{"id":433,"date":"2011-02-16T19:45:50","date_gmt":"2011-02-16T19:45:50","guid":{"rendered":"http:\/\/www.cslewis.com.br\/?p=433"},"modified":"2011-02-16T19:45:50","modified_gmt":"2011-02-16T19:45:50","slug":"os-postes-telegraficos","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/ultimato.com.br\/sites\/cslewis\/2011\/02\/16\/os-postes-telegraficos\/","title":{"rendered":"Os postes telegr\u00e1ficos"},"content":{"rendered":"<p style=\"text-align: right\">por G.K. Chesterton<\/p>\n<p style=\"text-align: right\">(trad. Gabriele Greggersen)<\/p>\n<p style=\"text-align: right\">\n<p>Certo dia, um amigo e eu est\u00e1vamos passeando numa daquelas florestas t\u00edpicas de toda a Europa ocidental, que podem tornar-se t\u00e3o trai\u00e7oeiras, quanto um verdadeiro deserto, de t\u00e3o uniforme que \u00e9 a paisagem, a ponto de qualquer um ser capaz de perder-se nelas. Fortes, altos e todos iguais, l\u00e1 estavam os troncos de madeira dos pinheiros, rodeando-nos de todos os lados, apontando-nos as suas afiadas agulhas, numa silenciosa insurrei\u00e7\u00e3o. Sempre que falamos em \u201cbiodiversidade\u201d, estamos nos referindo, sem d\u00favida, a uma verdade, no entanto, penso que muitas vezes a natureza manifesta a sua diversidade precisamente na sua mesmice. Pode-se observar uma cad\u00eancia extremamente diversificada nesta unidade; \u00e9 como se o mundo todo decidisse seguir o mesmo itiner\u00e1rio, sempre de novo, at\u00e9 que este preciso itiner\u00e1rio comece a nos parecer at\u00e9 estranho.<\/p>\n<p>Voc\u00ea j\u00e1 experimentou ficar repetindo umas trinta vezes uma mesma palavra t\u00e3o comum quanto &#8220;cachorro\u201d, por exemplo? Na trig\u00e9sima vez a palavra j\u00e1 se ter\u00e1 transformado em &#8220;vira-lata&#8221; ou &#8220;pulguento&#8221;. A simples repeti\u00e7\u00e3o certamente n\u00e3o tornar\u00e1 o cachorro mais simp\u00e1tico, antes, bem pelo contr\u00e1rio, ele se tornar\u00e1 bem mais selvagem. No final o c\u00e3ozinho acaba virando algo t\u00e3o obscuro e tenebroso quanto um Godzila ou alguma serpente marinha. \u00c9 poss\u00edvel que seja esta precisamente a raz\u00e3o de ser de tantas repeti\u00e7\u00f5es na natureza; que este seja precisamente o motivo que justifica a exist\u00eancia de tantas milh\u00f5es de folhas e pedras bem parecidas nesse mundo. Quem sabe elas n\u00e3o sejam t\u00e3o repetitivas, precisamente, para se evitar que sejam consideradas triviais. Talvez elas se repitam s\u00f3 na esperan\u00e7a de que possam, no final, tornar-se cada vez menos triviais. \u00c9 prov\u00e1vel que nenhum ser humano ficasse surpreso com o primeiro gato que visse pela frente, mas certamente ele daria um pulo de surpresa ao por os olhos no septuag\u00e9simo nono. \u00c0s vezes \u00e9 preciso que ele tenha que passar diante de milhares de pinheiros, at\u00e9 se deparar enfim com <strong>o<\/strong> pinheiro, aquele que reconhe\u00e7a como sendo pinheiro de verdade. Em todos os casos, h\u00e1 algo de excitante ou \u00fanico, e eu diria at\u00e9 mesmo de premente e radical nas eternas ladainhas da floresta; algo que nos remete \u00e0 loucura, nessa harmonia t\u00e3o mon\u00f3tona dos pinheiros.<\/p>\n<p>Quando fiz um coment\u00e1rio deste tipo com o meu amigo, ele respondeu em tom sarc\u00e1stico, &#8220;Caro amigo, espere s\u00f3 at\u00e9 dar de frente com um daqueles postes telegr\u00e1ficos&#8230;\u201d E, n\u00e3o \u00e9 que o meu amigo estava certo? Coisa que ocorre rar\u00edssimas vezes nas nossas conversas, principalmente quando estamos tratando de fatos.<\/p>\n<p>T\u00ednhamos acabado de atravessar a floresta, por uma de suas principais trilhas, que, por acaso, seguia a linha telegr\u00e1fica daquela cidadezinha. E, ainda que os postes s\u00f3 surgissem uma vez ou outra, eles faziam uma imensa diferen\u00e7a. Toda vez que ating\u00edamos uma daquelas clareiras, onde havia um poste, n\u00f3s nos d\u00e1vamos conta n\u00edtida de que, afinal, os pinheiros n\u00e3o estavam t\u00e3o retos assim. Era como se algum dia vislumbr\u00e1ssemos entre um monte de riscos rabiscados por colegiais, uma linha tra\u00e7ada com uma r\u00e9gua.<\/p>\n<p>Aquelas linhas todas de marinheiro de primeira viagem nos pareceriam uma tortura, que pendiam ora para a esquerda, ora para a direita. Poucos instantes antes poder\u00edamos jurar que elas estavam retas, e agora nos damos conta de que elas estavam tortas, balan\u00e7ando de l\u00e1 para c\u00e1, feito gangorras. Comparados aos postes telegr\u00e1ficos, os pinheiros passavam a nos parecer tortos, ao mesmo tempo em que tamb\u00e9m pareciam mais vivos. Uma \u00fanica linha vertical basta para imediatamente deformar tudo, deformar e libertar. Embora tudo parecia estar saindo fora do prumo, isso era libertador, como quando, no meio da floresta, avistamos um burlesco carvalho ou um pequeno resto de mata virgem.<\/p>\n<p>T\u00ednhamos j\u00e1 caminhado muito mais longe do que pretend\u00edamos, guiados pela nossa linha imagin\u00e1ria; quando vimos anunciar-se o cair do dia, que ia se transformando em um belo crep\u00fasculo. At\u00e9 que nos demos conta de ter deixado a floresta para tr\u00e1s, e j\u00e1 nos encontr\u00e1vamos no alto das montanhas que se elevavam em torno da cidadezinha ou vilarejo desconhecido, cujas luzes j\u00e1 come\u00e7avam a piscar na crescente penumbra do vale.<\/p>\n<p>Aquela peculiar transforma\u00e7\u00e3o, que era t\u00edpica do anoitecer, j\u00e1 estava se processando. Enquanto o sol persistia brilhando, o mundo todo ia escurecendo, dando seu adeus, a come\u00e7ar dos seus pontos mais extremos, as montanhas e a copa dos pinheiros. Com isto era nos revelado o mist\u00e9rio secreto dos pinheiros; e, lan\u00e7ando um fugaz e triste olhar sobre eles, meu amigo deu as costas para a floresta, colocando-se sob o imenso c\u00e9u estrelado. E ent\u00e3o olhou para os postes telegr\u00e1ficos diante dele, debaixo do \u00faltimo raio de luz do sol. Agora eles j\u00e1 n\u00e3o tinham mais aquele aspecto ereto, alongado e amenizado pelos tra\u00e7os delicados da madeira do pinheiro; eles se erguiam diante dele com toda a sua trivialidade, arbitrariedade r\u00fastica, t\u00edpica de toda figura geom\u00e9trica natural. O meu amigo ficou ali parado e, apontando para o poste, deu vaz\u00e3o a toda a sua filosofia an\u00e1rquica: &#8220;Voc\u00ea \u00e9 o diabo&#8221; disse ele com toda simplicidade, &#8220;mas v\u00e1 em frente. O espa\u00e7o das majestosas \u00e1rvores, que para tr\u00e1s ficou \u00e9 o mundo como era antes de voc\u00eas, seres humanos civilizados, crist\u00e3os, democratas ou quaisquer outros terem chegado e o feito ficar t\u00e3o ma\u00e7ante, com suas sombrias r\u00e9guas de moral e da igualdade. Nesta luta silenciosa, cada uma dessas \u00e1rvores mudas encara outra \u00e1rvore, cada folha, outra folha.. E toda essa silenciosa batalha acaba nesta bel\u00edssima desigualdade. Levante os seus olhos e olhe agora para toda essa med\u00edocre homogeneidade. Observe bem, com que regularidade precisa foram dispostos os n\u00f3dulos brancos nessa madeira e ouse continuar sustentando esta sua ideologia dogm\u00e1tica.&#8221;<\/p>\n<p>&#8220;Ser\u00e1 este poste telegr\u00e1fico s\u00edmbolo assim t\u00e3o fiel e contundente da democracia?&#8221; \u2013perguntei-lhe.<\/p>\n<p>&#8220;Vamos supor que, para construir esta rede de tel\u00e9grafos, geradores de dividendos tivessem sido necess\u00e1rios aproximadamente tr\u00eas mil homens, e talvez outros tantos mil tivessem sido necess\u00e1rios para preservar a floresta, que fornece a madeira. Mas, se este poste telegr\u00e1fico \u00e9 r\u00fastico (e admito que \u00e9), isso n\u00e3o se deve a uma ideologia qualquer, mas antes \u00e0 anarquia reinante no mercado. Se algu\u00e9m estivesse defendendo alguma ideologia acerca de postes telegr\u00e1ficos, porque n\u00e3o os confeccionou logo em marfim, recobrindo-os de ouro? Os produtos da modernidade s\u00e3o considerados de mau gosto, n\u00e3o devido ao excesso de \u2018dedos\u201d dos homens modernos, mas precisamente devido \u00e0 falta deles.<\/p>\n<p>&#8220;N\u00e3o vem, n\u00e3o, &#8220;respondeu o meu amigo com os olhos fixos no limiar de um p\u00f4r do sol magn\u00edfico e verdadeiramente exuberante, &#8220;h\u00e1 algo de m\u00f3rbido na pr\u00f3pria no\u00e7\u00e3o de ideologia. Uma linha reta jamais ser\u00e1 bela. A pr\u00f3pria beleza ser\u00e1 sempre um tanto torta. Estes postes r\u00edgidos, dispostos em intervalos assim t\u00e3o regulares, s\u00e3o feios porque est\u00e3o transmitindo uma mensagem verdadeiramente democr\u00e1tica ao mundo.&#8221;<\/p>\n<p>\u201cQue neste exato momento,&#8221; retruquei, &#8221; deve estar clamando &#8216;comprem postes b\u00falgaros&#8217; por todos os lados. E provavelmente este ser\u00e1 o meio de comunica\u00e7\u00e3o mais usado por dois dos mais ricos e fracos dos seus filhos, com quem Deus sempre teve que ter tanta paci\u00eancia. Estes postes telegr\u00e1ficos n\u00e3o s\u00e3o nada belos, de fato, na verdade eles s\u00e3o detest\u00e1veis, desumanos e indecentes. Acontece que o seu maior defeito de funda\u00e7\u00e3o encontra-se na sua particularidade e n\u00e3o, na sua universalidade. O fato \u00e9 que este poste preto com n\u00f3dulos brancos n\u00e3o \u00e9 produto da cria\u00e7\u00e3o de uma alma universal. Trata-se de uma inven\u00e7\u00e3o que adveio da alma de dois milion\u00e1rios malucos.&#8221;<\/p>\n<p>&#8220;Mas se \u00e9 assim, quero que voc\u00ea me fa\u00e7a o favor de explicar ao menos uma coisa &#8220;, replicou o meu amigo em tom grave, &#8220;diga-me como \u00e9 que esta ideologia democr\u00e1tica t\u00e3o r\u00edgida pode ter sido transmitida por estes postes telegr\u00e1ficos de formas t\u00e3o grotescas? Ora, mas Santo Deus, j\u00e1 est\u00e1 na hora de ir para casa. Eu n\u00e3o fazia id\u00e9ia de que j\u00e1 est\u00e1 assim t\u00e3o tarde. Deixe-me ver, acho que acabamos saindo fora da floresta. Venha, sigamos a linha dos postes telegr\u00e1ficos, e isso, por um motivo bem mais razo\u00e1vel: chegar em casa, antes que fique escuro.&#8221;<\/p>\n<p>N\u00e3o tinha como chegarmos em casa, antes de escurecer. Por alguma raz\u00e3o n\u00f3s hav\u00edamos subestimado a rapidez do cair da tarde e a s\u00fabita invas\u00e3o da escurid\u00e3o da noite, supondo que nos encontr\u00e1vamos \u00e0s margens da densa floresta. Foi s\u00f3 depois que o meu amigo, trope\u00e7ou em um dos fios logo nos primeiros cinco minutos de caminhada, e o mesmo me aconteceu dez minutos depois, sendo que eu j\u00e1 tinha arranhando os meus tornozelos no atoleiro, \u00e9 que come\u00e7amos a ter uma vaga no\u00e7\u00e3o do nosso rumo. Finalmente, o meu amigo disse em voz baixa e rouca: &#8220;receio que n\u00f3s tenhamos entrado na trilha errada. Est\u00e1 escuro feito breu aqui.&#8221;<\/p>\n<p>&#8220;Acho que n\u00e3o, algo me diz que ainda estamos no caminho certo,&#8221; arrisquei.<\/p>\n<p>&#8220;Bem, &#8221; disse ele, e depois de uma longa pausa, continuou&#8221; n\u00e3o consigo enxergar nem os postes telegr\u00e1fico. E olha que fiquei todo o tempo de olhos bem abertos.&#8221;<\/p>\n<p>&#8220;O mesmo digo eu,&#8221; disse. &#8220;eles est\u00e3o alinhados demais.&#8221;<\/p>\n<p>Ficamos por aproximadamente duas horas andando em c\u00edrculos, procurando o caminho certo ao longo das margens escuras da densa floresta, cujas \u00e1rvores pareciam dan\u00e7ar de forma debochada ao nosso redor. Todavia j\u00e1 era poss\u00edvel vislumbrar no horizonte ao longe os contornos de algo bastante reto e r\u00edgido demais para ser um pinheiro. E ent\u00e3o finalmente percebemos que est\u00e1vamos chegando em casa, no frescor do verde crep\u00fasculo, o eterno arauto de mais um novo alvorecer.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>por G.K. Chesterton (trad. Gabriele Greggersen) Certo dia, um amigo e eu est\u00e1vamos passeando numa daquelas florestas t\u00edpicas de toda a Europa ocidental, que podem tornar-se t\u00e3o trai\u00e7oeiras, quanto um verdadeiro deserto, de t\u00e3o uniforme que \u00e9 a paisagem, a ponto de qualquer um ser capaz de perder-se nelas. 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