar-se em mundos que ainda<br \/>\nn\u00e3o o conheciam. Isso refl ete muito mais as descri\u00e7\u00f5es<br \/>\ndos monstros e dos gigantes (Gn 6,1-8) como<br \/>\nadvers\u00e1rios de Deus no G\u00eanesis. A aproxima\u00e7\u00e3o \u00e9<br \/>\nmais direta entre Beowulf e as Escrituras crist\u00e3s. Da<br \/>\nmesma forma, Tolkien interpreta o poema Beowulf<br \/>\ncom essa \u00eanfase.<br \/>\n\u201cIn Beowulf we have, then, an historical poem about<br \/>\nthe pagan past, or an attempt at one \u2014 literal historical<br \/>\nfidelity founded on modern research was, of course, not<br \/>\nattempted. It is a poem by a learned man writing of<br \/>\nold times, who looking back on the heroism and sorrow<br \/>\nfeels in them something permanent and something<br \/>\nsymbolical. So far from being a confused semi-pagan<br \/>\n\u2014 historically unlikely for a man of this sort in the period<br \/>\n\u2014 he brought probably first to his task a knowledge<br \/>\nof Christian poetry, especially that of the Caedmon<br \/>\nschool, and specially Genesis\u2026 Secondly, to his task<br \/>\nthe poet brought a considerable learning in native lays<br \/>\nand traditions\u2026 (Tolkien, 1997, pp. 26-7).37<br \/>\nEssa concep\u00e7\u00e3o do sentimento de pesar e de<br \/>\nhero\u00edsmo de um povo pag\u00e3o, provavelmente da pr\u00f3pria<br \/>\ntradi\u00e7\u00e3o e cultura do ser humano instru\u00eddo, \u00e9 o<br \/>\nprincipal elo de liga\u00e7\u00e3o entre a escritura de Beowulf<br \/>\ne Agostinho. Da mesma forma que o bispo de Hipona,<br \/>\nprofessor de cultura romana, estudioso dos mitos<br \/>\ne lendas de Roma, busca no passado de sua civiliza\u00e7\u00e3o,<br \/>\ne mesmo nos cultos dos deuses, aquilo pelo<br \/>\nqual Deus concedeu certa virtude, o texto anglo-sax\u00e3o<br \/>\nfaz o mesmo.<br \/>\nSentir algo de permanente e simb\u00f3lico, a verdade,<br \/>\nexpressa em versos e linhas que ecoam a teoria da<br \/>\ncoragem, o dogma da luta desesperan\u00e7ada, da for\u00e7a<br \/>\ne sabedoria de Deus, Jesus Cristo, que \u00e9 insensatez<br \/>\npara os gregos e esc\u00e2ndalo para os judeus (1Cor<br \/>\n1,23). Eis os reis que devem ser seguidos, aqueles aos<br \/>\nquais Deus concedeu as virtudes que indicam sua<br \/>\npredile\u00e7\u00e3o e seu caminho em dire\u00e7\u00e3o \u00e0 verdade da<br \/>\nlei inscrita nos cora\u00e7\u00f5es.<br \/>\n\u00c9 essa mesma escrita que refl ete as est\u00f3rias de fadas.<br \/>\nO Evangelho justifi ca Beowulf, Eneida, Odiss\u00e9ia,<br \/>\nG\u00eanesis. E tamb\u00e9m os elfos e hobbits de O senhor<br \/>\ndos an\u00e9is, do Silmarillion e do Hobbit. O fato de o<br \/>\nser humano poder criar est\u00f3rias de fadas signifi ca o<br \/>\nfato de querer investigar as causas primeiras de sua<br \/>\nconduta e de suas virtudes. Por que ser justo, prudente,<br \/>\ntemperante e forte \u00e9 o que busca responder<br \/>\nnas est\u00f3rias de fadas. E \u00e9 justamente o Evangelho que<br \/>\npermite que tais anseios sejam portadores dessa verdade<br \/>\nrevelada.<br \/>\nFinalmente, o s\u00e9timo ponto que Tolkien resgata<br \/>\nem Beowulf \u00e9 a constru\u00e7\u00e3o do pensamento no texto<br \/>\ne n\u00e3o de sua hist\u00f3ria. Tolkien quer encontrar aquilo<br \/>\nque permanece enquanto verdade, especifi camente<br \/>\ntraduzida nas virtudes, apresentadas atrav\u00e9s da narrativa<br \/>\nsimb\u00f3lica de monstros e her\u00f3is. O confl ito contra<br \/>\no mal, simbolizado pelo drag\u00e3o, \u00e9 justamente o mesmo<br \/>\nconfl ito do Apocalipse crist\u00e3o.<br \/>\n\u00c9 o car\u00e1ter inumano dos monstros que extrapola<br \/>\na refl ex\u00e3o de cunho hist\u00f3rico e de registro. S\u00e3o<br \/>\njustamente as batalhas contra seres sobre-humanos e<br \/>\nsobrenaturais que remetem a investiga\u00e7\u00e3o e o pensamento<br \/>\nsobre a realidade natural. A discuss\u00e3o c\u00f3smica<br \/>\nsobre o destino da vida humana, seus esfor\u00e7os e suas<br \/>\nvirtudes. As est\u00f3rias de fadas t\u00eam como centro a refl ex\u00e3o<br \/>\nsobre a natureza. \u00c9 o ser humano diante daquilo<br \/>\nCiberteologia &#8211; Revista de Teologia &amp; Cultura &#8211; Ano II, n. 14 20<br \/>\nque pode e n\u00e3o pode. Seus limites diante do mist\u00e9rio<br \/>\ne suas conquistas e descobertas diante da cria\u00e7\u00e3o.<br \/>\nIt just because the main foes in Beowulf are inhuman<br \/>\nthat the story is larger and more significant than this<br \/>\nimaginary poem of a great king\u00b4s fall. It glimpses the<br \/>\ncosmic and moves with the thought of all men concerning<br \/>\nthe fate of human life and efforts (Tolkien, 1997,<br \/>\np.33).38<br \/>\nPara muito al\u00e9m da discuss\u00e3o pol\u00edtica, seja gloriosa,<br \/>\nseja honrada, as est\u00f3rias de fadas tratam do destino<br \/>\ne do sentido dos seres humanos. As virtudes, o<br \/>\nexemplo do rei, n\u00e3o s\u00e3o fundamentais em si mesmas,<br \/>\nsomente em dire\u00e7\u00e3o ao mist\u00e9rio do sobre-humano.<br \/>\nAssim, a aproxima\u00e7\u00e3o entre a perman\u00eancia das virtudes<br \/>\npresentes nas est\u00f3rias de fadas, mitol\u00f3gicas e<br \/>\ninventadas, \u00e9 a perman\u00eancia da eternidade de Deus.<br \/>\nAs virtudes s\u00e3o dons de Deus e tamb\u00e9m eternas<br \/>\nenquanto tais, porque est\u00e3o presentes em Jesus Cristo<br \/>\nenquanto verdadeiro homem e verdadeiro Deus. \u00c9<br \/>\nisso que justifi ca sua exist\u00eancia em outros povos antes<br \/>\nde Jesus Cristo e de diferentes culturas e tradi\u00e7\u00f5es.<br \/>\nAgostinho, no trecho fi nal de O livre-arb\u00edtrio, novamente<br \/>\napresenta essa conclus\u00e3o, quando entoa quase<br \/>\num hino \u00e0 retitude, o dom\u00ednio pleno das virtudes.<br \/>\n\u00c9, por\u00e9m, t\u00e3o grande a beleza da retitude, t\u00e3o grande<br \/>\no enlevo da luz eterna, isto \u00e9: da Verdade e Sapi\u00eancia<br \/>\nincomut\u00e1vel, que mesmo se n\u00e3o fosse permitido permanecer<br \/>\nnela mais que pelo espa\u00e7o de um dia, s\u00f3 por<br \/>\nisso se desprezariam, com raz\u00e3o e merecidamente, inumer\u00e1veis<br \/>\nanos desta vida, embora cheios de del\u00edcias, e<br \/>\nde superabund\u00e2ncia de bens tempor\u00e2neos. Com efeito,<br \/>\nn\u00e3o foi dito pelo salmista sem fundamento, ou com pequeno<br \/>\nafeto: pois um s\u00f3 dia nos vossos \u00e1trios vale mais<br \/>\nque milhares. Se bem que isso se pode entender noutro<br \/>\nsentido, referindo-se os milhares de dias \u00e0 mutabilidade<br \/>\ndo tempo, e designando-se pelo apelativo dia a imutabilidade<br \/>\nda eternidade (Agostinho, 1986, p. 266).<br \/>\nBibliografia<br \/>\nAGOSTINHO, Santo. A cidade de Deus. Petr\u00f3polis,<br \/>\nVozes, 1991.<br \/>\n______. O livre-arb\u00edtrio. Braga, Editorial Franciscana,<br \/>\n1986.<br \/>\nB\u00cdBLIA SAGRADA. S\u00e3o Paulo, Paulus, 1990.<br \/>\nBULFINCH, Thomas. O livro de ouro da mitologia. A<br \/>\nIdade da F\u00e1bula. Rio de Janeiro, Ediouro, 1999.<br \/>\nCARPENTER, Humphrey (Org.) As cartas de J. R. R.<br \/>\nTolkien. Curitiba, Arte e Letra, 2006.<br \/>\n______. J. R .R. Tolkien. Uma biografia. S\u00e3o Paulo,<br \/>\nMartins Fontes, 1992.<br \/>\nCROATTO, Severino. As linguagens da experi\u00eancia<br \/>\nreligiosa. S\u00e3o Paulo, Paulinas, 2001.<br \/>\nCURRY, Patrick. Defending Middle-earth. Tolkien: Myth<br \/>\nand Modernity. London, HarperCollins, 1997.<br \/>\nFIROLAMO, Giovanni &amp; PRANDI, Carlo. As ci\u00eancias<br \/>\ndas religi\u00f5es. S\u00e3o Paulo, Paulus, 1999<br \/>\nGALV\u00c3O, Ary Gonzales. Beowulf. S\u00e3o Paulo, Hucitec,<br \/>\n1992.<br \/>\nLOPES, Reinaldo. \u00c1rvore de est\u00f3rias. Disserta\u00e7\u00e3o de<br \/>\nmestrado. S\u00e3o Paulo, USP, 2006.<br \/>\nLOYN, H. R.. Dicion\u00e1rio da Idade M\u00e9dia. Rio de Janeiro,<br \/>\nJorge Zahar Editor, 1990.<br \/>\nTOLKIEN, J.R.R. O hobbit. S\u00e3o Paulo, Martins Fontes,<br \/>\n2003.<br \/>\n______. O senhor dos an\u00e9is. S\u00e3o Paulo, Martins Fontes,<br \/>\n2001.<br \/>\n______. O silmarillion. S\u00e3o Paulo, Martins Fontes,<br \/>\n2002.<br \/>\n______. The Monsters and The Critics and Other Essays.<br \/>\nLondon, HarperCollins, 1997.<br \/>\nNotas<br \/>\n* Mestrando em Ci\u00eancias da Religi\u00e3o na PUC\/SP. Contato:<br \/>\ndklautau@yahoo.com.br.<br \/>\n1 \u201cMas no momento em que a esperan\u00e7a morria em<br \/>\nSam, ou parecia morrer, ela se transformou em<br \/>\numa nova for\u00e7a. O rosto simples do hobbit ficou<br \/>\naustero, quase cruel, no momento em que sua<br \/>\ndisposi\u00e7\u00e3o se endureceu, e ele sentiu um fr\u00eamito<br \/>\npercorrer-lhe pernas e bra\u00e7os, como se tivesse se<br \/>\ntransformado em alguma criatura de pedra e a\u00e7o,<br \/>\nque n\u00e3o poderia ser subjugada nem pelo desespero,<br \/>\nnem pelo cansa\u00e7o, nem por milhas infind\u00e1veis de<br \/>\nterra desolada\u201d (Esteves, 2000, p. 989).<br \/>\n2 Folclorista escoc\u00eas (1824-1905). Um dos primeiros<br \/>\ncompiladores de lendas e contos de fadas<br \/>\nescandinavos e da Gr\u00e3-Bretanha.<br \/>\n3 Folclorista escoc\u00eas (1844-1912). \u00c9 atribu\u00eddo a Lang<br \/>\na descoberta de uma relativa presen\u00e7a da cren\u00e7a<br \/>\nem um ser supremo em muitas popula\u00e7\u00f5es n\u00e3oletradas,<br \/>\ncriador e indicador \u00e9tico. Ver: FIROLAMO,<br \/>\nGiovanni &amp; PRANDI, Carlo. As ci\u00eancias das<br \/>\nreligi\u00f5es. S\u00e3o Paulo, Paulus, 1999.<br \/>\n4 Nasceu na \u00c1frica do Sul em 1892, no per\u00edodo do<br \/>\nimperialismo ingl\u00eas na \u00c1frica. Mudou-se para a<br \/>\nInglaterra ainda crian\u00e7a, onde estudou, trabalhou<br \/>\ncomo professor de filologia e anglo-sax\u00e3o nas<br \/>\nuniversidades de Leeds e Oxford. Casou-se com<br \/>\nEdith Bratt, teve quatro filhos, foi cat\u00f3lico convicto<br \/>\ne questionou fortemente a fundamenta\u00e7\u00e3o do<br \/>\nnazismo na mitologia escandinava. Morreu<br \/>\nem 1973, com honras do Imp\u00e9rio Brit\u00e2nico e<br \/>\nconsagrado no mundo inteiro por sua cria\u00e7\u00e3o.<br \/>\nVer: CARPENTER, Humphrey. J. R .R. Tolkien. Uma<br \/>\nbiografia. S\u00e3o Paulo, Martins Fontes, 1992.<br \/>\nCiberteologia &#8211; Revista de Teologia &amp; Cultura &#8211; Ano II, n. 14 21<br \/>\n5 Termo cunhado pelo pr\u00f3prio Tolkien, em suas<br \/>\ncartas, para descrever a totalidade de sua cria\u00e7\u00e3o<br \/>\nliter\u00e1ria relativa \u00e0 Terra-m\u00e9dia.<br \/>\n6 Mais antigo poema escrito em anglo-sax\u00e3o. Datado<br \/>\ndo s\u00e9culo VII d.C., trata da cultura escandinava e<br \/>\nda mitologia pag\u00e3 e elementos crist\u00e3os. Ver: LOYN,<br \/>\nH.R.. Dicion\u00e1rio da Idade M\u00e9dia. Rio de Janeiro,<br \/>\nJorge Zahar Editor, 1990.<br \/>\n7 Entendido como uma narrativa de cria\u00e7\u00e3o do<br \/>\nmundo ou de algum fen\u00f4meno natural, humano ou<br \/>\nsobrenatural, o mito \u00e9 uma constante em todas as<br \/>\nreligi\u00f5es. Ver: CROATTO, Severino. As linguagens<br \/>\nda experi\u00eancia religiosa. S\u00e3o Paulo, Paulinas,<br \/>\n2001.<br \/>\n8 Escritor norte-irland\u00eas (1989-1963), professor em<br \/>\nOxford e Cambridge de literatura inglesa. Sua<br \/>\nconvers\u00e3o ao cristianismo \u00e9 atribu\u00edda \u00e0s conversas<br \/>\ncom o professor Tolkien.<br \/>\n9 \u201cBenditos os que em rima fazem lenda\/ao tempo<br \/>\nn\u00e3o-gravado dando emenda.\/N\u00e3o foram eles que a<br \/>\nNoite esqueceram,\/ou deleite organizado teceram,\/<br \/>\nilhas de l\u00f3tus, um c\u00e9u financeiro, perdendo a alma<br \/>\nem beijo feiticeiro\/(e falso, ali\u00e1s, pr\u00e9-fabricado,\/<br \/>\nfalaz sedu\u00e7\u00e3o do j\u00e1 deturpado)\u201d (Lopes, 2006, p.<br \/>\n158).<br \/>\n10 Considerado primeiro grande poeta grego, suas<br \/>\nobras datam do s\u00e9culo VIII a.C. e marcam a poesia<br \/>\n\u00e9pica.<br \/>\n11 Relativa a Plat\u00e3o (428-347 a.C.), fil\u00f3sofo grego<br \/>\ncujas obras fundam o pensamento ocidental.<br \/>\n12 Existe uma leitura da obra de Tolkien como cr\u00edtica \u00e0<br \/>\nModernidade, entendida como capitalismo, Estado-<br \/>\nNa\u00e7\u00e3o e ci\u00eancia moderna, da\u00ed sua necessidade<br \/>\nde recuperar valores pr\u00e9-crist\u00e3os. Inspirados nas<br \/>\nobras de literatura medieval, como os romances<br \/>\ncorteses e as can\u00e7\u00f5es de gesta, os escritores<br \/>\nmedievais estabeleceriam uma literatura com fins<br \/>\nde exaltar virtudes e valores na forma\u00e7\u00e3o cultural<br \/>\nda cristandade. Ver: CURRY, Patrick. Defending<br \/>\nMiddle-earth. Tolkien: Myth and Modernity.<br \/>\nLondon, HarperCollins, 1997.<br \/>\n13 Humphrey Carpenter, bi\u00f3grafo de Tolkien, mostra<br \/>\nque sua vida esteve sempre ligada a um resgate de<br \/>\nvirtudes crist\u00e3s, principalmente pela vida de Tolkien<br \/>\ndurante as guerras mundiais e pelo imperialismo<br \/>\ningl\u00eas.<br \/>\n14 Jornalista e mestre em estudos ling\u00fc\u00edsticos pela<br \/>\nUSP. Participa de p\u00e1ginas na internet de divulga\u00e7\u00e3o<br \/>\ne estudo das obras de J. R. R. Tolkien. Ver:&lt; www.<br \/>\nvalinor.com.br&gt;.<br \/>\n15 Relativo a Ren\u00e9 Descartes (1596-1650), matem\u00e1tico<br \/>\ne fil\u00f3sofo franc\u00eas, considerado um dos fundadores<br \/>\ndo pensamento moderno. Sua principal tese \u00e9 a<br \/>\nfunda\u00e7\u00e3o da raz\u00e3o como elemento poss\u00edvel de<br \/>\nencontro com a verdade do mundo, da\u00ed o aforismo<br \/>\n\u201cpenso logo existo\u201d, presente em seu Discurso do<br \/>\nm\u00e9todo (1637).<br \/>\n16 Ci\u00eancia que estuda o desenvolvimento de<br \/>\ndeterminada l\u00edngua, assim como seus principais<br \/>\nregistros hist\u00f3ricos e transforma\u00e7\u00f5es no decorrer<br \/>\ndo tempo.A preocupa\u00e7\u00e3o com o documento da<br \/>\nl\u00edngua \u00e9 fundadora da filologia.<br \/>\n17 Fil\u00f3logo alem\u00e3o (1823-1900). Considerado um dos<br \/>\nfundadores das Ci\u00eancias da Religi\u00e3o. Pesquisou<br \/>\nas religi\u00f5es orientais e a mitologia europ\u00e9ia. Ver:<br \/>\nFIROLAMO, Giovanni &amp; PRANDI, Carlo. As<br \/>\nci\u00eancias das religi\u00f5es. S\u00e3o Paulo, Paulus, 1999.<br \/>\n18 \u201cContudo, essas coisas de fato se tornaram<br \/>\nentrela\u00e7adas \u2014 ou talvez elas tenham sido<br \/>\nseparadas h\u00e1 muito tempo e tenham desde ent\u00e3o<br \/>\ntateado vagarosamente, atrav\u00e9s de um labirinto<br \/>\nde erro, de confus\u00e3o, de volta \u00e0 re-fus\u00e3o. Mesmo<br \/>\nas est\u00f3rias de fadas como um todo t\u00eam tr\u00eas faces:<br \/>\na m\u00edstica voltada para o sobrenatural; a m\u00e1gica<br \/>\nvoltada para a natureza; e o espelho de esc\u00e1rnio e<br \/>\npena voltado para o ser humano. A face essencial<br \/>\nde Fe\u00e9ria \u00e9 a do meio, a m\u00e1gica. Mas o grau em<br \/>\nque as outras aparecem (se aparecem) \u00e9 vari\u00e1vel,<br \/>\ne pode ser decidido pelo contador de est\u00f3rias<br \/>\nindividual\u201d (Lopes, 2006, p. 73).<br \/>\n19 Essa vis\u00e3o de re-encantamento pode ser uma<br \/>\nresposta a um te\u00f3rico alem\u00e3o de uma gera\u00e7\u00e3o<br \/>\nanterior a Tolkien, Max Weber (1864-1920), que<br \/>\naponta como uma caracter\u00edstica da Modernidade<br \/>\num desencantamento do mundo, entendido como<br \/>\na sa\u00edda do pensamento idealista religioso das<br \/>\npr\u00e1ticas cotidianas. Ver: FIROLAMO, Giovanni<br \/>\n&amp; PRANDI, Carlo. As ci\u00eancias das religi\u00f5es. S\u00e3o<br \/>\nPaulo, Paulus, 1999.<br \/>\n20 Na tradi\u00e7\u00e3o cat\u00f3lica, afirma-se Deus como criador<br \/>\ndo mundo e toda realidade em que vivemos como<br \/>\nobra sua. Tolkien, por diversas vezes, defendeu a<br \/>\nreligi\u00e3o e a Igreja Cat\u00f3lica. Nas escrituras b\u00edblicas,<br \/>\nnarrativa da cria\u00e7\u00e3o, tanto na tradi\u00e7\u00e3o judaica, no<br \/>\nAntigo Testamento, como centro em Deus criador,<br \/>\ncomo nos evangelhos, o Novo Testamento, vendo<br \/>\nDeus como Pai, tal qual na ora\u00e7\u00e3o do pai-nosso.<br \/>\n21 \u201cMentiras n\u00e3o comp\u00f5em o peito humano,\/que<br \/>\ndo \u00fanico S\u00e1bio tira o seu plano\/e o recorda. Inda<br \/>\nque alienado,\/algo que n\u00e3o se perdeu nem foi<br \/>\nmudado.\/Desgra\u00e7ado est\u00e1, mas n\u00e3o destronado,\/<br \/>\ntrapos da nobreza em que foi trajado,\/dom\u00ednio do<br \/>\nmundo por cria\u00e7\u00e3o:\/o deus Artefato n\u00e3o \u00e9 o seu<br \/>\nquinh\u00e3o,\/homem, subcriador, luz refratada\/em<br \/>\nquem a cor branca \u00e9 despeda\u00e7ada\/para muitos<br \/>\ntons, e recombinada,\/forma viva mente a mente<br \/>\nCiberteologia &#8211; Revista de Teologia &amp; Cultura &#8211; Ano II, n. 14 22<br \/>\npassada.\/Se todas as cavas do mundo enchemos\/<br \/>\ncom elfos e duendes, se fizemos\/deuses com casas<br \/>\nde treva e de luz,\/se plantamos drag\u00f5es, a n\u00f3s<br \/>\nconduz\/um direito. E n\u00e3o foi revogado.\/Criamos<br \/>\ntal como fomos criados\u201d (Lopes, 2006, p. 156).<br \/>\n22 \u201cN\u00e3o \u00e9 dif\u00edcil imaginar a excita\u00e7\u00e3o e a alegria peculiar<br \/>\nque algu\u00e9m sentiria se alguma est\u00f3ria de fadas<br \/>\nespecialmente bela se mostrasse \u2018primariamente\u2019<br \/>\nverdadeira, sua narrativa ser hist\u00f3ria, sem, por<br \/>\nmeio disso, necessariamente perder a signific\u00e2ncia<br \/>\naleg\u00f3rica ou m\u00edtica que possu\u00edra. Isso n\u00e3o \u00e9<br \/>\ndif\u00edcil, porque n\u00e3o se exige que se tente conceber<br \/>\nqualquer coisa de uma qualidade desconhecida.<br \/>\nA alegria teria exatamente a mesma qualidade, se<br \/>\nn\u00e3o o mesmo grau, que a alegria \u00e0 qual a \u2018virada\u2019<br \/>\nnuma est\u00f3ria de fadas d\u00e1: tal alegria tem o pr\u00f3prio<br \/>\nsabor da verdade prim\u00e1ria (de outra forma o seu<br \/>\nnome n\u00e3o seria alegria.). Ela olha adiante (ou atr\u00e1s:<br \/>\na dire\u00e7\u00e3o a esse respeito \u00e9 desimportante) para a<br \/>\nGrande Eucat\u00e1strofe. A alegria crist\u00e3, a Gl\u00f2ria, \u00e9 do<br \/>\nmesmo tipo; mas \u00e9 preeminente (infinitamente, se<br \/>\nnossa capacidade n\u00e3o fosse finita) elevada e alegre.<br \/>\nPorque essa est\u00f3ria \u00e9 suprema, e \u00e9 verdadeira. A<br \/>\narte foi verifeita. Deus \u00e9 o Senhor, de anjos, de<br \/>\nseres humanos \u2014 e de elfos. Lenda e hist\u00f3ria se<br \/>\nencontraram e fundiram\u201d (Lopes, 2006, p. 137).<br \/>\n23 Aurelius Agostinus (354-430 d.C.) \u00e9 considerado<br \/>\num dos pilares da filosofia crist\u00e3. Professor de<br \/>\nret\u00f3rica, fil\u00f3sofo, sacerdote, fundador de mosteiros<br \/>\ne enfim bispo de Hipona, na \u00c1frica romana, sua<br \/>\nvasta obra foi lida e suas id\u00e9ias foram a base de<br \/>\ntoda cristandade medieval.<br \/>\n24 Livro extenso e cheio de refer\u00eancias ao mundo<br \/>\nantigo, tanto romano como hebraico, A cidade de<br \/>\nDeus (413-426) foi escrito como fundamento da<br \/>\npercep\u00e7\u00e3o crist\u00e3 da hist\u00f3ria, das institui\u00e7\u00f5es e do<br \/>\npoder. Ap\u00f3s a destrui\u00e7\u00e3o de Roma em 410, e ap\u00f3s<br \/>\no embate pelagiano sobre o livre-arb\u00edtrio e a gra\u00e7a,<br \/>\nAgostinho se dedica a descrever como Deus age<br \/>\nentre os seres humanos e na hist\u00f3ria do mundo,<br \/>\nconduzindo a humanidade em dire\u00e7\u00e3o \u00e0 salva\u00e7\u00e3o<br \/>\ne de acordo com os planos divinos.<br \/>\n25 Uma das maiores pol\u00eamicas do pensamento<br \/>\nagostiniano \u00e9 a revis\u00e3o que o autor realiza de<br \/>\nsuas primeiras obras. Sobre a quest\u00e3o do querer,<br \/>\npoder e fazer, no livro a Gra\u00e7a e liberdade (427),<br \/>\nap\u00f3s a condena\u00e7\u00e3o das doutrinas pelagianas,<br \/>\nAgostinho se prop\u00f5e a elucidar as rela\u00e7\u00f5es entre<br \/>\ngra\u00e7a, que \u00e9 concess\u00e3o gratuita de Deus, algo fora<br \/>\nda capacidade humana, e liberdade, como atributo<br \/>\nque caracteriza a vontade humana. Afirmando<br \/>\nque tanto uma como a outra s\u00e3o necess\u00e1rias na<br \/>\ndin\u00e2mica da salva\u00e7\u00e3o, Agostinho afirma que ao ser<br \/>\nhumano \u00e9 necess\u00e1rio querer a gra\u00e7a e para isso \u00e9<br \/>\nnecess\u00e1rio a liberdade, por\u00e9m n\u00e3o cabe a ela poder<br \/>\ne fazer, que \u00e9 concess\u00e3o da gra\u00e7a.<br \/>\n26 Livro escrito em forma de di\u00e1logo. Agostinho<br \/>\ntra\u00e7a os primeiros fundamentos de sua filosofia,<br \/>\nque busca compreender como \u00e9 poss\u00edvel ao ser<br \/>\nhumano cometer o mal e ao mesmo tempo buscar<br \/>\no bem. A resposta se faz na an\u00e1lise das v\u00e1rias<br \/>\nop\u00e7\u00f5es do ser humano em rela\u00e7\u00e3o a Deus, e a<br \/>\nirrestrita capacidade humana de agir livremente.<br \/>\nEm O livre-arb\u00edtrio (387) muitos cr\u00edticos indicam<br \/>\na contradi\u00e7\u00e3o entre querer e poder que Agostinho<br \/>\napresenta no conjunto de sua obra.<br \/>\n27 Pinheiro (1986), em nota explicativa do texto, afirma:<br \/>\n\u201cTermo derivado do verbo latino afficere, traduz a<br \/>\npalavra affectio, e designa qualquer disposi\u00e7\u00e3o ou<br \/>\nestado ps\u00edquico, em geral de componente afetiva\u201d<br \/>\n(p. 59).<br \/>\n28 Em O livre-arb\u00edtrio, em nota explicativa, Pinheiro<br \/>\ndefine assim frui\u00e7\u00e3o: \u201cNo texto latino, encontra-se<br \/>\no verbo perfrui, que se poderia verter por gozar.<br \/>\nEvita-se esta express\u00e3o por encontrar-se bastante<br \/>\nmaterializada, e por Agostinho ter criado a c\u00e9lebre<br \/>\ndoutrina moral do uso contraposto \u00e0 frui\u00e7\u00e3o,<br \/>\nreservando para esta a suprema alegria da posse<br \/>\nde Deus. Em conex\u00e3o com essa doutrina, difruir<br \/>\nexprime o ato de alegria espiritual\u201d (p. 60).<br \/>\n29 \u201cO mito tem outras formas do que a (agora<br \/>\ndesacreditada) alegoria m\u00edtica da natureza: o sol,<br \/>\nas esta\u00e7\u00f5es, o mar e essas coisas&#8230; O significado<br \/>\nde um mito n\u00e3o \u00e9 facilmente posto no papel pela<br \/>\nracionalidade anal\u00edtica. Este \u00e9 melhor quando \u00e9<br \/>\napresentado por um poeta que sente ao inv\u00e9s de<br \/>\nexplicitar o que o tema ostenta; que o apresenta<br \/>\nencarnado no mundo da hist\u00f3ria e da geografia,<br \/>\ncomo nosso poeta tem feito. Seu defensor est\u00e1 em<br \/>\ndesvantagem: a n\u00e3o ser que ele seja cuidadoso e fale<br \/>\nem par\u00e1bolas, ele vai matar o que est\u00e1 estudando<br \/>\natrav\u00e9s da alegoria, e, mais ainda, provavelmente<br \/>\nisso n\u00e3o vai funcionar. Pois o mito est\u00e1 vivo como<br \/>\num um todo e em todas as suas partes, e morre<br \/>\nantes que possa ser dissecado\u201d (tradu\u00e7\u00e3o minha).<br \/>\n30 Na discuss\u00e3o do s\u00edmbolo, \u00e9 a representa\u00e7\u00e3o que<br \/>\nune uma figura conhecida e represent\u00e1vel ao<br \/>\nmist\u00e9rio n\u00e3o-represent\u00e1vel. O drag\u00e3o pode ser<br \/>\ndescrito, mas o que de fato ele significa n\u00e3o. Eis<br \/>\na fundamental diferen\u00e7a entre uma alegoria, que<br \/>\npodemos explicar o que representa, e o s\u00edmbolo,<br \/>\nque mant\u00e9m uma parte no \u00e2mbito do mist\u00e9rio. Ver:<br \/>\nCROATTO, Severino. As linguagens da experi\u00eancia<br \/>\nreligiosa. S\u00e3o Paulo, Paulinas, 2001.<br \/>\n31 Midgard era o reino do meio, como a mitologia<br \/>\nescandinava chamava a Terra em que moramos. A<br \/>\nCiberteologia &#8211; Revista de Teologia &amp; Cultura &#8211; Ano II, n. 14 23<br \/>\nserpente \u00e9 morta por Thor, o deus do trov\u00e3o e da<br \/>\nguerra, que anda nove passos e morre por causa<br \/>\ndo veneno. A rela\u00e7\u00e3o entre este trecho do mito e<br \/>\na morte de Beowulf \u00e9 not\u00f3ria. Thor \u00e9 considerado<br \/>\no deus mais poderosos depois de Odin, o pai dos<br \/>\ndeuses. Ver: BULFINCH, Thomas. O livro de ouro<br \/>\nda mitologia. A Idade da F\u00e1bula. Rio de Janeiro,<br \/>\nEdiouro, 1999.<br \/>\n32 O s\u00edmbolo de doa\u00e7\u00e3o de an\u00e9is est\u00e1 ligado \u00e0<br \/>\ncapacidade do rei de estabelecer alian\u00e7as e<br \/>\ncompromissos, assim como sua generosidade.<br \/>\nVer: GALV\u00c3O, Ary Gonzales. Beowulf. S\u00e3o Paulo,<br \/>\nHucitec, 1992.<br \/>\n33 \u201cBeowulf \u00e9 considerado, naturalmente, um documento<br \/>\nhist\u00f3rico de primeira ordem para o estudo do modo e do<br \/>\npensamento do per\u00edodo e talvez demasiado pouco usado<br \/>\npara a finalidade por eminentes historiadores. Mas \u00e9 o modo<br \/>\ndo autor, o molde essencial de sua apreens\u00e3o imaginativa<br \/>\ndo mundo, que \u00e9 meu interesse, n\u00e3o hist\u00f3ria por sua pr\u00f3pria<br \/>\ncausa. Eu estou interessado nesta \u00e9poca da fus\u00e3o somente<br \/>\nenquanto pode ajudar-nos a compreender o poema. E no<br \/>\npoema eu penso que n\u00f3s podemos observar n\u00e3o a confus\u00e3o,<br \/>\num cora\u00e7\u00e3o dividido ou neg\u00f3cios atrapalhados, mas uma<br \/>\nfus\u00e3o que tenha ocorrido em um ponto certo no contato<br \/>\nentre velho e novo, um produto do pensamento e a emo\u00e7\u00e3o<br \/>\nprofunda. Um dos elementos mais potentes nessa fus\u00e3o \u00e9<br \/>\na coragem nortista: a teoria da coragem, que \u00e9 a grande<br \/>\ncontribui\u00e7\u00e3o da inicial literatura nortista\u201d (tradu\u00e7\u00e3o minha).<br \/>\n34 A preocupa\u00e7\u00e3o de Tolkien de entender como<br \/>\nos evangelhos podem ser acreditados, mesmo<br \/>\ntrazendo coisas imposs\u00edveis, como os milagres, \u00e9<br \/>\namplamente debatida em suas cartas. A passagem<br \/>\ndo Evangelho de uma est\u00f3ria de fadas, ou seja:<br \/>\nde mundo secund\u00e1rio a um mundo prim\u00e1rio, a<br \/>\nconsci\u00eancia, ou f\u00e9, de que tais coisas realmente<br \/>\naconteceram, era o grande fasc\u00ednio de Tolkien. Ver:<br \/>\nCARPENTER, Humpfrey (Org.). As cartas de J. R. R.<br \/>\nTolkien. Curitiba, Arte e Letra, 2006.<br \/>\n35 Poeta romano (70 a.C. a 19 a.C.), principal poeta<br \/>\n\u00e9pico em l\u00edngua latina. Considerado o poeta que<br \/>\ninspirou os ideais imperiais em Roma.<br \/>\n36 Poeta grego do s\u00e9culo VIII a.C., considerado<br \/>\nfundador da poesia \u00e9pica grega, cujas obras<br \/>\nfundamentais s\u00e3o Odiss\u00e9ia e Il\u00edada, que descrevem<br \/>\na guerra de Tr\u00f3ia e o retorno de Ulisses a \u00cdtaca.<br \/>\n37 \u201cEm Beowulf n\u00f3s temos, ent\u00e3o, um poema hist\u00f3rico<br \/>\nsobre o passado pag\u00e3o, ou uma tentativa que \u2014 a<br \/>\nfidelidade hist\u00f3rica literal fundada na pesquisa<br \/>\nmoderna, naturalmente, n\u00e3o tentou. \u00c9 um poema<br \/>\npor um homem instru\u00eddo escrevendo sobre tempos<br \/>\nantigos, que ao olhar para tr\u00e1s no hero\u00edsmo e no<br \/>\npesar sente neles algo permanente e algo simb\u00f3lico.<br \/>\nAssim, longe de ser um confuso semipag\u00e3o<br \/>\n\u2014 historicamente improv\u00e1vel para um homem<br \/>\ndesse tipo no per\u00edodo \u2014 trouxe, provavelmente,<br \/>\nprimeiramente, a sua tarefa um conhecimento<br \/>\nda poesia crist\u00e3, especialmente aquele da escola<br \/>\nde Caedmon, e especialmente o G\u00eanesis&#8230; Em<br \/>\nsegundo lugar, para sua tarefa o poeta trouxe um<br \/>\nconhecimento consider\u00e1vel em narrativas e em<br \/>\ntradi\u00e7\u00f5es nativas&#8230;\u201d (tradu\u00e7\u00e3o minha).<br \/>\n38 \u201c\u00c9 justamente porque os principais advers\u00e1rios em<br \/>\nBeowulf s\u00e3o inumanos que a est\u00f3ria \u00e9 mais larga e<br \/>\nmais significativa que esse imagin\u00e1rio poema sobre<br \/>\na queda de um grande rei. Isso vislumbra o cosmo<br \/>\ne se move com o pensamento de todos os seres<br \/>\nhumanos preocupados com o destino humano e<br \/>\nseus esfor\u00e7os\u201d (tradu\u00e7\u00e3o minha).<\/div>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Este artigo trata dos conceitos liter\u00e1rios de J. R. R. Tolkien de est\u00f3rias de fadas, fantasia,<br \/>\nsubcria\u00e7\u00e3o e eucat\u00e1strofe. Atrav\u00e9s do poema Mythopoieia (1930), do ensaio Beowulf: The<br \/>\nMonsters and the Critics (1936) e do ensaio On Fairy-Stories (1939) podemos tecer uma teoria<br \/>\nliter\u00e1ria que entende sua fi nalidade como uma express\u00e3o religiosa, buscando similitudes com<br \/>\no pensamento de santo Agostinho, especifi camente nas quatro virtudes cardeais, expressas nos<br \/>\nlivros A cidade de Deus (426) e O livre-arb\u00edtrio (388), assim como a gloria das na\u00e7\u00f5es pag\u00e3s e<br \/>\na presen\u00e7a de virtudes que justifi cassem elementos da verdade em povo pag\u00e3os. Assim como<br \/>\nantigas virtudes romanas poderiam ser exemplos para os crist\u00e3os, tamb\u00e9m nos mitos escandinavos,<br \/>\ncomo Beowulf, poderiam ser encontradas virtudes pertinentes \u00e0 revela\u00e7\u00e3o crist\u00e3. Por fi m,<br \/>\ntamb\u00e9m as est\u00f3rias de fadas, subcriadas, podem e devem ecoar elementos do Evangelho crist\u00e3o.<br \/>\nPalavras-chave: Literatura, cristianismo, virtudes.<\/p>\n","protected":false},"author":46,"featured_media":0,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"ngg_post_thumbnail":0,"footnotes":""},"categories":[29095],"tags":[29123,29130,5411,29242,5701,29373],"class_list":["post-479","post","type-post","status-publish","format-standard","hentry","category-j-r-r-tolkien-artigos","tag-be","tag-borges","tag-cristianismo","tag-j-r-r-tolkien","tag-literatura","tag-vritudes"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/ultimato.com.br\/sites\/cslewis\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/479","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/ultimato.com.br\/sites\/cslewis\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/ultimato.com.br\/sites\/cslewis\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/ultimato.com.br\/sites\/cslewis\/wp-json\/wp\/v2\/users\/46"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/ultimato.com.br\/sites\/cslewis\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=479"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/ultimato.com.br\/sites\/cslewis\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/479\/revisions"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/ultimato.com.br\/sites\/cslewis\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=479"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/ultimato.com.br\/sites\/cslewis\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=479"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/ultimato.com.br\/sites\/cslewis\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=479"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}