{"id":428,"date":"2011-02-16T19:41:28","date_gmt":"2011-02-16T19:41:28","guid":{"rendered":"http:\/\/www.cslewis.com.br\/?p=428"},"modified":"2011-02-16T19:41:28","modified_gmt":"2011-02-16T19:41:28","slug":"orto-o-que","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/ultimato.com.br\/sites\/cslewis\/2011\/02\/16\/orto-o-que\/","title":{"rendered":"Orto\u2026 o qu\u00ea?"},"content":{"rendered":"<blockquote>\n<p style=\"text-align: right\">Artigo de 15 de mar\u00e7o de 2008 publ. no Di\u00e1rio Catarinen<\/p>\n<p style=\"text-align: right\">por Gabriele Greggersen<\/p>\n<\/blockquote>\n<h2>Obra centen\u00e1ria de G.K. Chesterton \u00e9 traduzida e publicada no Brasil<\/h2>\n<p>O t\u00edtulo n\u00e3o parece nada atraente, mas a obra tem dado o que falar. A grande m\u00eddia brasileira recebe com louvor a not\u00edcia do lan\u00e7amento da edi\u00e7\u00e3o centen\u00e1ria do cl\u00e1ssico Ortodoxia, do jornalista, escritor, palestrante e educador brit\u00e2nico G.K. Chesterton (1874-1936). Ele se tornou popular pelas aventuras do memor\u00e1vel Padre Brown, obras que beiram o fant\u00e1stico, como O Homem que era Quinta Feira, entre outros trabalhos mais investigativos, como S\u00e3o Francisco de Assis (que lhe rendeu um pr\u00eamio no col\u00e9gio) e Tom\u00e1s de Aquino. O especialista em hist\u00f3ria e filosofia medieval Eti\u00e8nne Gilson considerou esta a melhor obra j\u00e1 escrita sobre Tom\u00e1s. Como jornalista, contribuiu para importantes jornais de Londres. Seu estilo comunicativo bem-humorado e sua arte argumentativa mereceram aprecia\u00e7\u00e3o do p\u00fablico seleto de Jorge Luis Borges, Ernest Hemingway, Gabriel Garc\u00eda M\u00e1rquez, e T. S. Eliot. Ele soube dialogar simultaneamente com liberais e conservadores, agn\u00f3sticos e religiosos, famosos ou n\u00e3o, sem perder o respeito e a compostura.<\/p>\n<p>Ortodoxia \u00e9 o relato da peregrina\u00e7\u00e3o espiritual de um jovem de 34 anos, ex-ateu, ex-socialista, profundamente inserido nas quest\u00f5es do seu tempo, \u00e0 procura de respostas sinceras para perguntas honestas. Como se deu esta surpreendente e feliz empreitada? &#8220;&#8230;tentei colocar-me \u00e0 frente de meu tempo, e descobri que estava 1800 anos atr\u00e1s&#8221;&#8230; O navegador achou que havia &#8220;descoberto a Am\u00e9rica&#8221;, quando, na realidade, havia reencontrado a boa e velha Inglaterra. Mal imaginava ele que, cem anos depois, o livro se mostraria ainda t\u00e3o atual e incisivo quanto as frases que o tornaram c\u00e9lebre.<\/p>\n<p>A obra foi escrita em resposta aos leitores, que o desafiavam a superar o n\u00edvel denunciat\u00f3rio da obra anterior, Hereges, em que criticava o ceticismo materialista, racismo antropoc\u00eantrico, perda dos valores familiares e educacionais e os totalitarismos da \u00e9poca que redundariam nas duas grandes guerras. Quem sabe, uma das frases mais c\u00e9lebres de Ortodoxia, nesse sentido, seja: &#8220;O louco \u00e9 um homem que perdeu tudo exceto a raz\u00e3o&#8221;. Por outro lado, ele defende o uso da raz\u00e3o, desde que dentro do que chama de &#8220;razo\u00e1vel&#8221; para uma obra em rela\u00e7\u00e3o ao seu criador, o logos ou raz\u00e3o primordial.<\/p>\n<p>Na verdade, Chesterton n\u00e3o pretende ser original. Ele fala do que h\u00e1 muito tempo j\u00e1 sabe o homem comum: Que o mal existe e deve ser combatido. Que a mis\u00e9ria \u00e9 absurda. Que a realidade tamb\u00e9m existe e \u00e9 gloriosa. Que a tirania do passado est\u00e1 sendo substitu\u00edda pela tirania do futuro. Que as principais quest\u00f5es da vida e sua moral encontram-se j\u00e1 encravadas nos mais insuspeitos contos de fada. Que a ci\u00eancia tem limites que precisam ser respeitados. Que o novo n\u00e3o necessariamente supera o antigo. Que n\u00e3o existe a neutralidade pol\u00edtica, religiosa, econ\u00f4mica. Que o antropocentrismo, os extremismos e outros &#8220;ismos&#8221; s\u00e3o absurdos. Enfim, que somente quando partimos de um ponto de refer\u00eancia absoluto e reto (orto = reto, doxa = cren\u00e7a ou gl\u00f3ria), podemos admitir o que \u00e9 relativo.<\/p>\n<p>Ao contr\u00e1rio do que dizem os fil\u00f3sofos racionalistas, a gl\u00f3ria do saber e da sabedoria n\u00e3o pertence ao homem, ela \u00e9 sobrenatural. E o mesmo vale para a raz\u00e3o, que, entendida como logos divino, procede, em \u00faltima inst\u00e2ncia de Deus e se encarna em Cristo. Ent\u00e3o, n\u00e3o existe coisa mais razo\u00e1vel e racional do que reconhecer em Deus o limite da raz\u00e3o humana. Essa paradoxal postura equilibrada entre os extremos do ceticismo racionalista e do sentimentalismo irracional \u00e9 a marca registrada de Chesterton. A ortodoxia, assim entendida, \u00e9 &#8220;o \u00fanico guardi\u00e3o l\u00f3gico da liberdade, da inova\u00e7\u00e3o e do avan\u00e7o&#8221;. Sem ela estaremos como cegos em tiroteio. Se voc\u00ea quiser conservar um poste de luz branco, explica ele, precisa passar sempre uma nova tinta nele. Inova\u00e7\u00e3o n\u00e3o significa destrui\u00e7\u00e3o; nem t\u00e3o pouco a tradi\u00e7\u00e3o, estagna\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>A ortodoxia crist\u00e3 resume-se ao Credo dos Ap\u00f3stolos, ou confiss\u00e3o comum a todos os crist\u00e3os cat\u00f3licos e protestantes e evang\u00e9licos. Longe de ser uma camisa de for\u00e7a, esses princ\u00edpios simples s\u00e3o a via de acesso a ideais humanos como a justi\u00e7a, a amizade, a liberdade, a coragem, a paz e a alegria. Esse \u00faltimo \u00e9 o maior trunfo, pois, como dizia Chesterton, o &#8220;que foi a pequena publicidade do pag\u00e3o \u00e9 o gigantesco segredo do crist\u00e3o&#8221;. Assim, Chesterton resgata o n\u00facleo da f\u00e9 crist\u00e3, capaz de dar sentido \u00e0 exist\u00eancia humana como um todo.<\/p>\n<p>Com pequenas frases not\u00f3rias, Chesterton influenciou pessoas marcantes na hist\u00f3ria como Michael Collins, Mahatma Gandhi e Martin Luther King, al\u00e9m de autores conhecidos, como J.R.R. Tolkien e C.S. Lewis.<\/p>\n<p>O cap\u00edtulo mais &#8220;perigoso&#8221; para os denunciados em Hereges \u00e9 o que fala dos contos de fada (Elfol\u00e2ndia), que \u00e9 &#8220;o pa\u00eds ensolarado do bom senso. N\u00e3o \u00e9 a terra que julga o c\u00e9u, mas o c\u00e9u que julga a terra.&#8221; Quem espera deparar-se com um livro convencional, acabar\u00e1 frustrado. Quem se aproximar dele livre de preconceitos pode n\u00e3o acabar crist\u00e3o, mas \u00e9 certo que ficar\u00e1 encantado.<\/p>\n<p>POR GABRIELE GREGGERSEN | DOUTORA EM EDUCA\u00c7\u00c3O PELA USP, TE\u00d3LOGA E PEDAGOGA<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Artigo de 15 de mar\u00e7o de 2008 publ. no Di\u00e1rio Catarinen por Gabriele Greggersen Obra centen\u00e1ria de G.K. Chesterton \u00e9 traduzida e publicada no Brasil O t\u00edtulo n\u00e3o parece nada atraente, mas a obra tem dado o que falar. 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